

              










STEPHEN KING
         
O CEMITRIO
                                                                                   
                                                                                         Traduo
                                                                 Mrio Molina
 




























NOTAS DA ORELHA DO LIVRO     

      Ser que Stephen King  capaz de assustar a si mesmo?
      Ter o autor de Carrie, O Iluminado, Cujo e Christine concebido alguma vez uma histria to horripilante que por certo tempo no se disps a terminar de escrev-la? 
Sim.
Aqui est ela.
      Ambientada numa pequena cidade do Maine, para a qual um jovem mdico de Chicago, Louis Creed, se muda com a famlia, O Cemitrio comea com uma visita a um 
"simitrio" nos bosques, onde geraes e geraes de crianas enterraram seus bichos de estimao. Mas atrs do "simitro" de bichos h outro cemitrio, uma terra 
que atrai as pessoas com promessas sedutoras... e medonhas tentaes.
       medida que a histria se desenvolve, avana tambm o pesadelo do sobrenatural, to horrvel que, em certos momentos, o leitor no vai querer continuar... 
Mas ser incapaz de parar.
  Voc faz isso porque a coisa se apodera de voc, diz o bom velho com seu segredo.
E  Inventa razes... e elas sempre parecem boas razes... Mas faz isso principalmente porque voc j esteve l em cima,  aquele  o seu lugar, voc pertence a ele 
. . Ao " Simitrio" de Bichos, e ao que jaz alm...
  O primeiro romance de Stephen King, Carrie, podia nunca ter sido publicado se sua esposa Tabitha no tivesse tirado o manuscrito da cesta de lixo.
  Hoje, porm, Stephen King  mundialmente reconhecido como "moderno mestre do horror" (New York Times) e se transformou num fenmeno editorial, um dos mais populares 
escritores de todos os tempos. Estima-se que j tenham sido impressos 40 milhes de exemplares de seus livros nos quatro cantos do mundo. Dois de seus romances, 
Carrie e O Iluminado, j foram transformados em filmes de sucesso, e 1983 viu a adaptao para o cinema de Cujo, A Zona Morta e seu mais recente livro, Christine.
    Ele tambm o autor de Sombras da Noite, publicado, assim como Chnistine, na coleo Mestres do Horror e da Fantasia, um livro de contos, Different Seasons, coletnea 
de quatro novelas que em breve tambm ser lanada nessa mesma coleo, e Dana Macabra, um ensaio sobre o campo do horror, elogiado pelo Inquirer, de Filadlfia, 
como "um dos melhores livros dos ltimos tempos sobre a cultura americana".
  Stephen King vive em Bangor, Maine, com sua esposa Tabitha (autora do bem recebido romance Small World e, em 1983, de Caretakers) e trs filhos.
     

      "O mais novo romance de King , ao mesmo tempo, um maravilhoso retrato de famlia e o Iivro mais assustador que j foi escrito... As ltimas 50 pginas so 
to horripilantes que podem tirar o flego do leitor... Espirituoso, Inteligente, observador, King nunca foi um artista to humano."

Publishers Weekly






(c) l983 by StephenKing
Publicado mediante contrato com o autor e agentes do autor, Kirby McCauley Ltd.

Ttulo original: Pet Sematary

Reviso tipogrfica: Umberto Figueiredo Pinto

Impresso no Brasil
Printed in Brazil
1984
Nota do Autor:


    Devo agradecimentos especiais a Russ Dorr e Steve Wentworth, de Brdgton, Maine. Russ forneceu informao mdica e Steve forneceu informao sobre costumes americanos 
de funeral e sepultamento, alm de esclarecer certos pontos sobre a natureza do luto.

Stephen King
Para Kirby McCauley

SUMARIO

PARTE UM
O
"SIMITRIO" DE BICHOS





PARTE DOIS
O
CEMITRIO MICMAC






PARTE TRS
OZ, O "GANDE E TEVEL"























Aqui est uma lista de algumas pessoas que escreveram livros, dizendo o que fizeram e por que fizeram essas coisas:


John Dean, Henry Kissinger, Adolph Hitler, Caryl
Chessman, Jeb Magruder, Napolecto, Talleyrand, Disraeli,
Robert Zimmerman, tambm conhecido como Bob Dylan,
Locke, Charlton Heston, Errol Flynn, Aiatol Khomeini,
Ghandhi, Charles Olson, Charles Colson, Um
Cavaleiro Vitoriano, Dr. X.


A maioria das pessoas acredita que Deus escreveu um Livro, ou Livros, dizendo o que fez e, pelo menos at certo ponto, dizendo por que fez aquelas coisas. Como a 
maior parte dessas pessoas acredita que os homens so feitos  imagem de Deus, Ele tambm pode ser encarado como uma pessoa... ou, mais adequadamente falando, uma 
Pessoa.

E aqui est uma lista de pessoas que no escreveram livros dizendo o que fizeram... e o que viram:

O homem que enterrou Hitler, o homem que fez a autpsia de John Wilkes Booth, o homem que embalsamou Elvis Presley, o homem que embalsamou (e mal segundo a maioria 
dos agentes funerrios) o Papa Joo XXIII, os papa-defuntos que limparam Jonestown (carregando sacos com cadveres, arpoando copos de papel com aqueles arpes que 
os guardas usam nos parques pblicos, enxotando as moscas), o homem que cremou William Holden, o homem que cobriu de ouro o corpo de Alexandre, o Grande,
para que ele no apodrecesse, os homens que mumificavam os fara6s.


A morte  um mistrio, o sepultamento
um segredo.









PARTE UM

"SIMITRIO" DE BICHOS
    E Jesus disse a eles: "Nosso amigo Lzaro dorme, mas vou at l, porque posso despert-lo de seu sono".

    Os discpulos se olharam e alguns sorriram, pois no tinham percebido que Jesus falara em sentido figurado:
"Senhor, se ele est dormindo, deve estar bem'


    Ento Jesus falou mais claramente: "Lzaro est morto,  isso... Mas vamos para junto dele"

- O Evangelho segundo So Joo (parfrase)

1


    Louis Creed, que perdera o pai aos trs anos e jamais tivera um av, no esperava encontrar um pai agora, quando estava chegando  meia-idade, mas foi exatamente 
isso que aconteceu... (Chamava-o, no entanto, de amigo, como deve fazer um adulto ao se deparar, relativamente tarde na vida, com o homem que poderia ter sido seu 
pai) Encontrou-o na noite em que se mudou, com a esposa e os dois filhos, para uma grande casa branca de madeira, em Ludlow. Winston Churchill mudou-se com eles. 
Church era o gato da filha Eileen.
    A comisso de pesquisa no tivera pressa, e sem dvida a busca de uma moradia numa distncia razovel da universidade fora de arrepiar os cabelos. Quando a famlia 
chegou ao lugar onde devia estar a casa (as referncias estavam certas... como os sinais astrolgicos na noite anterior ao assassinato de Csar, Louis pensou morbidamente), 
todos pareciam cansados, tensos, impacientes. Os dentes de Gage tinham comeado a nascer e ele chorava quase sem parar. No dormia, por mais que Rachel o ninasse. 
Ela ofereceu-lhe o seio, embora no fosse hora de mamar. Mas Gage sabia to bem quanto ela - ou talvez ainda melhor - qual era sua hora de mamar e prontamente estreou 
nela os dentes recm-chegados. Rachel, ainda incerta sobre aquela mudana de Chicago, onde sempre vivera, para o Maine, explodiu em lgrimas. Eileen logo lhe fez 
coro. Na traseira da camionete, Church continuava a andar de um lado para o outro (como vinha fazendo nos trs dias que demorou a viagem de Chicago at l). Seu 
berreiro dentro da bolsa fora terrvel, mas aquele incessante perambular depois que resolveram deix-lo solto no carro enervava.




    O prprio Louis sentiu uma certa vontade de chorar. Uma idia absurda, mas no desinteressante, lhe ocorreu: podia sugerir que voltassem a Bangor para comer 
alguma coisa enquanto esperavam o caminho de mudanas; quando suas trs caras-metades saltassem, pisava no acelerador e fugia com o p na tbua, sem olhar para 
trs, o enorme carburador de quatro cilindros devorando a gasolina cara. Dirigiria para o sul, tomando o caminho de Orlando, na Flrida, onde poderia conseguir emprego 
como mdico na Dsney World, sob um nome falso. E antes de atingir o primeiro pedgio da velha Rodovia 95, que cruzava as fronteiras do Sul, pararia na beira da 
estrada e se livraria tambm da merda do gato.
    Ento, fez uma curva final e l estava a casa. Foi o primeiro a v-la pessoalmente. Depois de ter certeza que o cargo na Universidade do Maine era seu, examinara 
atravs de fotos cada uma das sete possibilidades que lhe foram oferecidas. Escolhera aquela: uma grande e velha casa colonial, tpica da Nova Inglaterra (mas recentemente 
reformada e reforada em sua estrutura). O custo elevado, por mais terrvel que fosse, no pareceu fora de cogitao em termos de oramento domstico. Eram trs 
cmodos grandes no andar de baixo, mais quatro em cima, um galpo comprido que poderia mais tarde ser transformado em novos aposentos - tudo isso cercado pelo opulento 
esparramar de um gramado, exuberantemente verde, mesmo naquele calor de agosto.
    Atrs da casa havia um grande terreno onde as crianas podiam brincar e, alm do terreno, um bosque imenso, que se perdia de vista no horizonte. A propriedade 
confinava com terras devolutas, explicara o corretor, e ao menos num futuro previsvel no haveria construes ali. Os remanescentes da tribo indgena micmac reivindicavam 
cerca de oito mil acres em Ludlow e nas cidades a leste de Ludlow. O complicado litgio, envolvendo tanto o governo federal quanto o governo local, poderia se estender 
por mais de um sculo.
    De repente, Rachel parou de chorar e se aprumou no assento.
    -  essa...
    - essa - disse Louis.
    Ele se sentia apreensivo... Ou mesmo assustado... Na realidade, aterrorizado. Hipotecara doze anos de sua vida naquilo; s estaria paga quando Eileen tivesse 
dezessete anos.
    Engoliu em seco.
    - O que voc acha?
    - Acho que  muita bonita - disse Rachel, tirando-lhe um enorme peso do peito e da cabea. No estava brincando, ele percebeu; a opinio se estampava no modo 
como Rachel contemplou a casa quando a camionete tomou a estradinha asfaltada e fez a curva para o galpo nos fundos: os olhos percorreram as janelas vazias, a mente 
j teria comeado a registrar problemas de cortinas, oleados para os guarda-louas, Deus sabe o que mais...
    - Papai!? - disse Ellie do assento de trs. Ela tambm parara de chorar. Mesmo Gage fizera uma pausa no berreiro. Louis saboreou o silncio.
    - O que , meu bem?
    Os olhos da menina no espelho retrovisor, castanhos sob um cabelo louro um tanto escurecido, tambm inspecionavam a casa, o gramado, o telhado de uma casa vizinha 
afastada,  esquerda, o grande terreno que se prolongava at o bosque.
    - Essa  a nossa casa?
    - Vai ser, querida - disse ele.
    - Iarru! - Ellie gritou, quase lhe rebentando os tmpanos. E Louis, que s vezes conseguia ficar muito irritado com Ellie, achou que no se importava de jamais 
pr os olhos em Disney World na cidade de Orlando.
    Estacionou diante do galpo e desligou o motor da camionete.
    Os pistes pararam. O silncio pareceu muito grande em comparao ao barulho de Chicago,  barafunda da Rua State e do Loop; um pssaro cantava docemente naquele 
fim de tarde.
    - Nossa casa - Rachei disse em voz baixa, ainda contemplando as janelas.
    - Casa - Gage repetiu satisfeito no colo da me.
    Louis e Rachei olharam um para o outro. No espelho retrovisor, os olhos de Eileen se arregalaram.
    - Vocs...?
    - Ele...
    - No foi ..?
    Todos falaram ao mesmo tempo, todos riram ao mesmo tempo. Gage no ligou; continuou chupando o dedo. Vinha dizendo "m" h quase um ms e, uma ou duas vezes, 
tentara dizer alguma coisa que podia ter sido "papa" (ou s uma esperanosa iluso da parte de Louis).
    Aquilo, no entanto, por acidente ou imitao, fora realmente uma palavra. Casa. Louis tirou Gage do colo da mulher e apertou-o entre os braos.
    Foi assim que chegaram a Ludlow.



    Na memria de Louis Creed, aquele momento singular sempre conservou uma natureza mgica; em parte, talvez, por ter sido realmente mgico, mas principalmente 
pelo dia ter ficado to selvagem depois do anoitecer. Nas trs horas seguintes, qualquer paz ou magia desapareceriam por completo.
    Louis era um homem organizado, metdico. Guardara cuidadosamente as chaves da casa num pequeno envelope de correspondncia rotulado "Casa de Ludlow - chaves 
recebidas a 29 de junho". Pusera o envelope no porta-luvas da camionete Fairlane. Tinha certeza absoluta. Agora, porm, no estava l.
    Enquanto Louis procurava as chaves, dominado por uma irritao crescente, Rachel iou Gage para os quadris e foi com Eileen para perto de uma rvore que havia 
no terreno. Louis dava uma terceira busca sob os assentos, quando a filha gritou e comeou a chorar.
    - Louis! - Rachel chamou. - Ela caiu!
    Eileen cara de um balano de pneu e batera com o joelho numa pedra. O corte era pouco profundo, mas ela gritava, pensou Louis, com uma certa falta de generosidade, 
como se tivesse perdido a perna. Numa casa do outro lado da estrada, havia luz na sala de estar.
    - Tudo bem, Ellie - disse. - J chega. As pessoas daquela casa pensaro que h algum morrendo.
    - Mas est doeeeendo!
    Louis controlou sua raiva e voltou em silncio para a camionete. As chaves haviam desaparecido, mas o estojo de primeiros socorros ainda continuava no porta-luvas. 
Pegou-o e voltou para junto da filha. Quando Ellie viu o estojo, comeou a berrar ainda mais alto.
    - No! No a coisa que arde! Eu no quero a coisa que arde, papai! No...
    - Eileen,  s mercurocromo. Isso no vai arder...
    - Seja boazinha - disse Rachel - E.....
- No,-no,- no - no - no...
    - Se no parar com isso o que vai arder so as palmadas que vai levar - disse Louis.
    - Ela est cansada, Lou - interveio Rachel num tom apaziguador.
    - ? Eu tambm estou cansado. Pegue a perna dela.
    Rachel ps Gage no cho e segurou a perna de Eilen, que Louis pintou de mercurocromo, indiferente aos gritos cada vez mais histricos.
    - Tem algum na varanda daquela casa no outro lado da rua - disse Rachel pegando Gage. O beb comeara a engatinhar pela grama.
    - timo! - Louis resmungou.
    - Lou, ela est...
    - Cansada, eu sei.
    Tampou o mercurocromo e olhou furioso para a filha.
    - Escute, isso realmente no doeu nada. Fique de p, Ellie.
- Di! Di muito! Est doeeeendo...
    A mo dele teve nsias de lhe dar um tapa mas ele apenas segurou a perna com fora.
    - Encontrou as chaves? - Rachel perguntou.
    - Ainda no - disse Louis, fechando com um estalo a tampa do estojo de primeiros socorros e se levantando. - Vou...
    Gage comeou a berrar. No estava fazendo manha ou chorando, mas literalmente gritando, debatendo-se nos braos da me.
    - O que h com ele? - Rachel perguntou alarmada, atirando-o quase cegamente para Louis. Era, ele supunha, uma das vantagens dela se ter casado com um mdico. 
Podia empurrar o filho para o marido sempre que o problema parecesse grave. - Louis! O que...
    O        beb se agarrava freneticamente ao pescoo do pai, gritando de modo selvagem. Louis deu-lhe um puxo e viu um feio calombo branco inchando perto da 
garganta. E havia tambm alguma coisa na fita de seu capuz, alguma coisa imprecisa, que se contorcia debilmente.
    Eileen, que tinha ficado mais tranqila, comeou a berrar de novo:
- Abelha! Abelha! Abeeeelha!
    A menina pulou para trs, tropeou na mesma pedra saliente em que j batera o joelho, caiu sentada e voltou a chorar num misto de dor, surpresa e medo.
    Esto me deixando louco, Louis pensou abismado. Ahhhh!
    - Faa alguma coisa, Louis! Ser que no pode fazer nada?
    - Tente tirar o ferro - falou uma voz arrastada atrs deles. - Isso no falha. Tire o ferro e ponha um pouco de bicarbonato. Aperte que o calombo cede.
    Era uma voz to cavernosa e com um sotaque to carregado da Nova Inglaterra que, por um momento, a mente cansada e confusa de Louis recusou-se a traduzir o dialeto: 
Ti o firro e p um pouco d'carbonato. Perta que o calom cede.
    Ele se virou. De p no gramado havia um homem velho, talvez de setenta anos - um robusto e saudvel septuagenrio. Usava avental sobre uma camisa de cambraia 
azul e tinha um pescoo cheio de pregas e rugas. O rosto era queimado do sol e estava fumando um cigarro sem filtro. Quando Louis se virou, o velho apertou com fora 
o cigarro entre o polegar e o indicador, para depois guard-lo caprichosamente no bolso. Balanou as mos e deu um sorriso torto, mas um sorriso que agradou de imediato 
a Louis (e Louis no era um homem que "se amarrasse" facilmente nas pessoas).
    - Nem precisa dizer que est em apuros, doutor - falou em seu dialeto.
    E foi assim que Louis conheceu Judson Crandall, um homem que teria a idade de seu pai.


    Crandall os vira chegar e atravessara a rua para ver se no poderia ajud-los, pois eles pareciam estar "num baita de um aperto".
    Enquanto Louis segurava o beb contra o ombro, Crandall se aproximou, observou o calombo no pescoo da criana e esticou a mo retorcida e cheia de manchas. 
Rachel abriu a boca para protestar - aquela mo parecia terrivelmente disforme, quase to grande quanto a cabea de Gage -, mas antes que pudesse dizer uma palavra, 
os dedos do velho tinham feito um movimento simples e preciso, to hbil, to gil quanto os dedos de um homem embaralhando cartas em leque ou despejando moedas 
num caa-nqueis. Num instante, o ferro jazia na palma da mo.
    -  grande, opa! - o velho comentou. - J vi maiores, mas essa pica j d um bom estrago, no ?
    Louis rebentou numa risada.
    Crandall contemplou-o com aquele sorriso torto e disse:
    - Acho que a dona no gostou.
    - Que foi que ele disse, mame? - Eileen perguntou, e ento tambm Rachel explodiu numa risada. Evidentemente no era nada polido, mas de certa forma estava 
tudo bem. Crandall puxou um mao de Chesterfield Kings, encaixou um deles no canto rachado da boca, balanou a cabea com ar divertido enquanto os dois riam (mesmo 
Gage dava as suas risadinhas, apesar do calombo do ferro da abelha) e acendeu um fsforo com um piparote da unha do polegar. O velho tem l os seus truques, Louis 
pensou. Pequenos truques, mas alguns muito bons.
    Parou de rir e estendeu a mo que no estava segurando o traseiro de Gage (sem dvida o traseiro de Gage estava um tanto mido).
    -  um prazer conhec-lo, Sr...
    - Jud Crandall - o velho respondeu apertando a mo. - O senhor  o doutor, no ?
    - Sim. Louis Creed. Esta  minha esposa Rachel, minha filha Ellie e o guri com o ferro da abelha  o Gage.
    -  um prazer conhecer vocs.
    - Eu no ri de propsito... Isto , ns no rimos de propsito...  que estamos... um pouco cansados.
    A tentativa de atenuar a coisa provocou-lhe de novo um riso nervoso. Mas, de fato, ele se sentia totalmente exausto.
    Crandall concordou com a cabea.
    -  claro que esto - disse ele (o que sara cla que to). Deitou os olhos sobre Rachel: - Por que no vai l pra casa um minuto com o gurizinho e a menina, 
dona? A gente pode pr algum bicarbonato num esfrego e refrescar um pouco o calombo. A patroa tambm vai gostar de conhecer a senhora. Ela no sa muito de casa. 
Ficou muito mal da artrite de dois ou trs anos pra c.
    Rachei olhou para Louis, que concordou.
    -  muita gentileza sua, Sr. Crandall.
    - Oh, pode me chamar de Jud - disse ele.
    De repente, ouviu-se uma buzina alta, o ronco de um motor diminuindo a marcha e o grande caminho azul de mudanas entrou, rangendo, no caminho de acesso  casa.
    - Oh, Deus, e eu no sei onde esto as chaves - disse Louis.
    - Tudo bem - disse Crandall - Tenho um molho de chaves. Sr. e Sra. Cleveland, as pessoas que moraram aqui antes de vocs, deram-me um punhado de chaves. Oh, 
deve ter sido h quatorze, quinze anos atrs. Viveram aqui um bom tempo. Joan Cleveland foi a melhor amiga de minha mulher. Morreu h dois anos. Bill foi morar num 
daqueles velhos conjuntos habitacionais populares em Omington. Vou buscar as chaves. De qualquer modo, elas agora so suas.
         - O senhor  muito gentil, Sr. Crandall - disse Rachei.
    - De modo algum - ele respondeu. - Queramos mais  ter gente moa por perto. (Para ouvidos do centro-oeste, as palavras tinham um som to extico quanto uma 
lngua estrangeira.)  bom ver gente na estrada, dona. Tamos cansados das carretas passando.
    Agora escutaram portas batendo, quando os homens da mudana pularam da cabine do caminho e se aproximaram.
    EIlie, que se afastara um pouco, voltou perguntando:
    - Papai, o que  aquilo?
    Louis, que sara ao encontro dos homens, olhou para trs. Na borda do terreno, onde o gramado acabava e um mato alto comeava a se espalhar, fora aberta uma 
trilha de pouco mais de um metro de largura. Um traado suave corria pelo mato, serpenteava subindo a colina, fazia uma curva atravs de uma moita de arbustos e 
um arvoredo de btulas, depois desaparecia de vista.
    - Parece uma espcie de trilha - disse Louis.
    - Oh, sim - disse Crandall, sorrindo. E virando-se para Ellie: - Um dia lhe conto desse caminho, mocinha. No quer atravessar? Vamos deixar o seu irmozinho 
em ordem.
    - Eu vou - disse Ellie, logo acrescentando com ar esperanoso: - O bicarbonato no arde?


          Quando Crandall trouxe as chaves, Louis j encontrara as suas. Havia uma brecha no alto do porta-luvas e o pequeno envelope deslizara para junto da fiao 
eltrica. Ele conseguiu peg-lo e pde abrir a porta para os homens da mudana. Crandall entregou-lhe o molho de chaves sobressalentes. As chaves estavam numa pequena 
corrente, velha e amarelada. Louis agradeceu e colocou-as distraidamente no bolso, observando os homens da mudana transportando caixas, cmodas, armrios e todas 
as coisas que tinha acumulado em doze anos de casamento. Pareciam medocres fora de seus lugares habituais. S um punhado de coisas encaixotadas, pensou, sentindo-se 
de repente triste e deprimido; achou que estava sentindo o que as pessoas chamavam nostalgia.
    - Desarraigado e plantado noutro lugar - disse Crandall, subitamente a seu lado; Louis deu um pulo.
    - Parece que voc conhece a sensao - disse ele.
    - No, realmente no.
    Crandall acendeu um cigarro - vupt! fez o fsforo, a chama brilhando nas primeiras sombras do incio da noite.
    - Meu pai construiu essa coisa do outro lado da estrada. Levou a mulher pra l e l ela teve um filho; esse filho fui eu, nascido bem no ano de 1900.
    - Ento voc est...
    - Com oitenta e trs - disse Crandall e Louis ficou um tanto aliviado de que no tivesse acrescentado primaveras, uma expresso que as pessoas mais velhas s 
vezes usavam e ele detestava.
    - Parece bem mais moo.
    Crandall deu de ombros.
    - Morei aqui a vida toda. Na poca da Grande Guerra eu me alistei, mas o ponto mais prximo da Europa a que cheguei foi Bayonne, em Nova Jrsei. Lugar detestveL 
J em 1917 era um lugar detestvel. Fiquei satisfeito quando voltei pra c. Casei com minha Norma, passei meus anos de vida na estrada de ferro e ainda estou aqui. 
Mas tive uma vida e tanto em Ludlow. Sem dvida.
    Os homens da mudana pararam junto da entrada do galpo. Seguravam o estrado de molas que ficava sob a grande cama de casal que Louis repartia com Rachel.
    - Onde quer que ponha isso, Sr. Creed?
    - No andar de cima... S um minuto, eu vou mostrar o lugar.
    Louis deu um passo na direo deles, depois parou um instante e olhou para Crandall.
    - Pode ir - disse Crandall, sorrindo. - Vou ver o que o seu pessoal est fazendo. Vou mandar que voltem pra c, mas no o atrapalhem... Fazer mudana  um trabalho 
que d muita sede. Eu sempre costumo sentar na minha varanda por volta das nove e tomar algumas cervejas. E quando o tempo est quente, gosto de ver a noite chegar. 
5 vezes Norma senta comigo. Se quiser, pode ir tambm.
    - Bem, talvez eu v - disse Louis, no pretendendo de modo algum faz-lo. Sabia que o prximo passo seria um diagnstico informal (e gratuito) da artrite de 
Norma na varanda. Gostava de Crandall, gostava de seu sorriso meio atravessado, seu jeito descuidado de falar, o sotaque do norte, que longe de ser spero tinha 
quase a maciez de uma fala arrastada. Um bom homem, Louis pensou, mas os mdicos costumam desconfiar das pessoas com facilidade. Infelizmente, mais cedo ou mais 
tarde, mesmo os melhores amigos passam a querer assistncia mdica. E com a gente velha a coisa  interminvel - Mas no fique acordado esperando por mim... Tivemos 
um dia diablico.
    - Bem, voc sabe que no precisa de convite pra ir l em casa -disse Crandall; havia algo no seu sorriso tonto que fez Louis pressentir que Crandall sabia exatamente 
o que ele estava pensando.
    Contemplou o velho por um momento antes de juntar-se aos homens da mudana. Crandall andava com o corpo firme e a cabea erguida. Parecia um homem de sessenta 
anos, no de mais de oitenta. Louis experimentou um primeiro e tmido sinal de afeio.



    Pelas nove horas, os homens da mudana tinham ido embora. Ellie e Gage, ambos exaustos, dormiam em seus novos quartos, Gage no bero, Ellie num colcho no assoalho, 
cercada de um monte de caixas: bilhes de bonecas, inteiras, quebradas ou amassadas, os posters de Vila Ssamo, os livros ilustrados, as roupas, Deus sabe o que 
mais. E, naturalmente, Church estava a seu lado, tambm dormindo e rosnando asperamente do fundo da garganta. Aquele rosnado spero era o mximo que o grande gato 
podia se aproximar do ronronar.
    Rachel tinha revirado incansavelmente a casa com Gage nos braos. Procurava adivinhar onde Louis mandara os homens da mudana deixar as coisas; tornava a arrum-las, 
empilh-las, mudava-as de lugar. Louis no perdera o cheque para pagar a mudana; ainda estava no bolso interno do palet, junto com as cinco notas de dez dlares 
da gorjeta. Quando o caminho foi finalmente esvaziado, entregou o cheque e o dinheiro, inclinou a cabea ante os agradecimentos, assinou o recibo e permaneceu na 
varanda, vendo os homens voltarem  cabine do caminho. Achou que provavelmente iam parar em Bangor e tomar umas cervejas para assentar a poeira. Algumas cervejas 
cairiam muito bem agora. E isso o fez pensar outra vez em Jud Crandall.
    Sentou-se com Rachel na mesa da cozinha e viu as manchas escuras sob seus olhos.
    - Voc - disse ele - deve ir dormir.
    - Ordens do mdico? - ela perguntou, com um meio sorriso.
    - .
    - Tudo bem - disse Rachel se levantando. - Estou exausta. E Gage  capaz de acordar durante a noite. Voc vem?
    Louis hesitou.
    - No sei se j vou dormir agora. Aquele velhinho do outro lado da rua...
    - Estrada. Aqui no interior  estrada. E se voc fosse Judson Crandall, acho que diria ruduvia.
    - Tudo bem, do outro lado da ruduvia. Ele me convidou para tomar uma cerveja. Acho que vou lhe fazer companhia. Estou cansado, mas muito agitado para dormir.
    Rachei sorriu.
    - Vai acabar pedindo que Norma Crandall explique onde di e em que tipo de colcho ela dorme.
    Louis riu, pensando como era engraado - engraado e alarmante -o modo como as mulheres, aps algum tempo, conseguem ler os pensamentos dos maridos.
    - Ele ajudou quando precisamos - disse. - Acho que tambm posso fazer um favor.
    - Uma permuta?
    Louis sacudiu os ombros, relutante, no sabendo como dizer  esposa que simpatizara com Crandall  primeira vista.
    - Como  a mulher?
    - Muito amvel - disse Rachel. - Gage sentou-se no colo dela. Isso me espantou porque ele teve um dia cansativo e voc sabe que costuma estranhar as pessoas 
mesmo na melhor das situaes. Norma deu uma boneca para Eileen brincar.
    - Voc acha que a artrite  muito grave?
    - Muito.
    - Est numa cadeira de rodas?
    - No... Mas anda devagar e os dedos...
    Rachei ergueu os dedos delicados e curvou-os como garras para demonstrar. Louis balanou a cabea.
    - No demore, Lou. Tenho calafrios em casas que no conheo.
    - Logo vai conhec-la - disse Louis, beijando-a.


        Louis voltou tarde e envergonhado. Ningum lhe pedira para examinar Norma Crandall; quando atravessou a rua (ruduvia, ele se corrigiu, sorrindo), a senhora 
j fora se deitar. Jud era uma vaga silhueta atrs das cortinas da varanda fechada. Havia o aconchegante ranger de uma velha cadeira de balano. Louis bateu na porta 
de madeira, que chocalhou amistosamente em sua moldura. O cigarro de Crandall brilhava como um grande e pacfico vagalume na noite de vero. De um rdio, baixo, 
vinha a transmisso de um jogo de red sox e tudo isso deu a Louis Creed a estranha sensao de volta  casa paterna.
    - Doutor - disse Crandall. - Achei que fosse o senhor.
    - Espero que tenha dito a verdade sobre a cerveja - disse Louis entrando.
    - Oh, sobre cerveja eu nunca minto - disse Crandall. - Um homem que mente sobre cerveja faz inimigos. Sente, doutor. Se precisar, tem mais cerveja na geladeira.
    A varanda era comprida e estreita, mobiliada com cadeiras de palhinha e sofs. Louis afundou-se num deles e constatou, espantado, o quanto era confortvel.  
sua esquerda, havia um balde de metal cheio de cubos de gelo e algumas latas de Black Label Pegou uma delas.
    - Obrigado - ele disse abrindo a lata. Os dois goles iniciais caram em sua garganta como uma bno.
    - Seja muito bem-vindo - disse Crandall. - Espero que seja feliz aqui, doutor.
    - Amm - disse Louis.
    - Escute! Se quiser bolachas ou alguma coisa, posso ir buscar. Tenho um pedao de rato que est no ponto.
    - Um pedao de qu?
    - Queijo de rato, aquele furadinho.
    Crandall parecia um tanto divertido.
    - Obrigado, mas a cerveja chega pra mim.
    - Bem, ento, vamos acabar com ela - Crandall arrotou com satisfao.
    -~ Sua esposa foi dormir? - Louis perguntou, intrigado por ele estar to  vontade.
    - Foi. s vezes fica acordada. s vezes no.
    - A artrite deve ser bem dolorosa, no ?
    - J encontrou um caso em que no fosse? - Crandall perguntou.
    Louis balanou negativamente a cabea.
    - Mas acho que  tolervel - disse CrandalL - No se queixa muito.  uma boa e velha menina, minha Norma.
    Havia um grande e simples sentimento de afeio na voz de Crandail. L fora, na Rodovia 15, um caminho tanque passou zumbindo. Era to grande e comprido que, 
por um momento, Louis no pde ver sua casa do outro lado da estrada. Do lado do veculo, visvel  luz da lanterna traseira, estava escrito Orinco.
    - Que diabo de caminho grande! - Louis comentou.
    - A Orinco fica perto de Orrington - disse Crandall. -  uma fbrica de fertilizantes qumicos. Os caminhes vo e vm, sem parar. Mas h tambm caminhes petroleiros, 
caminhes-basculantes, e as pessoas que vo trabalhar em Bangor ou Brewer e voltam para casa  noite. - Ele balanou a cabea. -  a nica coisa em Ludlow de que 
no gosto mais. Essa estrada terrveL No nos d sossego. Os caminhes passam todo o dia e toda a noite. s vezes acordam Norma. Diabo, me acordam tambm, e olhe 
que eu tenho o sono pesado como um tronco!
    Louis, que achava aquela estranha paisagem do Maine quase assustadoramente silenciosa em comparao ao ronco incessante de Chicago, limitou-se a abanar a cabea.
    - Um dia desses os rabes cortam o barato e todos podero plantar violetas africanas em paz na margem da ruduvia - disse CrandalL
    - Acho que tem razo.
    Louis inclinou a lata de cerveja e surpreendeu-se ao ver que j estava vazia.
    Crandall riu.
    - Tome mais uma pra fermentar, doutor.
    Louis hesitou antes de responder:
    - Tudo bem, mas s mais uma. Tenho de voltar logo.
    -  claro. Mudana  uma merda, no ?
    - E mesmo - Louis concordou e, por um instante, os dois ficaram em silncio. Foi um silncio descontrado, como se j se conhecessem h muito tempo. Era uma 
sensao que Louis encontrara em livros, mas que nunca experimentara pessoalmente at aquele momento. Sentiu vergonha de seus pensamentos pouco generosos sobre assistncia 
mdica gratuita.
    Um caminho-guincho passou, as luzes piscando e correndo como estrelas cadentes.
    - Este sinal das luzes quer dizer que est tudo bem na estrada -Crandall disse pensativo, com ar um tanto vago. Depois virou-se para Louis. Tinha um estranho 
e breve sorriso entre os sulcos da boca. Encaixou um Chesterfield num dos cantos do sorriso e acendeu um fsforo com o piparote da unha do polegar. - Est lembrado 
da trilha de que sua mocinha falou?
    Louis no conseguiu lembrar de imediato; Ellie falara de um verdadeiro catlogo de coisas antes de desmoronar de sono. Mas, por fim, recordou. Aquela ampla trilha 
aberta no matagal, serpenteando entre as rvores do bosque e subindo a colina.
    - Sim, eu lembro. Voc prometeu que um dia ia lhe contar a histria da trilha.
    - Prometi e vou cumprir - disse Crandall. - Aquele caminho se estende cerca de dois quilmetros e meio pelo bosque afora. As crianas do local, as que vivem 
perto da Rodovia 15 e da Estrada Central, conservam-no em bom estado porque o utilizam com muita freqncia. Vo e vem... Agora tem muito mais movimento do que quando 
eu era garoto. Sabe como , as pessoas descobrem um lugar e se apegam a ele. Toda a garotada parece se interessar pela conservao da trilha. A cada primavera, uma 
turma roa o caminho. E o conserva durante todo o vero. Nem todos os adultos da cidade sabem o que existe ali; muitos sabem,  claro, mas no todos, no tem a menor 
dvida... Mas todas as crianas sabem. Nisso eu aposto.
    - E o que existe l?
    - Um cemitrio de bichos - disse Crandall.
    - Um cemitrio de bichos? - Louis repetiu, confundido.
    - No  to estranho como pode parecer - disse Crandall, fumando e se balanando na cadeira. -  a estrada. Ela tira a vida de muitos animais, essa estrada. 
Na maior parte, cachorros e gatos, mas no s. Um desses grandes caminhes da Orinco atropelou o quati que as crianas dos Ryder tinham. Foi... Cristo, deve ter 
sido em 73, talvez antes. De qualquer modo, antes do estado ter declarado ilegal a posse de um quati ou mesmo de um zorrilho.
    - E por que fizeram isso?
    - Raiva - disse Crandall. - Muitos casos de raiva no Maine. H alguns anos, no interior do estado, um grande e velho So Bernardo ficou raivoso e matou quatro 
pessoas. Foi uma coisa terrveL O co no estava vacinado. Se aqueles malucos tivessem se preocupado em vacinar o cachorro, isto nunca teria acontecido. Mas um quati 
ou um zorrilho, voc pode vacinar duas vezes por ano e mesmo assim a vacina pode no pegar... S que aquele quati dos garotos dos Ryder era o que os antigos moradores 
da regio continuavam a chamar de um "quati manso". Vinha gingando pra junto de voc - era um bicho meigo de verdade! - e lambia o teu rosto como um cachorro. O 
pai deles chegou a pagar um veterinrio pra castr-lo e cortar as garras. E isso deve ter custado uma verdadeira fortuna!
    Crandall continuou:
    - Ryder, ele trabalhou para a IBM em Bangor. Foi com a famlia para o Cobrado h cinco anos... ou talvez seis. Engraado pensar que aqueles garotos j tm quase 
idade pra tirar carteira de motorista... Ser que ficaram muito sentidos com a histria do quati? Acho que sim. Matty Ryder chorou tanto tempo que a me ficou assustada 
e quis lev-lo ao mdico. Agora j deve estar conformado, mas nunca vai esquecer. Quando um animal de estimao  atropelado na estrada, uma criana nunca esquece.
    Os pensamentos de Louis voltaram-se para Ellie. Na ltima vez que a vira naquela noite, ela adormecera com Church roncando a seus ps.
    - Minha filha tem um gato - disse. - Winston Churchill. Ns o chamamos de Church para facilitar.
    - Ele anda por a subindo em muros?
    - Como? - Louis no tinha idia do que o velho estava falando.
    - Ainda tem as bolas ou j est no prego?
- No - disse Louis -, ele ainda no est no prego. 
        De fato, isso dera algum problema em Chicago. Rachel queria que Church fosse castrado, chegara a marcar hora com o veterinrio. Louis desmarcou. Mesmo agora 
ainda no sabia realmente por qu. No se tratava de algo to simples ou to estpido quanto equiparar sua masculinidade  do gato da filha, nem mesmo de sua averso 
 idia de castrarem Church para que a gorda dona-de-casa vizinha no precisasse se dar ao trabalho de fechar bem as tampas de suas instveis latas de lixo - essas 
coisas podem ter tido alguma importncia, mas o motivo principal fora uma forte sensao de que aquilo destruiria alguma coisa em Church, algo que ele estimava, 
como, por exemplo, o olhar atrevido nos olhos verdes do gato. Fez ver a Rachel que estavam de mudana para o campo, onde Church no causaria problemas. E agora Judson 
Crandall lhe alertava que aquela parte do campo tinha de enfrentar a Rodovia 15 e perguntava se o gato estava castrado. Seja irnico, pensava o Dr. Creed... Rir 
um pouco faz bem  circulao.
    - Eu o teria castrado - disse Crandall, amassando o cigarro entre o polegar e o indicador. - Um gato castrado no fica perambulando  toa. Quando um animal no 
pra de andar de um lado pro outro, sempre escapa de casa e acaba como o quati dos filhos dos Ryder, o pequeno cocker spaniel de Timnmy Dessler e o periquito da 
Sra. Bradleigh. No que o periquito tenha sido atropelado na estrada,  claro. Simplesmente algum o levou.
    - Vou pensar no que est dizendo - Louis falou.
    - Faa isso - Crandall respondeu e ficou de p. - A cerveja no est caindo bem? Acho que vou buscar uma fatia do velho rato.
    - A cerveja est tima - disse Louis, tambm se levantando -, mas devo ir agora. Amanh vai ser um dia de muito trabalho.
    - J comea amanh na universidade?
    Louis fez que sim com a cabea.
    - O incio das aulas  s daqui a duas semanas, mas quando comearem eu j tenho de estar preparado, no acha?
    - , se ainda no souber s quantas anda, pode ter problemas.
    Crandall estendeu a mo e Louis apertou-a, de novo atento para o fato de ossos velhos doerem com facilidade.
    - Volte uma noite dessas - disse Crandall. - Queria que conhecesse minha Norma. Acho que ela vai gostar de voc.
    - Volto - disse Louis. - Foi muito bom conhec-lo, Jud.
    - O mesmo digo eu. Espero que se sinta bem aqui e que fique um bom tempo.
    - Eu tambm espero.
    Louis desceu por uma trilha de calamento rstico at o acostamento da estrada, onde teve de esperar que passasse outro caminho, seguido por uma fila de cinco 
carros na direo de Bucksport. Ento, erguendo a mo num breve aceno, atravessou a estrada (ruduvia, ele se lembrou de novo) e entrou em sua nova casa. 
    A casa estava repleta do silncio do sono. Ellie parecia nem ter se mexido e Gage continuava no bero, dormindo  sua maneira tpica, de costas, com braos e 
pernas abertos, a mamadeira ao alcance da mo. Louis se deteve olhando para o filho, o corao repentinamente cheio de amor pela criana, um amor to forte que parecia 
quase perigoso. Achou que parte de seus sentimentos deviam-se  nostalgia por todos os lugares familiares de Chicago e rostos que no veriam mais, to eficientemente 
eliminados pelos quilmetros e quilmetros de viagem que pareciam nunca ter existido. Agora tem muito mais movimento do que quando... Sabe como , as pessoas descobrem 
um lugar e se apegam a ele. Havia alguma verdade nisso.
    Ele se aproximou do filho e, como no havia ningum ali para ver o que estava fazendo, nem mesmo Rachel, beijou a ponta dos dedos e, atravs das grades do bero, 
encostou-os rpida e levemente no rosto de Gage.
    Gage resmungou e virou de lado.
    - Durma bem, garoto - disse Louis.

    Ele se despiu em silncio e deslizou para a sua metade da cama de casal que, por enquanto, era apenas um colcho no assoalho. Sentiu a tenso do dia comeando 
a passar. Rachel no se mexeu. Caixas fechadas se amontoavam fantasmagoricamente no aposento.
    Pouco antes de dormir, Louis se apoiou num dos cotovelos e olhou pela janela. O quarto era de frente e, alm da estrada, podia-se ver a casa de Crandall. Estava 
escuro demais para distinguir formas (numa noite de lua no teria sido impossvel), mas conseguiu ver a brasa do cigarro ao longe. Ainda acordado, pensou. Talvez 
ainda fique acordado por muito tempo. O velho deve dormir pouco. Pode ser que fique de viglia.
Mas por que de viglia?
    Louis pensava nisso quando mergulhou no sono. Sonhou que estava na Disney World, ao volante de uma brilhante camionete branca com uma cruz vermelha gravada do 
lado. Gage estava junto dele e, no sonho, tinha pelo menos dez anos. Church aparecia sobre o painel da camionete branca, contemplando Louis com os brilhantes olhos 
verdes. Na Main Street, perto de uma estao ferroviria dos idos de 1890, Mickey Mouse apertava as mos das crianas reunidas  sua volta, grandes luvas brancas 
engolindo mos pequenas, firmes.


    As duas semanas seguintes foram de muito trabalho para a famlia. Pouco a pouco, Louis comeou a se adaptar ao novo trabalho (o que aconteceria quando dez mil 
estudantes, muitos abusando de drogas ou lcool, alguns afligidos por doenas venreas, outros ansiosos sobre as notas nas provas ou deprimidos por terem sado de 
casa pela primeira vez, uma d(szia deles - principalmente moas - com anorexia.., o que aconteceria quando todos eles convergissem em bando para o campus era outra 
histria). E enquanto Louis comeava a tomar as rdeas de suas funes  frente dos Servios Mdicos Universitrios, Rachel comeava a tomar as rdeas da casa.
    Gage levava os encontres e tombos inevitveis para se acostumar ao novo ambiente, e, por algum tempo, seu horrio de dormir ficou completamente desregulado. 
Em meados da segunda semana em Ludlow, porm, voltou a dormir na hora certa. S Ellie, com a perspectiva de comear o jardim de infncia e se sentindo num meio desconhecido, 
continuava extremamente agitada, endiabrada. Oscilava de prolongados ataques de riso a perodos de depresso quase idnticos aos da menopausa. Podia, ainda, ter 
acessos de clera a uma simples palavra de repreenso. Rachel dizia que Elle superaria aquela fase quando visse que a escola no era o bicho de sete cabeas que 
imaginava; Louis achava que a mulher tinha razo. A maior parte do tempo, afinal, EIlie era o que sempre fora - um amor.
    A cerveja noturna com Jud Crandall tornou-se uma espcie de hbito para Louis. Pela poca em que Gage voltou a dormir bem, ele passou a freqentar a casa de 
Crandall a cada duas ou trs noites, contribuindo tambm com latas de cerveja. Conheceu Norma Crandall, uma senhora amvel e simptica que sofria de artrite reumtica, 
a torpe artrite reumtica responsvel pela morte de tantos homens e mulheres idosos que, de outra forma, seriam totalmente saudveis. Norma, porm, reagia bem. No 
levantaria bandeiras brancas para se render  dor. Que a doena a levasse se pudesse. Louis achou que ainda teria pela frente de cinco a sete anos produtivos, mesmo 
que no inteiramente confortveis.
    Voltando-se contra os costumes que ele mesmo estabelecer, examinou-a por iniciativa prpria, passou em revista as receitas que o mdico lhe dera e considerou-as 
bastante adequadas. Sentiu um desapontamento irritante por no ser capaz de sugerir ou fazer mais nada por ela; seu Dr. Weybridge tinha as coisas sob controle (como 
elas deveriam estar no caso de Norma Crandall), tentando impedir certos desenvolvimentos repentinos da doena (o que era possvel, mas no infalvel). Em casos como 
aquele, ou o doente aprendia a aceitar a enfermidade, ou acabava trancado num quarto pensando nos brinquedos de infncia.
    Rachel gostava dela; as duas selaram a amizade trocando receitas de cozinha como os meninos trocam figurinhas de jogadores de beisebol; de incio foi a torta 
de ma deep-dish de Norma Crandail pelo strogonoff de Rachel. Norma ficou encantada com ambos os filhos dos Creed, mas particularmente com EIlie, que, segundo ela, 
seria "uma beleza como a dos velhos tempos". Pelo menos, disse Louis a Rachel naquela noite na cama, Norma no achou que EJlie ia se transformar num verdadeiro "quati 
de estimao". Rachel riu to forte que soltou um explosivo gs intestinal, e, ento, os dois riram tanto tempo e to alto que acordaram Gage no quarto ao lado.
    O primeiro dia no jardim de infncia chegou. Louis, que sentiu sob controle todas as atividades de enfermaria e de apoio mdico, tirou um dia de folga. (Alm 
do mais, a enfermaria estava completamente vazia; o ltimo paciente, o estudante de um curso de vero que tinha quebrado a perna nos degraus da Unio dos Estudantes, 
tivera alta h uma semana.)
    Louis estava no gramado, ao lado de Rachel e com Gage nos braos, quando o grande nibus amarelo fez a curva vindo da Estrada Central, aproximou-se rangente, 
pesado, e encostou em frente  casa. As sanfonas da porta da frente se abriram; o berreiro e falatrio de muitas crianas encheu o suave ar de setembro.
    Ellie ainda olhou para trs, um olhar estranho e um tanto amedrontado, como a perguntar se no haveria mais tempo de frustrar aquele processo inevitvel. O que 
viu nos rostos dos pais deve t-la convencido de vez de que no havia mais tempo, de que no poderia fugir de tudo o que ia acontecer naquele primeiro dia: era inevitvel 
como o progresso da artrite de Norma Crandall. Ela se virou e subiu os degraus do nibus. A porta fechou com um arfar de respirao de drago. O nibus partiu. Rachel 
explodiu em lgrimas.
    - No, pelo amor de Deus - disse Louis. Ele no estava chorando, mas no parecia muito longe disso. -  s meio dia.
    - Meio dia j  demais - Rachel respondeu num tom rabugento e voltou a chorar ainda com mais vontade. Louis abraou-a e Gage passou feliz o brao em volta do 
pescoo dos dois. Quando Rachei chorava, Gage geralmente tambm chorava. Mas no desta vez. Agora ns ficamos s para ele, Louis pensou, e ele sabe muito bem disso.

    Esperaram com uma certa ansiedade que Ellie voltasse, bebendo muito caf, especulando como estariam indo as coisas. Louis foi para o quarto dos fundos, que ia 
ser transformado em seu escritrio, e remexeu negligentemente no que havia l. Mudou papis de lugar, mas no fez nada mais que isso. Rachel comeou a almoar absurdamente 
cedo.

    Quando o telefone tocou s dez e quinze, Rachei correu para o aparelho e, antes que tocasse pela segunda vez, atendeu com um "al" sem flego. Louis se ps na 
passagem entre o escritrio e a cozinha, certo de que seria a professora do jardim de infncia para dizer que Ellie no podia ser domesticada; o estmago do ensino 
pblico julgava impossvel digeri-la e a cuspia de volta. Mas era apenas Norma Crandall. Ligada para dizer que Jud tinha colhido o ltimo milho e queria dar algumas 
espigas. Louis foi at l com uma sacola de compras e repreendeu Jud por no cham-lo para ajudar na colheita.
    - De qalquer jeito, a maior parte do milho no vale merda nenhuma - disse Jud.
    - Voc pode muito bem segurar essa lngua quando eu estiver por perto - Norma reclamou. Entrara na varanda com copos de mate numa antiga bandeja de Coca-Cola.
    - Sinto muito, meu bem.
    - Ele pouco se importa - disse Norma a Louis, sentando-se com um estremecimento.
    - Vimos Ellie tomando o nibus - disse Jud, acendendo um Chesterfield.
    - Ela vai se dar muito bem - disse Norma. - As crianas quase sempre se do bem.
    Quase sempre, pensou Louis morbidamente.

    Mas Ellie se deu bem. Voltou ao meio-dia sorrindo, radiante, a saia do uniforme azul do primeiro dia de escola cercando graciosamente as perninhas raladas de 
tombos (havia um novo arranho num dos joelhos para encanto dos pais). Trazia um desenho do que podia ser duas crianas ou dois guindastes andando, um sapato desamarrado, 
a fita do cabelo perdida. Gritava:
    - Ns cantamos Old MacDonald! Mame! Papai! Ns cantamos Old MacDonald! A mesma coisa que na escola da Rua Carstairs!
    Rachei trocou um olhar com Louis, sentado junto da janela com Gage no colo. O beb estava quase dormindo. Havia alguma coisa triste no olhar de Rachel e, embora 
ela o desviasse depressa, Louis percebeu um momento de pnico. Vamos realmente ficar velhos, ele pensou. De fato  verdade. No seremos exceo. Ela est no caminho 
dela... e ns estamos no nosso.
    Ellie correu para o pai, tentando mostrar o desenho, o novo arranho, contar-lhe sobre Old MacDonald a Sra. Berryman, tudo ao mesmo tempo. Church se enroscava 
entre suas pernas, ronronava alto e, quase por milagre, Ellie no tropeou nele.
    - Chiiii - disse Louis e a beijou. Gage pegara no sono, desinteressado da barulheira. - Deixe eu colocar o beb na cama e depois vou ouvir tudo que tem para 
me contar.
    Subiu a escada com Gage, atravessando o calor vespertino do sol de setembro que se filtrava pela janela. Mas quando atingiu o patamar do andar de cima, foi atingido 
por tamanha premonio de horror e desgraa que teve de parar, parar com uma impresso de frio. Olhou em volta espantado, no entendendo as sensaes que tomavam 
conta dele. Segurou com tanta fora o beb que quase o machucou, e Gage se mexeu incomodado. Os braos e as costas de Louis estavam totalmente arrepiados.
    O        que est havendo?, ele se perguntou, confuso e assustado. O corao disparava, o couro cabeludo parecia glido e subitamente pequeno demais para cobrir 
o crnio; podia sentir a onda repentina de adrenalina avanando por trs dos olhos. Os olhos realmente se arregalam quando o medo  extremo, ele sabia; no apenas 
se dilatam, mas se tornam salientes (pois a presso sangnea sobe e a presso hidrosttica dos fluidos cranianos aumenta). Que diabo  isto? Fantasmas? Meu Deus, 
parece que alguma coisa realmente roou em mim neste corredor, uma coisa que eu quase vi.
    No andar de baixo, a porta de madeira bateu.
    Louis Creed estremeceu, quase gritou, mas acabou rindo. Fora apenas um daqueles momentos de calafrio psicolgico que as pessoas s vezes atravessam: nem mais, 
nem menos. Uma fuga momentnea da realidade. Eles aconteciam; era tudo. O que Scrooge dissera ao fantasma de Jacob Marley? Talvez voc no seja mais que um pedao 
de carne mal cozido. Antes um problema de digesto que de ressurreio. E isso era mais verdadeiro (tanto fisioigica como psicologicamente) do que Charles Dickens 
poderia imaginar. No existiam fantasmas, pelo menos em sua experincia. Tinha visto a morte de mais de duas dezenas de pessoas e jamais sentira a passagem de uma 
alma.
    Levou Gage para o quarto e deitou-o no bero. No entanto, quando puxou o cobertor para cobrir o filho, um sobressalto sacudiu-lhe as costas e o fez pensar de 
repente na vtrine do shopping de seu tio Carl. No havia novos carros em exposio, nem televisores com todas as novidades modernas, nem lavadoras de pratos com 
visores de vidro mostrando a ao mgica da espuma. S havia caixas com tampas levantadas e, discretamente colocados sobre cada uma delas, spots acesos. O irmo 
de seu pai era um agente funerrio.
        Meu Deus, por que esses horrores agora? Vamos logo! Fora com eles!
    Beijou o filho e desceu para ouvir o que Ellie tinha a contar de seu primeiro dia na incrvel escola maternal.


    No sbado, depois que Ellie chegou ao fim da primeira semana de escola e pouco antes da rapaziada da universidade voltar ao campus, Jud Crandall atravessou a 
estrada e aproximou-se da famlia Creed sentada no gramado. Ellie tinha saltado da bicicleta e bebia um copo de mate. Gage engatinhava na grama, examinando pequenos 
insetos, talvez at comendo alguns; ainda no era muito exigente quanto  origem de sua protena.
    - Jud! - disse Louis se levantando. - Espere, que vou buscar uma cadeira.
    - No precisa. - Jud vestia jeans, uma camisa de gola aberta e botinas verdes. Virou-se para Ellie: - Ainda quer saber onde aquela trilha vai dar?
    - Sim! - disse Ellie, ficando logo em p. Seus olhos brilhavam. -Na escola, George Buck me disse que vai at o cemitrio de bichos e eu contei  mame, mas ela 
me mandou esperar por voc porque voc sabe onde ele fica.
    - E sei mesmo - disse Jud. - Se papai e mame estiverem de acordo podemos dar um passeio at l. Voc vai precisar de um par de botas, eu acho. Em certos pontos, 
o cho  um pouco enlameado.
    Eilie correu para a casa. Jud acompanhou-a com um olhar cheio de contentamento e afeio.
    - Talvez voc tambm queira ir, Louis.
    - Eu vou - disse Louis. E virando para Rachel: - No quer vir tambm, querida?
    - E Gage? Vamos ter de andar muito.
    - Posso coloc-lo na cadeirinha.
Rachei riu.
    - Tudo bem... Mas vai nas costas do senhor.

    Saram dez minutos depois. Com exceo de Gage, todos usavam botas. Gage ia arrebitado na cadeirinha, observando tudo sobre o ombro do pai, olhos arregalados. 
Eilie corria  frente, caando borboletas e colhendo flores.
    A relva no terreno dos fundos chegava quase  cintura e mais adiante havia pequenas flores amarelas e brancas, restos de fim de vero que todo ano sobreviviam 
aos dias de outono. Mas no havia outono no ar; o sol era de pleno agosto, embora, no calendrio, agosto j estivesse encerrado h quase duas semanas. Quando alcanaram 
o topo da primeira colina, andando em fila pela picada, havia grandes manchas de suor sob os braos de Louis.
    Jud parou. A princpio, Louis julgou que o velho estivesse sem flego; foi ento que viu a paisagem que se abria atrs deles.
    -         bonito aqui em cima - disse Jud, pondo uma haste de capim entre os dentes. Louis achou que acabara de ouvir a quintessncia dos eufemismos da Nova 
Inglaterra.
    -  esplndido - Rachei sussurrou, virando-se quase acusadoramente para Louis: - Como no me contou nada sobre isso?
    - Porque eu no sabia que existia - Louis respondeu um tanto envergonhado. Afinal, aquilo ficava em sua propriedade; simplesmente, at aquele dia, ainda no 
tivera tempo de subir a colina.
    Ellie tinha avanado um bom trecho de caminho. Agora voltava, tambm pasmada de admirao. Church seguia-lhe os calcanhares.
    A colina no era alta, mas no precisava ser. A leste, imensos bosques bloqueavam a vista, mas a oeste o panorama se alongava como num dourado e sonolento sonho 
de fim de vero. Tudo era sossegado, levemente enevoado, quieto. No havia sequer um caminho-tanque da Orinco na estrada para quebrar o silncio.
    Estavam contemplando,  claro, o vale de um rio, o Penobscot, onde outrora os lenhadores do nordeste faziam flutuar seus troncos at Bangor e Derry. Achavam-se 
ao sul de Bangor e um pouco ao norte de Derry. Ali o rio se alargava e corria pacfico, como se imerso num sono profundo. Louis podia divisar Hampden e Winterport 
na margem oposta e acreditou que conseguiria seguir o rastro negro da Rodovia 15: ela serpenteava paralela ao rio at Bucksport. Esquadrinhou lentamente o rio, sua 
exuberante orla de rvores, os caminhos, os campos. A torre da Igreja Batista de Ludlow Norte encaixava-se num dossel que os velhos olmos formavam;  direita, via-se 
o pesado bloco de tijolos da escola de Ellie.
    No alto, nuvens brancas moviam-se lentamente para um horizonte de brim azul desbotado. E por todos os lados repousavam os campos do ltimo vero, esgotados ao 
trmino do ciclo, dormindo mas no sem vida; um fantstico tom castanho e amarelo.
    - Esplndido  a palavra exata - disse Louis por fim.
    - Nos velhos tempos costumavam chamar isso aqui de Monte da Boa Vista - disse Jud. Ele ps um cigarro no canto da boca, mas no acendeu. - Alguns ainda falam 
do lugar, mas agora, depois que tanta gente nova se mudou para a cidade, ele j est quase esquecido. Hoje no vem muita gente aqui. Como vocs sabem, o monte no 
chama muita ateno, a colina no  alta. Mas se pode ver...
    Ele fez um gesto amplo com uma das mos e caiu em silncio.
    - Se pode ver tudo - disse Rachel numa voz baixa e reverente. Depois se virou para Louis: - Querido, isto aqui  nosso?
    E antes que ele pudesse responder, Jud falou:
    - Faz parte da propriedade, oh, sim.
    O que no era, Louis pensou, exatamente a mesma coisa.

    Fazia mais frio nos bosques, talvez uma diferena de quatro ou cinco graus. A trilha, sempre ampla e vez por outra ladeada de flores em vasos ou latas de caf 
solvel (em geral murchas), estava agora coberta de folhas secas de pinheiro. Tinham caminhado cerca de quinhentos metros e comeavam a descer a colina quando Jud 
chamou por Ellie.
    - Este  um bom caminho para uma mocinha - disse num tom gentil -, mas quero que prometa  mame e ao papai que, se vier aqui, andar sempre na trilha.
    - Prometo - Ellie respondeu de imediato. - Mas por qu?
    Jud olhou para Louis, que tinha parado para descansar. Transportar Gage nas costas, mesmo  sombra daqueles velhos pinheiros e abetos, era trabalho pesado.
    - Voc sabe onde est? - Jud perguntou-lhe.
    Louis pensava e rejeitava as respostas: Ludlow, Ludlow Norte, atrs de minha casa, entre a Rodovia 15 e a Estrada Central. Ele balanou a cabea.
    Jud, sacudiu o polegar. 
    -No adianta pensar em cidades - disse ele. - Existem apenas bosques por oitenta quilmetros ou mais. So chamados Bosques de Ldlow Norte, mas cortam pela regio 
de Orrington e continuam para Rockford. Terminam naquelas terras federais de que lhe falei, aquelas que os ndios querem de volta. Sei que parece engraado que sua 
boa casinha ali na estrada principal, com telefone, luz eltrica, tev por cabo e tudo mais, fique  beira de uma terra selvagem, mas  verdade. - E olhando de novo 
para Ellie: - O que eu quero dizer  que voc no deve se enfiar no meio desses bosques, Eliie. Pode se perder e s Deus sabe onde vai parar.
    - No vou sair da trilha, Sr. Crandall.
    Ellie estava devidamente alertada, impressionada mesmo, mas no com medo, Louis constatou. Rachel, porm, contemplava Jud com ar inquieto, e Louis tambm se 
sentiu um tanto apreensivo. Era, ele supunha, o quase instintivo medo que as pessoas criadas nas cidades tm das florestas. Louis no vira uma bssola desde os tempos 
de escoteiro, vinte anos atrs, e sua lembrana de como encontrar o caminho por coisas como a Estrela Polar ou o lado das rvores em que o musgo cresce era to vaga 
quanto a lembrana de como fazer um n grdo ou meia-volta.
Jud correu os olhos por eles e abriu um meio sorriso.
        - Mas acontece que ningum se perdeu nesses bosques desde 1934 - disse ele. - Pelo menos, ningum daqui. O ltimo que, se perdeu foi Wil Jeppson... E no 
foi uma grande perda. Depois de Stanny Bouchard, acho que Will era o maior cachaceiro deste lado de Bucksport.
    - Voc disse ningum daqui - Rachei lembrou num tom que no era dos mais negligentes. Louis quase pde ler seu pensamento: E ns no somos daqui. Pelo menos, 
ainda no.
    Jud fez uma pausa e abanou a cabea.
    - Perdemos um turista a cada dois ou trs anos porque eles acham que ningum pode se perder junto da estrada principal. Mas nenhum ficou perdido pra sempre, 
dona. No se assuste.
    - Existem alces por aqui? - Rachel perguntou apreensiva.
    Louis sorriu: quando Rachel queria se preocupar, no o fazia pela metade.
    - Bem, voc pode encontrar um alce - disse Jud -, mas ele no vai lhe fazer nada, Rachel Quando esto no cio ficam um pouco irritados, mas em qualquer outra 
ocasio 'no fazem mais que olhar. As nicas pessoas atrs de quem eles correm fora do tempo do cio so as pessoas de Massachusetts. No sei por que isso acontece, 
mas acontece.
    Louis achou que o velho estava brincando, mas no tinha certeza; Jud parecia extremamente srio.
    - Tenho visto muitas vezes - ele continuava. - J encontrei sujeitos de Saugus, Milton ou Weston em cima de uma rvore, berrando no meio de uma manada de alces, 
cada um do tamanho de um caminho. Parece que os alces conseguem sentir o cheiro de Massachusetts num homem ou numa mulher. Ou talvez seja apenas o cheiro daquelas 
roupas de Boston... Isso eu no sei. Queria muito ver um desses estudantes de veterinria da universidade escrever sobre isso num livro, mas acho que nenhum deles 
jamais o far.
    - Que  tempo do cio? - Ellie perguntou.
    - No importa - disse Rachei. - No quero que venha aqui a no ser que esteja com um adulto.
Ela se aproximou um passo de Louis.
    Jud parecia chateado.
    - No quis assust-la, Rachel . . Nem voc, nem sua filha. Ningum precisa ficar assustado nesses bosques.  uma trilha muito boa; tem alguns insetos na primavera 
e est sempre um pouco lamacenta (exceto no vero de 55, que foi o mais seco, eu lembro), mas que diabo!, no tem qualquer planta ou folha venenosa, nem mesmo aquelas 
que existem nos fundos do ptio da escola... Voc deve ficar longe delas, Ellie, se no quiser passar trs semanas de sua vida tomando lavagens.
    Ellie cobriu a boca e deu uma risadinha.
    -  um caminho seguro - Jud falou com veemncia para Rachel, que ainda no parecia convencida. - Ora, aposto que mesmo Gage seria capaz de andar sozinho por 
ele, e as crianas da cidade vm muito aqui. Elas conservam o caminho em bom estado. Ningum as manda fazer isso, mas elas fazem. Eu no gostaria de tirar esse prazer 
de Elle.
    Jud se curvou para a menina e piscou o olho:
    - E como muitas outras coisas na vida, Ellie. Voc se conserva no caminho e tudo bem. Voc sai do caminho, e a no ser que tenha sorte, descobre logo que est 
perdida. E ento, algum tem de mandar uma equipe de busca para salv-la.

    Continuaram andando. Louis comeou a sentir entorpecimento e cibras nas costas por causa da cadeirinha do beb. De vez em quando, Gage agarrava um bom punhado 
de cabelo dele e puxava com entusiasmo; outras vezes, aplicava-lhe um alegre pontap nos rins. Mosquitos de ltima hora esvoaavam perto do seu rosto e pescoo, 
zumbiam  volta das orelhas.
    O caminho inclinava-se para baixo, fazendo curvas para um lado e para o outro no meio de abetos muito velhos. De repente, cortou por um trecho cheio de roseiras 
com espinhos e de um confuso emaranhado de moitas. Ali, sem dvida, o caminho era lamacento; as botas de Louis chapinhavam no lodo e em algumas poas d'gua. Em 
certo ponto, tiveram de cruzar um trecho pantanoso usando troncos apodrecidos como pontes. Foi o pior pedao. Voltaram a subir de novo e as rvores tornaram a cerc-los. 
Por um passe de mgica, Gage parecia estar pesando cinco quilos a mais, e pela mesma magia, o dia esquentara meia dzia de graus. O suor escorria pelo rosto de Louis.
    - Tudo bem com voc, querido? - Rachel perguntou. - No quer me dar o Gage um pouco?
    - No, tudo bem - disse ele, e era verdade, embora o corao lhe saltasse pelo peito a uma boa velocidade. Estava mais acostumado a prescrever exerccios fsicos 
do que a faz-los.
    Jud avanava com Ellie a seu lado; o amarelo forte das calas da filha e a blusa vermelha eram vistosos borres de cores entre o esverdeado sombrio da atmosfera.
    - Lou, voc acha que ele sabe mesmo pra onde est indo? - Rachel perguntou num tom baixo e ligeiramente apreensivo.
    - Sem dvida - disse Louis.
    Jud virou a cabea e interveio animado:
    - Agora j no falta muito... Voc agenta, Louis?
    Meu Deus, Louis pensou, o homem j passou bastante dos oitenta, mas acho que ainda nem derramou uma gota de suor.
    - Estou bem - respondeu um tanto agressivo. Provavelmente o orgulho o teria levado a dizer a mesma coisa, ainda que estivesse  beira de um ataque das coronrias. 
Sorriu arreganhando os dentes, puxou para cima as correias da cadeirinha e foi em frente.
    Chegaram ao topo da segunda colina; depois, desceram por entre moitas da altura do corpo e um torvelinho de arbustos. A trilha se estreitou e, logo  frente, 
Louis viu Jud e Ellie passarem por baixo de um arco feito de velhas tbuas manchadas pelo tempo. Na madeira, em tinta preta meio apagada, liam-se com dificuldade 
as palavras: "Simitrio" de Bichos.
    Ele e Rachel trocaram um olhar divertido e cruzaram o arco, instintivamente dando as mos, como se tivessem ido l para se casarem.
    Pela segunda vez naquela manh, Louis ficou atnito.
    Ali no havia um tapete de folhas. Havia um crculo quase perfeito de mato cortado, alcanando quase vinte metros de dimetro. Confinava com uma vegetao rasteira 
muito densa e, num dos lados, um amontoado de velhas rvores derrubadas pelo vento dava ao lugar um aspecto um tanto sinistro e perigoso. Um homem tentando encontrar 
seu caminho atravs do bosque e passando por ali podia muito bem levar um susto, Louis pensou.
    A clareira estava cheia de marcadores de tmulos, obviamente feitos por crianas com quaisquer materiais que pudessem encontrar ou pedir emprestado: tbuas de 
caixotes, ripas, pedaos amassados de lata. E no entanto, vistos contra o permetro de arbustos baixos que disputavam um lugar ao sol e rvores desgarradas, suas 
formas canhestras, talvez por serem obra de seres humanos, no deixavam de sugerir alguma simetria. As matas ao fundo concediam ao lugar um tipo absurdo de solenidade, 
um fascnio que no era cristo, mas pago.
    -  fantstico - disse Rachel, deixando transparecer um certo temor.
    - Olha!-a filha gritou.
    Louis tirou Gage das costas e soltou-o da cadeirinha para que pudesse engatinhar livremente. Seus ombros suspiraram de alvio.
    Ellie corria de um marco para outro, soltando exclamaes perto de cada tmulo. Louis foi atrs dela enquanto Rachel ficou tomando conta do beb. Jud sentara-se 
de pernas cruzadas, encostado numa pedra saliente, fumando.
    Louis reparou que o lugar no parecia apenas obedecer uma ordem, um padro; na realidade, os marcos fnebres tinham sido agrupados em crculos mais ou menos 
concentricos.
    GATO SMUCKY, indicava uma lpide de tbua de caixote. A caligrafia era infantil, mas cuidadosa. ELE ERAOBEDIENTE. E embaixo:1971-1974. No mesmo crculo de marcos, 
mas um pouco alm, Louis encontrou um pedao de lousa natural. Havia um nome escrito numa tinta vermelha um pouco descorada, mas ainda perfeitamente legvel: Biffer. 
E embaixo, alguns versos:
    BIFFER, BIFFER, UM TIMO FAREJADOR / AT MORRER BIFFER S NOS DEU AMOR.
    - Biffer era o cocker spaniel dos Dessler - disse Jud. Cavara um buraco na terra com o calcanhar da botina e empurrava meticulosamente todas as cinzas do cigarro 
para dentro dele. - Tem um monte a mais que no ano passado. No  incrvel?
    -  - Louis concordou.
    Certos tmulos estavam cobertos de flores, algumas recentes, a maioria secas, muitas quase totalmente decompostas. Mais da metade das inscries a caneta ou 
pincel tinham se tomado total ou parcialmente ininteligveis. Havia marcos sem qualquer indicao, e Louis achou que, nesses, os dizeres teriam sido feitos a giz 
ou a lpis.
    - Mame! - Ellie gritou. - Aqui tem um peixe amarelo! Venha ver!
    - No preciso ver - disse Rachel, atraindo a ateno de Louis. Ela se mantinha  parte, alm do crculo mais afastado, parecendo bastante incomodada. Louis pensou: 
Mesmo aqui ela fica transtornada. Jamais Rachel se sentira  vontade perto dos vestgios da morte. No que ele imaginasse,  claro, que algum pudesse se sentir 
realmente bem num ambiente fnebre, mas o mal-estar de Rachei era sempre excessivo e, provavelmente, vinha desde a morte da irm, que morrera muito jovem, deixando 
uma cicatriz que logo no incio do casamento Louis aprendeu a no tocar. Chamava-se Zelda e morrera de meningite raquidiana. Possivelmente sua doena fatal tinha 
sido longa, dolorosa, feia; Rachel estava numa idade muito impressionveL Louis no via mal algum em que ela se esforasse para esquecer aquilo.
    Piscou-lhe um olho e ela sorriu agradecida.
    Louis olhou para cima. Estavam numa clareira natural. Achou que isso explicava por que a relva crescia tanto ali: o sol podia passar. Mesmo assim, para ser mantido 
daquela forma, o cemitrio precisaria ser cuidadosamente irrigado e drenado. Isto significa latas de gua arrastadas at l ou talvez bombas indgenas, ainda mais 
pesadas que a cadeirinha de Gage, carregadas em pequenas costas infantis. Tornou a pensar como era estranho que as crianas tivessem se dado quele trabalho por 
tanto tempo. A memria dos entusiasmos de sua prpria infncia, reforada pela vivncia com Ellie, era de fogo de palha, que ardia com muita fora, mas logo se extinguia.
    Para o interior dos crculos concntricos, os tmulos dos bichos se tornavam mais antigos; era cada vez menor o nmero de inscries que ainda podiam ser lidas, 
mas quando isso era possvel elas revelavam um longo perodo de tempo mergulhando no passado. L estava TRIXIE, MORTA NA RODOVIA A 15 DE SETEMBRO DE 1968. No mesmo 
crculo, havia uma grande tbua profundamente enterrada no solo. Nevadas e degelos tinham-na feito apodrecer e quebrar num dos cantos, mas Louis ainda conseguiu 
ler: EM MEMRIA DE MARTA, NOSSA COELHA DE ESTIMAO, MORTA A PRIMEIRO DE MARO DE 1965. E numa fileira  frente havia o GEN. PATTON (NOSSO BOM CO , a inscrio 
se tornava enftica), que morrera em 1958; e POLINSIA (que s poderia ser um papagaio, se Louis se lembrasse corretamente do personagem do Dr. Doolittle) - ele 
grasnira "Pli quer bolacha", pela ltima vez, no vero de 1953. No havia nada legvel nas duas fileiras seguintes, mas ainda a uma boa distncia do centro, gravado 
asperamente numa pedra de arenito, lia-se HANNAH, O MELHOR CACHORRO QUE J EXISTIU/1929-1939. Embora a pedra de arenito fosse relativamente macia (por causa disso, 
alis, a inscrio j era pouco mais que uma sombra), Louis achou difcil imaginar quantas horas que uma criana devia ter levado para talhar aquelas palavras. Uma 
tal manifestao de amor e pesar parecia-lhe desconcertante; Li estava algo que os adultos no fariam sequer pelos prprios pais ou por filhos mortos prematuramente.
    - Rapaz, isto j vem de muito tempo! - ele disse a Jud, que dera alguns passos em sua direo.
    Jud concordou com a cabea.
    - Venha aqui, Louis. Quero lhe mostrar uma coisa.
    Eles se aproximaram do terceiro crculo a contar do centro. Ali o padro circular, que parecia quase acidental nas fileiras mais afastadas, era bastante ntido. 
Jud parou na frente de um pedao de lousa cado. Ajoelhando-se cuidadosamente, fixou-o de novo.
    - Havia algumas palavras aqui - disse Jud. - Eu mesmo as gravei, mas agora desapareceram. Enterrei meu primeiro cachorro nesta cova. Spot. Ele morreu de velhice 
em 1914, o ano em que a Grande Guerra comeou.
    Desconcertado pela idia de que aquele cemitrio podia ser mais antigo que muitos cemitrios de gente, Louis caminhou at o centro e examinou vrios marcos. 
Nenhum era legvel e a maior parte j ia desaparecendo no cho da floresta. Havia um quase inteiramente coberto pela vegetao, e quando Louis o puxou para coloc-lo 
em p, ouviu um som fraco de rasgar, como um protesto vindo da terra. Alguns escaravelhos escapuliram pela parte do solo que ele expusera. Sentiu um ligeiro calafrio 
e pensou: Lpides para animais. No sei se isso me agrada muito.
    - De que poca so os tmulos mais antigos?
    - Rapaz, eu no sei - disse Jud, enfiando as mos nos bolsos. -O lugar j existia quando Spot morreu,  claro. Eu tinha um enorme bando de amigos naquele tempo. 
Eles me ajudaram a cavar o buraco para o Spot. Cavar aqui no  assim to fcil.. O solo  terrivelmente pedregoso, voc sabe, duro de remover... Tambm os ajudei 
s vezes. - Jud apontou com um dedo calejado. - Aqui ficou o cachorro de Pete LaVasseur, se no estou enganado, e ali h trs gatos de Alblon Groatley, enterrados 
todos na mesma fileira... O velho Fritchie sempre gostava de caar pombos. Eu, Al Groatley e Cai Hannah enterramos um desses pombos. Foi achado por um cachorro. 
Est bem ali. - Ele fez uma pausa com ar pensativo. - Fui o nico que sobrou dessa turma. Esto todos mortos agora, minha patota... Todos mortos.

        Louis no disse nada, ficou apenas contemplando os tmulos dos bichos, as mos nos bolsos.
    - O solo  pedregoso - Jud repetiu. - Acho que no se pode plantar nada aqui alm de cadveres.
    Do outro lado da clareira, Gage comeou a choramingar. Rachel levantou-o para instal-lo nos quadris.
    - Gage est com fome - disse ela. - Acho que devamos voltar, Lou. - Por favor, est bem?, seus olhos pediram.
    - Sem dvida - disse ele. Foi para junto da mulher, ps novamente a cadeirinha nas costas e se virou para que Rachel pudesse acomodar o guri. -Ellie! Ei, Ellie, 
onde est voc?
    - Est ali - disse Rachel, apontando para as rvores derrubadas pelo vento. Ellie escalava uma delas como se os troncos fossem da mesma famlia das barras do 
playground da escola.
    - Oh, meu bem, quer fazer o favor de descer da? - Jud chamou, alarmado. - Se voc coloca o p no buraco errado ou se um desses troncos rolar, pode quebrar um 
tornozelo.
    Ellie pulou de l.
    - Opa! - ela gritou, correndo para perto deles e limpando as mos nos quadris. No tinha um arranho, mas um galho seco e rombudo rasgara-lhe as calas.
    - Est vendo o que eu quis dizer? - Jud perguntou, acariciando-lhe os cabelos. - Mesmo quem est acostumado a andar em floresta no tenta escalar esses troncos 
velhos. Prefere dar a volta. Arvores cadas numa pilha ficam traioeiras. So capazes de mord-la se voc bobear.
    -  verdade? - Ellie perguntou.
    - E verdade. Esto empilhadas como canudinhos, voc v. Se a gente pisar no lugar errado, todas elas podem rolar numa grande avalanche.
    Ellie se virou para Louis.
    - E mesmo, papai?
    - Acho que sim, meu bem.
    A menina se virou para as rvores cadas e gritou:
    - Olhem aqui! Vocs rasgaram minha cala, suas rvores estpidas!
    Os trs adultos riram. As rvores cadas no. Apenas continuaram esbranquiando-se ao sol como faziam h dcadas. Para Louis, pareciam restos do esqueleto de 
um monstro h muito falecido, um ser ferido de morte por algum bravo e gentil cavaleiro. Ossos de drago, deixados ali como gigantesco monumento funerrio.
    Ocorreu-lhe at que era conveniente demais a existncia das rvores cadas naquele ponto da trilha, conveniente o modo como se achavam entre o cemitrio de bichos 
e as profundezas dos bosques. (Mais tarde, distraidamente, Jud Crandall chamaria s vezes aqueles bosques de "bosques indgenas".) Sua casualidade parecia demasiado 
artificial, demasiado perfeita para ser apenas um trabalho da natureza. Se...
    Ento Gage pegou uma das oreihas do pai e torceu, gritando de satisfao. Louis esqueceu tudo sobre as rvores cadas no bosque alm do cemitrio de bichos. 
Estava na hora de voltar para casa.

        

          No dia seguinte, Ellie se aproximou dele um tanto perturbada. Louis montava um modelo em seu escritrio. Era um Rolls-Royce Silver Ghost, de 1917, com 
680 peas e mais de 50 partes mveis. Estava quase pronto e ele j podia imaginar o chofer de libr, descendente direto dos cocheiros ingleses dos sculos XVIII 
e XIX, imperialmente sentado ao volante.
    Desde os dez anos, era louco por modelos. Comeara com uma corveta da Primeira Guerra Mundial que o tio Carl lhe dera, montara a maioria dos avies da Revell 
e passara a coisas maiores e melhores quando adolescente e rapaz. Tivera uma fase de barcos em garrafas, uma fase de armamentos, um perodo em que construra revlveres 
to perfeitos que era difcil acreditar que no atirassem quando se puxasse o gatilho: Colts, Winchesters, Lugers, at mesmo um Buntiine Special. Nos ltimos cinco 
anos, foi a vez dos grandes transatlnticos. As miniaturas do Lusitnia e do Titanc estavam nas prateleiras de sua sala na universidade, e o Andrea Daria, terminado 
pouco antes de sarem de Chicago, navegava no console da lareira da sala de estar. Agora passara aos carros clssicos, e se o padro anterior continuasse, acreditava 
que s da a quatro ou cinco anos sentiria necessidade de montar alguma coisa diferente. Rachei encarava aquilo, na realidade seu nico hobby, com uma indulgncia 
de esposa. Supunha, no entanto, que essa indulgncia contivesse alguns elementos de desprezo; mesmo aps dez anos de casamento, provavelmente ela ainda esperava 
que um dia o marido se cansasse daqueles brinquedos. Era possvel que um pouco dessa atitude viesse do pai, que continuava acreditando, como no tempo do casamento 
dos dois, que ganhara um imbecil como genro.
    Talvez, ele pensou, Rachel tenha razo. Talvez uma bela manh eu acorde com trinta e sete anos de idade, ponha todos esses modelos no sto e comece a pensar 
como gente sria.
    Sria parecia Ellie.
    Ao longe, vibrando no ar claro da manh, ouvia-se o impecvel tanger dos sinos chamando os fiis para a missa de domingo.
    - Al, papai - disse ela.
    - Al, bonequinha. Que est havendo?
    - Oh, nada - ela respondeu, mas o rosto expressava outra coisa; o rosto dizia que havia muita coisa, e no coisas boas. O cabelo fora h pouco lavado e caa 
solto pelos ombros. Parecia muito louro, apesar do tom castanho que o vinha escurecendo dia a dia. Usava um vestido e ocorreu a Louis que a filha quase sempre punha 
um vestido aos domingos, embora a famlia no freqentasse a igreja.
    - O que voc est montando?
    Louis colava cuidadosamente um pra-lama.
    - D uma olhada nisso - disse ele, passando-lhe uma calota. - Est vendo esses dois erres ligados?  um bonito detalhe, no ? Se formos para Shytown no Dia 
de Ao de Graas e viajarmos num L-101 1, voc vai ver esses mesmos erres nas turbinas do avio.
    - So umas timas calotas.
    Ela as devolveu.
    - Escute - disse Louis -, se voc tiver um Rolls-Royce deve cham-las de "tampos de rodas". Se for suficientemente rica para possuir um Rolls-Royce, pode se 
dar ao luxo de esnobar um pouco. Quando eu fizer meu segundo milho, eu mesmo vou comprar um. O Rolls-Royce Corniche. Ento, quando Gage chegar  idade de se apaixonar 
por carros, j vai ter o baita automvel do pai para estrear.
    E por falar nisso, Eliie, em que voc est pensando? Mas as coisas no funcionavam assim com Ellie. No adiantava perguntar diretamente. A menina no gostava 
de revelar os seus segredos. Era um trao que Louis admirava na personalidade da filha.
    - Ns somos ricos, papai?
    - No - disse ele -' mas tambm no vamos morrer de fome.
    - Michael Burns na escola diz que todos os mdicos so ricos.
    - Bem, pode dizer a Michael Burns na escola que muitos mdicos ficam ricos, mas demora vinte anos... E ningum fica rico correndo de um lado para o outro na 
enfermaria de uma universidade. Fica-se rico sendo um especialista. Um ginecologista, um ortopedista, um neurologista. Esses ficam ricos mais depressa. Pra quem 
enfrenta a dureza, como eu, demora mais tempo.
    - Ento, por que voc no  um especialista, papai?
    Louis pensou de novo nos modelos e no modo como um dia simplesmente no quis mais construir avies de guerra, do mesmo modo como se cansou dos tanques Tiger 
e das peas de artilharia, do mesmo modo, tambm, como passou a achar (quase da noite para o dia, parecia-lhe agora) que construir barcos em garrafas era montono 
demais; e ento ele imaginou como seria passar toda a vida examinando ps de crianas  procura de um dedo em martelo ou calando luvas finas, de ltex, para tatear 
por canais vaginais com um dedo educado, em busca de calombos ou leses.
    - Eu no ia gostar - disse ele.
    Church entrou no escritrio, fez uma pausa, inspecionou o ambiente com os olhos verdes brilhando. Depois pulou silenciosamente para o parapeito da janela e pareceu 
disposto a dormir.
    Ellie olhou para ele e franziu a testa, o que Louis julgou excessivamente estranho. Geralmente, Ellie contemplava Church com uma expresso de amor to vigorosa 
que era quase comovente. Ela comeou a perambular pelo escritrio, observando as diferentes miniaturas e, num tom quase despreocupado, disse:
    - Puxa, havia um monte de tmulos l no "simitrio" de bichos, no  papai?
    Ah, a est a coisa, Louis pensou, mas no virou a cabea; aps examinar as instrues, comeou a pr as lanternas traseiras no Rolls.
    -  mesmo, filha - disse ele. - Acho que mais de cem.
    - Papai, por que os bichos no vivem o mesmo tempo que a gente?
    - Bem, certos animais vivem mais ou menos o mesmo tempo - ele respondeu - e alguns vivem at muito mais. Os elefantes tm uma vida bem longa e existem tartarugas-do-mar 
to velhas que a gente realmente no sabe qual  a verdadeira idade delas.. . Ou talvez se possa at saber, mas  difcil de acreditar.
Ellie rejeitou a explicao.
        - Elefantes e tartarugas-do-mar no so bichos de estimao. Bichos assim no vivem muito tempo de jeito nenhum. Michael Burns diz que cada ano que um cachorro 
vive  como nove da gente.

    - Sete - Louis corrigiu automaticamente. - Sei onde quer chegar, meu bem, e h alguma verdade nisso. Um cachorro com doze anos de idade  um cachorro velho. 
Olhe, h uma coisa chamada metabolismo, e o que o metabolismo parece fazer  contar o tempo. Bem, ele tambm faz outras coisas... Certas pessoas, como sua me, podem 
comer muito e continuar magras devido ao metabolismo. Outras pessoas, eu, por exemplo, simplesmente engordam se comerem um pouquinho a mais. Nossos metabolismos 
so diferentes, a verdade  essa. Mas o que o metabolismo faz  principalmente servir como relgio no corpo dos seres vivos. Os ces tm um metabolismo mais ou menos 
rpido. O metabolismo das pessoas  muito mais lento. A maioria de ns vive cerca de setenta e dois anos. E pode acreditar, setenta e dois anos  um tempo muito 
longo.
    Como Ellie parecia realmente preocupada, ele fez fora para parecer mais sincero do que suas verdadeiras sensaes lhe mandavam ser. Estava com trinta e cinco, 
mas achava que aqueles anos tinham passado to rpidos e efmeros quanto uma corrente de vento na fresta de uma porta.
    - As tartarugas-do-mar, porm, tm um metabolismo ainda mais len...
    - E os gatos? - Ellie perguntou olhando de novo para Church.
    - Bem, os gatos vivem tanto tempo quanto os cachorros - o pai respondeu. - Pelo menos a maioria deles.
    Era mentira e ele sabia disso. Os gatos vivem perigosamente e com freqncia tm mortes trgicas, em geral antes de suas prprias expectativas de vida. Ali estava 
Church, cochilando no sol (ou, pelo menos, parecia), Church que toda noite dormia pacificamente na cama de sua filha, Church que fora to engraadinho quando filhote, 
que certa vez ficou todo emaranhado num novelo de l. E, no entanto, Louis j o vira atacar de surpresa um pssaro com a asa quebrada, os olhos verdes brilhando 
de curiosidade e - sim, ele seria capaz de jurar - frio prazer. Raramente Church matava o que conseguia pegar, mas tinha havido uma importante exceo, um grande 
rato, provavelmente apanhado na viela entre o prdio de apartamentos onde moravam e o prdio vizinho. Church realmente preparara o ataque quele rato. Ao v-lo junto 
do rato e com o focinho salpicado de sangue, Rachel, h seis meses grvida de Gage, teve de correr para o banheiro e vomitar. Vidas violentas, mortes violentas. 
Podem ser atacados e dilacerados por um cachorro, pois nem todos os cachorros so como os ces enfatuados e tolos dos desenhos animados; podem tambm ser apanhados 
por gatos mais fortes, mortos por uma bola de veneno, atropelados por um carro. Os gatos so os gangsters do mundo animal, vivendo fora da lei e freqentemente morrendo 
por causa disso. Era muito grande o nmero dos que no envelheciam ao p da lareira.
    Mas talvez aquilo no fosse coisa para contar  filha de cinco anos, uma menina que, pela primeira vez, encarava o fato da morte.
    - Quero dizer... - Louis continuou -, Church tem apenas trs anos agora, e voc tem cinco. Ele ainda pode estar vivo quando voc for uma moa de quinze anos 
e estiver no segundo ano da escola secundria. E isso ainda est muito longe.
    - No acho que esteja longe - disse Ellie, e agora sua voz tremia.
- No est longe mesmo.
    Louis abandonou a pretenso de continuar montando o modelo e fez sinal para que ela se aproximasse. Ellie sentou-se no colo do pai. Louis ficava impressionado 
em ver como a filha era bonita, beleza que a perturbao emocional s fazia acentuar. Tinha a pele morena, quase a pele de uma grega. Tony Benton, um dos mdicos 
com quem trabalhara em Chicago, costumava cham-la "princesinha ndia".
    - Meu bem - disse ele -, se dependesse de mim, Church viveria cem anos. Mas no sou eu quem dita as regras.
    - Quem  ento? - ela perguntou, e com infinito desprezo acrescentou: - Deus, no ?
    Louis reprimiu o mpeto de rir. Aquilo era bastante srio.
    - Deus ou algum - disse ele. - Os relgios tambm param... Isso  tudo que eu sei. No temos garantia de nada, querida.
    - No quero ver Church como todos aqueles bichos mortos! - ela explodiu, subitamente chorosa e enfurecida. - No quero que Church morra nunca! Ele  o meu gato! 
Ele no  o gato de Deus! Que Deus fique com o gato dele! Deus pode ter todos os malditos gatos que quiser e matar todos eles! Mas Church  meu!
    Houve passos na cozinha e Rachel deu uma espiada no escritrio, sobressaltada. Ellie estava chorando no peito de Louis. Dera voz ao seu horror; pusera-o para 
fora; sua face fora descoberta e podia ser encarada. Agora, mesmo que no pudesse remedi-lo, poderia enfrent-lo.
    - Ellie - disse o pai, embalando-a -, escute, Ellie, Church no est morto; est ali, dormindo.
    - Mas podia estar morto - ela soluou. - Pode estar, a qualquer momento.
    Louis continuava a afag-la. Certo ou errado, acreditava que a filha chorava pela inevitabilidade da morte, pelo fato de a morte ser to impermevel aos argumentos 
ou s lgrimas de uma menina; acreditava que Ellie chorava por sua cruel imprevisibiidade e devido  maravilhosa e terrvel capacidade que tm os seres humanos de 
transformar smbolos em concluses (concluses que podem ser belas e generosas ou extremamente sinistras). Se todos aqueles animais tinham morrido e tinham sido 
enterrados, ento Church tambm podia morrer...
    (a qualquer momento!)
    ...        e ser enterrado; e se isso podia acontecer com Church, tambm podia acontecer com sua me, seu pai, seu irmozinho. Com ela mesma. A morte era uma 
idia vaga; o "simitrio" de bichos era real. Na textura daquelas lpides grosseiras estavam gravadas verdades que mesmo a mente de uma criana podia entender.
    Seria fcil mentir, assim como mentira sobre a expectativa de vida dos gatos. Mas uma mentira seria lembrada mais tarde e, quem sabe, acrescentada  lista de 
coisas negativas que as crianas sempre atribuem aos pais. A prpria me de Louis dissera-lhe uma mentira, uma mentira incua sobre as mulheres encontrarem os bebs 
de manh cedo no mato quando realmente queriam t-los. Por mais inofensiva que tivesse sido essa mentira, Louis jamais a perdoara, como jamais perdoara a si mesmo 
por ter acreditado.
    - Meu bem - disse ele -, isso acontece. Faz parte da vida.
    -  uma parte ruim! - ela protestou. - Uma parte muito ruim!
    No havia resposta para aquilo. A menina chorava, mas as lgrimas iam parar. Era o primeiro passo para ficar em paz, mesmo que fosse uma paz incmoda, com uma 
verdade que nunca poderia ser eliminada.
    Apertava a filha nos braos e ouvia os sinos da igreja na manh de domingo; os sinos flutuavam pelos campos de outono. Algum tempo depois das lgrimas cessarem, 
Louis percebeu que, como Church, a filha tinha cado no sono.


    Levou-a para a cama e desceu para a cozinha, onde Rachel batia com fora a massa de um bolo. Falou de sua surpresa com a reao de Ellie em plena manh; no 
era caracterstico dela.
    - No - disse Rachel, pousando a tigela sobre a pia, com um golpe vigoroso. - No , mas acho que passou quase toda a noite acordada. Ouvi como rolou na cama 
e Church miou para sair por volta das trs horas. Ele s faz isso quando Ellie est inquieta.
- Mas por que estaria...?
        - Ora, voc sabe por qu! - Rachel respondeu com raiva. - Aquele maldito cemitrio de bichos,  essa a razo! Ficou realmente transtornada, Lou. Foi o primeiro 
cemitrio de qualquer tipo que ela viu, e simplesmente... a perturbou. Sem dvida, no estou com nenhuma vontade de agradecer ao seu amigo Jud Crandall por essa 
bela excurso.
    E sem ningum esperar, ele  meu amigo, Louis pensou, ao mesmo tempo atnito e chateado.
    - Rachel...
    - No quero que ela volte l.
    - Rachei, o que Jud disse sobre a trilha  verdade.
    - No  a trilha e voc sabe disso - Rachei retrucou. Pegou de novo a tigela e continuou a bater o bolo ainda com mais fora. -  aquele lugar maldito. No  
saudvel. Crianas indo at l e cuidando dos tmulos, conservando a trilha limpa.. . Que merda de coisa mais mrbida! Seja qual for a doena que tenham as crianas 
daqui, no quero que Ellie a pegue.
    Louis encarou-a, perplexo. Tinha quase certeza de que uma das coisas que mantivera firme o casamento dos dois (quando os casamentos de seus amigos desmoronavam 
a cada ano) era o respeito que tinham pelo "mistrio" - a idia percebida, mas nunca expressa de que, quando se vai ao fundo do poo, talvez no exista nada de casamento, 
unio; cada alma permanece sozinha e essencialmente fechada numa individualidade rebelde. A estava o mistrio. E por mais que se acredite conhecer o parceiro, s 
vezes nos vemos num beco sem sada e podemos cair no buraco. E outras vezes (raramente, graas a Deus), enfrenta-se um slido bolso de absoluta estranheza, alguma 
coisa como a turbulncia com cu claro que pode golpear um avio aparentemente sem nenhum motivo. Pode ser uma atitude ou crena de que nunca se tenha suspeitado, 
algo to peculiar (ao menos para ns) que parea quase psictico. E ento, se dermos valor ao nosso casamento e  nossa paz de esprito, devemos nos afastar de mansinho; 
no podemos esquecer que a ira diante de uma tal descoberta  o territrio preferido dos loucos que acreditam que uma mente possa conhecer outra.
    - Querida,  apenas um cemitrio de bichos - disse ele.
    - O modo como estava chorando ainda agora... - disse Rachel, apontando para a porta do escritrio com a colher cheia de massa. - Voc acha que para ela  apenas 
um cemitrio de bichos? Isso vai deixar uma cicatriz, Lou. No. Ela no vai mais l. No  a trilha,  o lugar. Agora j est pensando que Church vai morrer!
    Por um momento, Louis teve a impresso absurda de ainda estar conversando com Ellie; ela subira em pernas de pau, vestira uma roupa da me e pusera uma mscara 
muito engenhosa, muito realista de Rachel. At a expresso era a mesma - emburrada e enrgica na superfcie, mas profundamente magoada por baixo.
       Ele insistiu, porque aquilo no parecia to inofensivo, no era uma coisa que pudesse deixar passar em deferncia quele mistrio.., ou quela individualidade. 
Insistiu porque achou que Rachel no percebia algo que saltava quase brutalmente aos olhos, e isso s era possvel se os estivesse fechando propositalmente.
    - Rachel - disse ele -, Church vai morrer.
    Ela encarou furiosa o marido:
    - Este no  o problema - disse, pronunciando cuidadosamente cada palavra, como se falasse a uma criana retardada. - Church no vai morrer hoje nem amanh...
    - Foi o que tentei dizer a ela...
    - Nem depois de amanh, nem provavelmente daqui a anos...
    - Querida, no podemos ter certeza ......
    -  claro que podemos! - ela gritou. - Estamos cuidando muito bem dele, ele no vai morrer, ningum vai morrer por aqui, e eu no entendo por que voc tem de 
deixar uma menina toda transtornada por causa de uma coisa que s quando ela for mais velha vai ser capaz de compreender!
    - Rachel, escute...
    Mas Rachel no pretendia escutar. Estava colrica.
    - J  bem difcil ter de enfrentar a morte quando ela acontece... Seja de um gato, de um amigo ou de um parente... No  preciso transform-la numa... maldita 
atrao turstica... Um campo na flo-floresta para a-animais...
    As lgrimas corriam-lhe pelo rosto.
    - Rachel - disse Louis, tentando pr as mos em seus ombros. Ela o repeliu com um gesto brusco.
    - No importa! - disse. - Voc no tem a menor idia do que estou falando!
    Louis suspirou.
    - Estou me sentindo como se tivesse cado num alapo escondido e encontrado um enorme mastodonte - brincou, esperando um sorriso. No obteve nenhum; negros 
e chamejantes, os olhos da mulher grudavam-se nele. Estava furiosa; no apenas zangada, mas realmente furiosa. - Rachel
- comeou de novo, no sabendo exatamente o que dizer at que a frase se completou -, como voc dormiu a noite passada?
    - Oh, rapaz - ela disse num tom desdenhoso, virando a cabea, mas no sem antes revelar um lampejo de mgoa nos olhos. - Isto  realmente astucioso. Realmente 
astucioso. Voc nunca muda, Louis. Quando alguma coisa no est bem, a culpa  de Rachel, certo? Rachel est tendo uma de suas esquisitas reaes emocionais.
    - No  justo o que est dizendo.
    - No?
    Rachel levou a tigela com a massa de bolo para a extremidade do balco ao lado do forno e ali colocou-a com outra pancada. Depois, comeou a untar uma frma, 
os lbios apertados.
    Louis falou num tom paciente:
    - Escute Rachel, no h nada de errado se uma criana descobre alguma coisa sobre a morte. Na realidade, acho at que  necessrio que isso acontea. A reao 
de Ellie, o choro, me pareceu perfeitamente natural.
    - Oh, pareceu natural - disse Rachel girando nos calcanhares para enfrentar o marido. - Parece muito natural uma criana chorar desesperadamente por um gato 
que est vivo e cheio de sade...
    - Pare com isso - Louis protestou. - No faz sentido o que est dizendo.
    - No quero mais discutir.
    - Ah, mas vamos discutir - ele disse, zangado. - Voc falou o que quis. Agora  a minha vez, est bem?
    - Ela no vai mais l! Pelo que me diz respeito, o assunto est encerrado!
    - Desde o ano passado, Ellie sabe de onde vm os bebs - disse Louis pausadamente. - Demos a ela o livro de Myers e conversamos sobre o assunto, est lembrada? 
Ns dois concordamos que as crianas deviam saber de onde vm.
    - Isso nada tem a ver com...
    - Mas tem a ver,  claro! - Louis protestou num tom spero. -Quando conversei com Ellie no escritrio, sobre Church, fiquei pensando em minha me e na histria 
que ela me contou de crianas nascendo em repolhos, quando perguntei como as mulheres tinham bebs. Nunca esqueci essa mentira. Acho que as crianas nunca esquecem 
as mentiras que os pais contam.
    - De onde vm os bebs nada tem a ver com um maldito cemitrio de bichos! - Raquel clamou, e seus olhos disseram: Pode falar dia e noite se quiser, Louis; pode 
falar at ficar roxo, mas no vou aceitar a comparao.
    Mesmo assim, ele tentaria.
    - Ela sabe como as pessoas nascem; aquele lugar no bosque simplesmente fez com que quisesse saber tudo sobre o outro lado das coisas.  perfeitamente natural. 
Na realidade, acho que  a coisa mais natural..
    - Quer parar com isso? - a mulher gritou de repente, realmente gritou, e Lous recuou, alarmado. Seu cotovelo esbarrou no saco de farinha de trigo aberto sobre 
o balco. O saco tombou e entornou no cho da cozinha. A farinha se espalhou numa nuvem branca.
    - Oh, merda - Louis exclamou desolado.
    No andar de cima, Gage comeou a chorar.
    - Muito bom - disse ela, agora tambm chorando. - Voc acordou o beb. Obrigado por essa bela, tranqila, relaxante manh de domingo.
    Quando a mulher cruzou por ele, Louis segurou-a pelo brao.
        - Quero lhe fazer uma pergunta - disse ele -, porque sei que qualquer coisa, literalmente qualquer coisa, pode acontecer aos seres vivos. Como mdico, eu 
sei disso. Quer ter de explicar um dia  sua filha o que aconteceu se Church ficar com cinomose ou leucemia (gatos so muito propensos  leucemia, voc sabe)... 
Ou se for atropelado na estrada? Quer ter de explicar  sua filha, Rachel?      
         - Deixe-me em paz - ela quase sibilou. A raiva na voz, porm, era sobrepujada pelo magoado e desconcertante terror em seus olhos. No quero falar sobre 
isso, Louis, e voc no vai me obrigar, eles pareciam dizer. - Deixe-me subir, quero pegar Gage antes que ele caia do ber ...
    - Porque talvez voc  quem devesse explicar - disse ele. - Pode dizer a Ellie que no conversamos sobre isso; pessoas sadias no conversam sobre isso, elas 
simplesmente enterram. . . Opa!, no diga "enterram", pode lhe causar um complexo.
    - Eu odeio voc! - Rachel soluou e se desvencilhou do marido.
    Ento,  claro, ele ficou com pena, e,  claro, era tarde demais.
    - Rachel..
    Ela se afastou bruscamente, chorando muito.
    - Deixe-me sozinha. J fez o que queria.
    Parou na porta da cozinha e se virou. As lgrimas escorriam pelo rosto.
    - No quero mais ver este assunto sendo discutido na frente de Eilie. Estou avisando, Lou. A morte no tem nada de natural. Nada. Como mdico, voc devia saber 
disso.
    Deu meia-volta e saiu, deixando Louis na cozinha vazia, que ainda vibrava com as vozes dos dois. Por fim, ele foi apanhar uma vassoura na copa. E enquanto varria, 
refletiu sobre as ltimas frases da mulher e a enorme divergncia de opinio, que por tanto tempo permanecera abafada.
Como mdico, ele sabia que a morte, exceto talvez a morte durante o parto, era a coisa mais natural do mundo. Os impostos no eram to naturais, os conflitos humanos 
tambm no, nem os conflitos sociais, as discusses e a pancadaria. No fundo, s havia o relgio e as lpides, que sofriam eroso e ficavam annimas com o decorrer 
do tempo. Mesmo as tartarugas-do-mar e as sequias gigantes tm de acabar algum dia.
    - Zelda - ele disse em voz alta. - Deus, aquilo deve ter sido muito terrvel!
    A dvida era se seria melhor deixar as coisas como estavam ou tomar alguma providncia...
    Inclinou a p na lata de lixo e a farinha deslizou como um sopro suave, cobrindo de branco as caixas de papelo abertas e as latas usadas.


         - Espero que Eliie no tenha ficado impressionada - disse Jud Crandail.
    No pela primeira vez Louis achou que o homem tinha uma estranha - e um tanto desagradvel - capacidade de pr cuidadosamente o dedo no ponto dolorido.
    Estava sentado com Jud e Norma na varanda dos Crandalls, bebendo mate em vez de cerveja. A noite refrescara. Na Rodovia 15, o trfego que vinha do fim de semana 
parecia bastante intenso; as pessoas deviam achar que cada fim de semana com tempo bom era o ltimo antes da chegada do inverno. No dia seguinte, Louis assumiria 
plenamente suas funes na enfermaria da Universidade do Maine. Desde a vspera, os estudantes tinham comeado a chegar, enchendo apartamentos em Orono e dormitrios 
no campus, fazendo as camas, revendo conhecidos e, sem dvida, deplorando o inicio de outro ano com aulas comeando s oito e comidas sem gosto. Rachel estivera 
o dia todo indiferente com ele (gelada, seria melhor dizer). Sabia que quando atravessasse a estrada para voltar a casa ela j estaria deitada. Muito provavelmente 
Gage estaria dormindo com ela, os dois muito apertados num dos lados da cama, o beb correndo o risco de cair. Teria, sem dvida, trs quartos da cama para se instalar, 
um espao que ia parecer um grande deserto estril.
    - Eu disse que espero...
    - Ah, desculpe - disse Louis. - Estava distrado. Ela ficou um pouco perturbada, sim. Como adivinhou?
    - Como eu disse, vemos as crianas indo e vindo pelo caminho. -J ud pegou carinhosamente a mo da esposa e sorriu para ela. - No  verdade, querida?
    - Grupos e grupos de crianas - disse Norma Crandall. - E, alis, gostamos muito de crianas.
    - As vezes o cemitrio de bichos  o primeiro encontro cara a cara com a morte que elas tm - disse Jud. - Vem pessoas morrer na tev, mas sabem que no  de 
verdade...  como naqueles velhos filmes de mocinho que passavam nos cinemas na vesperal de sbado. Na tev e nos filmes de mocinho, as pessoas s pem a mo na 
barriga ou no peito e caem duras. Aquele lugar ali no morro deve parecer muito mais real para a maioria delas do que todos esses filmes e programas de tev, voc 
no acha?
    Louis concordou com a cabea, pensando: Diga isso  minha mulher, experimente!
    - Parece que algumas crianas nem ligam, ou pelo menos no d pra notar... Mas acho que mesmo essas levam o que sentem no bolso, para examinar depois, em casa, 
como todas as outras coisas que encontram na rua. A maioria sempre reage bem. Mas algumas... Voc se lembra daquele menino que se chamava Holloway, Norma?
    Norma balanou afirmativamente a cabea. O gelo chocalhava um pouco no copo que segurava. Os culos estavam pendurados no peito e os faris de um carro passando 
iluminaram rapidamente a corrente que prendia a armao.
    - Teve uns pesadelos!... - disse ela. - Sonhos de cadveres saindo do cho e no sei o que mais. Depois o cachorro dele morreu... A nica coisa que se pode imaginar 
 que tenha comido alguma bola de veneno, est lembrado, Jud?
    - Bola de veneno - Jud repetiu balanando a cabea. - Foi o que a maioria das pessoas pensou, . Aconteceu em 1925. Billy Holloway devia ter dez anos. Depois 
quis chegar a senador. Se candidatou para a Cmara dos Deputados mais tarde, mas perdeu... Isso foi pouco antes da Guerra da Coria.
    - Ele e alguns amigos fizeram um funeral para o cachorro - Norma lembrou. - Era apenas um vira-lata, mas Bily gostava muito dele. Recordo que os pais ficaram 
um pouco contrariados com o enterro, por causa dos pesadelos do filho, mas os garotos levaram a coisa  frente. Os meninos mais velhos fizeram um caixo, no foi, 
Jud?
Jud concordou com a cabea e bebeu at o fim o copo de mate.
    - Dean a Dana Hail - disse o velho. - Eles e o outro garoto com que Biily costumava brincar... No consigo lembrar o primeiro nome dele, mas tenho certeza que 
era um dos filhos dos Bowie. Est lembrada dos Bowie, Norma? Moravam na Estrada Central, na velha casa de Brochette...
    - Sim! - Norma respondeu, to entusiasmada como se tudo tivesse acontecido na vspera...  E talvez fosse assim que as coisas surgissem em sua mente. - Foi um 
Bowie! Alan ou ...
        - Ou talvez Kendall - Jud acrescentou. - De qualquer modo, lembro que eles tiveram uma discusso terrvel sobre quem ia carregar o caixo. A urna do cachorro 
no era muito grande e s dava para dois levarem. Dean e Dana Hall disseram que eles  que deviam levar porque tinham feito o caixo e, alm disso, eram gmeos... 
Acho que era uma questo de harmonia. Billy acho que no tinham intimidade suficiente com Bowser (era o nome do cachorro) para carregar o caixo. "Meu pai diz que 
s amigos ntimos podem segurar na ala", ele argumentava, "no carpinteiros."
    Jud e Norma riram e Louis sorriu.
    - Estavam a ponto de comear a brigar quando Mandy Holloway, a irm de Billy, resolveu ir buscar o quarto volume da Enciclopdia Britnica - disse Jud. - Naquela 
poca, o pai, Stephen Holloway, era o nico mdico deste lado de Bangor e deste lado de Bucksport. A famlia dele era a nica famlia de Ludlow que podia se dar 
ao luxo de ter uma enciclopdia.
    - Foram tambm os primeiros a ter luz eltrica - Norma interveio.
    - Como eu ia dizendo - Jud continuou -, Mandy voltou esbaforida, o nariz em p, uma fila de meninos atrs dela (todos na faixa dos oito anos), as anguas esvoaando, 
e na mo aquele livro enorme. Billy e o menino Bowie (acho que o primeiro nome era Kendali e, se no me engano, chocou-se contra o solo e morreu queimado em Pensacola, 
onde treinavam pilotos para a guerra no incio de 42), os dois j estavam quase dispostos a conceder aos gmeos Hall o privilgio de carregar o pobre velho viralata 
para o campo-santo.
    Louis comeou a rir um pouco, mas logo estava s gargalhadas. Podia sentir o resto de tenso que sobrara da spera discusso com Rachei comeando a se dissipar.
        - Ento ela disse: "Esperem! Esperem! Olhem isto!" Todos eles pararam e olharam. E ela pegou aquele puta livro...
    - Jud - disse Norma num tom de advertncia.
    - Desculpe, querida; voc sabe que eu vou me empolgando e...
    - Eu sei - disse ela.
    - E ela pegou aquele bendito livro e abriu em FUNERAIS! Havia uma gravura da Rainha Vitria passando desta para melhor com muita gente lhe desejando boa viagem. 
Havia dezenas de sujeitos de cada lado do caixo, alguns suando e fazendo fora pra levantar o bicho, outros apenas em volta, de casacas pretas e colarinhos franzidos, 
como se estivessem esperando o anncio do cavalo vencedor na pista do jquei. E Mandy disse:
"Quando  uma cerimnia fnebre de estado voc pode ter o nmero de pessoas que quiser pra levar o caixo! O livro est dizendo!"
    - E isso resolveu o problema? - Louis perguntou.
    - Eles deram um jeito. Acabou havendo cerca de vinte crianas junto do caixo e todas procuravam imitar exatamente o que tinham visto na gravura; s que no 
havia casacas com colarinhos franzidos, nem aqueles chapus pretos, altos. Mandy organizou os detalhes. Colocou-os em fila e deu uma flor a cada um: dentes-de-leo, 
orqudeas, margaridas... Alis, eu sempre achei que o pas perdeu uma boa oportunidade quando Mandy Holloway no foi eleita para o Congresso. - Ele riu e balanou 
a cabea. -De qualquer modo, esse cerimnia acabou com os pesadelos de Billy sobre o cemitrio de bichos. Ele chorou seu co, esgotou a tristeza e foi em frente. 
E  o que todos ns fazemos, eu acho.
    Louis pensou outra vez na quase histeria de Rachel.
    - Ellie logo vai superar isso - disse Norma, mudando de posio na cadeira. - Voc deve estar pensando, Louis, que aqui s conversamos sobre a morte. Bem... 
Jud e eu estamos ficando velhos,  verdade, mas acho que ainda no atingimos o estgio de nos comportarmos como urubus.
    - Ora, no diga isso - Louis protestou -  claro que no...
    - S que no  m idia comear a ter uma tranqila familiaridade com a morte - ela continuou. - Nos dias de hoje... eu no sei... parece que ningum quer conversar 
nem pensar sobre o assunto. Foi retirado da televiso porque as pessoas acham que pode fazer mal s crianas... fazer mal  cabea delas... E as pessoas esto querendo 
caixes fechados para no terem de olhar os restos mortais ou de dizer adeus ao defunto. Parece que querem esquecer a morte.
        - E ao mesmo tempo - Jud replicou - enchem a tev por cabo com todos aqueles filmes mostrando pessoas... - ele olhou para Norma e pigarreou - ... mostrando 
pessoas fazendo o que geralmente as pessoas s fazem com as cortinas fechadas. Esquisito como as coisas mudam de uma gerao para outra, no ?
    - Sim - disse Louis. - Acho que sim.
    - Bem, ns somos de uma poca diferente - Jud continuou, quase num tom de desculpa. - Tnhamos maior intimidade com a morte. Vimos a epidemia de gripe espanhola 
aps a Grande Guerra, mes morrendo com os filhos, crianas morrendo de infeco e febres que hoje os mdicos podem curar num passe de mgica. No tempo em que eu 
e Norma ramos jovens, se voc tinha cncer, ora, isso era o mesmo que uma sentena imediata de morte. No havia tratamento por radiao nos anos 20! Duas guerras, 
assassinatos, suicdios.
    Ele ficou em silncio por um momento.
    - Vimos a morte ao mesmo tempo como amiga e inimiga - disse por fim. - Meu irmo Pete morreu de um apndice supurado em 1912, quando Taft era presidente. Pete 
s tinha quatorze anos e podia atirar uma bola de beisebol mais longe que qualquer garoto da cidade. Naquele tempo, no se precisava fazer um curso numa universidade 
para estudar a morte ou seja l como vocs a chamem na escola de medicina. Naquele tempo, ela entrava na casa da gente, cumprimentava, sentava e tomava uma sopa, 
mas s vezes podamos sentir que dava um belisco na nossa bunda.
    Desta vez Norma no o corrigiu; s balanou a cabea, em silncio.
    Louis ficou de p e se espreguiou um pouco.
    - Eu tenho de ir - disse. - Amanh vai ser um dia cheio.
    - Sim, a roda viva comea amanh pra voc, no ? - disse Jud, tambm se levantando. Viu que Norma tambm queria se erguer e deu-lhe a mo. A mulher se levantou 
com um esgar.
    - No se sente muito bem esta noite, no ? - Louis perguntou.
    - Nem to mal - disse ela.
    - Ponha uma compressa de gua quente quando for deitar.
    - Vou pr - disse Norma. - Sempre fao isso. E Louis... No se preocupe com Ellie. Ela ficar muito ocupada este outono conhecendo os novos amiguinhos. No vai 
ter tempo de ficar pensando naquele lugar. Talvez um dia ela e outras crianas subam at l, tornem a pintar alguns marcos, tirem as ervas daninhas ou plantem flores. 
As vezes fazem isso, quando lhes d na telha. E Ellie vai se sentir mais  vontade. Vai comear a sentir aquela tranqila familiaridade de que falei.
    Deixe minha esposa ouvir isso.
    - Se tiver um tempinho, passe por aqui amanh  noite pra me contar como foi na universidade - disse Jud. - E vou ganhar de voc numa partida de cribbage*.(Jogo 
de baralho para dois jogadores, semelhante ao buraco; cada jogador tem de formar determinadas seqncias de cartas. N. do T.)
    - Bem, talvez voc  que entre bem - disse Louis. - Acho que vou lhe dar uma surra.
    - Doutor - disse Jud com grande sinceridade -, seria mais fcil eu deixar um curandeiro do seu gnero tratar de mim do que algum me dar uma surra no crbbage.
    Na noite de fim de vero, enquanto Jud e Norma ainda riam, Louis atravessou a estrada em direo  sua casa.
        Rachel dormia com o beb, deitada de lado e enroscada numa posio fetal, protegida. Louis acreditava que ela esqueceria tudo. J tinha havido outras discusses, 
outros momentos de indiferena no casamento, embora sem dvida aquela briga fosse a pior de todas. Sentia-se ao mesmo tempo triste, aborrecido e infeliz, querendo 
pr um ponto final no problema, mas no sabendo como, no sabendo sequer se o primeiro passo devia partir dele. Tudo parecia to sem sentido... Um pouco de vento 
que por um estratagema das emoes ganhara propores de ciclone. Sim, sem dvida, tinha havido outras brigas e discusses, mas no to amargas quanto a provocada 
pelas lgrimas e pelas perguntas de Ellie. A seu ver, no era preciso um grande nmero de golpes como aquele para que a prpria estrutura do casamento sofresse um 
dano irreparvel... E um dia, ento, em vez de ler sobre um divrcio no jornal ou no bilhete de um amigo ("Bem, acho que  melhor contar a voc antes que saiba pela 
boca de outra pessoa, Lou; Maggie e eu estamos nos separando.. ."), seria ele quem teria de comunicar o rompimento com RacheL
    Tirou a roupa em silncio e ps o despertador para as seis. Depois tomou um banho, lavou o cabelo, fez a barba e, antes de escovar os dentes, tomou uma colher 
de sal de fruta - o mate de Norma provocara um pouco de acidez. Era possvel tambm que a m digesto viesse do fato de encontrar a mulher daquele jeito, apertada 
num dos lados da cama. O territrio  o problema que define tudo, ser que no aprendera isso em algum curso de histria da universidade?


           Tudo pronto e a noite terminada, Louis foi se deitar... Mas no pde dormir. Havia mais alguma coisa, algo que o importunava. Os dois ltimos dias rodopiavam 
sem parar em sua mente. Ouvia Rachel e Gage respirarem quase exatamente um depois do outro. GEN. PATTON... HANNAH, O MELHOR CACHORRO QUE J EXISTIU... MARTA, NOSSA 
COELHA DE ESTIMAO... Ellie, furiosa. NO QUERO QUE GHURCH MORRA NUNCA!... ELE NO  O GATO DE DEUS! QUE DEUS FIQUE COM O GATO DELE! Rachei, tambm furiosa. Como 
mdico, voc devia saber... Norma Crandall dizia: Parece que querem esquecer a 
Morte. . . E Jud, a voz terrivelmente firme, terrivelmente segura, uma voz de outra era: Sentava e tomava uma sopa, mas s vezes podamos sentir que dava um belisco 
na nossa bunda.
          E essa voz se fundia  voz de sua me, mentindo-lhe sobre o sexo aos quatro anos, mas dizendo a verdade sobre a morte aos doze, quando a prima Ruthe morreu 
num estpido acidente de automvel. Fora imprensada no carro do pai por um garoto que, depois de encontrar as chaves de um caminho do Departamento de Obras Pblicas 
e resolver dar um passeio nele, descobriu que no sabia faz-lo parar. O garoto sofreu apenas pequenos arranhes e contuses; o Fairlane do tio Carl, porm, ficou 
destroado. Ela no pode ter morrido, fora a reao de Louis  afirmao direta da me. Tinha ouvido as palavras, mas no conseguia apreender o sentido. Por que 
a senhora est dizendo que ela morreu? Do que est falando? E depois, como uma reflexo tardia: Quem vai fazer o enterro? Pois embora o pai de Ruthie, tio de Louis, 
fosse agente funerrio, no podia acreditar que o prprio tio Carl quisesse enterr-la. Em sua confuso e medo cada vez maiores, aquilo lhe pareceu a questo principal. 
Era um autntico quebra-cabea, do tipo "quem vai cortar o cabelo do barbeiro da aldeia"?
          Imagino que Donny Donahue fa o enterro, a me respondeu. Seus olhos estavam vermelhos, parecia extremamente exausta; na realidade devia estar quase caindo 
de cansao. Ele  o melhor amigo de seu tio no negcio. Oh, Louis... Pobre da Ruthie, to meiga... No posso suportar a idia de que ela tenha sofrido... Reze comigo, 
est bem, Louis? Reze comigo pela alma de Ruthie. Preciso que voc me ajude.
         Assim, os dois se ajoelharam na cozinha, ele e a me, para rezar. E foi a prece que finalmente esclareceu as coisas: se a me estava rezando pela alma de 
Ruthie Creed, significava que o corpo no existia mais. Na frente dos olhos fechados de Louis formou-se uma imagem terrvel de Ruthie indo  festa dos seus treze 
anos: as rbitas apodrecidas estampadas no rosto, os fungos cobrindo-lhe o cabelo ruivo. A imagem provocou no s um horror nauseante como uma terrvel sensao 
de piedade.
    Gritou na maior agonia mental de sua vida: Ela no pode ter morrido! MAME, ELA NO PODE TER MORRIDO, EU GOSTO MUITO DELA!
    E veio a resposta da me, a voz desanimada, mas ainda evocando imagens (campos adormecidos sob um cu de final de outono, ptalas de rosas cinzentas e de pontas 
reviradas, covas vazias espumando de algas - podrido, decomposio, p):
 verdade, meu bem, sinto muito, mas  verdade. Ruthie se foi.

    Louis estremeceu, ao lembrar: A morte  a morte... O que mais se pode fazer?
    E subitamente descobriu o que tinha esquecido de fazer, por que ainda estava acordado, na vspera do primeiro dia do novo emprego, revivendo lutos antigos.
    Levantou-se, caminhou em direo  escada, mas no corredor fez repentinamente a volta para o quarto de Ellie. A filha dormia tranqila, de boca aberta, usando 
o baby-doll azul que, sem dvida, j lhe estava pequeno. Meu Deus, Ellie, pensou Louis, voc est crescendo como milho. Church jazia entre os tornozelos abertos 
em leque, tambm morto para o mundo. Se  que as comparaes se aplicam.
    No andar de baixo, havia um quadro de avisos na parede perto do telefone. Nele estavam afixados vrios recados, lembretes e contas. Em cima, as caprichadas letras 
maisculas de Rachel brincavam: COISAS PARA ADIAR O MAIS POSSIVEL. Louis pegou a agenda de telefones, procurou um nmero e anotou-o numa folha do bloco de notas. 
Sob o nmero, escreveu: Quentin L. Jolander, veterinrio. Marcar consulta para Church. Se Jolander no fizer, indicar quem faa.
    Olhou para a anotao, perguntando se era a poca apropriada. Sabia que era. Alguma coisa concreta tinha resultado de todo o mau pressentimento daquele dia. 
Decidira entre a manh e a noite (sem ao menos saber que estava decidindo): no queria mais ver Church atravessando a estrada.
    Seus velhos pontos de vista sobre o assunto assaltaram-lhe a mente: a idia de que a castrao inferiorizaria o gato, convertendo-lhe, antes do tempo, num macho 
gordo e velho, que se contentaria em dormir perto da lareira esperando que algum lhe pusesse alguma coisa na vasilha de comida. No queria que Church ficasse assim. 
Gostava de Church como ele era, magro e esperto.
        Do lado de fora, uma grande jamanta roncou pela escurido da Rodovia 15, e isso o decidiu. Afixou a nota no quadro de avisos e foi se deitar.

    No dia seguinte, no desjejum, Ellie viu o novo lembrete no quadro e perguntou ao pai o que significava.
    - Significa que Church vai ter de fazer uma operao muito simples - disse Louis. - Provavelmente ter de passar uma noite no veterinrio. Mas quando voltar 
para casa, vai ficar em nosso terreno, no vai querer perambular tanto por a.
    - Nem atravessar a estrada? - Ellie perguntou.
    Ela s tem cinco anos, Louis pensou, mas sem dvida no  tola.
    - Nem atravessar a estrada - ele concordou.
    - Puxa! - disse EIlie, e isto encerrou o assunto.
    Louis, que estava preparado para uma discusso spera, talvez mesmo histrica, sobre Church ter de passar uma noite fora de casa, ficou um tanto assombrado pela 
facilidade com que a filha aceitou a coisa. E pde ento imaginar o quanto ela devia estar preocupada. Talvez Rachel no estivesse de todo errada sobre o efeito 
do "simitrio" de bichos em sua cabecinha.
    A prpria Rachel, que dava a Gage o ovo matinal, atirou-lhe um grato olhar de aprovao e Louis sentiu alguma coisa afrouxar no peito. O olhar dizia que a hostilidade 
tinha passado; as pazes estavam feitas. Para sempre, ele esperava.
    Mais tarde, depois que o grande nibus amarelo tragara Ellie para lev-la  escola, Rachel aproximou-se dele, ps os braos em volta de seu pescoo e o beijou 
suavemente na boca.
    - Voc foi muito gentil em resolver fazer isso - disse ela -, e desculpe por eu ter me comportado como uma vbora.
    Louis devolveu o beijo, sentindo-se, no entanto, um tanto chateado. Ocorreu-lhe que "desculpe por eu ter me comportado como uma vbora", embora no fosse repetido 
com muita freqncia, no era tambm uma coisa nova nos lbios da mulher. Geralmente era o que Rachel dizia depois de recuperar o controle.


    Enquanto isso, Gage dera alguns passos incertos para a porta da frente e pela mais baixa vidraa contemplava a estrada vazia.
    - nibus - disse ele, balanando-se indiferente  fralda cada. -Ellie-nibus.
    - Est crescendo depressa - disse Louis.
    Rachel concordou com a cabea.
    - Depressa demais para mim, eu acho.
    - Espere s at ele se livrar das fraldas - disse Louis. - A  que no vai mais parar.
    A mulher riu e entre os dois estava de novo tudo bem, completamente bem. Ela recuou um passo, deu um ltimo ajuste no lao da gravata do marido e olhou-o de 
cima a baixo com ar crtico.
    - Estou aprovado, sargento? - ele perguntou.
    - Est muito bonito.
    - Oh, eu sei. Mas ser que estou parecendo um cirurgio do corao? Um homem de duzentos mil dlares por ano?
    - No, parece apenas o velho Lou Creed - ela respondeu e riu. - O gato na roda viva.
    Louis olhou para o relgio.
    - O gato na roda viva tem de pr seus sapatos de swing e ir embora - disse.
    - Est nervoso?
    - Um pouco.
    - No fique nervoso - disse ela. - So sessenta e sete mil dlares por ano para aplicar esparadrapos, receitar remdios de resfriado e ressaca, dar plulas s 
moas...
    - No esquea a loo pra chatos - disse Louis sorrindo. Uma das coisas que o deixara espantado em seu primeiro giro pela enfermaria fora o suprimento dessas 
loes. Parecia-lhe enorme, mais adequado a um hospital do exrcito que  enfermaria de um campus universitrio de tamanho mdio.
    A Srta. Charlton, a enfermeira-chefe, sorrira ironicamente:
    - Os apartamentos nas vizinhanas do campus so muito midos. O senhor vai ver.
    Ele achou que era possvel.
    - Tenha um bom dia - disse Rachel beijando-o de novo, um beijo longo. Quando o largou, tinha uma expresso ao mesmo tempo severa e zombeteira. - E pelo amor 
de Deus no esquea que  o diretor, no um interno ou um residente de segundo ano!
    - Sim, doutora - ele respondeu humildemente e os dois riram. Por um momento, teve vontade de perguntar: Foi Zelda, meu bem?  Zelda que voc tem  flor da pele? 
Esta  a zona perigosa? Zelda e o modo como ela morreu? Mas no ia perguntar, no agora. Como mdico, sabia muitas coisas, e embora o fato de que a morte fosse to 
natural quanto o nascimento pudesse ser fundamental, o fato de que no se deve mexer numa ferida que mal comeou a cicatrizar tambm estava longe de ser desprezvel.
    Ento, em vez de perguntar, limitou-se a beij-la de novo e sair.
    Era um bom comeo, um bom dia. O Maine estava dando um show no fim do vero, o cu azul e sem nuvens, a temperatura estabilizada em vinte e dois graus extremamente 
agradveis. Chegando ao fim da rodovia e comeando a enfrentar o trfego da manh, Louis lembrou que, at aquele momento, ainda no vira um nico indcio da espetacular 
queda das folhas que acompanha o outono. Mas podia esperar.
    Acelerou o Honda Civic, seu segundo carro e aquele que sempre usaria para ir  universidade. Rachel ia chamar o veterinrio de manh, Church seria castrado, 
e isso ia pr um ponto final em todo aquele clima absurdo de medos da morte e cemitrios de bichos (era engraado como a grafia 'simitrio", estampada no arco que 
levava ao lugar, ameaava penetrar em sua mente e quase comeava a parecer correta). Mas no havia necessidade de pensar na morte numa bela manh de setembro como 
aquela.
    Ligou o rdio do carro e girou o ponteiro do mostrador at encontrar os Ramones atacando Rockaway Beach. Aumentou o volume e cantou junto - mal, mas com grande 
satisfao.


    A primeira coisa em que reparou ao entrar nos terrenos da universidade foi como o trfego aumentara sbita e espetacularmente. Havia movimento de carros, movimento 
de bicicletas e um enxame de motoqueiros. Teve de parar bruscamente para se esquivar de duas motos que vinham dos lados de Dunn Hall. Foi uma freada to forte que 
pde sentir as correias do cinto no peito e ouvir os pneus guinchando. Sempre ficava irritado pela mania que tem os motoqueiros (os ciclistas tinham o mesmo hbito 
exasperante) de presumir que suas responsabilidades caducam automaticamente assim que comeam a correr. Esto, afinal, fazendo evolues. Um deles fez sinal a Louis 
com um dedo, sem ao menos virar o rosto. Louis suspirou e seguiu em frente.
    A segunda coisa em que reparou foi que a ambulncia no estava em seu lugar no pequeno estacionamento da enfermaria, o que lhe deu um susto nada agradvel A 
enfermaria estava equipada para prestar o socorro bsico a qualquer doente ou acidentado sem gravidade; o grande vestbulo conduzia a trs salas de exame e tratamento 
bastante bem-equipadas e, ao fundo, havia duas alas com quinze leitos cada uma. Mas no existia um centro cirrgico, nem nada semelhante. No caso de acidentes mais 
srios, havia a ambulncia, que poderia levar uma pessoa gravemente doente ou ferida para o Centro Mdico do Maine Oriental. Steve Masterton, o mdico-assistente 
que ajudara Louis a se familiarizar com as instalaes, mostrava o dirio dos dois anos anteriores com justificado orgulho: tinha havido apenas trinta e oito sadas 
de ambulncia nesse perodo... No era nada mau, j que atendiam a uma populao estudantil de mais de dez mil pessoas e a populao total da universidade chegava 
a quase dezessete mil.
    E l estava ele, em seu verdadeiro primeiro dia de trabalho, com a ambulncia ocupada.
    Estacionou diante de uma tabuleta recentemente pintada, onde se lia "Reservado para o Dr. Creed", e entrou correndo na enfermaria.
    Encontrou Charlton, uma mulher de cinqenta anos, bastante ativa apesar dos cabelos que iam embranquecendo. Estava na primeira sala de exames, tirando a temperatura 
de uma moa que usava jeans e uma frente-nica. A moa tinha se queimado demais ao sol, Louis observou; o descascar estava bem avanado.
    - Bom-dia, Joan - disse ele. - Onde est a ambulncia?
    - Oh, tivemos uma verdadeira tragdia - disse Charlton, tirando o termmetro da boca da estudante e vendo a temperatura. - Steve Masterton chegou s sete horas 
e viu uma grande poa sob o motor e as rodas da frente. Parecia um problema de radiador. Tiveram de lev-la para a oficina.
    - timo - disse Louis, mas apesar do tom irnico se sentia aliviado. Pelo menos no sara transportando um ferido, que fora seu temor inicial. - Quando a teremos 
de volta?
    Joan Charlton riu.
    - Conhecendo a mecnica e lanternagem universitrias, eu diria que a ambulncia deve estar de volta em meados de dezembro... Numa embalagem de Natal. - Virou-se 
para a estudante: - Est com meio grau de febre. Tome duas aspirinas e fique fora de boates e lugares escuros.
    A moa desceu da cama. Dispensou a Louis um rpido olhar de avaliao e saiu da sala.
    - Nossa primeira freguesa do novo semestre - disse Charlton com mau-humor. - No incio no conseguia ficar de boca fechada e quase deixou o termmetro cair.
    - Parece que no simpatizou com ela.
    - Conheo bem o tipo... Oh, temos a outra espcie tambm: atletas que continuam a jogar com fraturas nos ossos e problemas nos tendes porque no querem ficar 
no banco de reserva, querem ser machos de verdade, no querem deixar o time perder, mesmo pondo em risco toda uma carreira futura. Mas, de repente, vemos a nossa 
Senhorita Meio Grau de Febre...
    Charlton sacudiu a cabea para a janela, onde Louis pde ver a moa. Com o bronzeado descascando, ela caminhava na direo do complexo de dormitrios Gannett-Cumberland-Androsc

oggin. Na sala de exames, dera a impresso de ser uma pessoa que no se sentia absolutamente bem, mas se esforava para no demonstrar. Agora, andava com ar desenvolto, 
os quadris balanando vivamente, observando os colegas e sendo notada por eles.
    - A tpica hipocondraca universitria - disse Charlton, pondo o termmetro num esterilizador. - Vamos v-la dezenas de vezes este ano. Suas visitas sero mais 
freqentes antes de cada ciclo de provas. E uma semana antes dos exames finais, aparecer aqui convencida de que tem pneumonia ou est ficando paraltica de um brao 
ou de uma perna. A bronquite ser seu ltimo refgio. Vai conseguir escapar de quatro ou cinco provas (aquelas dos professores babacas, para empregar o termo que 
eles usam) e fazer segundas chamadas mais fceis. Ficam sempre mais doentes quando sabem que um teste ou exame final ser de mltipla escolha e no um seminrio 
de dissertao.
    - Meu Deus!, no vamos ficar to cticos logo de manh! - disse Louis. Ele parecia, de fato, um tanto perplexo.
    Charlton atirou-lhe uma piscadela que o fez sorrir.
    - Eu no esquento a cabea, doutor. E o senhor tambm no devia.
    - Onde est Stephen?
    - Na sala do senhor, abrindo a correspondncia e tentando decifrar a ltima tonelada de besteira burocrtica que chegou da reitoria - disse ela.

         Louis entrou na enfermaria. Apesar do cinismo de Charlton, sentia-se satisfeito em seu posto.

    Quando olhasse para o passado, quando suportasse pensar de novo em tudo aquilo, Louis perceberia que o pesadelo realmente comeou por volta das dez horas daquela 
manh, quando trouxeram para a enfermaria Victor Pascow, um rapaz agonizante.
    At aquele momento, as coisas tinham sido bem tranqilas. As nove, meia hora aps a chegada de Louis, entraram as duas adolescentes que iam fazer um estgio 
como auxiliares de enfermagem. O turno delas ia at s trs horas. Louis ofereceu uma rosca com glac e uma xcara de caf a cada uma e conversou com elas por cerca 
de quinze minutos, instruindo-as sobre seus deveres e, o que talvez fosse ainda mais importante, alertando-as para o que podia surgir alm do mbito limitado desses 
deveres. Depois, Charlton assumiu a coisa. Quando a enfermeira levou as duas da sala, Louis pde ouvi-la perguntar:
    - Alguma de vocs tem alergia a merda ou vmito? Aqui vero as duas coisas aos montes.
    - Oh, Deus - Louis murmurou e cobriu os olhos. No fundo, porm, estava sorrindo. Uma figura durona como Charlton nem sempre seria to perigosa.
    Comeou a preencher o extenso formulrio da reitoria, que representava um completo inventrio do estoque de drogas e do equipamento mdico.
    (- Todo ano - dissera Steve Masterton num tom irritado. - Todo maldito ano  a mesma coisa. Por que voc no escreve a: "Instalaes completas para transplantes 
do corao, valor aproximado, oito milhes de dlares"? Eles iam fundir a cuca!)
    E Louis estava totalmente absorvido naquilo, pensando apenas ao mesmo tempo como uma xcara de caf cairia bem, quando Masterton gritou da sala de espera:
- Louis! Ei, Louis, venha at aqui! Temos uma enrascada!
    O        quase pnico na voz de Masterton fez com que sasse correndo. Saltara da cadeira como se, de um modo subconsciente, j estivesse  espera de alguma 
coisa. Um grito fino e lmpido, como um estilhaar de vidros, veio da mesma direo do berro de Masterton. Foi acompanhado pelo estalo de um tapa e a voz de Charlton:
    - Pare com isso ou saia j daqui! Pare com isso agora!
    Louis irrompeu na sala de espera e a princpio s teve conscincia do sangue - havia muito sangue. Uma das auxiliares soluava. A outra, branca como cera, pusera 
os punhos fechados nos cantos da boca, repuxando os lbios num grande esgar de nusea. Masterton estava ajoelhado, tentando suspender a cabea do rapaz estatelado 
no cho.
    Steve levantou os olhos para Louis, olhos aflitos, arregalados, assustados. Tentou falar. No conseguiu.
    Gente se aglomerava junto s grandes portas de vidro do Centro Mdico EstudantiL Espreitavam, as mos fazendo concha em volta dos olhos para eliminar os reflexos. 
A mente de Louis evocou uma imagem insana e inoportuna: sentado na sala de estar, uma criana de apenas seis anos, antes da me ir para o trabalho, de manh. Estava 
vendo televiso. E era o velho show Hoje, com Dave Garroway. Havia gente do lado de fora, assistindo boquiaberta Dave e seus convidados - Frank Blair e o incrvel 
J. Fred Muggs. Ele olhou ao redor e viu outras pessoas se aproximando das janelas. No podia fazer nada com portas de vidro, mas...
    - Feche as cortinas - ordenou  auxiliar que tinha gritado.
    Quando ela demorou a se mexer, Charlton deu-lhe uma palmada no traseiro.
    - Faa o que ele est mandando, menina!
    A auxiliar obedeceu mecanicamente. Um momento depois, as cortinas verdes tinham coberto as portas envidraadas. Charlton e Steve Masterton colocaram-se instintivamente 
entre o corpo do rapaz no cho e as portas, obstruindo o mais que podiam qualquer resto de viso.
    - Pegamos a maca, doutor? - Charlton perguntou.
    - Se for preciso, v peg-la - disse Louis, se agachando ao lado de Masterton. - Ainda no tive chance de dar uma olhada nele.
    - Vamos l - disse Charlton  moa que fechara as cortinas. Ela puxava de novo os cantos da boca com os punhos, provocando aquele esgar nada engraado de sorriso. 
Olhou para Charlton e gemeu:
    - Oh,ah...
    - Sim, oh, ah j  meio caminho andado. Vamos em frente.
    Deu um forte puxo na moa e conseguiu que ela se pusesse a caminho, as listas vermelhas e brancas da saia saracoteando em volta das pernas.
    Louis curvou-se sobre seu primeiro paciente na Universidade do Maine, em Orono.
    
    Era um jovem de uns vinte anos de idade, e Louis levou menos de trs segundos para fazer o nico diagnstico possvel: o jovem ia morrer. Metade da cabea fora 
esmagada. O pescoo estava quebrado. Uma clavcula se projetava do ombro direito contorcido e dilatado. Da cabea, sangue e um fluido amarelo, purulento, vertiam 
vagarosamente para o tapete. Louis podia ver o crebro do rapaz, um cinza esbranquiado pulsando atravs da parte despedaada do crnio. Era como olhar atravs de 
uma janela quebrada. A incurso teria talvez cinco centmetros de largura; se houvesse um beb naquele crnio, Louis quase poderia tir-lo por ali (se o homem fosse 
como Zeus, parindo pela testa). Era incrvel que ainda estivesse vivo. Em sua mente ouviu de repente a voz de Jud Crandall: s vezes podamos sentir que dava um 
belisco na nossa bunda. E sua me: a morte  a morte. Experimentou um absurdo mpeto de rir. A morte  a morte, tudo bem. Isso  categrico, meu chapa.
    Bradou para Masterton:
    - Mande vir a ambulncia. Vamos...
    - Louis, a ambulncia est...
    - Oh, Deus - disse Louis batendo na testa e se virando para Charlton. - Joan, o que se faz num caso desses? Chama-se a Segurana do Campus ou o Centro Mdico 
do Maine?
    Joan pareceu confusa, perturbada: coisa extremamente rara, Louis pensou. Mas a voz foi suficientemente calma quando respondeu:
    - Eu no sei, doutor. Nunca enfrentei uma situao dessas desde que trabalho na enfermaria.
    Louis raciocinou o mais rpido que pde.
    - Chame a polcia do campus. No podemos esperar o Centro Mdico do Maine mandar uma ambulncia. Podem levar o rapaz para Bangor num carro de bombeiro. Pelo 
menos tem uma sirene, luzes piscando. Faa isso, Joan.
    Antes dela sair da sala, Louis captou em seu rosto um olhar profundamente complacente e o interpretou. Aquele jovem, muito bronzeado e musculoso (que vinha de 
um vero onde talvez tivesse trabalhado pintando casas, dando lies de tnis ou recapeando estradas), aquele jovem vestido apenas com calo vermelho de ginstica 
com listras brancas ia morrer, no importa o que eles fizessem. Ia morrer mesmo se a ambulncia da enfermaria estivesse estacionada ali na frente, com o motor ligado, 
quando o trouxeram.
    Por incrvel que parea, o moribundo estava se mexendo. Os olhos tremeram e se abriram. Olhos azuis, a ris cercada de um anel de sangue. Era um olhar vazio 
ao redor, no vendo nada. Tentou mover a cabea, mas Louis fez uma certa presso para impedir que o fizesse, atento ao pescoo quebrado. O traumatismo craniano no 
eliminava a possibilidade de dor.
O buraco na cabea dele, oh Deus, o buraco na cabea dele.
    - Como foi que aconteceu? - perguntou a Steve, consciente de que, naquelas circunstncias, era uma pergunta estpida e sem sentido. A pergunta de um curioso. 
(Se bem que o buraco na cabea do homem confirmasse: diante dele, um mdico no passava de um curioso.) - Foi a polcia que o trouxe?
    - No, foram alguns estudantes. Usaram um cobertor como maca. Mas no sei o que houve.
    Depois Louis devia procurar saber como acontecera o acidente. Aquilo tambm fazia parte de seus deveres.
    - V l fora e ache os rapazes que o socorreram - disse Louis. -Entre com eles pela outra porta. Quero t-los a mo, mas no quero que vejam mais do que j viram.
    Satisfeito por poder se afastar do que estava acontecendo ali, Masterton caminhou para a porta e abriu-a, deixando entrar um rumor de conversa nervosa, curiosa, 
confusa. Louis escutou o barulho de uma sirene de polcia. Ento a segurana do campus j estava l. Sentiu uma espcie de alvio angustiado.
    O agonizante fazia um gorgolejar com a garganta. Tentava falar. Louis ouviu slabas - fonemas, pelo menos - mas as palavras eram pastosas, ininteligveis.
    Louis se inclinou sobre ele.
    - Vai ficar bom, rapaz.
    Pensou em Ellie e Rachel quando disse aquilo e seu estmago teve uma grande e desagradvel reviravolta. Ps a mo na boca e abafou um arroto.
    - Aaa - disse o rapaz. -A.....
    Louis olhou em volta e viu que o tinham deixado momentaneamente sozinho com o moribundo. Obscuramente, ouviu Joan Charlton gritando para as auxiliares que a 
maca estava no armrio de suprmentos da Sala Dois. Achou que no haveria qualquer possibilidade de que elas soubessem onde ficava a Sala Dois; afinal, era o primeiro 
dia de trabalho das duas. Estavam passando por um batismo de fogo no mundo da medicina. O tapete verde que forrava o cho do vestbulo estava encharcado de uma espcie 
de lodo arroxeado, que ia se expandindo em crculos ao redor da cabea destroada do jovem; felizmente, porm, o vazamento do fluido intercraniano tinha parado.
    - No "simitrio" de bichos - foi o guincho na voz do homem... e
ele comeou a sorrir. O sorriso tinha uma semelhana notvel com o esgar grotesco, histrico, da auxiliar que fechara as cortinas.
    Louis cravou os olhos no rapaz, a princpio se recusando a crer no que tinha ouvido. Pensou que devia ter sido uma alucinao auditiva. Ele fez mais alguns daqueles 
sons fonticos e meu subconsciente transformou-os em alguma coisa coerente, fez os sons se cruzarem com minha prpria experincia. Mas no foi isso que aconteceu 
e logo foi forado a admitir que no. Um terror difuso, insano, atingiu-o por inteiro e sua carne comeou a formigar num arrepio, um arrepio que realmente parecia 
deslocar-se para cima e para baixo nos braos e atravessar-lhe a barriga como ondas... Mesmo ento simplesmente recusou-se a acreditar. Sim, as slabas tinham sado 
dos lbios ensangentados do homem no tapete e de fato lhe chegaram aos ouvidos, mas aquilo s indicava que a alucinao fora ao mesmo tempo visual e auditiva.
    - O que voc disse? - ele sussurrou.
    E desta vez, ntida como as palavras de um papagaio ou de um pele vermelha cuja lngua tivesse uma ponta cortada, a frase foi indiscutvel:
    - No  o verdadeiro cemitrio.
    Os olhos eram ocos, sem viso, orlados de sangue; a boca mostrava os dentes no sorriso largo de uma carpa sem vida.
    O        horror envolveu Louis, envolveu-lhe o corao em suas mos frias e apertou. Subjugou-o, sujeitou-o mais e mais, at faz-lo ter vontade de fugir, correr 
daquela cabea sangrenta, contorcida, falando ali no cho da enfermaria. No era homem de crenas religiosas profundas, nem se inclinava para a superstio e para 
o oculto. No estava preparado para isso... Fosse l o que fosse.
    Resistindo com todas as suas foras ao mpeto de correr, aproximou-se ainda mais do rapaz.
    - O que foi que voc disse? - perguntou pela segunda vez.
    O        sorriso. Aquilo era mau.
    - O solo do corao de um homem  mais empedernido, Louis -murmurou o moribundo. - Um homem planta o que pode... E cuida do que plantou.
    Louis, ele pensou, nada ouvindo de forma consciente depois do prprio nome. Oh, meu Deus, ele me chamou pelo nome.
    - Quem  voc? - Louis perguntou numa voz trmula, com um tom de papel amassado. - Quem  voc?
    - Injun traz o meu peixe.
    - Como sabe o meu...
    - Nos deixe limpos. Saiba...
    - Voc...
    - A. - disse o rapaz e agora Louis acreditou que podia sentir o cheiro da morte em sua respirao, nos ferimentos internos, nas perdas de ritmo, colapso, runa.
    - O qu?
    Louis foi sacudido por uma descontrolada ansiedade.
- Aaaaaaaaa...
    O jovem de calo vermelho de ginstica comeou a tremer de cima a baixo. E de repente pareceu se congelar com uma trava em cada msculo. Os olhos perderam momentaneamente 
a expresso vaga e encontraram os de Louis. Ento tudo aconteceu muito rpido. Houve um mau cheiro. Louis pensou que ia, devia falar outra vez. Mas os olhos retomaram 
a expresso ....... e comearam a embaar. O homem estava morto.
    Louis recuou um pouco, vagamente consciente de que todas as suas roupas tinham grudado no corpo; estava ensopado de suor. A escurido tingia a sala, deixando 
cair suavemente um vu sobre seus olhos. Tudo comeou a oscilar de um lado para o outro. Era nauseante. Percebendo o que acontecia, afastou-se ainda mais do morto, 
enterrou a cabea entre os joelhos e cravou nas gengivas as unhas do polegar e do indicador da mo esquerda, at faz-las sangrar.
    Pouco depois, tudo comeou a clarear de novo.

    Ento a sala se encheu de gente, como se todos fossem atores esperando o momento de entrar em cena. Isto aumentou em Louis a sensao de irrealidade e desorientao 
- a fora dessas sensaes, que estudara nas aulas de psicologia mas nunca experimentara, deixaram-no bastante assustado. Era assim, ele supunha, que uma pessoa 
devia se sentir depois de algum ter jogado uma dose forte de LSD na sua bebida.
    Como uma pea encenada s para mim, ele pensou. Primeiro a sala  devidamente esvaziada para que o Feiticeiro moribundo possa recitar algumas linhas de obscura 
profecia, para mim e para mais ningum; depois ele morre e todos voltam.
    As auxiliares andavam tropegamente, cada uma segurando uma das pontas da maca que era usada para pessoas com leses na espinha ou no pescoo. Joan Charlton ia 
atrs delas, dizendo que a polcia do campus estava a caminho. O jovem fora atropelado por um carro em sua moto. Louis pensou nos motoqueiros que tinham atravessado 
aquela manh na frente do seu carro; sentiu as vsceras se embrulharem.
    Atrs de Charlton vinha Steve Masterton, com dois guardas da Segurana do Campus.
    - Louis, as pessoas que trouxeram Pascow esto na... - Ele interrompeu a frase pelo meio e disse num tom agudo: - Louis, voc est bem?
    - Estou bem - disse ele e se ps de p. A fraqueza ameaou envolv-lo de novo, mas acabou se dissipando. Louis tentava se recompor: -  Pascow o nome dele?
    Um dos guardas do campus respondeu:
    - Victor Pascow, segundo a moa que estava numa moto ao lado da dele.
    Louis olhou para o relgio e subtraiu dois minutos. Da sala para onde Masterton tinha levado as pessoas que socorreram Pascow vinha o som de uma moa soluando 
convulsivamente. Bem-vinda de novo  escola, menina, ele pensou. Tenha um bom semestre.
    - O Sr. Pascow morreu s dez e nove - disse.
    Um dos guardas limpou a boca com as costas da mo.
    - Louis, voc est mesmo bem? - Masterton perguntou de novo. - Est com uma aparncia terrvel.
    Louis abria a boca para responder quando uma das auxiliares deixou cair sua ponta de maca e correu da sala, vomitando pela frente do avental. O telefone comeou 
a tocar. A moa que soluava passou a gritar o nome do morto: "Vic! Vic! Vic!" Tumulto. Confuso. Um dos guardas perguntava se Charlton no podia arranjar um cobertor 
para cobrirem o rapaz e Charlton dizia que no sabia se tinha autoridade para requisitar um. Louis surpreendeu-se pensando num trecho de Maurice Sendak: "Deixe comear 
a algazarra selvagem!"
    De novo aquele riso nervoso subindo pela garganta, mas conseguiu impedi-lo de vir  tona. Ser que Pascow tinha dito realmente "simitrio" de bichos? Tinha dito 
realmente essas palavras? A coisa ameaava nocaute-lo, deix-lo fora de rbita. Mas a mente j comeava a cobrir aqueles maus momentos com uma pelcula protetora 
- polindo as arestas,
fazendo certas modificaes, desfazendo certas ligaes. Sem dvida, Pascow teria falado outra coisa (se  que chegou mesmo a falar); sob o choque, a inoportuna 
emoo do momento, Louis interpretou maL Muito provavelmente, o rapar apenas balbuciara alguns sons, como ele a princpio julgou.
    Louis tateou em busca de si mesmo, daquela parte dele que fizera com que a administrao da universidade o escolhesse entre cinqenta e trs candidatos para 
ocupar aquele cargo. Ningum estava no comando ali, ningum adotava uma atitude firme; a sala parecia cheia de pessoas desatinadas.
    - Steve, v dar um tranqilizante  moa que est na minha sala - disse ele, e o simples fato de dizer isso fez com que se sentisse melhor. Era como se estivesse 
dentro da cpsula de um foguete deixando um pequeno mundo. Este pequeno mundo,  claro, era o momento irracional em que Pascow tinha falado. Louis fora contratado 
para tomar a frente das coisas; era o que ia fazer.
    - Joan, d um cobertor ao guarda.
    - Doutor, no relacionamos...
    - No importa, d-lhe o cobertor assim mesmo. Depois v ver como est aquela estagiria.
    Olhou para a outra moa, que ainda segurava sua ponta de maca. Parecia contemplar o cadver de Pascow numa espcie de fascinao hipntica.
    - Estagiria! - disse Louis com rispidez e os olhos da moa se afastaram do corpo.
- Qu-qu-que ?
    - Qual  o nome da outra moa?
    - Qu-quem?
    - Aquela que vomitou - disse ele com aspereza proposital.
    - Ju-Ju-Judy. Judy DeLessio.
    - E o seu nome?
- Carla.
Agora, a moa parecia um pouco mais controlada.
    - Carla, v ver como est Judy. Mas antes traga o cobertor. Encontrar uma pilha deles no armrio do servio da Sala de Exames Nmero Um. Andem, todos vocs. 
Vamos tentar ser um pouco mais profissionais.
    Todos se mexeram. Os gritos na outra sala logo se aquietaram. O telefone, que parara de tocar, comeou de novo. Louis apertou o boto da linha sem tirar o fone 
do gancho.
    O mais velho dos guardas do campus tambm parecia mais tranqilo. Louis dirigiu-se a ele.
    - A quem devemos informar? Pode me dar um telefone?
    O        guarda balanou afirmativamente a cabea e comentou:
    - H dois anos no temos um caso desses. No  nada bom comear o semestre assim.
    - Sem dvida - disse Louis. Pegou o telefone e soltou a linha.
    - Al? Quem foi que... - comeou uma voz nervosa e Louis cortou a ligao. Depois, comeou a fazer suas chamadas.


    O        ritmo de trabalho no diminuiu at s quatro da tarde, depois que Louis e Richard Irving, chefe da Segurana do Campus, deram uma declarao  imprensa. 
A moto de Victor Pascow vinha acompanhada de duas outras motos, uma delas com sua noiva. Um automvel, conduzido por Tremont Withers, de vinte e trs anos, morador 
em Haven, no Maine, surgiu na estrada vindo do Ginsio Feminino Lengyll. Dirigia-se para o centro do campus em excesso de velocidade. O carro de Withers bateu na 
moto de Pascow, atirando-o de cabea contra uma rvore. A noiva, um amigo e dois transeuntes levaram Pascow para a enfermaria num cobertor. Ele morreu minutos depois. 
Withers seria processado sob as acusaes de direo perigosa, dirigir em estado de embriaguez e homicdio involuntrio.
    O editor do jornal do campus perguntou a Louis se ele diria que Pascow morreu em conseqncia dos ferimentos na cabea. Pensando no buraco atravs do qual o 
prprio crebro podia ser visto, Louis disse que preferia deixar o coroner2 do condado de Penobscot anunciar a causa da morte. O editor perguntou ento se os quatro 
jovens que levaram Pascow para a enfermaria no cobertor no poderiam, inadvertidamente, ter causado sua morte.
    - No - Louis respondeu. - De modo algum. Em minha opinio, o sr. Pascow ficou, infelizmente, mortalmente ferido depois de sofrer o choque.

2
Magistrado encarregado de inquritos judiciais. (N. do T.)



    Houve mais duas ou trs perguntas, mas aquela resposta realmente encerrara a conferncia de imprensa. Agora Louis estava em sua sala (Steve Masterton fora para 
casa h uma hora, logo depois da entrevista... para assistir ao noticirio da noite, Louis desconfiava) tentando juntar os cacos do dia - ou, talvez, estivesse apenas 
tentando cobrir com uma capa de rotina o que havia acontecido. Ele e Charlton folheavam as fichas do "fichrio central", onde se achavam catalogados os estudantes 
que, devido a alguma insuficincia crnica, freqentavam assiduamente a enfermaria. Havia vinte e trs diabticos, quinze epilticos, quatorze paraplgicos e outros 
casos variados: estudantes com leucemia, paralisia cerebral, distrofia muscular, estudantes cegos, dois mudos, e um caso de anemia dos glbulos vermelhos, novo para 
Louis.
    Talvez a tarde tenha atingido seu ponto mais baixo logo aps a sada de Steve. Charlton entrou e pousou na mesa de Louis um papel cor-de-rosa com um lembrete: 
O tapete de Bangor chegar amanh s nove.
    - Tapete? - ele perguntou.
    - Vamos ter de trocar o tapete - a enfermeira respondeu num tom de desculpa. - Aquela mancha no vai sair de jeito nenhum, doutor.
     claro que no. Louis levantou-se, foi at o dispensrio e encontrou um vidro de Tuinal, uma anfetamina, que seu primeiro colega de quarto na escola de medicina 
chamava de "Terra do Fim do Mundo".
    - Tome o bonde para a Terra do Fim do Mundo, Louis - ele costumava dizer. - Voc vai encontrar alguma Mary Paraso andando por l.
    Em geral, se recusava a acompanh-lo no passeio at a fabulosa Terra do Fim do Mundo, e talvez fizesse muito bem; seu companheiro de quarto foi desligado da 
universidade no meio do terceiro semestre e continuou viajando para a Terra do Fim do Mundo at chegar ao Vietn, como enfermeiro do exrcito. Louis s vezes o imaginara 
por l, vivo ou morto, os olhos saltando pelas rbitas, vendo Mary Paraso "correr pelas florestas".
    Mas precisava de alguma coisa. Se tivesse de ver aquele lembrete cor-de-rosa do tapete afixado no quadro de avisos sempre que levantasse os olhos do fichrio 
central, precisaria de alguma coisa.
    Circulava relativamente tranqilo pelo dispensrio quando a Sra. Baillings, a enfermeira da noite, introduziu a cabea na porta e disse:
    - Sua esposa, Dr. Creed. Na linha um.
    Louis olhou para o relgio e viu que eram quase cinco e meia; j devia ter ido embora h uma hora e meia.
    - Tudo bem, Nancy. Obrigado.
    Pegou o telefone e apertou a linha um.
    - Al, meu bem. Logo em meu...
    - Louis, tudo bem com voc?
    - Tudo.
    - Soube da histria pelo noticirio. Lou, que coisa terrvel! - Ela fez uma pausa. - Foi nas notcias do rdio. Puseram sua entrevista no ar. Voc estava muito 
bem.
    - Foi mesmo? Bom.
    - Tem certeza de que est tudo bem com voc?
    - Tenho, Rachel Estou timo.
    - Venha pra casa - disse ela.
    - J estou indo - ele respondeu.
    Ir para casa parecia uma boa idia.

    Rachel veio receb-lo na porta e deixou-o de boca aberta. Usava o suti de renda de que ele gostava tanto, calcinhas transparentes e nada mais.
    - Voc est deliciosa - disse Louis. - Cad as crianas?
    - Foram para a casa de Dandridge. Podemos ficar sozinhos at s oito e meia... O que nos d duas horas e meia. No vamos desperdi-las.
    Ela apertou-se contra o marido. Louis pde sentir uma suave, agradvel fragrncia... Perfume de rosas? Ps os braos em volta da mulher, primeiro na cintura, 
depois as mos encontraram as ndegas, enquanto a lngua de Rachel danava levemente nos seus lbios, passava para dentro da sua boca, lambia e disparava entre os 
dentes dele.
    Por fim houve uma pausa no beijo e Louis perguntou um tanto grosseiramente:
    -  voc o primeiro prato do jantar?
    - A sobremesa - ela respondeu, comeando a roar lenta e sensualmente os quadris na virilha e no ventre do marido. - Mas prometo que os outros pratos tambm 
sero bem gostosos.
    Ele tentou chegar logo ao ponto, mas ela escapuliu e pegou-o pela mo.
    - Primeiro vamos subir - disse.
    Puxou-o para junto da banheira com gua bastante quente, despiu-o devagar e fez com que entrasse. Calou uma luva-esponja um tanto spera que geralmente ficava 
pendurada sem ningum usar no cabide do chuveiro, ensaboou-lhe o corpo com jeito e depois enxaguou. Ele podia sentir o dia - aquele terrvel primeiro dia - indo 
lentamente embora. Rachei se molhara bastante e as calcinhas aderiram como uma segunda pele.
    Louis comeou a sair da banheira, mas ela o empurrou de volta.
    - Que...
    Agora a luva-esponja agarrava-o delicadamente - delicadamente, mas numa frico quase insuportvel, movendo-se devagar para cima e para baixo.
    - Rachel...
    O suor cobria-lhe o corpo e no vinha apenas do calor da banheira.
    - Chiii...
    Aquilo pareceu se prolongar eternamente. Quando ele se aproximou do gozo, a mo dentro da luva-esponja diminuiu o ritmo, quase parou. No chegou a parar de todo 
mas apertou, afrouxou, apertou de novo. Por fim, o clmax veio com tamanha intensidade que ele sentiu uma presso nos tmpanos.
    - Meu Deus - disse ainda trmulo quando conseguiu falar. - Onde voc aprendeu isso?
    - Com as escoteiras - ela respondeu num tom vaidoso.

    Rachei fizera um strogonoff que ficara fervendo durante o episdio da banheira, e Louis, que s quatro horas da tarde seria capaz de jurar que s no Natal conseguiria 
pr alguma coisa na boca, comeu dois pratos cheios.
    Depois ela o conduziu de novo para cima.
    - Agora - disse Rachel -, vamos ver o que voc pode fazer por mim.
    Levando tudo em conta, Louis achou que se mostraria  altura de enfrentar o desafio.

    Mais tarde, Rachel vestiu seu velho pijama azuL Louis se enfiou numa camisa de flanela, numa cala de veludo muito surrada (que Rachel chamava de pano de cho) 
e foi buscar os filhos.
    A jovem Srta. Dandridge quis saber do acidente e Louis fez um apanhado da coisa, dando-lhe menos informaes do que ela poderia obter no dia seguinte, lendo 
o Daily News de Bangor. No gostou de tocar no assunto (sentiu-se o mais ranoso dos tagarelas), mas a Srta. Dandridge no aceitaria dinheiro por cuidar das crianas 
e ele estava muito agradecido pela noite que tinha desfrutado com RacheL
    Gage adormeceu antes que Louis completasse o quilmetro e meio entre a casa de Dandridge e a sua; mesmo Ellie bocejava e tinha os olhos vidrados. Assim que chegou, 
mudou a fralda de Gage, encaixou-o na camisola de dormir e o levou para o bero. Depois leu para Ellie um livrnho de histrias. Como de hbito, a menina clamou: 
"Onde esto os supermonstros, as coisas terrveis?", sendo ela mesma uma experimentada "coisa terrvel"... Louis convenceu-a a se contentar com o gato de chapu 
que havia no pequeno livro. Adormeceu cinco minutos depois de Rachel vesti-la com a camisola de dormir e o pai lev-la para cima.
    Quando Louis tornou a descer, Rachel estava sentada na sala de estar com um copo de leite na mo e um leve romance policial de Dorothy Sayers aberto numa das 
coxas.
    - Louis, voc est bem mesmo?
    - Querida, estou timo - disse ele. - E obrigado. Por tudo.
    - Temos de nos divertir um pouco, no ? - ela disse com um sorriso meio enviesado, levemente malicioso. - Vai at a casa de Jud tomar uma cerveja?
    Ele abanou a cabea.
    - Hoje no. Estou morto de cansao.
    - Acho que tenho alguma coisa a ver com isso.
    - Tambm acho.
    - Ento pegue seu copo de leite, doutor, e vamos deitar.

    Louis pensou que talvez no conseguisse dormir, como freqentemente acontecia quando era interno num hospital e um dia particularmente difcil estava rodopiando 
na sua mente. Mas foi caindo docemente no sono, como se deslizasse, sem frico, por uma rampa ligeiramente inclinada. Lera, em algum lugar, que o ser humano comum 
no leva mais de sete minutos para se desligar completamente da agitao do dia. Sete minutos para o consciente e o subconsciente, como as paredes falsas das casas 
mal assombradas nos parques de diverses, girarem em seus eixos e conduzirem ao sono. Havia algo de extraordinrio nisso.
    Estava quase dormindo quando ouviu Rachel dizer, como de muito longe:
    - ... depois de amanh.
    - Hummmm?
    - Jolander. O veterinrio. Vai operar Church depois de amanh.
-        Oh.
    Church. Aproveite seus cojnes enquanto ainda os tem, Church, meu velho... E ento, Louis se desligou de tudo, foi caindo pelo buraco de um sono profundo e sem 
sonhos.


    Alguma coisa o despertou muito mais tarde, uma pancada suficientemente alta para faz-lo se sentar na cama, achando que EIlie podia ter cado ou o bero de Gage 
desabado. Mas a lua saiu de trs de uma nuvem, inundou o quarto com uma luz branca, fria, e ele viu Victor Pascow de p no vo da porta. A pancada fora de Pascow 
abrindo de repente a porta.
    Estava ali, a cabea destroada atrs da tmpora esquerda. O sangue secara em seu rosto, formando listas avermelhadas como uma pintura indgena. A clavcula 
se projetava esbranquiada. Sorria.
    - Venha comigo, doutor - disse Pascow. - Temos lugares onde ir.
    Lous olhou em volta. A mulher era um vago contorno sob o acolchoado amarelo e dormia profundamente. Olhou de novo para Pascow, que estava morto mas, de certa 
forma, ainda no morrera. Louis, porm, no teve medo. E quase de imediato entendeu por qu.
     um sonho, pensou, e s depois dessa idia reconfortante percebeu que, afinal, estava apavorado. Mas os mortos no, voltam;  fisiologicamente impossvel. Este 
rapaz est numa gaveta de autpsia em Bangor, com a cicatriz do legista - uma inciso em forma de Y - costurada no corpo. Provavelmente, aps tirar uma amostra do 
tecido, o legista enfiou o crebro na cavidade do trax e, para evitar vazamentos, encheu o crnio com papel marrom - o que era mais simples do que tentar encaixar 
de novo o crebro no crnio, como uma pea num quebra-cabea. Tio Carl, pai da infeliz Ruthie, contara-lhe que os legistas faziam isso; e fornecera-lhe, a esmo, 
informaes variadas que fariam Rachel, com sua fobia da morte, dar gritos de horror. Mas Pascow no estava l... De jeito nenhum, rapaz. Pascow estava numa gaveta 
refrigerada com uma etiqueta presa no dedo do p. E com toda a certeza, no est usando este calo vermelho de ginstica.
    No entanto, a compulso de se levantar foi muito forte. Os olhos de Pascow estavam cravados nele.
    Afastou as cobertas e pousou os ps no cho. O tapete felpudo - um velho presente de casamento dado pela av de Rachel - comprimia frios ndulos de l contra 
as solas dos ps. O sonho possua uma realidade notvel. Era to real que no caminhou na direo de Pascow... at que Pascow se virou e comeou a descer as escadas. 
A compulso de segui-lo foi ento demasiado intensa, embora no quisesse, mesmo num sonho, ser tocado por um cadver que anda.
    Mas Louis foi atrs. O calo de ginstica de Pascow brilhava.
    Cruzaram a saa de estar, a sala de jantar, a cozinha. Louis esperava que Pascow virasse a maaneta e puxasse o trinco da porta da cozinha, passando ao galpo 
que servia de garagem para a Civic e a camionete. Mas Pascow no fez isso. Em vez de abrir a porta, simplesmente passou atravs dela. E Louis pensou com ligeiro 
assombro:  assim que se faz? Fantstico! Qualquer um pode fazer isso!
    Ele tentou... E foi um tanto engraado encontrar apenas madeira impermevel. Ao que parece, tinha um corpo bem real, mesmo nos sonhos. Girou a maaneta da fechadura 
Yale, puxou o trinco e entrou no galpo-garagem. Pascow no estava l. Achou que Pascow teria simplesmente deixado de existir... Aquilo freqentemente acontecia 
com as pessoas nos sonhos. Com os lugares tambm... Primeiro voc estava nu do lado de uma piscina, com uma grande teso, e sua esposa discutia as possibilidades 
de uma transa conjunta com, digamos, Roger e a Srta. Dandridge; depois, num piscar de olhos, voc passava a escalar a encosta de um vulco havaiano. Talvez Pascow 
tivesse sumido porque o sonho ia entrar num segundo ato.
    Mas ao sair da garagem Louis viu-o de novo, nos fundos do terreno, sob a luz fraca do 
luar - junto ao incio da trilha.
    Agora o medo realmente o atingiu,. entrou suavemente por dentro dele, filtrou-se pelos poros e ocupou os espaos vazios de seu corpo como o vapor de uma fumaa 
suja. No queria ir at l. Parou. 
    Pascow olhou para trs e, sob a luz da lua, tinha os olhos prateados. Louis sentiu no estmago um desesperado fervilhar de horror. Aquele osso saliente, os cogulos 
de sangue... Mas era intil tentar resistir queles olhos. Ao que tudo indicava, era um sonho de estar sendo hipnotizado, dominado... De ser incapaz de alterar as 
coisas, do modo, talvez, como fora incapaz de alterar o fato da morte de Pascow. Voc pode passar vinte anos na escola e, mesmo assim, no consegue fazer nada quando 
lhe trazem um sujeito que bateu contra uma rvore com fora suficiente para abrir um buraco na cabea. Seria a mesma coisa se chamassem um bombeiro, um fazedor de 
chuva dos peles-vermelhas ou o homem da esquina.
    Mas enquanto esses pensamentos lhe atravessavam a mente, ele ia sendo impelido para a trilha. Seguia o calo de ginstica: ao luar, tinha o mesmo tom castanho-avermelhado 
do sangue coagulado.
    No estava gostando daquele sonho. Oh, Deus, de modo algum. Era tudo to real,os frios ndulos de l do tapete, o fato de no conseguir atravessar a porta do 
galpo quando uma pessoa podia (ou devia) ser capaz de atravessar portas e paredes em qualquer sonho que se desse ao respei.... . E agora, o fresco orvalho da relva 
nos ps descalos, aquela aragem da noite no corpo, apenas um sopro. Louis s vestia a cala curta do pijama. E logo que se viu sob as rvores, lascas de pinho o 
espetaram nas solas dos ps, outro pequeno detalhe um pouco mais real do que precisava ser.
    No importa. No importa. Estou em minha cama, em casa.  apenas um sonho, por mais que parea real e, como todos os outros sonhos, vai parecer ridculo de manh.i 
Minha mente desperta descobrir suas incoerncias.
    A ponta de uma rvore seca roou com fora em seu corpo; ele estremeceu. L na frente, Pascow era apenas uma sombra que se movia e, naquele momento, o terror 
de Louis pareceu se cristalizar numa idia de contornos ntidos: Estou seguindo um morto pelos bosques, estou seguindo um morto at o cemitrio de bichos e no  
um sonho. Deus me ajude, no  um sonho. Isso est acontecendo.
    Desceram para o lado mais distante das rvores da colina. A trilha fazia curvas preguiosas em forma de 5, depois se precipitava para as moitas rasteiras. Agora 
no havia botas. O solo dissolvia-se numa gelia fria sob os ps, prendendo-os, retendo-os, quase no os deixando prosseguir. Ouviam-se desagradveis rudos de suco. 
Louis podia sentir o lodo enfiando-se entre os dedos, como se quisesse separ-los.
    Procurava desesperadamente agarrar-se  idia do sonho.
    Ela no parecia resistir  prova.
    Atingiram a clareira e a lua vogava outra vez livre de sua muralha de nuvens, banhando o "simitrio" com fantasmagrico esplendor. Os marcadores de tmulos - 
tbuas, pedaos de lata cortados com os alicates dos pais e depois martelados em quadrados toscos, pedaos lascados de pedra, pedaos de lousa - projetavam-se com 
uma nitidez tridimensional, lanando sombras negras, perfeitamente definidas.
    Pascow parou perto do GATO SMUCKY, ELE ERA OBEDIENTE e virou-se para Lous. O horror, o terror - sentia que essas coisas cresceriam dentro dele at lhe desintegrarem 
o corpo sob uma presso suave, mas implacvel... Pascow estava sorrindo. Os lbios sanguinolentos franziam-se para trs dos dentes, o saudvel e forte bronzeado, 
 luz esbranquiada da lua, revestia-se com a brancura de um cadver, prestes a ser envolvido entre as dobras de seu sudrio.
    Pascow levantou um dos braos e apontou. Louis olhou na direo indicada e deixou escapar um gemido. Os olhos foram se arregalando e ele apertou com fora as 
juntas dos dedos contra a boca fechada. Seu rosto estava muito frio e, no limite extremo do terror, sentiu que tinha comeado a chorar.
    As rvores cadas, de onde Jud Crandall, alarmado, mandara Ellie sair, haviam se transformado num monte de ossos. E os ossos estavam se mexendo. Deslocavam-se 
e, estalando, se combinavam uns aos outros: mandbulas, fmures, cbitos, molares e incisivos - via os dentes arreganhados nos crnios de homens e animais. Os ossos 
dos dedos chocalhavam. Aqui e ali, os restos de um p flexionavam as juntas descarnadas.
    Ah, aquilo estava se mexendo; estava se arrastando...
    Pascow vinha caminhando em sua direo, o rosto ensangentado, lgubre  luz do luar. O resto de coerncia na mente de Louis comeou a escapulir para uma idia 
fixa e lamurienta: Voc grita e acorda no importa que assuste Rachei Ellie Gage que acorde toda a casa toda a vizinhana, voc grita e acorda griiiitagriiitaea 
cordacorda co rda cor...
    Mas s saiu um fraco sopro de ar, o som de um garotinho sentado num degrau de varanda fazendo fora para assobiar.
    Pascow chegou perto e falou:
    - A porta no deve ser aberta - disse ele. Tinha os olhos voltados para baixo porque Louis cara de joelhos. A princpio, Louis tomou a expresso de seu rosto 
por compaixo. Mas no era absolutamente compaixo, apenas uma espcie medonha de pacincia. Ele apontou a pilha de ossos que se moviam. - No ultrapasse este limite, 
doutor, por mais que tenha vontade de faz-lo. A barreira no foi feita para ser violada. No esquea: h mais poder aqui do que o senhor imagina. Isto  um lugar 
velho e est sempre inquieto. No esquea!
Louis tentou gritar de novo. No conseguiu.
    - Vim como amigo - continuou Pascow. (Mas seria realmente amigo a palavra que Pascow tinha dito? Louis achava que no. Era como se Pascow falasse numa lngua 
estrangeira, que s por alguma mgica de sonho Louis pudesse compreender... "Amigo" era o mais prximo que sua mente conturbada conseguia chegar de qualquer palavra 
que Pascow tivesse realmente articulado.) - Sua destruio e a destruio de tudo que o senhor ama est muito prxima, doutor.
    Pascow estava suficientemente perto e Louis sentia o cheiro da morte que havia nele.
    Pascow estendendo a mo para ele.
    O abafado, enlouquecedor estalar dos ossos.
    Louis comeou a perder o equilbrio em seu esforo para se esquivar da mo. Sua prpria mo bateu numa lpide e a derrubou. O rosto de Pascow, inclinando-se 
para baixo, enchia o cu.
    - Doutor... No esquea.
    Louis tentou gritar e o mundo rodopiou... Mas ainda ouvia, na cripta enluarada da noite, o chocalhar dos ossos em movimento.


    O        ser humano comum leva sete minutos para mergulhar no sono, mas, segundo a Fisiologia Humana, de Hand, o mesmo ser humano leva de quinze a vinte minutos 
para despertar. E como se o sono fosse um poo, de onde sair  mais difcil que entrar. Quando a pessoa que dorme acorda, ela o faz aos poucos, passando de um sono 
mais profundo a um sono mais leve e, por fim, ao que  s vezes chamado "sono do despertar", quando a pessoa pode ouvir sons e at responder a alguma pergunta sem 
ter conscincia disso mais tarde (exceto, talvez, como fragmentos de sonho).
    Louis ouvia o estalar e chocalhar dos ossos, mas gradativamente este som foi se tornando mais agudo, mais metlico. Houve uma pancada. Um grito. Novos sons metlicos... 
Alguma coisa rolando? Sem dvida, o turbilho de sua mente concordou. Os ossos rolam.
    Ouviu a filha gritando:
    - Pegue, Gage! Pegue!
    Isto foi seguido por um gritinho de prazer de Gage, o som que fez Louis abrir os olhos e ver o teto do quarto.
    Continuou absolutamente imvel, esperando que a, realidade, a boa realidade, a abenoada realidade, voltasse a envolv-lo por inteiro.
    Tudo um sonho. Por mais que tenha sido terrvel, por mais que tenha sido real, no passava de um sonho. Apenas um fssil na mente que existia sob a sua mente.
    O        som metlico voltou. Era um dos carrinhos de Gage rolando pelo corredor do andar de cima.
    - Pegue ele, Gage!
- Pegue! - Gage gritou. - Pegue-pegue-pegue!
    Bum-bum-bum. Os pezinhos descalos de Gage ecoando no piso do corredor. Ele ria com a irm.
    Louis olhou para a direita. O lado de Rachel na cama estava vazio, as cobertas puxadas. O sol parecia bem alto. Consultou o relgio e viu que eram quase oito 
horas. Rachel o deixara passar da hora, provavelmente de propsito.
    Normalmente, isso o teria irritado, mas no naquela manh. Respirou profundamente, contente por estar ali estendido, com um raio de luz derramando-se pela janela, 
sentindo a inconfundvel textura do mundo real. Gros de poeira danavam na luz do sol.
    Rachel gritou l de baixo:
    - Desa pra tomar o caf, Ellie! O nibusj vai passar!
    - J vou! - O som de seus passinhos. - Olha o teu carro, Gage. Tenho de ir  escola.
    Gage iniciou um berreiro. Embora ainda no soubesse falar (as nicas palavras pronunciadas com nitidez eram Gage, carro, pegue, Ellie e nibus), a mensagem parecia 
bastante clara: Ellie devia ficar. A escola, ao menos naquele dia, podia esperar.
    De novo a voz de Rachel:
    - Puxe o p do seu pai antes de descer, El!
Ellie entrou, o cabelo num rabo-de-cavalo, o vestido vermelho.
    - Eu j acordei, meu bem - disse o pai. - V, seno vai perder o nibus.
    - Est bem, papai
    Ela se aproximou, beijou-o no cangote e correu para a escada.
    O        sonho comeava a se desbotar, a perder coerncia. O que, sem dvida, era muito bom.
    - Gage! - ele gritou. - Venha dar um beijo no papai!
    Gage o ignorou. Tentava, o mais depressa que podia, ir atrs de Ellie para o andar de baixo. Gritava com toda a fora dos pulmes:
- Pegue! Pegue-pegue-PEGUE!
    Louis s pde ver de relance o corpo firme do garotinho, coberto apenas com a fralda e a cala de plstico.
    Rachei gritou de novo l de baixo:
    - Louis, foi voc que falou? J acordou?
    - J - ele respondeu, sentando-se na cama.
    - Eu no falei que ele j tinha acordado? - disse Ellie. - Vou embora. Tchau!
    - Uma piada particular - Louis respondeu, ainda rindo. Estava apavorado, mas o pavor no detinha o riso. O riso prolongava-se, subia-lhe do estmago  boca, 
resistente como pedras cimentadas num muro. Achou que jogar os lenis na calha de roupa suja fora a melhor coisa que podia ter feito. A Srta. Dandridge vinha cinco 
dias por semana para passar o aspirador, arrumar a casa... e lavar roupa. Rachel s tornaria a ver aqueles lenis depois que Dandridge os colocasse de novo na cama... 
Limpos. Sem dvida, a Srta. Dandridge podia mencion-los a Rachel, mas no acreditava que o fizesse. Provavelmente se limitaria a cochichar com o marido que os Creeds 
estavam executando algum estranho jogo sexual que envolvia lama e lascas de pinho, usadas no corpo como pinturas.
    A idia fez Louis rir ainda mais.
    A ltima onda de risos e risotas esgotou-se quando estava se vestindo. Viu ento que se sentia um pouco melhor. No sabia como era possvel, mas aconteceu. O 
quarto parecia normal agora, exceto pela cama desarrumada. Tinha se livrado dos venenos. Talvez "vestgios" fosse a palavra certa, mas em sua mente vestgios surgiram 
como venenos.
    Talvez seja isto o que as pessoas fazem com o inexplicvel, ele pensou.  isso que elas fazem com o irracional que se recusa a se dobrar s causas e efeitos 
normais que governam o mundo ocidental. Talvez seja assim que nossa mente enfrente o disco voador que, uma bela manh, vemos pairando silencioso nos fundos do nosso 
quintal, lanando na relva seu pequeno crculo de sombra; ou as invases de rs; ou a mo que vem de baixo da cama e puxa nosso p no silncio da noite. Temos um 
acesso de riso ou um acesso de choro... Mas nosso eu no se curva a esse inexplicvel e permanece inviolvel. O terror  expelido como um clculo renal, deixando-nos 
intactos.
    Gage estava em sua cadeirinha alta, comendo flocos de chocolate, esfregando-os na lona de plstico e na cabea.
    Rachel saiu da cozinha com os ovos e uma xcara de caf.
    - Qual foi a grande piada, Lou? Voc estava rindo como um louco l em cima. Chegou a me assustar.

    Quando Louis abriu a boca ainda no tinha idia do que ia falar, mas lembrou-se de uma anedota que ouvira h uma semana, no mercado do fim da estrada: era sobre 
um alfaiate judeu que comprou um papagaio que s sabia dizer: "Anel Sharon bate punheta."
    Quando acabou de contar, Rachel tambm estava rindo - e Gage os acompanhava.
    timo. Nosso heri livrou-se de todas as pistas... A saber: os lens enlameados e o riso de louco no banheiro. Agora nosso heri vai ler o jornal da manh 
- ou pelo menos passar os olhos nele - pondo um carimbo de normalidade nas coisas.
    Assim pensando, Louis abriu o jornal.
     assim que se faz, tudo bem, ele ponderou, com incomensurvel alvio.  como expelir um clculo renal, pe-se um ponto final no proble..... A menos que haja 
uma noite num acampamento com amigos, quando o vento  forte e se comea a falar de acontecimentos inexplicveis. Porque nos acampamentos,  noite, quando o vento 
 forte, no custa nada falar.
    Comeu os ovos. Beijou Rachel e Gage. Ao sair, deu uma olhada no quadrado branco da mquina de lavar, junto  cesta de roupa suja. Estava tudo em ordem. Era outra 
manh formidvel, O vero parecia querer se prolongar para sempre e tudo estava bem. Viu a trilha quando deu marcha a r no carro para tir-lo da garagem, mas ela 
tambm estava em ordem. No havia um fio de cabelo de diferena. Era como expelir um clculo renal.
    Tudo ficou correto at ele completar dezesseis quilmetros na estrada. Ento, tremores percorreram-lhe o corpo com tamanha intensidade que teve de entrar na 
Rodovia 2 e parar no estacionamento, deserto quela hora da manh, do Sing's, um restaurante chins no muito longe do Centro Mdico do Maine OrientaL.. Para onde 
o corpo de Pascow tinha sido levado. (Levado,  claro, para o CMMO, no para o Sing's. Vic Pascow jamais voltaria a comer outro prato de moo goo gai pan, isso  
que no.)
    A porta da frente bateu e Gage reagiu com um berro furioso.
    - Um ovo ou dois? - Rachel perguntou.
    Louis afastou as cobertas e pisou nos ndulos de l do tapete, pronto para dizer que ia dispensar os ovos; s queria um prato de flocos e sair correndo.. . Mas 
as palavras lhe ficaram presas na garganta.
    Seus ps estavam cheios de sujeira e arranhes de gravetos.
    O corao saltou-lhe pela boca como um boneco de molas numa caixa de surpresas. Num movimento rpido, olhos esbugalhados, dentes mordendo, sem fazer doer, a 
lngua, ele puxou de todo as cobertas. Os ps da cama estavam cheios de lascas de pinho. Os lenis estavam sujos, enlameados.
    - Louis?
    Viu alguns pedaos de pinho espalhados nos joelhos e virou-se bruscamente para o brao direito. L estava o arranho, um arranho recente, exatamente no lugar 
em que a ponta do galho seco roara seu corpo... no sonho.
    Eu vou dar um berro. Posso sentir isso.
    E podia de fato; algo vinha rugindo de dentro dele, uma espcie de grande e frio projtil de medo. A realidade oscilava. A realidade - a verdadeira realidade, 
ele pensou - eram aqueles pedaos, a sujeira nos lenis, o arranho vermelho no brao.
    Eu vou dar um berro, depois fico maluco e no tenho mais de me preocupar com isso...
    - Louis? - RacheI estava subindo a escada. - Louis, voc dormiu de novo?
    Tentou se controlar naqueles dois ou trs segundos; lutou implacavehnente consigo mesmo como fizera nos momentos de tremenda confuso depois de Pascow ser trazido 
num cobertor, agonizante, para a enfermaria. E venceu. O pensamento que mais pesou no prato da balana foi que Rachel no devia v-lo naquele estado, os ps lamacentos 
e cobertos de lascas de pinho, os cobertores caindo no cho, revelando as manchas de sujeira no lenoL
    - J acordei - gritou num tom jovial.
    A lngua sangrava pela mordida brusca, involuntria, que h pouco tinha dado. A mente rodopiava. Ele se perguntou se em algum lugar l no fundo, longe de seu 
comportamento aparente, no estivera sempre a um passo das mais absurdas irracionalidades. E se no era isso que acontecia com todo mundo.
    - Um ovo ou dois?
    Rachel tinha parado a dois ou trs degraus do topo da escada. Graas a Deus.
    - Dois - ele respondeu, quase inconsciente do que estava dizendo. - Mexidos.
    -  uma boa idia - disse Rachel, descendo de novo a escada.
    Aliviado, fechou os olhos por um momento, mas, na escurido, viu os olhos prateados de Pascow. Suas plpebras se abriram com violncia.
    Louis apressou-se, afastando qualquer pensamento. Sacudiu a roupa de cama. Tudo bem com os cobertores. Tirou os dois lenis, embolou-os e levou-os para o corredor, 
despejando-os na cesta de roupa suja.
    Entrou correndo no banheiro, girou a torneira do chuveiro e, desatento, enfrentou uma gua muito quente, quase escaldante. Tirou a sujeira das pernas e dos ps.
    Comeou a se sentir um pouco melhor, mais controlado. Enquanto se enxugava, ocorreu-lhe que era assim que os criminosos deviam se sentir quando acreditavam ter 
apagado todos os vestgios do crime. Comeou a rir. Continuou se enxugando e continuou rindo. No podia parar.
    - Ei, voc a em cima! - Rachel gritou. - O que h de to engraado?
    Os tremores manobravam  vontade, contorciam-lhe o corpo, como se quisessem descos-lo. Louis sentia-se indefeso e aterrorizado - no com medo de alguma coisa 
sobrenatural, no na luz brilhante do sol, mas aterrorizado pela possibilidade de estar enlouquecendo. Era como se um arame comprido, invisvel, estivesse sendo 
enroscado dentro da sua cabea.
    - J chega! - disse ele. - Por favor, j chega!
    Seus dedos tatearam entre os botes do rdio e trouxeram Joan Baez cantando sobre ferrugem e diamantes. A voz doce, serena, acalmou-o; quando a msica terminou, 
sentiu que estava pronto para continuar.

    Chegando  enfermaria, deu al a Charlton e escapuliu para o banheiro, achando que devia estar com uma aparncia terrveL Nem tanto. Os olhos pareciam um pouco 
fundos, mas nem Rachel tinha reparado. Jogou gua fria no rosto, enxugou-o, penteou o cabelo e foi para sua sala.
    Steve Masterton e Surrendra Hardu, o mdico indiano, estavam l, tomando caf e examinando as fichas do arquivo.
    - Bom-dia, Lou - disse Steve.
    - Bom-dia.
    - Vamos esperar que no tenhamos um dia como o de ontem -disse Hardu.
    -  verdade... Mas voc perdeu todo o alvoroo.
    - Ontem Surrendra teve uma noite agitada - disse Masterton, sorrindo. - Conte a ele, Surrendra.
    Hardu limpou as lentes dos culos, tambm sorrindo.
     - Dois rapazes trouxeram uma amiga deles por volta de uma hora da madrugada - disse. - A moa estava muito contente, tinha bebido muito, voc sabe, comemorando 
o retorno  universidade. Havia se cortado numa das coxas, um corte feio. Eu disse que teria de dar pelo menos quatro pontos, mas no deixaria cicatriz. "Pode costurar 
logo", ela me disse, e foi o que eu fiz. Curvei-me assim..
    Hardu demonstrava, inclinando-se sobre uma coxa invisvel. Louis comeou a rir, pressentindo o que tinha acontecido.
    - E quando eu estava fazendo a sutura, ela vomitou na minha cabea.
    Masterton irrompeu numa gargalhada. Louis tambm. Hardu sorriu calmamente, como se aquilo j tivesse lhe acontecido milhares de vezes em milhares de vidas.
    - Surrendra, a que horas voc chegou? - Louis perguntou, quando parou de rir.
    - Era meia-noite - disse Hardu. - Agora estou de sada. S quis esperar voc chegar para lhe dar um al.
    - Bem... Ento al! - disse Louis, apertando-lhe a mo pequena, parda. - Agora v para casa dormir.
    - Quase acabamos o exame do fichrio central - Masterton exclamou. - Pode dizer aleluia, Surrendra.
    - Sinto muito - disse Hardu, sorrindo -, mas no sou cristo.
    - Ento cante o coro do "Karma do Instante" ou qualquer coisa.
    - Que vocs dois recebam a luz - disse Hardu, ainda sorrindo e passando suavemente pela porta.
    Louis e Steve Masterton fitaram um momento a porta, em silncio; depois olharam um para o outro e explodiram numa risada. Para Louis, jamais um riso fora to 
gostoso, to normal.
    - No vejo a hora de terminar com o fichrio - disse Steve. - Mas hoje j temos de pr o tapete vermelho para receber os homens das drogas.
    Louis concordou. O primeiro representante farmacutico chegaria s dez. Como Steve gostava de dizer, a quarta-feira podia ser o Dia do Espaguete na UMO3,( Universidade 
do Maine em Orono. N. do T.) mas toda tera-feira era o Dia D, o Dia dos Dr.ogueiros, os eternos favoritos do incio da semana.
    - Uma palavra de advertncia, mestre - disse Steve. - No sei como esses sujeitos se comportam em Chicago, mas aqui eles fazem de tudo para vender o seu peixe, 
desde pagar as despesas de uma caada no Allagash em novembro, at nos convidar com toda a famlia para um boliche grtis no Family Fun Lanes, em Bangor. Conheci 
um cara que tentou me dar uma daquelas mulheres inflveis. A mim! E olhe que sou quase recm-formado! Ou conseguem te vender algum remdio ou te deixam viciado em 
calmantes.
    - Voc devia ter aceito a mulher inflvel.
    - Ah, era ruiva. No era o meu tipo.
    - Bem, concordo com Surrendra - disse Louis. - Que a luz brilhe para ns.

    Quando o representante da Upjohn no chegou s dez em ponto, Louis desistiu de esper-lo e ligou para o registro da universidade. Falou com uma tal de Srta. 
Stapleton, que concordou em enviar-lhe imediatamente uma cpia do dossi de Victor Pascow. Quando Louis ps o fone no gancho, o sujeito da Upjohn j estava l. No 
tentou lhe dar nada, mas perguntou se no estava interessado em comprar com desconto um bilhete de temporada para os jogos dos Patriotas da Nova Inglaterra.
    - De jeito nenhum - disse Louis.
    - No achava mesmo que fosse querer - disse com ar sombrio o sujeito da Upjohn, e foi embora.
    Ao meio-dia, Louis caminhou at o Bear's Den e pediu um sanduche de atum com Coca-Cola. Trouxe-os para sua sala e fez o lanche examinando os registros de Pascow. 
Procurava alguma conexo com ele mesmo ou com Ludlow Norte, onde ficava o "simitrio" de bichos... Uma vaga crena de que tinha de haver uma explicao racional 
mesmo para um acontecimento to estranho quanto aquele. Talvez o rapaz tivesse sido criado em Ludlow, talvez tivesse enterrado um co ou um gato l em cima.
    No encontrou a ligao que procurava. Pascow era de Bergenfield, Nova Jrsei, e entrara na UMO para estudar engenharia eletrnica. Naquelas poucas folhas batidas 
 mquina, Louis no pde encontrar qualquer conexo entre ele e o jovem que morrera na recepo - alm do fato de os dois serem mortais,  claro.
    Sorveu o resto de Coca-Cola do copo, ouvindo a suco do canudo no fundo e atirou tudo na cesta de lixo. Fora um lanche pobre, mas comera com bastante apetite. 
Sem dvida, no parecia haver nada de errado no modo como se sentia. Pelo menos, no naquele momento. Os tremores no tinham voltado e todo o horror que sentira 
de manh comeava a no parecer mais que uma sensao desagradvel, estpida, semelhante a um sonho inconseqente.
    Tamborilou com os dedos no forro da mesa, sacudiu os ombros e pegou de novo o telefone. Discou para o Centro Mdico do Maine Oriental e pediu que o ligassem 
com o necrotrio.
    Depois que o funcionrio da autpsia atendeu, ele se identificou e disse:
    - O senhor tem um de nossos estudantes a: Victor Pascow.
    - No est mais conosco - disse a voz do outro lado. - Foi embora.
    Louis sentiu um aperto na garganta.
- O qu?!
    - O corpo foi devolvido aos pais ontem  noite. Veio aqui um sujeito da Morgue Brookings-Smith e levou-o sob custdia. Foi transportado no vo, hum... - um folhear 
de papis -... no vo 109 da Delta. Pra onde pensou que ele tivesse ido? Danar ou andar de patins por a?
    - No - disse Louis. -  claro que no.  s que...
    Era s o qu? Por que diabo estava insistindo na coisa? Era inteiramente insano se deixar absorver por ela. Tinha de deixar aquilo passar, tinha de tirar Pascow 
da cabea, esquec-lo. Qualquer outra atitude s lhe traria um monte de preocupaes sem sentido.
    -  que foi tudo muito rpido - concluiu num tom pouco convincente.
    - Bem, ele foi autopsiado ontem  tarde... - novamente o rumor de papis. - Por volta das trs e vinte, pelo Dr. Rynzwyck. Ontem mesmo o pai arranjou tudo. Acho 
que o corpo chegou a Newark por volta das duas da manh.
    - Oh, bem, nesse caso...
         - A menos que tenha havido algum extravio e ele tenha ido parar noutro lugar - disse num tom gozador o funcionrio da autpsia. - Isso j tem acontecido, 
o senhor sabe, embora nunca com a Delta. A Delta  realmente muito boa. Houve um sujeito que morreu numa pescaria no Condado de Aroostook, perto de uma daquelas 
cidadezinhas que s aparecem num ou dois mapas. Teve uma hrnia estrangulada quando estava abrindo uma lata de cerveja. Os amigos dele levaram dois dias para tir-lo 
do meio do mato e, como o senhor pode imaginar, no deve ter sido uma viagem nada fcil. Mas os dois agentaram a parada e chegaram com o corpo. Foi enviado para 
casa, para Grand Falls, em Minnesota, no compartimento de carga de um avio. Mas houve um extravio. Despacharam ele pra Miami, depois pra Des Moines, depois pra 
Fargo e Dakota do Norte. Por fim, algum conseguiu ach-lo, mas j se tinham passado mais trs dias. Foi insuportvel. A nica soluo era um caixo hermeticamente 
fechado. O cara estava totalmente negro e cheirava como uma costeleta podre de porco. Pelo menos, foi o que me contaram. Seis carregadores ficaram doentes.
    A voz do outro lado da linha riu com vontade.
    Louis fechou os olhos e disse:
    - Bem, obrigado...
  - Posso dar o telefone da casa do Dr. Rynzwyck se o senhor quiser doutor, mas de manh ele geralmente est jogando golfe em Orono.
    - No precisa se incomodar - disse Louis.
    Desligou o telefone. Encerre as coisas por aqui, pensou. Quando voc estava tendo aquele sonho maluco, ou seja l o que for,  quase certo que o corpo de Pascow 
estava rodeado pela famlia num funeral em Bergenfiekl. isso pe um ponto final, uma p de cal no assunto.
.
    Naquela tarde, voltando para casa, uma explicao simples da sujeira aos ps da cama finalmente lhe ocorreu, enchendo-o de alvio.
    Passara por um episdio isolado de sonambulismo, provocado pelo fato imprevisto e extremamente desagradvel de um estudante, mortalmente ferido, morrer na enfermaria 
em seu primeiro dia de trabalho.
    Isso explicava tudo. O sonho parecera extremamente real porque grande parte dele era real: a sensao do tapete na sola dos ps, o orvalho na relva, e,  claro, 
o galho seco que lhe arranhou o brao. Isso explicava tambm porque Pascow fora capaz de caminhar atravs da porta e ele no.
    Uma imagem tomou forma em sua mente: Rachel descendo na noite anterior e surpreendendo-o colidindo contra a porta dos fundos, tentando atravess-la dormindo. 
A idia o fez rir. Sem dvida, ela levaria um susto tremendo.
Cultivando a hiptese do sonambulismo, foi capaz de analisar as causas do sonho, coisa que fez com certa ansiedade. Fora at o "simitrio" de bichos' porque o lugar 
estava associado a outro momento recente de stress: provocara uma discusso sria entre ele e a esposa... Alm disso, Louis conclua com excitao crescente: o "simitrio" 
estava associado ao primeiro encontro da filha com a idia da morte, algo que devia estar se agitando em seu subconsciente quando foi dormir na vspera.
    Foi uma sorte incrvel eu ter voltado inteiro para casa... Nem me lembro dessa parte. Devo ter voltado na base do piloto automtico.
    E isso foi timo. No podia imaginar como se teria sentido ao despertar de manh ao lado do tmulo do Gato Smucky, desorientado, molhado de sereno e, provavelmente, 
se borrando de medo... No menos apavorado do que, sem dvida, Rachel tambm ia ficar.
    Mas agora estava tudo acabado.
    Resolvido o caso, pensou com imenso alvio. Sim, mas e as coisas que Pascow tinha dito quando estava morrendo?, sua mente tentou perguntar. Louis, no entanto, 
fez com que ela se calasse.

    Naquela noite, com Rachei passando roupa e Ellie e Gage sentados na mesma cadeira, absorvidos no Muppet Show, Louis disse que estava com vontade de dar um pequeno 
passeio, tomar um pouco de ar.
    - Vai voltar a tempo de me ajudar a pr Gage na cama? - ela perguntou sem tirar os olhos do ferro. - Ele dorme melhor com voc...
    -  claro - respondeu.
    - Onde voc vai, papai? - Ellie perguntou, no tirando os olhos da tev. Kermit estava prestes a levar um soco de Miss Piggy.
    - S at l fora, querida.
    - Oh.
    Louis saiu.
    Quinze minutos depois estava no "simitrio" de bichos, olhando ao redor com ar curioso e enfrentando uma forte sensao de dj vu. No havia dvida de que tinha 
estado l: o pequeno marcador de tmulo erguido em memria do Gato Smucky estava caido no cho. Ele o derrubara quando, na parte do sonho que podia lembrar, o vulto 
de Pascow se aproximou. Louis endireitou a lpide e caminhou para as rvores cadas.
    No gostava daquilo. A lembrana de todas aquelas rvores secas e galhos esbranquiados pelo tempo convertendo-se num monte de OSSOS ainda conseguia arrepi-lo. 
Fez fora para esticar o brao e tocar um dos galhos. Precariamente equilibrados o galho caiu e rolou, indo parar ao lado do monte. Louis recuou a tempo de ele no 
bater em seu p.
    Caminhou ao longo da pilha, primeiro para a esquerda, depois para a direita. Em ambos os lados, as moitas eram to espessas quanto impenetrveis. S um tolo 
tentaria abrir caminho atravs daquele tipo de vegetao, Louis pensou. crescero rente ao solo, havia massas exuberantes de hera venenosa (toda a sua vida ouvira 
gente se gabando de ser imune  coisa, mas sabia que quase ningum era realmente imune). Mais adiante, achavam-se os maiores e mais afiados espinhos que j vira.
    Lous voltou ao centro do monte de rvores mortas. Olhou para cima, as mos nos bolsos traseiros do jeans.
    No vai tentar subir a, vai?
    Eu no, rapaz. Por que ia querer fazer uma coisa to estpida?
    Assim  que se fala. Um minuto l em cima j seria perigoso, Lou. Parece um, bom modo de baixar  sua enfermaria com um p quebrado, voc no acha?
     claro que sim! Alm disso, est escurecendo.
     certo de que estava em total e completo acordo consigo mesmo, comeou a subir nas rvores secas.
    Achava-se a meio caminho do topo quando sentiu alguma coisa se deslocar sob os seus ps com um desagradvel som rangente.
    Os ossos rolam, doutor.
    Quando a pilha estalou de novo, Louis comeou a descer. A fralda da camisa sara de dentro de suas calas.
    Chegou a terreno firme sem incidentes e sacudiu algumas lascas de cascas de rvore das mos. Retornou  ponta da trilha que conduzia  casa
- aos filhos que iam querer que lhes contasse uma histria antes de dormir, a Church, que desfrutava seu ltimo dia como Dom Juan na posse de suas bolas, ao ch 
na cozinha com a esposa depois que as crianas fossem dormir.
    Examinou de novo a clareira antes de ir embora, impressionado com aquele silncio verde. Anis de uma nvoa rasteira tinham surgido no se sabe de onde e comeavam 
a rodopiar em volta dos marcadores de tmulos. Aqueles crculos concntricos.., como se, sem o saber, as mos de geraes de crianas de Ludlow Norte tivessem construdo 
uma espcie de Stonehenge em miniatura.
    Mas, Louis, ser que  s isso?
    Embora s tivesse conseguido espiar de relance por sobre o topo das rvores secas antes que a sensao de deslocamento o deixasse nervoso, seria capaz de jurar 
que existia uma trilha do outro lado, mergulhando profundamente nos bosques.
    No  problema seu, Louis. Deixe isso em paz.
    Tudo bem, mestre!
    Louis se virou e tomou o caminho de casa.

       Uma hora depois de Rachel ter ido deitar, ele ainda no subira. Relia uma pilha de revistas mdicas, recusando-se a admitir que o pensamento de ir para a 
cama - de ir dormir - o deixasse nervoso. Nunca tivera uma experincia de sonambulismo e no havia modo de ter certeza que fora um episdio ....... A no ser que 
no acontecesse (ou acontecesse) de novo.
       Ouviu Rachel sair da cama e cham-lo em voz baixa:
       - Lou? Querido? Voc no vai subir?
       - J estou indo - disse ele, desligando a luz sobre a escrivaninha do escritrio e se levantando.
       Naquela noite, levou muito mais de sete minutos para desligar os circuitos. Ouvindo Rachel respirar a seu lado, uma calma e lenta respirao de sono profundo, 
a apario de Victor Pascow no parecia tanto um sonho. Ia fechar os olhos e ver a porta se abrir de repente: l estaria ele, o Convidado Especial, Sr. Victor Pascow. 
Ia aparecer com o calo de ginstica, plido sob o bronzeado de vero, a clavcula projetada para fora.
       Comeou a resvalar para o sono pensando o quanto teria de estar plenamente, friamente desperto no "simitrio" de bichos para ver aqueles toscos crculos concntricos 
iluminados pelo luar, para voltar para casa seguindo a trilha atravs do bosque. Vrias vezes o pensamento fez com que acordasse de novo.
       J passava da meia-noite quando o sono finalmente o tomou de surpresa, subjugou-o. No houve sonhos. Acordou pontualmente s sete e meia, ao barulho de uma 
chuva fria de outono batendo contra a janela. Atirou as cobertas para o lado com alguma apreenso. O lenol da cama estava imaculado. Nenhum purista elogiaria seus 
ps, com os calcanhares redondos e duros como calos, mas pelo menos estavam limpos.
       Pouco depois, assobiava debaixo do chuveiro.


    A Srta. Dandridge tomou conta de Gage quando Rachel levou Winston Churchill
para o veterinrio. Naquela noite, Ellie ficou acordada at depois das onze, queixando-se amargamente de que no podia dormir sem Church e pedindo um copo d'gua 
atrs do outro. Por fim, Louis recusou-se a dar-lhe mais gua, alegando que molharia a cama. Isso fez com que armasse um berreiro de tamanha ferocidade que o pai 
e a me se entreolharam pasmados, sobrancelhas erguidas.
    - Est assim por causa do Church - disse Rachel - Deixe-a resolver isto sozinha, Lou.
    - Mas no pode continuar neste tom por muito tempo - disse Louis. - Eu espero.
    Ele tinha razo. Os gritos speros e furiosos de Ellie foram se transformando em arrancos, soluos e gemidos. Finalmente houve silncio. Quando Louis subiu de 
novo para v-la, encontrou-a dormindo no cho, abraando a cama de gato que Church raramente se dignava a ocupar.
    Tornou a deit-la na cama, puxou-lhe carinhosamente o cabelo da testa suada e a beijou. Num impulso, foi para a pequena sala que servia como escritrio de Rachel, 
escreveu um breve bilhete em grandes letras de frma - VOLTAREI AMANHA, BEIJOS, CHURCH - e prendeu-o na almofada da cama do gato. Depois, foi para seu quarto  procura 
de Rachel Rachel estava l. Fizeram amor e adormeceram nos braos um do outro.

    Church voltou para casa na sexta-feira da primeira e agitada semana de trabalho de Louis. Ellie fez-lhe uma grande festa, usou parte da mesada para comprar uma 
caixa de biscoitos de gato e quase deu um tapa em Gage, por ele tentar toc-lo. Uma mera ao disciplinar dos pais no conseguiria faz-lo chorar daquele modo. Receber 
uma repreenso de Ellie era como receber uma repreenso de Deus.
    Olhando para Church, Louis sentiu-se triste. Era ridculo, mas isso no alterava o sentimento. No havia trao da antiga agitao. No andava mais como um mocinho 
do faroeste; agora tinha o passo lento e cuidadoso do convalescente. Deixou que Ellie lhe desse comida na boca. No dava sinais de querer sair, nem mesmo de ir at 
a garagem. Tinha se modificado. Talvez, em ltima instncia, tivesse se modificado para melhor.
    Nem Ellie nem Rachel pareceram notar qualquer diferena.
    A meia-estao veio e se foi. As rvores ganharam uma colorao de bronze, que brilhou algum tempo e depois desbotou. Ao trmino de uma chuva fria e persistente 
em meados de outubro, as folhas comearam a cair. Ellie chegava em casa carregada com as decoraes de Halloween que fazia na escola, e um dia contou a Gage a histria 
do Cavaleiro sem Cabea. Gage passou aquela noite balbuciando alegre sobre uma figura chamada Crebro Cara de Pulga. Rachel comeou a rir e no pde parar. Viveram 
dias felizes naquele incio de outono.
    O trabalho de Louis na universidade se convertera numa rotina exigente, mas agradvel. Atendia aos pacientes, comparecia a reunies do conselho universitrio, 
escrevia o indispensvel artigo para o jornal estudantil - lembrando a populao feminina da universidade do carter confidencial do tratamento de doenas venreas 
na enfermaria e exortando o corpo discente a ter cuidado com o vrus da febre espanhola, cujo tipo A era capaz de prevalecer de novo naquele inverno -, participava 
de comisses, presidia reunies de comisses. Na segunda semana de outubro, foi  Conferncia da Nova Inglaterra sobre Medicina Acadmica e Universitria, em Providence, 
onde fez uma comunicao sobre as ramificaes legais do tratamento num campus universitrio. Victor Pascow foi mencionado sob o nome fictcio de "Henry Montez". 
A comunicao foi bem recebida. E ele comeou a ampliar o oramento da enfermaria para o ano letivo seguinte.
    Suas noites tambm entraram numa rotina: os filhos depois do jantar e uma ou duas cervejas com Jud Crandall. s vezes, quando a Srta. Dandridge podia ficar uma 
hora tomando conta das crianas, Rachel atravessava a estrada com ele e s vezes Norma tambm se reunia ao grupo, mas, em geral, era apenas ele e Jud. Louis achava 
o homem agradvel como um chinelo velho e o ouvia falar da histria de Ludlow desde trezentos anos atrs, quase como se tivesse vivido todo esse tempo. Crandall 
falava muito, mas nunca divagava. Nunca entediava Louis, embora mais de uma vez j tivesse visto Rachel bocejar.
        Na maioria das noites, Louis atravessava a estrada para voltar a casa antes das dez, e ele e Rachel faziam amor como nunca. Desde o primeiro ano de casamento, 
nunca tinha feito amor com tanta freqncia, nem de forma to gratificante e agradvel. Rachel achava que havia alguma coisa na gua do poo artesiano; Louis optou 
pelo ar do Maine.
    A incmoda morte de Victor Pascow no primeiro dia do semestre de outono comeou a se dissipar da memria dos estudantes e da memria de Louis; sem dvida, porm, 
a famlia de Pascow ainda o chorava. Louis enfrentara a voz lastimosa, gentil mas sem feies reconhecveis, do pai de Pascow ao telefone; o pai s queria ter certeza 
de que Louis fizera tudo que estava a seu alcance, e Louis assegurou-lhe que todo mundo tinha feito o possvel para salv-lo. No lhe falou da confuso, da mancha 
se esparramando no tapete e de como o filho morrera logo depois de ser trazido para a enfermaria, embora Louis achasse que jamais poderia esquecer essas coisas. 
Mas para quem Pascow fora apenas um acidente, tudo j se apagara.
    Louis ainda se lembrava do sonho e do episdio de sonambulismo que o acompanhou, mas agora aquilo parecia ter acontecido a alguma outra pessoa ou num filme de 
tev que assistira. O mesmo se dava com sua nica visita a uma prostituta de Chicago, seis anos antes. Eram fatos sem importncia, coisas secundrias que tiveram 
uma falsa ressonncia, como sons produzidos numa cmara de eco.
    J no pensava absolutamente no que Pascow agonizante tinha ou no falado.
    Havia uma forte geada na noite de Halloween. Louis e Ellie estavam na casa de Crandall. Ellie fazia uma farra, fantasiada de bruxa e fingindo voar em sua vassoura 
pela cozinha de Norma. Era devdamente notada:
    -  a coisa mais engraadinha que eu j vi... No , Jud?
    Jud concordou e acendeu um cigarro.
    - Onde est Gage, Louis? Achei que ele tambm vir....
    De fato tinham planejado fazer Gage participar da festa. Rachel, em particular, ficara muito animada e arranjara com a Srta. Dandridge uma espcie de fantasia 
de inseto com arames torcidos e forrados de papel crepom servindo de antenas, mas Gage cara doente, um penoso incio de bronquite. Aps ouvir-lhe os pulmes, que 
chiavam um pouco, e consultar o termmetro do lado de fora da janela, que marcava apenas quatro graus s seis da manh, Louis proibiu a farra. Embora desapontada, 
Rachel concordou.
    Ellie tinha prometido alguns doces para Gage, mas o exagero de seu remorso fez Louis acreditar que estaria bem satisfeita por ver que Gage no ia atrapalh-la 
nas brincadeiras nem roubar-lhe parte do brilho da festa.
    - Pobre Gage - disse ela num tom geralmente reservado para os que sofrem de doena incurveL Gage, sem saber o que estava perdendo, continuava sentado no sof 
assistindo Zoom. Church tirava uma soneca ao lado dele.
    - Ellie-bruxa - Gage respondeu sem grande interesse e voltou para o programa de tev.
    - Pobre Gage - disse Ellie de novo, exalando outro suspiro. Louis pensou em lgrimas de crocodilo e sorriu. EIlie agarrou-o pela mo e comeou a pux-lo. - Vamos, 
papai. Vamos, vamos, vamos.

    - Gage tem um pouco de crupe - Louis explicou a Jud.
    - Bem,  mesmo uma pena - disse Norma -, mas ele pode se divertir a valer no ano que vem. Abra sua sacola, ..... . Opa!
    Tirara uma ma e um tablete de chocolate da bandeja sobre a mesa, mas ambos caram de sua mo. Louis ficou um pouco impressionado vendo como aquela mo se parecia 
a uma garra. Abaixou-se e pegou a ma que rolara pelo cho. Jud apanhou o chocolate e colocou-o na bolsa de Ellie.
    - Oh, vou pegar outra ma para voc, meu anjo - disse Norma. -Essa est machucada.
    - Est tima - disse Louis e procurou jog-la na sacola da filha, mas a menina recuou, fechando a bolsa e protegendo-a contra o peito.
    - No quero uma ma machucada, papai - disse, olhando para Louis como se ele tivesse ficado louco. - Manchas escuras na ma... Que horrvel!
    - Ellie, que falta de educao!
    - No a censure por dizer a verdade, Louis - disse Norma. - S as crianas dizem toda a verdade, voc sabe.  isso o que as torna crianas. Manchas escuras numa 
ma so, horrveis.
    - Obrigada, Sra. Crandall - disse Ellie, atirando um olhar insolente para o pai.
    - Gosto muito de ter voc aqui, meu bem - disse Norma.
    Jud levou-os para a varanda. Dois fantasminhas vinham subindo o passeio; eram colegas de escola de Ellie. A menina foi com eles para a cozinha e Jud e Louis 
ficaram sozinhos na varanda.
    - A artrite de Norma piorou - disse Louis.
    Jud balanou a cabea e apagou o cigarro num cinzeiro.
    - . Todo outono e inverno fica pior, mas nunca chegou ao ponto deste ano.
    - O que diz o mdico dela?
    - Nada. Nem pode dizer nada. Norma deixou de consult-lo.
- Ora! Mas porqu?
    Jud olhou para Louis e,  luz dos faris da camionete que esperava os fantasminhas, pareceu singularmente desamparado.
    - Queria esperar uma hora melhor pra lhe pedir isso, Louis, mas acho que nenhuma hora  boa pra se abusar de um amigo. Se importaria de examin-la?
    Louis podia ouvir os dois fantasminhas fazendo buu na cozinha e Ellie dando suas gargalhadas de bruxa (que praticara toda a semana). Aquilo parecia bem divertido 
e muito de acordo com o Halloween.
    - O que est havendo com Norma? - ele perguntou. - Ser que tem medo de alguma coisa, Jud?
    - Vem sentindo dores no peito - disse Jud em voz baixa. - No quer mais ir ao Dr. Weybridge. Estou um pouco preocupado.
    - Norma est preocupada?
    Jud hesitou antes de responder:
    - Acho que est assustada. Acho que por isso  que no vai mais ao mdico. Uma de suas amigas mais antigas, Betty Coslaw, morreu no ms passado no Centro Mdico 
do Maine. Cncer. Ela e Norma eram da mesma idade. S pode estar assustada...
    - Vou examin-la com todo o prazer - disse Louis. - No h qualquer problema!
    - Obrigado, Louis - disse Jud. - Podemos peg-la desprevenida uma noite dessas, cair sobre ela, e...
    Jud se interrompeu, a cabea virando comicamente para um dos lados. Seus olhos encontraram os de Louis.
    Mais tarde, Louis no poderia lembrar exatamente como um sentimento deslizou para outro. Qualquer tentativa de analisar a coisa s o deixaria atordoado. Mas 
tinha certeza de que a curiosidade transformou-se rapidamente numa sensao de que havia algo errado. Seus olhos encontraram os de Jud e ambos pareceram inseguros. 
Houve um momento de lapso antes de qualquer iniciativa.
    - Buuu-buuu - entoavam os fantasmas de Halloween na cozinha. -Buuu-buuu. E ento; subitamente, o som fora abafado por um grito mais alto, verdadeiramente assustador: 
- Oooh-00000h!
    Um dos fantasmas comeou a berrar.
    - Papai! - A voz de Ellie era aguda, estridente, de alarma. - Papai! A Sra. Crandall caiu!
    - Ah, Jesus - Jud quase gemeu.
    Ellie entrou correndo na varanda, a fantasia negra esvoaando. Segurava a vassoura numa das mos. O rosto infantil, agora muito plido, lembrava a fisionomia 
de um ano alcolatra nos ltimos estgios de coma alcolico. Os dois fantasminhas vinham atrs dela, gritando. Jud precipitou-se pela porta, surpreendentemente 
gil para um homem de mais de oitenta anos. Mais que gil: quase elstico. Gritava o nome da esposa.
    Lous se curvou e ps as mos nos ombros de Ellie.
    - Fique aqui na varanda, Ellie. Est entendendo?
    - Papai, estou com medo - ela sussurrou.
    Os dois fantasminhas passaram correndo, berrando o nome da me, os sacos de doce chocalhando na mo.
    Louis cruzou a sala e entrou na cozinha, ignorando Ellie, que o chamava de volta.
    Norma jazia no ladrilho brilhante, ao lado da mesa, entre mas e tabletes de chocolate espalhados. Ao que tudo indicava, batera com a mo na bandeja ao cair 
e a derrubara. A bandeja cara perto, junto com um pequeno pirex. Jud friccionava um de seus pulsos e olhou para Louis com uma expresso extremamente tensa.
    - Ajude-me, Louis - disse ele. - Ajude Norma. Acho que ela est morrendo.
    - Fique de lado - disse Louis, afastando-o. Ajoelhou-se e, sem querer, amassou uma ma caramelada. Sentiu o suco escorrendo pela fazenda velha da cala e um 
cheiro de sidra encheu a cozinha.
    Pronto, exatamente como aconteceu com Pascow, Louis pensou, mas conseguiu varrer o pensamento da mente com extraordinria rapidez.
    Procurou o pulso de Norma e encontrou uma coisa fraca, viscosa, fria - no realmente uma batida, s espasmos. Arritmia extrema, a caminho da plena parada cardaca. 
Voc e Elvs Presley, Norma, ele pensou.
    Abriu-lhe o vestido, expondo uma combinao de seda amarela. Movendo-se cadenciadamente, virou-lhe a cabea para um dos lados e comeou uma massagem no corao.
    - Jud, venha c - disse ele.
    Planta da mo esquerda a um tero do caminho para o esterno - quatro centmetros acima da apfise xifide. Mo direita agarrando o pulso esquerdo, apertando, 
fazendo presso. Firme, mas com calma nas velhas costelas... Ainda no precisa pnico. E pelo amor de Deus, no cause dano aos pulmes. Tambm esto velhos.
    - Estou aqui - disse Jud.
    - Pegue Elle - disse. - Atravesse a rua. Cuidado, no v ser atropelado! Diga a Rachel o que est acontecendo. Pea-lhe minha maleta. No a do escritrio, a 
que est na prateleira do alto no banheiro de cima. Ela vai ach-la. Mande-a ligar para o hospital de Bangor e pedir uma ambulncia.
- Bucksport  mais perto - disse Jud.
    - Bangor  mais rpido. V. Deixe Rachel telefonar. Eu preciso da maleta.
    E assim que ela souber o que est havendo aqui, Louis pensou, duvido que queira trazer pessoalmente a maleta.
    Jud foi. Louis ouviu a porta de madeira bater. Estava sozinho com Norma Crandall e o cheiro das mas. Da sala de estar vinha o tique-taque de um relgio de 
pndulo.
    De repente, Norma emitiu uma respirao profunda, ressonante. As plpebras se agitaram. Louis foi envolvido por uma penosa, medonha convico.
    Ela vai abrir os olhos... Oh, Deus, ela vai abrir os olhos e comear a falar do "simitrio"de bichos.
    Mas Norma limitou-se a olhar para Lous com uma espcie de gratido atordoada. Depois os olhos se fecharam de novo. Louis sentiu vergonha de si mesmo, do medo 
estpido, to contrrio  sua ndole. Experimentou ao mesmo tempo esperana e alvio. Havia alguma dor no olhar de Norma, mas no agonia. Sua primeira suposio 
foi de que no tinha sido um ataque grave.
    Agora Louis respirava acelerado e suava. S os falsos mdicos da tev podem transformar a massagem cardaca numa coisa fcil. Uma firme e contnua massagem no 
peito sugava um bom nmero de calorias. Amanh ele sentiria dores nos msculos entre os braos e os ombros.
    - Posso fazer alguma coisa?
    Ele se virou. Uma mulher de cala comprida e suter marrom hesitava na soleira da porta, o punho de uma das mos entre os seios. A me dos fantasmas, Louis pensou.
    - No - disse ele, mas logo depois: - Sim. Molhe um pano, por favor. Esprema-o. Ponha-o na testa dela.
    A mulher comeou a procurar um pano. Os olhos de Norma estavam novamente abertos.
    - Louis, eu ca - ela sussurrou. - Acho que desmaiei.
    - Voc teve algum tipo de ataque das coronrias - disse Louis. -No parece muito srio. Agora relaxe e no fale, Norma.
    Louis contemplou-a um instante e voltou a tirar-lhe o pulso. Havia batimentos rpidos demais. Era como o Cdigo Morse: o corao batia regularmente, depois disparava 
numa srie de batidas que se aproximavam da fibrilao; por fim, voltava a bater de novo com regularidade. Taquetaque-taque, TUM-TUM-TUM, taque-taque-taque-taque-taque. 
Aquilo no era bom, mas era um pouco melhor que a arritmia cardaca.
    A mulher aproximou-se com o pano e colocou-o na testa de Norma. Depois recuou insegura. Jud voltou com a maleta de Louis.
    - Louis?
    - Ela vai ficar boa - disse Louis, olhando para Jud mas, no fundo, falando com Norma. - A ambulncia de Bangor est vindo?
    - Sua esposa ficou telefonando - disse Jud. - Eu no esperei.
    - Hospital... No - Norma sussurrou.
    - Sim, hospital - disse Louis. - Cinco dias em observao, medicao adequada e depois voltar para casa em forma, Norma minha garota. E se disser mais uma palavra, 
vou faz-la comer todas essas mas. Com caroo e tudo.
    Ela sorriu palidamente, depois voltou a fechar os olhos.
    Louis abriu a maleta, remexeu-a, encontrou o Isordil e colocou um dos comprimidos, to pequeno que caberia facilmente na ponta de uma unha, na palma da mo. 
Tornou a tampar o vidro e ps o comprimido entre os dedos.
- Norma, est me ouvindo?
- Sim.
    - Quero que abra a boca. Voc j fez a travessura, agora tem de obedecer. Vou colocar um comprimido embaixo da sua lngua. E um comprimido pequeno. Quero que 
o conserve a at ele se dissolver. Tem um gosto um pouco amargo, mas isso no importa. Tudo bem?
    Norma abriu a boca. Um sopro passou entre a velha dentadura e, por um momento, Louis sentiu muita pena dela, deitada ali no cho da cozinha, entre mas e doces 
de Halloween espalhados. Lembrou que ela j tivera dezessete anos, os seios olhados com interesse pelos rapazes da vizinhana, todos os dentes seus e, sob a blusa, 
o corao forte e saltitante como um pnei.
    Ela acomodou a lngua sobre o comprimido e fez uma careta. O comprimido era um tanto amargo, sem dvida. Mas tudo bem. Norma no era Vctor Pascow, sem qualquer 
possibilidade de ser ajudado. Louis achou que ainda no era daquela vez que Norma ia embora. A mo dela tateou no ar e Jud pegou-a delicadamente.
    Ento Louis se levantou, pegou a bandeja do cho e comeou a recolher as mas e os doces. A mulher, que se apresentou como Sra. Buddinger, da camionete na beira 
da estrada, ajudou-o e depois disse que tinha de ir embora. Seus dois meninos estavam assustados.
    - Obrigado pela ajuda, Sra. Buddinger - disse Louis.
    - Eu no fiz nada - ela respondeu categoricamente. - Mas vou me ajoelhar esta noite e agradecer a Deus que o senhor estivesse aqui, Dr. Creed.
    Louis sacudiu a mo, embaraado.
    - Vou fazer o mesmo - disse Jud. Seus olhos encontraram os de Louis. Agora pareciam firmes. Tinham recuperado o controle. O breve momento de confuso e medo 
passara. - Fico lhe devendo isso, Louis.
    - Esquea - disse Louis e acenou para a Sra. Buddinger, que ia saindo. Ela sorriu e tambm acenou. Louis pegou uma ma caramelada e deu uma mordida. Era to 
doce que seu paladar pareceu momentaneamente paralisado... Mas no era uma sensao desagradveL Voc ganhou um ponto esta noite, Lou, ele pensou e continuou atacando 
a ma com um sentimento de alvio. Comeu-a vorazmente.
    - Estou mesmo muito agradecido, Louis - disse Jud. - Quando precisar de um favor, pea primeiro a mim.
    - Est bem - disse Louis. - Pode deixar que fao isso.

    A ambulncia do hospital de Bangor chegou vinte minutos depois. Quando os enfermeiros puseram a maca com Norma na traseira, Louis viu Rachel na janela. Acenou 
e ela respondeu levantando a mo.
    Ele e Jud viram a ambulncia se afastar, luzes piscando, mas a sirene desligada.
    - Acho que vou at o hospital - disse Jud.
    - No deixaro que voc a veja esta noite, Jud. Vo fazer um eletrocardiograma e deix-la no CTI. Nenhuma visita ser admitida nas primeiras doze horas.
    - Ela vai ficar boa, Louis? Realmente boa?
    Louis sacudiu os ombros.
    - Ningum pode garantir. Foi um ataque cardaco. Porm acho que vai ficar boa. Talvez at melhor que antes. Afinal, vai ser devidamente medicada.
    - Pois  - disse Jud, acendendo um Chesterfield.
    Louis sorriu e consultou o relgio. Ficou surpreso ao ver que ainda eram dez para as oito. Parecia ter passado um tempo muito maior.
    - Jud, vou ver Ellie para que ela possa acabar de pedir os seus doces.
    - Ah, boa idia. - Isto saiu como - Diga pra ela pegar todas as mas do pessoal da estrada.
    - Deixe comigo - Louis prometeu.

    Ellie ainda estava com sua fantasia de bruxa quando Louis entrou. Rachel tentara persuadi-la a vestir a camisola de dormir, mas a menina resistira, contando 
com a possibilidade de que a brincadeira, interrompida pelo ataque do corao de Norma, pudesse continuar. Quando Louis mandou que fosse pegar a capa, deu gritinhos 
de alegria e bateu palmas.
    - Vai ficar muito tarde para ela, Louis.
    - Deixe disso, Rachel - disse ele. - A menina est h um ms esperando por isso. Vou pegar o carro.
    - Se  assim... - Rachel sorriu. Ellie viu o sorriso, gritou de novo e correu para buscar a capa no cabide. - Norma est bem?
    - Acho que sim. - Ele tambm se sentia bem. Cansado, mas bem. - No foi um ataque grave. Ter de ter cuidado, mas quando se est com setenta e cinco anos  preciso 
admitir que os dias de salto com vara j passaram.
    - Foi sorte voc estar l. Parece providncia de Deus.
    - Aposto mais na sorte.
    Louis sorriu quando Eliie voltou.
    - Est pronta, minha bruxinha?
    - Estou - ela respondeu. - Vamos, vamos, vamos!
    Uma hora mais tarde, de volta a casa com meia sacola de doces (a menina protestou quando Louis finalmente interrompeu a brincadeira, mas no muito; estava cansada), 
Eliie sobressaltou o pai dizendo:
    - Fui eu que fiz a Sra. Crandall ter o ataque do corao, papai? Quando no quis pegar a ma machucada?
    Louis a olhou, espantado, no entendendo de onde as crianas tiravam essas idias fantsticas e meio supersticiosas. "Se andar pra trs, a me morre", "barriga 
do papai, cabea do papai, quem sorrir a meia-noite tem a morte do papai". Isso o fez pensar de novo no ' simitrio" de bichos e naqueles toscos crculos concntricos. 
Quis sorrir, para si mesmo, mas no conseguiu.
    - No, meu bem - disse ele. - Quando voc estava l dentro com aqueles dois fantasmas...
    - No eram fantasmas, eram s os gmeos Buddinger.
    - Bem, quando voc estava l dentro com eles, o Sr. Crandall me disse que Norma vinha sentindo umas dorezinhas no peito. Na realidade, acho at que foi voc 
quem lhe salvou a vida ou, pelo menos, impediu que as coisas ficassem piores.
    Agora foi a vez de Ellie ffcar espantada.
    Louis confirmou com a cabea.
    - Ela precisava de um mdico, querida. Eu sou mdico. Mas s estava l porque era sua noite de pedir doces.
    Ellie refletiu por um longo tempo e depois balanou a cabea.
    - Mas, de qualquer jeito, ela provavelmente vai morrer - disse de modo direto. - Quem tem um ataque do corao geralmente morre. E quando escapa tem logo outro 
e outro e outro at que... bum!
    - E onde aprendeu essas palavras de sabedoria, posso perguntar?
    Ellie limitou-se a balanar os ombros, um sacudir de ombros muito semelhante ao do pai, o que divertiu Louis.
    Ellie o deixou carregar a sacola de doces - um indcio de confiana quase absoluta - e Louis meditou sobre a atitude da filha. A idia da morte de Church provocara-lhe 
uma quase histeria. Mas a idia da av Norma Crandall agonizando... Ellie parecia encarar aquilo com sangue-frio, como um fato inevitvel, um dado. Afinal o que 
ela dissera? Outro e outro at que... bum!
    A cozinha estava vazia, mas Louis pde ouvir Rachel andando no andar de cima. Colocou os doces da menina no tampo da pia e disse:
    - As coisas no se passam necessariamente assim, Ellie. O ataque de corao de Norma no foi nada grave e eu pude prestar socorro imediato. Sem dvida, o corao 
dela no sofreu um dano muito grande. Ela...
    - Oh, eu sei - Ellie concordou, num tom quase joviaL - Mas  velha e vai morrer logo. O Sr. Crandall tambm. Posso comer uma ma antes de ir pra cama, papai?
    - No - disse ele, observando-a com ar pensativo. - Suba e escove os dentes, meu bem.
    Ser que algum acha mesmo que entende as crianas? - Louis se perguntou.

    Quando a casa estava em silncio e Louis se deitou na cama que compartilhava com Rachei, ela perguntou em voz baixa:
    - No foi uma experincia desagradvel para Ellie, Lou? Ela no est transtornada?
    No, Louis pensou. Ela sabe que os velhos esticam as canelas, assim como sabe que depois de um ataque cardaco pode vir outro e outro e bau-bau seu doutor... 
Assim como voc sabe que se voc pula correndo e tropea no nmero treze, seu melhor amigo vai morrer... Assim como sabe que os tmulos esto colocados em crculos 
cada vez menores no "simitrio"de bichos...
    - De modo algum - disse. - Ela reagiu muito bem. Vamos dormir, Rachel, est bem?
    Naquela noite, enquanto eles dormiam e Jud se mantinha desperto, recostado, na casa do outro lado da estrada, houve outra geada forte. O vento aumentou nas ltimas 
horas da madrugada, arrancando a maior parte das folhas que ainda restavam nas rvores. As folhas tinham agora um acinzentado sem brilho.
    O        vento acordou Louis. Ele se apoiou nos cotovelos, tonto, semi-adormecido. Ouvia passos na escada..... lentos, passos que se arrastavam. Pascow tinha 
voltado. S agora, pensou, dois meses depois. Quando a porta se abrisse, veria aquela terrvel decomposio:o calo de ginstica coberto de barro, a carne se abrindo 
em grandes buracos, o crebro apodrecido, transformando-se numa pasta. S os olhos estariam vivos... diabolicamente vivos e brilhantes. Desta vez, Pascow no diria 
nada; as cordas vocais j deviam estar excessivamente decompostas para produzir qualquer som. Mas os olhos... os olhos o induziriam a segui-lo.
    - No - ele murmurou, e os passos cessaram.
    Louis se levantou, os lbios repuxados numa careta de medo e determinao, o corpo contrado. Caminhou at a porta, abriu-a. Pascow estaria ali mais adiante, 
os braos erguidos, como um guia infernal pronto a comandar as bruxas para seu sabbat.
    "Num era nada disso", como diria Jud. O patamar da escada estava ....... silencioso. No havia outro som alm do vento. Louis voltou para a cama e adormeceu.
    No dia seguinte, Louis telefonou para a unidade de tratamento intensivo do Centro Mdico do Maine. O estado de Norma ainda era considerado crtico; esse era 
o procedimento padro para as primeiras vinte e quatro horas depois de um ataque cardaco. Mas Louis obteve uma notcia animadora de Weybridge, mdico de Norma.
    - Eu nem diria que foi um enfarte do miocrdio - disse ele. - No deixou qualquer cicatriz. Ela deve muito ao senhor, Dr. Creed.
    No final da semana, obedecendo a um impulso, Louis passou pelo hospital com um buqu de flores e viu que Norma fora transferida para um quarto semiparticular 
no andar de baixo: era um bom sinal. Jud estava com ela.
    Norma teve uma exclamao de alegria ao ver as flores e cochichou para a enfermeira lhe trazer um jarro. Seguindo sua orientao Jud s colocou na gua, arrumou-as 
e levou o jarro para uma pequena cmoda no canto do quarto.
    - A me est muito melhor - disse Jud, aps ter ajeitado as flores pela terceira vez.
    - No se faa de sabido, Judson - disse Norma.
    - No, madame.
    Por fim, Norm. virou-se para Louis.
    - Quero agradecer pelo que fez por mim - disse com um acanhamento que exclua qualquer afetao e, por isso, era duplamente comovente. - Jud diz que eu lhe devo 
a vida.
    - Jud est exagerando - disse Louis, sem jeito.
    - De maneira nenhuma - Jud replicou. Olhou de soslaio para Louis, quase deixando escapar um sorriso. - Ser que sua me lhe ensinou que  feio receber um agradecimento, 
Louis?
    Ela nunca lhe tinha dito nada desse tipo, pelo menos que Louis lembrasse. Achava que, certa vez, dissera alguma coisa sobre a falsa modstia, que seria metade 
do caminho para o pecado do orgulho.
    - Norma - disse ele -, o que eu pude fazer por voc s me deu satisfao.
    -  um homem generoso - disse Norma. - Agora, por favor, pegue meu marido e leve-o para algum lugar para tomar um copo de cerveja com voc. Estou de novo com 
sono e no consigo me livrar dele.
Jud levantou-se com entusiasmo:
    - Com todos os diabos! Louco pra isso estou eu. Vamos rpido, Louis, antes que ela mude de idia.

    A primeira nevada veio uma semana antes do Dia de Ao de Graas. A 22 de novembro a neve chegou a dez centmetros, mas na vspera do feriado, embora fizesse 
frio, o cu estava lmpido, azul. Louis levou a famlia at o Aeroporto Internacional de Bangor, para embarc-los num vo com destino a Chicago, onde fariam uma 
visita aos pais de Rachel.
    - Isso no  justo - disse Rachei pela vigsima vez, desde que as acaloradas discusses sobre o assunto tinham comeado h um ms. - No posso nem imaginar voc 
perambulando sozinho pela casa no Dia de Ao de Graas.  uma data para comemorar em famlia, Louis.
    Louis passou Gage, que parecia gigantesco e tinha os olhos arregalados em seu primeiro casaco com capuz, para o outro brao. Ellie espiava por uma das grandes 
janelas, vendo um helicptero da Fora Area decolar.
    - No vou exatamente ficar sozinho com minha cerveja - disse Louis. - Jud e Norma me convidaram para ajud-los a comer o peru e todas as guarnies. Diabo, assim 
sou eu quem acaba se sentindo culpado! Voc sabe que nunca gostei de ficar no meio de muita gente nesses feriados. De que adianta comear a beber as trs da tarde, 
vendo um jogo de futebol, no agentar mais com o prprio corpo as sete da noite e no dia seguinte acordar de ressaca, com vaqueiras do Texas sapateando e uivando 
na cabea?  claro que voc sozinha com os meninos...
    - Eu vou ficar muito bem - disse ela. - Vou me sentir uma princesa viajando de primeira classe... E acho que Gage vai dormir de Logan a O'Hare.
    -  sempre uma esperana - disse Louis e os dois riram.
Veio a chamada para o vo e Ellie quis sair em disparada.
    - E o nosso, mame! Vamos, vamos, vamos! Eles vo sair sem a gente!
    - No, no vo! - disse Rachel Segurava numa das mos as trs fichas de embarque cor-de-rosa. Usava o casaco de peles, de um marrom exuberante, cpia bem-feita 
de plo de rato-almiscarado, pensou Louis. Mas fosse l do que fosse, deixava Rachel absolutamente fascinante.
    Talvez um pouco do que estava sentindo tenha transparecido em seus olhos, pois a mulher abraou-o impulsivamente, espremendo Gage entre os dois. Gage parecia 
espantado, mas no muito incomodado.
    - Louis Creed, eu o amo - disse ela.
    - Me - Ellie gritou, agora febril de impacincia. - Vamos, vamos, .....
    - Oh, est bem - disse Rachel - Porte-se bem, Louis.
    - Conto tudo a voc - disse ele, sorrindo. - No se preocupe, vou ter cuidado. D um abrao no pessoal, Rachel
    - Oh, voc - disse ela, torcendo o nariz. Rachel no era tola, sabia muito bem porque Louis estava escapulindo da viagem. - Muito juzo!
    Louis viu os trs subirem a rampa de embarque... E desapareceram por uma semana. Mas j sentia saudades e j se sentia sozinho. Foi para a janela por onde Ellie 
estivera espiando, as mos enfiadas nos bolsos do casaco. Os carregadores ainda no tinham se afastado do compartimento de carga do avio.
    A verdade era simples. Tanto o Sr. quanto a Sra. Irwin Goldman, de Lake Forest, tinham antipatizado com ele desde o incio. A hostilidade fora contnua. O Sr. 
Goldman achava que a filha teria de sustent-lo enquanto fizesse o curso na faculdade de medicina, curso que, sem dvida, no conseguiria terminar.
    Louis sempre tentara contornar a situao, mas um dia aconteceu uma coisa que Rachel nunca ficou sabendo, pelo menos por sua boca. Irwin Goldman ofereceu-se 
para pagar todas as suas despesas na faculdade. O preo da "bolsa de estudos" (conforme as palavras de Goldman) era que rompesse imediatamente o noivado com Rachel.
    Louis Creed no estava atravessando uma boa fase na vida para reagir de cabea fria ao insulto, mas essas propostas melodramticas (ou subornos, para dar-lhes 
o nome correto) no costumam ser feitas a quem est atravessando uma fase confortvel - o que, no raro, s se alcana por volta dos oitenta e cinco anos. Sem dvida, 
Louis estava cansado dos seus problemas. Tinha dezoito horas por semana de aulas, passava mais vnte enfiado nos livros, outras quinze trabalhando como garom numa 
pizzaria vizinha  quadra do Hotel Whitehall. Andava nervoso. Naquela noite, as maneiras joviais do Sr; Goldman contrastavam radicalmente com seu habitual comportamento 
frio; Louis recordava que ao convid-lo para fumar um charuto no escritrio, Goldman trocara um olhar com a esposa. Mais tarde, muito mais tarde, depois que o tempo 
reduziu as dimenses da coisa, Louis achou que os cavalos devem experimentar a mesma desagradvel ansiedade quando sentem cheiro de fumaa numa campina. Acreditou 
que Goldman ia dizer que j sabia que ele dormira com a filha.
    Quando, em vez disso, Goldman fez sua incrvel oferta - chegando ao ponto de tirar o talo de cheques do bolso do palet, como faria um personagem corrupto numa 
comdia de Noel Coward - Louis explodiu. Acusou Goldman de tentar guardar a filha como uma pea de museu, de no ter respeito por ningum, a no ser por si mesmo, 
de ser um bastardo estpido e arrogante.
    S depois de muito tempo  que parte da raiva que sentiu naquele momento se dissipou.
    Mesmo que os seus pontos de vista sobre o carter de Irwin Goldman fossem verdadeiros, Lous deixara de lado toda a diplomacia. Qualquer semelhana com os textos 
de Noel Coward terminou ali; se houve humor no resto da conversa, foi de um tipo bem mais vulgar. Goldman mandou que se pusesse no olho da rua, dizendo que se o 
visse outra vez na porta ia chut-lo como a um vira-lata. Louis mandou que Goldman enfiasse o talo de cheques no cu. Goldman respondeu que j vira na sarjeta muitos 
vagabundos como Louis Creed, a quem ningum fiaria um vintm. Louis mandou que Goldman enfiasse todos os seus cartes de crdito, inclusive o American Express Gold 
Card, no mesmo lugar que o talo de cheques.
    Sem dvida, aquilo no fora um primeiro passo muito promissor para as futuras relaes entre genro e sogro.
    Por fim, Rachel conseguira que fizessem as pazes (cada um teve oportunidade de se desculpar das coisas que disse, embora o juzo que um fazia do outro jamais 
tenha se alterado um centmetro sequer). No houve mais melodrama, muito menos o melancolicamente teatral "deste dia em diante no tenho mais filha". Nem que Rachel 
se casasse com o Monstro da Lagoa Negra o pai a renegaria. No obstante, o rosto que brotava do colarinho do terno branco de Irwin Goldman no dia do casamento da 
filha se assemelhava bastante as faces gravadas em certos sarcfagos egpcios. Seu presente de npcias foi um aparelho de jantar de porcelana para seis pessoas e 
um forno de microondas. Nada de dinheiro. Na maior parte dos incertos dias de Louis na faculdade de medicina, Rachel trabalhou como balconista numa loja de roupas 
femininas. Mas Rachel nunca conhecera os detalhes da discusso, s sabia que as coisas tinham sido e continuavam a ser "tensas" entre o marido e seus pais... Particularmente 
entre Louis e Goldman.
    Louis podia ter ido para Chicago com a famlia, mesmo que o trabalho na universidade o obrigasse a voltar trs dias antes da mulher e dos filhos. Isto no seria 
problema; o problema real era passar quatro dias com Inhotep e sua esposa, a Esfinge.
    As crianas gostavam muito dos avs, o que era normal. Louis achava que poderia completar a harmonia fingindo esquecer aquela noite no escritrio de Goldman. 
Pouco importava que Goldman soubesse que estava fingindo. O fato, porm (e, pelo menos, tinha coragem suficiente para admiti-lo),  que no estava muito interessado 
numa aproximao maior. Dez anos so um longo tempo, mas no suficiente para dissipar o gosto amargo que lhe viera  boca quando, junto aos copos de conhaque no 
escritrio, Goldman abrira aquele ridculo palet e tirara o talo de cheques. Sim, sentira-se aliviado ao perceber que o velho no descobrira as noites (cinco ao 
todo) que ele e Rachel tinham passado na cama estreita e pouco firme de seu apartamento de solteiro, mas nem por isso a surpresa causou-lhe um desgosto menor. Os 
anos que transcorreram desde ento nada tinham alterado.
    Podia ter ido, mas preferiu mandar ao sogro apenas os netos, a filha e um bilhete.
    O        727 da Delta se afastou da rampa de embarque, comeou a taxiar... e Louis viu a filha numa das janelas da frente, acenando freneticamente. Louis tambm 
acenou, sorrindo, e algum - Ellie ou Rachel - ps Gage na janela. Louis deu adeus e Gage respondeu, talvez por t-lo visto, talvez apenas imitando Ellie.
    - Levem meu pessoal em segurana - ele murmurou, fechando o zper do casaco. Depois caminhou para o estacionamento.
    O        vento gemia e zumbia, quase lhe arrancando o bon da cabea; Louis teve de segur-lo com uma das mos. Atrapalhado com as chaves, abriu a porta do carro 
quando o jato decolou e comeou a se afastar da pista do aeroporto, o nariz inclinado para o azul forte do cu, as turbinas retumbando.
    Naquele momento, sentindo-se realmente s (e ridiculamente prximo das lgrimas), Louis acenou de novo.
    Ainda experimentava uma certa melancolia quando,  noite, tornou a atravessar a Rodovia 15 depois de algumas cervejas com Jud e Norma. Norma bebera um copo de 
vinho, algo que podia fazer e fora at estimulada a fazer pelo Dr. Weybridge. Por causa do tempo, tinham se transferido para a cozinha.
    Jud acendera o pequeno aquecedor Marek e os trs se sentaram em torno dele, a cerveja fria, o calor aconchegante. Jud contara como os ndios micmacs repeliram 
um desembarque britnico em Machias, duzentos anos atrs. Naquele tempo, os micmacs eram muito temidos, disse ele, acrescentando que muitos advogados que cuidavam 
de questes de terras a nvel estadual e federal ainda os achavam temveis.
    Podia ter sido uma noite muito boa, mas Louis estava consciente da casa vazia que o esperava. Cruzando o gramado e sentindo sob os ps o ranger da grama congelada, 
ouviu a campainha do telefone. Saiu correndo, cruzou a porta da frente, atravessou numa pernada a saia de estar (esbarrando num suporte de revistas) e derrapou pela 
cozinha, o gelo nos sapatos deslizando sobre os ladrilhos. Pegou bruscamente o fone.
    - Al?
    - Louis? - Era a voz de Rachel, um pouco distante, mas absolutamente clara. - Estamos aqui. Chegamos bem... Nenhum problema.
    - timo! - disse ele e sentou-se para conversar, pensando: Como eu queria que voc estivesse aqui.


    O        almoo do Dia de Ao de Graas servido por Jud e Norma foi excelente. Quando acabou, Louis voltou para casa sentindo-se muito bem-alimentado e sonolento. 
Saboreando o silncio, subiu para o quarto, tirou os mocassins e deitou. Passava um pouco das trs horas da tarde; o dia l fora tinha uma luminosidade fraca, de 
inverno.
    S vou tirar um cochilo, ele pensou, e adormeceu.
    Foi a extenso do quarto que o despertou. Tateou para encontrar o fone, tentando afugentar o sono e um tanto desorientado pelo fato de ser quase noite. Podia 
ouvir o gemer do vento em volta da casa e o estalar da fornalha do aquecedor.
    - Al! - respondeu. Seria Rachel, ligando outra vez de Chicago para desejar-lhe um feliz Dia de Ao de Graas. Colocanda Ellie no aparelho, a filha ia contar 
as novidades e depois seria a vez de Gage repetir as duas ou trs palavras que sabia... Mas, que diabo!, como conseguira dormir toda a tarde sabendo que havia o 
jogo de futebol na...?
    Mas no era Rachel Era Jud.
    - Louis? Acho que vou te dar uma dor de cabea.
    Ele pulou da cama, ainda procurando se livrar do sono.
    - Jud? Que dor de cabea?
    - Bem, h um gato morto aqui no. nosso gramado. Acho que pode ser o gato de sua filha.
    - Church? - Louis perguntou. Sentiu um sbito vazio na barriga. -Tem certeza disso, Jud?
    - No, no tenho certeza absoluta - disse Jud -, mas sem dvida parece ele.
    - Oh! Oh, merda! Vou at a.
    - Tudo bem, Louis.
    Ele desligou e ficou um minuto parado, estupefato. Depois foi at o banheiro, calou os sapatos e desceu as escadas.
    Bem, pode no ser o Church. O prprio Jud disse que no tinha certeza absoluta. Cristo, o gato no quer mais nem subir a escada,  preciso que algum o carregue... 
Por que ia atravessar a estrada?
    Mas no fundo, tinha certeza de que era Church... E se Rachel telefonasse mais tarde, o que sem dvida ia acontecer, como poderia contar a Ellie?
    Atordoado, lembrou do que dissera a Rachel: Eu sei que qualquer coisa, literalmente qualquer coisa, pode acontecer aos seres vivos. Como mdico, eu sei disso... 
Quer ter de explicar um dia  sua filha o que aconteceu se Church for atropelado na estrada? Mas de fato no acreditara que pudesse acontecer alguma coisa a Church, 
no  mesmo?
    Lembrou-se de um dos sujeitos com quem jogava pquer, Wickes Sullivan. Certa vez Wicky lhe perguntara por que ele ficava excitado com a esposa e no se excitava 
com as mulheres nuas que via quase todo dia no consultrio. Louis tentou explicar que as coisas no se passavam como as pessoas imaginam em suas fantasias: uma mulher 
que ia a um consultrio preocupada com uma mancha na pele, ou querendo aprender a examinar o prprio seio em busca de caroos, no deixava cair subitamente um lenol, 
mostrando o corpo como uma Vnus desnuda. Voc via um seio, uma vulva, uma coxa. O resto continuava envolvido no lenol, e sempre havia uma enfermeira do lado, mais 
para proteger a reputao do mdico do que para qualquer outra coisa. Wicky no aceitou a explicao. Um seio  um seio, era a tese de Wicky, e uma vagina era uma 
vagina. Ou voc se excita sempre ou nunca se excita. Tudo que Lous pde responder foi que com o seio de uma esposa era diferente.
    Assim como supomos que toda a famlia da gente  diferente, ele pensou. Church no podia morrer porque estava dentro do crculo mgico da famlia. O que ele 
no fora capaz de fazer Wicky compreender  que os mdicos encaixavam as coisas em compartimentos estanques to gratuita e cegamente quanto qualquer outra pessoa. 
Uma teta no era uma teta, a menos que fosse a teta de sua mulher. No consultrio, uma teta era um caso clnico. Voc pode fazer uma conferncia num colquio mdico 
e falar at ficar rouco sobre a incidncia de leucemia em crianas, mas nem por um momento vai admitir que um de seus filhos possa apresentar algum problema no sangue. 
Meu garoto? O gato de minha filha? Doutor, voc deve estar brincando!

    No importa. Vamos pr tudo em pratos limpos.
    Mas era difcil conservar o sangue-frio quando se lembrava de como Ellie tinha ficado nervosa. ante a perspectiva de Church um dia morrer.
    Merda de gato estpido, por que tnhamos de ter um gato tio estpido?
    Foi capado justamente pra no morrer na estrada.
    - Church? - ele chamou, mas ouviu apenas o barulho da caldeira, estalando, consumindo dlares de energia. O sof da sala de estar, onde Church vinha se acostumando 
a passar a maior parte do seu tempo, estava vazio. Tambm no estava deitado sobre nenhum dos aquecedores. Louis sacudiu a vasilha de comida, a nica coisa que, 
sem dvida, faria Church vir correndo. Mas desta vez ele no veio... E Louis temia que nunca mais viesse.
    Vestiu o casaco, ps o bon e caminhou para a porta. Ento voltou. Admitindo o que o corao lhe dizia, abriu o armrio embaixo da pia e se agachou. Encontrou 
dois tipos de sacos de plstico: pequenos sacos brancos para as cestas de papel e grandes sacos verdes para o lixo maior. Louis pegou um destes. Church vinha aumentando 
de peso desde que fora castrado.
    Ps o saco num dos bolsos do lado do casaco e no gostou de sentir o plstico frio, escorregadio nos dedos. Depois abriu a porta da frente e atravessou a estrada 
para a casa de Jud.
    Eram cerca de cinco e meia. O crepsculo avanava. Tudo parecia adormecer. O resto de luz do sol era um estranho contorno alaranjado no horizonte do outro lado 
do rio. O vento golpeava forte na Rodovia 15, entorpecendo o rosto de Louis e dispersando a nuvem branca de sua respirao. Ele estremeceu, mas no por causa do 
frio. O que o fez tremer foi uma sensao de solido, forte, consistente. No parecia uma sensao abstrata. Era uma solido bastante concreta, embora sem feies 
reconhecveis. No podia toc-la nem ser mais profundamente tocado por ela, mas a experimentava de forma muito intensa.
    Viu Jud do outro lado da estrada, enrolado em seu casaco verde, grande e felpudo, o rosto na sombra da orla de peles do capuz. De p sobre o gramado congelado, 
Jud lembrava uma escultura; mais uma coisa sem vida naquela paisagem crepuscular onde nenhum pssaro cantava.
    Jud se movera quando Louis comeou a atravessar a estrada. Fez um aceno. Gritou alguma coisa que Louis no pde entender devido ao contnuo gemido do vento. 
Mas Louis deu um passo atrs, percebendo que o barulho do vento se tornara subitamente mais intenso, mais agudo. Da a um instante ouviu o guincho de uma buzina 
e um grande caminho da Orinco passou roncando perto dele, suficientemente perto para agitar suas calas e as abas do casaco. Apostou que por um triz no atravessava 
bem na frente da coisa.
    Desta vez, olhou para os dois lados antes de cruzar a estrada. Viu apenas as luzes traseiras do caminho-tanque, desaparecendo naquele final de crepsculo.
    - Puxa!Cheguei a pensar que o caminho tinha pegado voc - disse Jud. - Tenha mais cuidado, Louis.
    Mesmo quela distncia, ainda no conseguia distinguir as feies de Jud. Teve a estranha sensao de que ele podia ser outra pessoa... Qualquer outra pessoa.
    - Onde est Norma? - Louis perguntou, no se atrevendo a olhar para a trouxa de plos esparramada junto dos ps do velho.
    - Foi para o Dia de Ao de Graas na igreja - Jud respondeu. -Vem para o jantar, eu acho, mas pode ter certeza que no vai comer nada. Ultimamente, ela s belisca.
    O vento deu uma rajada forte, atirando o capuz para trs e Louis viu que era mesmo jud... E, afmal, quem mais poderia ser?
    - As vezes s come uns sanduches depois do ..... . - Jud continuou. - Por volta das oito, j deve estar aqui. Pode acreditar, foi  igreja, mas isso  s uma 
desculpa pra ficar tagarelando com as comadres.
    Louis se ajoelhou para ver o gato. Deus queira que no seja Church, ele pediu com fervor, enquanto virava cuidadosamente o focinho com os dedos enluvados. Deus 
queira que seja algum outro gato, que Jud esteja errado.
    Mas, evidentemente, era Church. No estava de modo algum mutilado ou desfigurado; no fora atropelado por nenhum dos grandes caminhes-tanques ou jamantas que 
cruzavam a Rodovia 15. (E por falar nisso, o que aquele caminho da Orinco estava fazendo na estrada no Dia de Ao de Graas?, ele se perguntou.) Os olhos de Church 
estavam meio abertos, vidrados como mrmore esverdeado. Um pequeno filete de sangue escorrera-lhe da boca, que tambm estava aberta. No era muito sangue, mas fora 
suficiente para manchar o peito branco.
    -  o seu, Louis?
    -  o meu - ele concordou, suspirando.
    Pela primeira vez tomava conscincia de que amava Church - talvez no com o mesmo fervor de Ellie, mas a seu prprio modo. Nas semanas que se seguiram  castrao, 
Church tinha se modificado, ficara gordo e indolente, cara num perambular rotineiro entre a cama de Ellie, o sof e a vasilha de comida. Raramente saa de casa. 
Agora, morto, olhava para Louis como o velho Church. A boca, pequena e ensangentada, cheia dos seus dentes de felino, afiados como agulha, parecia congelada num 
rosnado de ataque. Os olhos sem vida, mesmo assim pareciam furiosos. Era como se depois da curta e estpida fase de uma existncia como eunuco, Church redescobrisse 
sua verdadeira natureza no momento da morte.
    - Sim,  Church - disse Louis. - Mas como vou contar a Ellie?
    E foi ento que teve uma idia...
    Enterraria Church no "simitrio" de bichos, mas sem lpide, sem nenhuma daquelas bobagens. Naquela noite, ao telefone, no contaria nada; amanh, mencionava 
por acaso que no sabia onde andava Church; no dia seguinte, podia sugerir que talvez Church tivesse ido embora. s vezes os gatos fazem isso. Ellie ficaria transtornada, 
 claro, mas no haveria aquele carter de coisa derradeira, definitiva. No haveria reprise da perturbadora recusa de Rachel em se defrontar com a idia da morte... 
O impacto iria se extinguindo...
    Uma atitude covarde, parte de sua mente acusou.
    Sim... No h dvida. Mas quem precisa de problemas?
    - Ela gostava muito desse gato, no ? - Jud perguntou.
    - Muito - Louis respondeu com ar distrado. Virou de novo a cabea de Church. O gato comeara a enrijecer, mas a cabea ainda se movia com excessiva facilidade. 
Pescoo quebrado,  claro. Achou que podia reconstituir o que tinha acontecido. Church estava atravessando a estrada -s Deus sabe por qu - e foi atingido por um 
carro ou caminho. Foi atirado de pescoo quebrado na frente da casa de Jud Crandall. Ou talvez o pescoo tenha quebrado quando Church bateu na neve que congelara 
no solo. Pouco importava. De um modo ou de outro, o fato permanecia inaltervel, Church estava morto.
    Ergueu os olhos para Jud, pronto a dizer-lhe a que concluses chegara, mas Jud parecia distante, contemplando o contorno de luz alaranjada que ia escurecendo 
no horizonte. O capuz escorregara de novo,. descobrindo metade de sua cabea; o rosto parecia pensativo e severo... spero, mesmo.
    Louis tirou do bolso o saco verde de lixo e abriu-o, segurando-o com fora para que o vento no o levasse. O ruidoso crepitar do plstico tirou Jud do devaneio.
    - Sim, acho que ela gosta muito dele - disse Jud. O uso do presente pareceu ligeiramente inslito... Na realidade, todo aquele cenrio, a luz crepuscular, o 
frio e o vento, pareciam inslitos, macabros aos olhos de Louis.
    Aqui est Heathcliff nos pntanos desolados, Louis pensou, fazendo uma careta diante do frio. Pronto para enfiar o gato da famlia no saco do demnio. Arre!
    Pegou a cauda de Church, abriu  saco e levantou o animaL Sua expresso foi de tristeza e desgosto ao som de rasgar que fez o corpo do gato -        rrrriiippp 
- desgrudando do solo congelado. Church parecia inacreditavelmente pesado, como se a morte o tivesse envolvido como um peso fsico. Cristo, ele parece um balde de 
areia.
    Jud ajudava a manter o saco aberto e Louis deixou o animal cair dentro dele, satisfeito por se livrar daquele peso estranho e desagradveL
    - O que vai fazer agora? - Jud perguntou.
    - Acho que vou lev-lo para a garagem - disse Louis. - De manh o enterro.
    - No "simitrio" de bichos?
    Lous balanou os ombros.
    - Acho que sim.
    - Vai dizer a Ellie?
    - Eu... Ainda vou pensar...
    Jud ficou um momento em silncio e pareceu tomar uma deciso:
    - Me espere um minuto ou dois, Louis.
    Jud afastou-se. Talvez nem lhe passasse pela cabea que Louis podia no querer esperar um minuto sequer no frio cortante da noite. Caminhava com aquele passo 
firme e aquela agilidade to estranhos num homem de sua idade. E Louis no encontrou palavras para fazer qualquer objeo. Achou tambm que no estava com muita 
pressa. Viu Jud entrar em casa e no se sentiu to mal por continuar ali fora.
    Ergueu o rosto contra o vento depois que a porta de madeira estalou e fechou. O saco de lixo com o corpo de Church vibrava entre seus ps.
         No se sentiu to maL
    Sim, estava at alegre. Pela primeira vez, desde que se mudara para o Maine, sentia que aquele era o seu lugar, que aquela era a sua casa. De p na margem da 
estrada, sozinho, nos primeiros minutos da noite e cercado pelo incio do inverno, sentiu-se singularmente revigorado, estranhamente contente - contente como nunca 
estivera, ou pelo menos no podia lembrar que estivera, desde a infncia.
    Alguma coisa est acontecendo aqui, rapaz. Alguma coisa fantstica, eu acho.
    Inclinou a cabea para trs e contemplou frias estrelas de inverno num cu cada vez mais escuro.
    No soube quanto tempo ficou assim, mas no deve ter sido um tempo longo em termos de minutos e segundos. Uma luz piscou na varanda de Jud, oscilou, aproximou-se 
da porta e desceu as escadas. Era Jud segurando uma grande lanterna de quatro pilhas. Na outra mo, trazia algo que,  primeira vista, pareceu um grande objeto em 
forma de X... Mas, logo a seguir, Louis viu que era uma picareta e uma p.
    Deu a p a Louis, que a segurou com uma das mos.
    - Jud, que diabo voc est pretendendo fazer? No podemos enterr-lo hoje  noite.
    - Sim, podemos. E vamos enterr-lo.
    O rosto de Jud estava no escuro, atrs do crculo de luz da lanterna.
    - Jud, est escuro. E tarde. Faz frio...
    - Vamos l - disse Jud. - Vamos fazer logo o que tem de ser feito.
    Lous balanou a cabea e ainda tentou argumentar, mas as palavras, palavras razoveis e sensatas, pareciam difceis... Pareceram perder todo o significado sob 
o uivo baixo do vento e aquela escurido salpicada de estrelas.
    - Por que no esperar at amanh, quando poderemos enxergar melhor...?
    - Ela gosta do gato?
    - Gosta, mas...
    O tom de Jud era suave e, de certa forma, parecia racional:
    - E voc gosta dela?
    -  claro que eu gosto dela,  minha fi...
- Ento vamos.
    Louis foi. 
    Naquela noite, duas, talvez trs vezes, a caminho do "simitrio" de bichos, Louis tentou puxar conversa, mas Jud no respondeu. Louis desistiu. A sensao de 
contentamento, bastante estranha naquelas circunstncias, mas que surgia como um fato puro e simples, persistia. Parecia vir de todos os lados. A dor contnua nos 
msculos, pelo peso de Church numa das mos e a p na outra, no a eliminava. O vento, terrivelmente frio, entorpecendo as partes expostas do corpo, no a eliminava. 
O vento serpenteava entre as rvores, mas depois que entraram nos bosques, a nevada cessou. A luz oscilante da lanterna de Jud tambm participava de seu contentamento. 
Sentia a presena difusa, evidente, magntica, de algum segredo. Algum terrvel segredo.
    As sombras se abriram e havia uma sensao de espao. A neve tinha um brilho plido.
    - Vamos dar uma parada aqui - disse Jud e Louis pousou o saco no cho. Com o brao, limpou o suor da testa. Dar uma parada ali? Mas eles estavam l. Louis podia 
ver os marcadores de tmulos entre o deslizante, instvel movimento da lanterna de Jud quando este sentou-se sobre a neve fina e mergulhou o rosto entre os braos.
    - Jud? Voc est bem?
    - timo. S preciso tomar um pouco de ar.
    Louis sentou-se a seu lado e respirou profundamente meia dzia de vezes.
    - Sabe de uma coisa, Jud - disse ele, - acho que h seis anos no me sinto to bem como agora. Sei que  absurdo dizer isso quando se est enterrando o gato 
da filha, mas  a verdade nua e crua. Estou me sentindo muito bem.
    Jud respirou profundamente uma ou duas vezes.
    - E, eu sei - disse ele. - Isso acontece de vez em quando. No fundo, voc no escolhe o momento de se sentir bem, como tambm no escolhe o momento de se sentir 
mal... O lugar tem alguma coisa a ver com isso,  claro, mesmo que voc no acredite... A herona faz o viciado sentir-se bem quando est circulando nos braos dele, 
mas enquanto isso ela o est envenenando. Envenenando o corpo e envenenando o modo de pensar. Este lugar pode ser assim, Louis, nunca se esquea disso. Deus me ajude 
pra que eu esteja agindo certo. Acho que estou, mas no tenho certeza absoluta. s vezes minha cabea fica confusa.  a esclerose chegando, deve ser.
    - No entendi muito bem o que voc falou, Jud.
    - Este lugar tem poder, Louis. No tanto aqui, mas... no ponto para onde vamos.
- Jud...
         -Vamos - disse Jud se levantando. O feixe de luz da lanterna iluminou as rvores cadas. Jud comeou a andar na direo delas. E, de repente, Louis lembrou-se 
do seu episdio de sonambulismo. O que Pascow dissera no meio do sonho?
    No ultrapasse este limite, doutor, por mais que tenha vontade. A barreira no foi feita para ser violada.
    Mas naquele momento, naquela noite, o sonho, a advertncia, seja l o que tenha sido aquilo, parecia h anos de distncia. Louis se sentia muito bem, extremamente 
alegre, confiante, disposto a enfrentar qualquer coisa, fascinado com a experincia. Ocorreu-lhe que o que estava acontecendo ali tambm se parecia muito a um sonho.
    Ento Jud se virou, o capuz parecendo cercar um vazio. Por um momento, Louis julgou que era o prprio Pascow que estava diante dele, que a luz da lanterna se 
voltava para trs, para focalizar apenas uma caveira sorridente e capaz de falar, apenas um crnio emoldurado com a pele do casaco de Jud. O medo envolveu-o como 
um jato de gua fria.
    - Jud - disse ele - no podemos subir a. Vamos quebrar uma perna e ficar congelados tentando voltar para casa.
    - Venha atrs de mim - disse Jud. - Venha atrs de mim e no olhe pra baixo. No hesite e no olhe pra baixo. Eu conheo o caminho, mas temos de atravess-lo 
com passo firme, e depressa.
    Louis comeou a pensar que talvez fosse um sonho, que simplesmente ainda no despertara da sesta depois do almoo. Se eu estivesse acordado, ele pensou, s treparia 
neste monte de rvores se estivesse de porre ou quisesse quebrar a cara. E no entanto estou disposto a fazer isso. Acho que estou mesmo disposto. Portanto... devo 
estar sonhando. Certo?
    Jud virou ligeiramente para a esquerda, na direo do centro do monte de rvores. A luz da lanterna fixou todo o seu brilho no confuso amontoado de
    (ossos)
    galhos cados, velhos troncos. O crculo de luz ficava menor e mais intenso  medida que Jud se aproximava. Sem a mais leve pausa, sem ao menos um breve correr 
de olhos para assegurar-se de que estava no ponto exato, ele comeou a subir. No se arrastava, nem mesmo subia curvado, como se costuma subir uma encosta montanhosa 
ou uma duna. Era como se galgasse um lance de degraus. Parecia saber exatamente onde cada passo ia dar.
    Louis seguiu-o da mesma maneira.

    No olhou para baixo nem verificou onde pisava. Foi envolvido por uma estranha, mas absoluta certeza de que as rvores cadas no poderiam machuc-lo, a no 
ser que as deixasse fazer isso. Era uma atitude extremamente imbecil,  claro, como a estpida confiana de um homem que acredita poder dirigir embriagado porque 
tem uma medalha de So Cristvo no pescoo.
    Mas funcionou.
    Nenhum velho tronco cedeu dando um estouro de tiro de revlver, nenhum p resvalou para um buraco cheio de lascas esbranquiadas pelo tempo, capazes de cortar 
a pele, rasgar, mutilar. Seus sapatos (mocassins de lona, de modo algum recomendados para aquele tipo de escalada) no escorregaram no limo que cobrira muitos dos 
troncos cados. No tropeou nem para a frente nem para trs. O vento assobiava de modo selvagem por entre os pinheiros em volta.
    Por um momento, viu Jud de p no topo do amontoado de troncos. E Jud comeou a descer pelo outro lado, os joelhos sumindo, depois as pernas, a cintura, o tronco. 
A luz da lanterna saltava ao acaso entre os galhos das rvores fustigadas pelo vento no outro lado da. . . barreira. Sim, era isso mesmo, por que fingir que no? 
Uma barreira.
    Louis tambm alcanou o topo e parou um instante, o p direito plantado numa velha rvore inclinada num ngulo de trinta e cinco graus, o p esquerdo pisando 
alguma coisa ainda mais vergada, talvez um emaranhado de velhos ramos de pinheiro... No olhou para baixo. Passou para a mo esquerda o pesado saco de lixo com o 
corpo de Church, trocando-o com a p. Levantou o rosto contra o vento e sentiu-o correr impetuoso, numa torrente sem fim, fazendo seu cabelo esvoaar. Era um vento 
to frio, to ....... to constante.
    Tornou a andar e, num passo despreocupado, quase como se passeasse, comeou a descer. Uma ponta de galho, talvez do tamanho do pulso de um homem forte, deu um 
estalo alto, mas Louis no se preocupou. O p comeou a escorregar mas foi detido por um galho maior, uns dez centmetros abaixo. Louis praticamente nem cambaleou. 
Achou que agora podia entender como os comandantes de peloto da Primeira Guerra Mundial conseguiam caminhar pela beira das trincheiras assobiando Tipperary, as 
balas zunindo em volta deles. Era absurdo, mas o prprio absurdo tornava a coisa tremendamente divertida.
    Descia, a cabea erguida, os olhos postos no brilhante crculo de luz da lanterna de Jud. Jud estava de p l embaixo,  sua espera. Pouco depois, atingiu o 
solo. A sensao de alegria inflamou-o como um punhado de querosene jogado em madeira em brasa.
    - Conseguimos! - gritou.
    Pousou a p e abraou o ombro de Jud. Era como ter escalado uma macieira at o galho mais alto, oscilando no vento como um mastro de navio. H mais de vinte 
anos no se sentia to jovem, to radicalmente cheio de vida.
    - Jud, ns conseguimos!
    - Voc achou que no amos conseguir? - Jud perguntou.
    Louis abriu a boca para dizer alguma coisa (Se achei que no amos conseguir? Tivemos uma sorte tremenda em no nos matarmos!), mas tornou a fech-la. Realmente, 
a partir do momento em que Jud se aproximara dos troncos, no tivera qualquer dvida de que iam conseguir. E a idia de ter de atravess-los de novo, na volta, no 
lhe causava qualquer apreenso.
    - Achei que no - respondeu.
    - Vamos. Ainda temos de andar um bom pedao. Quase cinco quilmetros.
    Puseram-se a caminho. A trilha de fato continuava do outro lado. Em certos pontos, parecia at muito ampla, embora o facho oscilante da lanterna revelasse pouca 
coisa; era principalmente uma sensao de espao, uma sensao de que as rvores recuavam. Uma ou duas vezes, Louis ergueu a cabea e viu as estrelas passando, atravs 
de uma densa e escura fronteira de rvores. Numa curva, alguma coisa cruzou a trilha diante deles e a lanterna captou um reflexo de olhos esverdeados, mas logo os 
olhos sumiram na escurido.
    s vezes, a trilha se estreitava de tal forma que Louis sentia pontas duras de arbustos arranhando-lhe, como unhas, as mangas do casaco. Trocava de mo com mais 
freqncia o saco e a p, mas a dor nos braos era agora constante.

    Deixou-se envolver pelo ritmo da caminhada, deixou-se quase hipnotizar por ele. Havia poder ali, sim, ele sentia no ar. Lembrou-se de algo que aconteceu quando 
estava no ltimo ano da escola secundria. Ele, a namorada e outro casal tinham ido acampar e acabaram dando com o nariz numa estrada poeirenta e sem saida, perto 
de uma usina eltrica. Pouco depois de chegarem l, a garota de Louis disse que queria voltar para casa, ou pelo menos ir para outro lugar, porque todos os seus 
dentes (pelo menos, todos os obturados, que eram a maioda) estavam doendo. O prprio Louis gostou de sair de l. O ar em torno da usina o deixara nervoso, ansioso. 
Ali nos bosques, a sensao era parecida, mas era mais forte. E no entanto, de modo algum desagradveL Era...
    Jud havia parado no sop de uma encosta ngreme, e Louis colidiu com ele.
    Jud se virou.
    - Estamos quase chegando - disse com voz calma. - Este trecho final  como a passagem dos troncos. Voc precisa andar com passo firme e sem se afobar. Venha 
atrs de mim e no olhe pra baixo. Percebeu que estvamos descendo?
    - Sim.
    - Isto  o incio do que os micmacs costumavam chamar Pequeno Pntano de Deus. Os negociantes de peles que o atravessaram chamaram-no de Charco do Homem Morto, 
e a maioria dos que passaram uma vez por ele nunca mais quis voltar.
    - Tem areia movedia?
    - Oh, se tem!, muita areia movedia! Torrentes que borbulham devido a um grande depsito de areia de quartzo que existe l em cima e vem escorrendo. Pelo menos 
eu sempre chamei de areia de quartzo, mas deve haver um nome mais apropriado.
    Jud o encarou e, por um instante, Louis acreditou ter visto alguma coisa brilhante, no de todo agradvel, nos olhos do velho.
    Ento Jud moveu o facho da lanterna e o olhar sumiu.
    - H muita coisa engraada neste caminho, Louis. O ar  mais pesado... mais carregado de eletricidade... ou alguma coi...
    Louis estremeceu.
    - O que houve?
    - Nada - disse Louis, pensando naquela noite na estrada sem sada.
    - Voc pode ver o fogo-de-santelmo... Aquilo que os marinheiros chamam de fogo-ftuo. Tem formas engraadas, mas no  nada. Se vir alguma dessas formas e elas 
o incomodarem,  s virar o rosto para o outro lado... Voc tambm pode ouvir sons parecidos com vozes, mas so apenas as gralhas ao Sul, l para os lados de Prospect. 
O som chega at aqui.  engraado.
    - Gralhas? - Louis exclamou incrdulo. - Nessa poca do ano?
    - Oh, sim - Jud confirmou. Sua voz parecia terrivelmente branda e totalmente pastosa. Por um momento, Louis teve uma vontade desesperada de ver outra vez o rosto 
do velho. Aquele olhar...
    - Jud, para onde estamos indo? Que diabo estamos fazendo aqui no fim do mundo?
    - Vai saber quando chegarmos l - Jud respondeu e se virou para a trilha. - Cuidado com o mato!
    Recomearam a andar, passando de um patamar a outro da encosta. Louis no se perturbava com as dificuldades do caminho. Os ps pareciam encontrar automaticamente 
os pontos mais seguros. S escorregou uma vez, quando o sapato esquerdo quebrou uma fina placa de gelo e mergulhou numa gua fria, um tanto pegajosa. Ele o puxou 
depressa e continuou avanando, seguindo o balano da lanterna de Jud. Aquela luz, flutuando no meio dos bosques, trouxe-lhe  memria as histrias de piratas que 
gostava de ler quando era menino. Homens maus na calada da noite, enterrando num bosque grandes dobres de ouro da Espanha... E um deles,  claro, caa no buraco 
sobre a arca do tesouro, uma bala no corao, pois os piratas acreditavam (pelo menos era isso que os autores daquelas histrias fantsticas atestavam) que o esprito 
do camarada morto permaneceria ali tomando conta do botim.
    O problema  que no viemos enterrar nenhum tesouro. S o gato castrado de minha filha.
    Sentiu um riso selvagem crescendo dentro dele, mas o sufocou.
    No estava ouvindo nenhum "som parecido com vozes", nem via qualquer fogo-de-santelmo. Em compensao, aps transpor uma meia dzia de barrancos, olhou para 
baixo e viu que seus ps, joelhos e a parte mais baixa das coxas tinham desaparecido no meio de uma nvoa rasteira muito compacta, muito branca, absolutamente opaca. 
Era como caminhar atravs da mais leve torrente de neve do mundo.
    Agora o ar parecia ter uma espcie de luminosidade e ele podia jurar que estava mais quente. Via Jud  sua frente, andando com passo firme, a ponta rombuda da 
picareta enganchada no ombro. A picareta acentuava a iluso de um homem que queria enterrar algum tesouro.
    A absurda sensao de contentamento persistia. De repente ocorreu .a Louis que talvez a mulher estivesse tentando se comunicar com ele. Se, quando voltasse a 
casa, ouvisse o telefone tocar sem parar, fazendo seu rudo prosaico, racional, Se...
    Quase colidiu outra vez com Jud. O velho parara no meio da trilha. A cabea estava empinada, a boca repuxada, tensa.
    - Jud? O que...
-        Chiii!
    Louis se calou, olhando em volta um tanto inquieto. Ali a nvoa rasteira era mais rala, mas ainda no conseguia ver os sapatos. Ento ouviu um rudo de mato 
estalando e galhos quebrando. Alguma coisa estava se movendo... Alguma coisa grande.
    Abriu a boca para perguntar a Jud se no seria um alce (urso foi a idia que realmente lhe passou pela cabea), mas a fechou de novo. O som chega at aqui, Jud 
dissera.
    Tambm esticou a cabea numa imitao inconsciente de Jud e prestou ateno. A princpio, o som pareceu distante, depois muito perto; tornou a se afastar e a 
se aproximar assustadoramente. Louis sentiu que o suor da testa tinha comeado a escorrer por todo o rosto. Trocou de mo o saco infernal com o corpo de Church. 
As palmas das mos estavam midas e o plstico verde parecia engordurado, quase lhe escorregando. Agora, a coisa l no escuro parecia to prxima que Louis esperou 
v-la a qualquer momento, talvez se erguendo em duas pernas, empanando o brilho das estrelas com um corpo monstruoso, enorme, peludo.
    Urso j no era bem o que lhe passava pela cabea.
    Ele nem sabia mais o que lhe passava pela cabea.
    Ento a coisa se afastou de novo, no apareceu.
    Louis abriu outra vez a boca, as palavras O que  isso? na ponta da lngua. E foi naquele momento que um riso estridente, louco, comeou a brotar da escurido, 
indo e vindo em ciclos histricos. Era um riso alto, penetrante, arrepiante. Pareceu a Louis que cada articulao de seu corpo se congelara e que, de alguma forma, 
seu peso aumentava, aumentava de tal forma que se tentasse se mexer mergulharia para sempre no solo pantanoso.
    A risada crescia, dividida agora num gorgolejar seco, um rudo de pedra quebrando, se abrindo em muitas ranhuras e se estilhaando. O riso atingiu a intensidade 
de um grito, depois submergiu num cacarejo gutural que pareceu se transformar em soluos antes de desaparecer por completo.
    Em algum lugar ouviu um gotejar de gua e, em seguida, como um rio incessante no fundo de estrelas, o gemido montono da ventania continuou sendo o nico som 
que rompia o silncio do Pequeno Pntano de Deus.
    Louis comeou a tremer de cima a baixo. Sua pele, particularmente a do ventre, comeou a rastejar. Sim, rastejar era a palavra exata; a pele realmente parecia 
estar se deslocando sobre o corpo. Na boca, uma secura total. Como se a saliva tivesse sido sugada at a ltima gota. E apesar de tudo, a sensao de alegria persistia, 
um ataque de demncia que no cessava.
    - O que foi isto, pelo amor de Deus? - murmurou com voz rouca para Jud.
    Jud se virou para olh-lo e, na escurido, parecia ter cento e vinte anos. No havia mais trao daquele brilho estranho que danara em seus olhos. O rosto se 
contorcera e o olhar revelava um assombroso terror. No entanto, quando respondeu, a voz j se mostrava bastante firme:
    - Apenas as gralhas - disse ele. - Vamos, Louis. Estamos quase chegando.
    Continuaram andando. O mato parecia se adensar, embora, de vez em quando, Louis tivesse uma sensao de espaos abertos. A luminosidade que h pouco parecia 
envolver a atmosfera tinha se dissipado. Agora s conseguia divisar as costas de Jud, um metro na frente dele. Sob os ps, sentia uma relva baixa, mas congelada 
pela neve; quebrando como vidro a cada passo. E ento Louis teve certeza de que estavam de novo cercados pelas rvores. Podia sentir o aroma dos pinheiros, sentir 
as lascas de pinho no cho. Aqui e ali, um ramo ou um galho arranhavam-lhe o casaco.
    Perdera toda a noo de tempo ou direo, mas antes que andassem muito mais, Jud parou outra vez.
    - H degraus aqui - disse Jud. - Talhados na rocha. Quarenta e dois ou quarenta e quatro, no lembro. Venha sempre atrs de mim. Agora s precisamos chegar ao 
topo.
    Jud comeou a subir e Louis atrs.
    Os degraus de pedra eram bem largos, mas a sensao de altitude ia se tornando desagradvel. Vez por outra os sapatos de Louis faziam rolar um punhado de pedras 
e fragmentos de rocha.
         ...doze ... quatorze...
    O vento estava mais forte, mais frio. O rosto ficava dormente. Ser que j estamos acima das rvores?, ele se perguntava. Levantava a cabea e via um bilho 
de estrelas, luzes frias na noite de inverno. Nunca em sua vida as estrelas o tinham feito se sentir to absolutamente pequeno, infinitesimal, insignificante. Fez 
a si mesmo a velha pergunta: Ser que existe alguma coisa inteligente l em cima? Mas em vez de admirao o pensamento trouxe uma medonha sensao de frio, como 
se tivesse perguntado como era ter um punhado de baratas se mexendo na boca.
          ...vinte e seis... vinte e sete... vinte e oito...
    Mas quem talhou esses degraus? Os ndios? Os micmacs? Tinham ferramentas para isso? Tenho de perguntar a Jud. Depois de pensar em ndios que "tinham ferramentas", 
seu pensamento deslocou-se para os animais "que tm plos", e isso o fez lembrar da coisa que estivera perto deles no bosque. Um p tropeou e, para manter o equilbrio, 
ele apoiou uma das mos na parede de rocha  esquerda. A parede parecia velha, cheia de fendas, lascada, muito spera. spera como um casco meio apodrecido, pensou.
    - Tudo bem com voc, Louis? - Jud murmurou.
    - Tudo bem - respondeu, embora estivesse quase sem flego e os msculos latejassem por causa do peso de Church no saco.
...quarenta e dois... quarenta e .... . quarenta e quatro...
    - Quarenta e cinco - disse Jud. - Eu tinha esquecido. A ltima vez que vim aqui foi h doze anos. Depois no vi mais razo pra voltar. No  assim to fcil 
andar tudo isso.
    Agarrou Louis pelo brao e ajudou-o a subir o ltimo degrau.
    - Pronto, chegamos! - disse Jud.
    Louis olhou em volta. Podia enxergar razoavelmente bem: a luz das estrelas era fraca, mas suficiente. Achavam-se num patamar rochoso, um plat ngreme que se 
erguia como lngua escura no meio do bosque. Num dos lados, podia ver as copas do pinheiral que tinham atravessado para chegar aos degraus. Ao que tudo indicava, 
encontravam-se no topo de uma estranha mesa pedregosa, plana, uma anomalia geolgica que pareceria muito mais natural no Arizona ou no Novo Mxico. Como o terreno 
coberto de relva no alto da mesa (ou colina, montanha esquisita, fosse l o que fosse) no possua rvores, o sol derretera a neve. O vento incessante fazia vergar 
algumas moitas secas. O vento soprava frio no rosto de Louis quando ele percebeu que se tratava efetivamente de parte de uma colina, no de uma mesa isolada.  sua 
frente, o solo se erguia de novo para um trecho coberto de rvores. Mas a planura do patamar era to evidente, e to singular no contexto das colinas da Nova Inglaterra, 
baixas e j bem consumidas pela eroso, que...
    ndios que tinham boas ferramentas, sua mente se manifestou.
    - Vamos - disse Jud e os dois caminharam mais vinte e cinco metros na direo das rvores. O vento era forte, mas o ar muito puro. Louis divisou algumas formas 
nas sombras lanadas pelos pinheiros - os mais velhos, os mais altos pinheiros que j vira. Aquele lugar alto e solitrio lhe transmitia uma idia de desolao, 
mas uma desolao que... vibrava.
    As formas escuras eram montes de pedras.
    - Os micmacs drenaram o pntano aqui no topo da colina - disse Jud. - Ningum sabe como, assim como ningum sabe como os maias construram suas pirmides. Os 
prprios micmacs esqueceram, assim como os maias.
    - Por qu? Por que fizeram isso?
    - Era onde enterravam seus mortos - disse Jud. - Trouxe voc aqui para que possa enterrar o gato de Ellie. Os micmacs no discriminavam, voc sabe. Enterravam 
os bichos ao lado dos donos.
    Louis pensou nos egpcios, que foram ainda mais longe. Abatiam os bichos de estimao dos reis mortos para que as almas dos animais pudessem acompanhar as almas 
dos senhores em qualquer vida que pudesse haver no alm. Lembrou de ter lido sobre a carnificina de mais de dez mil animais domsticos depois da morte de uma filha 
de fara - neste total, estavam includos seiscentos porcos e dois mil paves. Os porcos, antes de terem as gargantas cortadas, foram perfumados com atar de rosas, 
o perfume favorito da moa falecida.
    E eles tambm construram pirmides. No se tem muita certeza para que serviam as pirmide.s maias (segundo alguns, para a navegao e  cronografia, como Stonehenge), 
mas sabemos muito bem que as pirmides egpcias eram e so ... . grandes monumentos fnebres, as maiores lpides do mundo. Aqui jaz Ramss II, Ele Era Obediente, 
Louis pensou e deu vazo a uma gargalhada frentica, intil.
    Jud se virou para ele, mas no parecia espantado.
    - Agora enterre o animal - disse. - Vou dar umas pitadas no meu cigarro. Gostaria muito de ajud-lo, mas tem de fazer isso sozinho. Cada um enterra o que  seu. 
Era desse jeito que se faziam as coisas.
    - Jud,o que significa tudo isso? Por que me trouxe aqui?
    - Porque voc salvou a vida dc Norma - Jud respondeu e, embora parecesse sincero (e sem dvida ele prprio acreditava que estava sendo sincero), Louis teve uma 
sensao sbita, muito forte, de que o velho estava mentindo... Ou que, pelo menos, estava se deixando enganar e passando o engano para Louis. Recordou-se da expresso 
que vira, ou pensou ter visto, no olhar de Jud.
    Mas l em cima nada disso parecia ter grande importncia. O vento era mais importante, rodopiando livremente naquela torrente contnua, tirando-lhe o cabelo 
das orelhas e de cima da testa.
    Jud sentou, encostou-se numa das rvores, fez concha com as mos em torno de um fsforo e acendeu um Chesterfleld.
    - Quer descansar um pouco antes de comear?
    - No, estou bem - Louis respondeu. Podia ter continuado a fazer perguntas a Jud, mas achou que realmente no estava interessado. Tudo aquilo parecia absurdo, 
mas, ao mesmo tempo, tambm parecia sensato. Era melhor deixar as coisas naquele p... Pelo menos por enquanto. Na realidade, s havia uma coisa que precisava saber:
    - Ser que vou mesmo conseguir cavar a sepultura de Church? A camada de terra parece muito fina e logo abaixo s deve haver rocha. - Louis esticou o pescoo 
para a escadaria, onde as pedras se soltavam na beira dos degraus.
    Jud inclinou lentamente a cabea.
    - Vai conseguir - disse. - O solo  fino, sem dvida. Mas um cho suficientemente fundo para que uma rvore cresa sobre ele tambm  suficientemente fundo para 
que se possa enterrar alguma coisa. E muita, muita gente tem sido enterrada aqui, Louis. Pode ser que no seja muito fcil cav-lo, mas...
    E no era fcil. Mesmo a camada superficial de terra era dura, pedregosa. Rapidamente Louis percebeu que, precisaria usar a picareta para conseguir abrir um 
buraco bastante profundo para sepultar Church. Resolveu ento alternar as ferramentas, primeiro usando a picareta para soltar a terra dura e livr-la das pedras, 
depois a p para remover o que fora cavado. Suas mos comearam a ficar esfoladas. O calor do corpo aumentava. Sentia uma forte, irresistvel necessidade de fazer 
um bom trabalho. Comeou a cantarolar a meia voz, algo que s vezes fazia ao suturar uma ferida. De vez em quando, a picareta batia numa rocha com fora suficiente 
para soltar fagulhas; o impacto subia pelo cabo de madeira e vibrava em suas mos. Podia sentir as bolhas se formando nas palmas, mas no se importou, embora, como 
a maioria dos mdicos, fosse muito cuidadoso com as mos. Acima e em torno dele, o vento zumbia sem parar, como se assobiasse uma melodia montona.
    Em contraponto, Louis ouvia o suave rolar e cair do cascalho na beira dos degraus. Olhou para trs e viu Jud abaixando-se para pegar as pedras maiores que ele 
removia da terra. Parecia querer fazer um monte com elas.
    - Um bom monumento para Church - disse ao ver que Louis o fitava.
    - Oh! - Louis exclamou e voltou ao trabalho.
    Cavou uma sepultura de cerca de sessenta centmetros de largura por um metro de comprimento: um baita de um tmulo para um gatinho de nada, pensou. Quando estava 
atingindo mais de setenta centmetros de profundidade e a picareta comeava a tirar, quase a cada golpe, fagulhas de pedras, largou a picareta e a p, e perguntou 
a Jud se j no estava bom.
    Jud levantou e deu uma olhada rpida no buraco.
    - Pra mim est bom - disse. - De qualquer modo, o que importa  o que voc acha...
    - Ser que pode me contar agora o que  este lugar?
    Jud sorriu ligeiramente.
         - Os micmacs acreditavam que esta colina fosse um lugar mgico -disse ele. - Achavam que toda a floresta, at os limites do pntano, era mgica. Construiram 
este local e aqui enterravam seus mortos, longe de tudo e de todos. Outras tribos o evitavam. Os penobscots diziam que os bosques estavam cheios de fantasmas. Mais 
tarde, os negociantes de peles diriam praticamente a mesma coisa. Acho que alguns viram o fogo-ftuo no Pequeno Pntano de Deus e acharam que estavam vendo fantasmas.
Jud sorriu e Louis pensou:
    Isto no  absolutamente o que voc pensa.
    - A partir de certa poca - Jud continuou -, nem mesmo os prprios micmacs queriam voltar aqui. Um deles alegou ter visto um "vendigo" e achava que este solo 
tinha se tornado uma coisa m. Seus feiticeiros fizeram uma grande conferncia para discutir o assunto... Ou, pelo menos, foi o que me contaram quando eu era rapaz... 
 verdade que ouvi a histria da boca de um velho bebero, Stanny B - o B era de Bouchard.. . E o que Stanny B no sabia, inventava.
    Louis sabia que, na crena dos ndios, o "vendigo" era um esprito do norte do pas.
    - Voc acha que o solo se tornou uma coisa m? - perguntou.
    Jud sorriu, ou pelo menos seus lbios se curvaram.
    - Acho que  um lugar perigoso - disse num tom suave -, mas no para gatos, cachorros ou hamsters. Enterre logo o animal, Louis.
    Louis ps o saco de plstico dentro do buraco e, lentamente, comeou a jogar de novo a terra sobre ele. Agora sentia frio e estava cansado. O som da terra batendo 
no plstico o deprimia; embora no lamentasse ter ido at l, a sensao de contentamento estava se dissipando e ele comeava a ansiar pelo fim da aventura. Mas 
ainda havia uma longa caminhada de volta.
    O ruido da terra caindo no plstico foi sendo abafado, depois cessou: havia somente o vuuum de terra sobre terra. Lous derramou a ltima poro com a p se 
erguendo no ar (a terra nunca  suficiente, pensou recordando-se do que o seu tio, agente funerrio, dissera-lhe h muitos anos:
nunca  suficiente para tornar a encher o buraco). Ele se virou para Jud.
- Coloque ai seu monumento - disse o velho.
    - Olhe, Jud, estou muito cansado e...
    -  o gato de Ellie - disse Jud, e a voz, embora gentil, tinha um tom implacvel. - Ela gostaria que voc fizesse o servio direito.
    Louis suspirou..
    - Acho que sim.

    Demorou mais dez minutos para empilhar as pedras que Jud lhe passava, uma por uma. Quando tudo estava concludo, havia um pequeno monte de pedras, de forma cnica, 
sobre a cova de Church. Embora estivesse exausto, Louis sentiu um certo prazer ao contemplar sua obra. Erguendo-se  luz das estrelas, no deixava de parecer solene. 
Estava certo de que Ellie jamais veria o tmulo (a simples idia de conduzir a filha por aquela trilha, no meio de um pntano onde havia areias movedias, faria 
Rachel ficar de cabelos brancos), mas ele o tinha visto e estava bem-feito.
    Louis ficou em. p e sacudiu os joelhos da cala. Agora via mais claramente ao redor. Em vrios pontos, distinguia com nitidez outros montes funerrios com as 
pedras soltas. Mas Jud se encarregara de faz-lo construir o monumento fnebre de Church apenas com as pedras tiradas da prpria sepultura que ele escavara.
    - As pedras nos outros tmulos esto desabando - disse a Jud.
    - Pois  - Jud respondeu. - Eu disse a voc: o lugar  muito antigo.
    - Cumprimos nossa obrigao?
    - Sim.
    Jud deu um tapinha no ombro de Louis.
    - Voc trabalhou muito bem, Louis. Sabia que ia fazer tudo direito. Vamos voltar.
    - Jud - Louis comeou, mas Jud j apanhava a picareta e se punha em marcha para a escadaria. Louis pegou a p, correu alguns metros para alcanar o velho, mas 
logo regulou o passo, tentando poupar o flego para a longa caminhada. Ainda olhou para trs, mas o monumento que marcava o tmulo de Winston Churchill, gato de 
sua filha, j mergulhara nas sombras. No pde mais distingui-lo.
    Foi s fazer o filme andar para trs, Louis pensou bastante cansado quando, mais tarde, saram dos bosques e entraram no campo que levava  sua casa. No sabia 
em quanto tempo tinham feito a viagem de volta; tirara o relgio quando se deitara depois do almoo e o deixara no parapeito da janela junto  cama. Sabia apenas 
que estava morrendo de cansao, estourado, esgotado. A ltima vez que se sentira to absolutamente exausto fora no primeiro dia de trabalho com uma turma de coleta 
de lixo, nas frias de sua escola secundria em Chicago, h dezesseis ou dezessete anos.
    O caminho de volta fora o mesmo de ida, mas no conseguia recordar muita coisa da jornada. Lembrava de ter tropeado nos troncos cados - cambaleou para a frente 
e pensou fantasticamente em Peter Pan... Oh, Jesus, perdi meus bons pensamentos e l vou eu!... Ento a mo de Jud o amparou, firme, segura; e alguns momentos depois 
eles se arrastavam pelo derradeiro lugar de repouso do Gato Smucky, de Trixe, de Marta, Nossa Coelha de Estimao. Por fim, entrou no caminho que uma vez atravessara 
no apenas com Jud, mas com toda a famlia.
    Achava que, ao menos superficialmente, pensara no sonho com Victor Pascow, o sonho terrvel que acompanhara seu episdio de sonambulismo. Mas no viu qualquer 
ligao entre aquela caminhada noturna e Pascow. Achava que toda a aventura do enterro de Church fora perigosa, no num sentido melodramtico, tipo Wilkie Collins, 
mas de um modo muito real. Que tivesse enchido violentamente as mos de bolhas num estado emocional que, sem dvida, se aproximara do sonambulismo, j era realmente 
desagradvel. Podia ter se matado no monte de rvores cadas. Os dois podiam ter morrido. Era difcil justificar esse comportamento, era difcil admitir que agira 
de uma forma racional. Na exausto do momento, estava inclinado a atribuir tudo que fizera ao transtorno emocional,  confuso gerada pela morte de um animal que 
toda a famlia adorava.
    E pouco depois, l estavam eles, outra vez em casa.
    Andaram lado a lado at a margem da estrada, em silncio. Pararam na entrada da casa de Louis. O vento zunia, gemia. Sem nada a dizer, Louis passou a Jud a picareta.
    -  melhor eu atravessar - Jud disse por fim. - Louelia Bisson ou Ruthie Parks vo trazer Norma de volta, e ela vai ficar preocupada, sem saber em que toca eu 
me meti.
    - Tem idia das horas? - Louis perguntou. Achou estranho que Jud acreditasse que Norma ainda no estava em casa; todos os seus msculos lhe diziam que, sem dvida, 
passava da meia-noite.
    - Oh, rapaz! - Jud exclamou. - Eu ando com o relgio aqui dentro da roupa... Mas me esqueo dele!
    Tirou um relgio de corrente do bolso da cala, deu um piparote e abriu um mostrador cheio de arabescos.
    - J passa das oito e meia - disse ele, fechando o mostrador com um estalo.
    - Oito e meia? - Louis repetiu estupefato. - S isso?
    - Voc queria mais?
    - Achei que era bem mais tarde.
    - Vejo voc amanh, Louis - disse Jud, comeando a se afastar.
    - Ei, Jud!
    O velho se virou, um leve ar de interrogao no rosto.
- Jud, o que foi que fizemos hoje  noite? 
- Ora! Enterramos o gato de sua filha.
    - Foi s isso?
    - Nada mais que isso - Jud respondeu. - Voc  um bom sujeito, Louis, mas faz perguntas demais. As vezes as pessoas fazem coisas simplesmente porque elas parecem 
certas. Isto , parecem certas ao corao. Mas se fazem as coisas e depois ficam achando que no agiram direito, e se enchem de perguntas, e ficam cheias de dvidas 
que fazem mal  digesto,  dentro da cabea delas que acham que cometeram algum erro, no  no fundo do peito. Entende o que estou dizendo?
    - Entendo - disse Louis, achando que Jud devia ter lido tudo que se passara em sua mente enquanto os dois desciam a colina, atravessavam o campo e se aproximavam 
das luzes da casa.
    - O que eu acho  que as pessoas deviam questionar estes sentimentos de dvida em vez de questionar o que o corao mandou que elas fizessem - Jud continuou, 
os olhos fixos nele. - No acha que tenho razo, Louis?
    - Acho... - Louis respondeu de modo hesitante. - Acho que talvez esteja certo.
    - E as coisas que esto no corao de um homem... Bem, s vezes ele no gosta muito de falar sobre elas, no ?
    - Bem...
    - Exato - disse Jud, como se Louis tivesse simplesmente concordado. - No gosta... - E com sua voz calma, to firme e to fria, naquela voz que, por alguma razo, 
podia dar calafrios em Louis, concluiu: - Existem coisas secretas. Achamos que s as mulheres so boas para segredos e acho que elas guardam alguns. Mas qualquer 
mulher, qualquer mulher que conhea alguma coisa, poderia lhe falar que nunca conseguiu ver o que realmente se passa no corao de um homem. O solo do corao de 
um homem  mais empedernido, Louis... como o solo que existe l em cima, no velho campo onde os micmacs enterravam seus mortos. Perto da superfcie h logo uma rocha... 
Mas um homem planta o que pode... e cuida do que plantou.
    - Jud......
    - No faa tantas perguntas, Louis. Aceite o que est feito e siga o seu corao.
    - Mas...
    - Mas nada. Aceite o que est feito, Louis, e siga o seu corao. Fizemos o que era certo... Pelo menos desta vez, eu espero, Deus queira que sim... Amanh ou 
depois, isso podia estar errado, terrivelmente errado!
    - Mas quer ao menos me responder a uma nica pergunta?
    - Bem, depende da pergunta...
    - Como conheeu aquele lugar?
    A pergunta j ocorrera a Louis no caminho da volta para casa. suspeitara que o prprio Jud pudesse ser em parte micmac, embora no parecesse; parecia, ao contrrio, 
descender de ancestrais cem por cento anglo-americanos.
    - Ora, soube pela boca de Stanny B - ele respondeu com um ar de espanto.
    - Ele s contou a voc?
    - No - disse Jud. - No  o tipo de lugar pra se comentar s a uma pessoa. Quando eu tinha dez anos, enterrei meu cachorro Spot li cima. . . O bicho estava 
correndo atrs de um coelho e se arranhou num arame farpado cheio de ferrugem. As feridas infeccionaram e ele morreu.
    Havia alguma coisa errada, algo que no combinava com o que Louis j ouvira, mas estava muito cansado para tentar descobrir o que era. Jud no disse mais nada, 
limitou-se a fit-lo com os olhos velhos, inescrutveis.
    - Boa noite, Jud - disse Louis.
- Boa noite.
    O velho atravessou a estrada, carregando a picareta e a p.
    - Obrigado! - Louis gritou num impulso.
    Jud no virou a cabea, s ergueu a mo para indicar que ouvira.
    E dentro de casa, subitamente, o telefone comeou a tocar.

    Louis correu, contraindo-se com as dores que davam pontadas nos quadris e nas costas. Quando penetrou no calor da cozinha, o telefone j havia tocado seis ou 
sete vezes e parou assim que ele encostou a mo no aparelho. Apesar disso, tirou o fone do gancho e disse al, mas s escutou o ruido da linha desocupada.
    Era Rachel, pensou. Vou ligar para ela.
    Mas subitamente, achou muito trabalhoso discar o nmero, falar meio sem jeito com a me dela (ou, pior ainda, com o pai, brandindo tales de cheques), ser passado 
para Rachel.., e depois para Ellie. Sem dvida Ellie ainda estaria acordada - em Chicago, era uma hora a menos. A filha ia perguntar como ia Church. 
    Oh, ele est timo. Foi atropelado por um caminho da Orinco. No sei por qu, mas tenho certeza absoluta de que foi um caminho da Orinco. Qualquer outro veculo 
romperia a unidade dramtica, se  que voc entende o que eu quero dizer. No? Bem, no importa. O caminho o matou, mas no deixou muitas marcas no corpo dele. 
Jud e eu o enterramos no velho cemitrio micmac, uma espcie de anexo do "simitrio" de bichos, voc est entendendo, no ? Foi um passeio espantoso, "chocante 
Um dia vou lev-la at l e poderemos deixar algumas flores ao lado das pedras.". . Desculpe, ao lado do monumento fnebre...  s esperar as areias movedias se 
congelarem um pouco e os ursos irem hibernar.
    Tornou a pr o fone no gancho, foi at a pia e encheu-a de gua quente. Tirou a camisa e lavou-a. Apesar do frio, suara como um porco e seu cheiro era exatamente 
o de um porco.
    Tinha sobrado presuntada na geladeira. Louis cortou-a em fatias, colocou-as num pedao de po de frma e acrescentou duas grandes rodelas de cebola. Contemplou 
um instante o recheio do sanduche antes de botar ketchup e cobrir com outro pedao de po. Se Rachel e Elle estivessem ali, torceriam o nariz em gestos dnticos 
de repugnncia - ah, que coisa horrvel!...
    Bem, pior pra vocs, madames, Louis pensou com inegvel satisfao e deu uma dentada no sanduche. Estava timo. Confcio dizia que quem cheira como um porco 
come como um lobo, pensou e sorriu.
    Devorou o sanduche com vrios e longos tragos de leite bebido diretamente da caixa - outro hbito que Rachel desaprovava ostensivamente. Depois, subiu para 
o andar de cima, tirou a roupa e foi se deitar sem ao menos escovar os dentes. Suas dores tinham se reduzido a um fraco latejar que quase no incomodava.
    O        relgio estava onde o tinha deixado. Dez para as nove. Era realmente incrveL
    Louis desligou a luz, virou-se de lado e adormeceu.
    Acordou quando j passava das trs da madrugada e se arrastou para o banheiro. Estava.urinando, piscando os olhos como coruja, no brilho esbranquiado da luz 
fluorescente, quando a discrepncia surgiu com nitidez em sua mente. Os olhos se alargaram. Era como se uma coisa que parecia perfeitamente ajustada tivesse se quebrado 
em.dois pedaos.
    Jud lhe dissera que seu cachorro morrera quando ele tinha dez anos... Morrera de uma infeco por ter se machucado numa cerca de arame farpado enferrujado. Mas 
naquele dia de fim de vero, quando foram todos at o "simitrio" de bichos, Jud tinha dito que o co morrera de velhice e fora enterrado ali. Chegara a apontar 
o marco, embora os anos tivessem apagado a inscrio.
    Louis deu a descarga, desligou a luz e voltou para a cama. Havia mais alguma coisa errada... E logo comeou a perceber o que era.
    J ud nascera em 1900 e, naquele dia no "simitrio" de bichos, disser que seu co morrera durante o primeiro ano da Grande Guerra. Se Jud quis se referir ao comeo 
da guerra na Europa, estaria com quatorze anos. Mas se pretendeu indicar o ano em que a Amrica entrou na guerra, estaria com dezessete.
    E ontem tinha dito que Stop morrera quando ele, Jud, tinha dez anos.
    Bem,  um velho e a memria dos velhos costuma confundir as coisas, Louis ponderou um tanto apreensivo. Ele mesmo diz que tem observado sinais de crescente esquecimento, 
vacilando em nomes e endereos que antigamente lhe vinham facilmente  memria, s vezes, acordando de manh sem se lembrar das coisas que planejara na vspera. 
Na realidade, para um homem da idade dele, ainda est bem ....... Provavelmente nem se pode dizer que j esteja senil. Na senilidade o esquecimento  mais constante, 
mais insisente. Que um homem no lembre quando seu cachorro morreu h uns setenta anos atrs  perfeitamente naturaL No se lembrar das circunstncias em que ele 
morreu, tambm. Esquea, Louis.
    Mas Louis no voltou a dormir de imediato; rolou um bom tempo na cama, pensando demais na casa vazia e no vento que gemia entre os beirais do telhado.
    Conseguiu dormir quase sem querer, pois no exato momento em que deslizava para o sono achou ter ouvido ps descalos subindo lentamente a escada. Ainda pensou: 
Deixe-me em paz, Pascow, deixe-me em paz; o que est feito, est feito, o que est morto, est morto... E os passos cessaram.
    Embora muitas outras coisas inexplicveis ainda fossem acontecer  medida que o ano se aproximasse do fim, Louis nunca mais seria incomodado pelo espectro de 
Victor Pascow, nem acordado nem em sonhos.

    Acordou s nove da manh. A luz do sol brilhava nas janelas do lado direito do quarto. O telefone tocava. Louis estendeu o brao e conseguiu peg-lo.
- Al?
    - Ei! - disse Rachel. - Ser que acordei voc? Acho que sim.
    -  claro que acordou, sua filha da me - ele disse, sorrindo.
    - Ooh, essa linguagem grosseira, seu urso malcriado... Tentei falar com voc ontem  noite. Estava na casa de Jud?
    Ele s hesitou uma frao de segundo.
    - Estava - respondeu. - Tomamos algumas cervejas. Norma tinha ido a uma espcie de festa de Ao de Graas. Pensei em lhe dar um telefonema, mas... Voc sabe 
como .
    Tagarelaram um pouco. Rachel colocou-o a par das novidades da famlia dela, coisa que de bom grado Louis teria dispensado, embora tenha sentido uma pequena, 
mesquinha satisfao ao saber que a careca de seu pai parecia estar aumentando com mais rapidez.
    - Quer falar com Gage? - Rachel perguntou.
    Louis sorriu.
    - , acho que sim. Mas no deixe ele desligar o telefone como da outra vez.
    Houve muito barulho do outro lado da linha. Ouviu vagamente Rachel estimulando o garotinho a dizer "Oi, papai".
    - Oi, pa... pai! - disse Gage por fim.
    - Oi, Gage - Louis respondeu cheio de alegria. - Como vai voc? Como vo as coisas por a? J quebrou outro cachimbo do vov? Espero que sim, rapaz. Quem sabe 
desta vez voc no estraga a coleo de selos?
    Gage balbuciou satisfeito por mais ou menos trinta segundos, entremeando os resmungos e glugius com as poucas palavras identificveis de seu crescente vocabulrio: 
mame, Ellie, vov, vov, carro (pronunciado com o melhor sotaque do norte, Louis observou e achou engraado), xixi e coco.
    Por fim, Rachei pegou o fone, provocando um grito de indignao de Gage e uma sensao de alvio no marido: ele gostava do filho e estava morrendo de saudades, 
mas manter uma conversa com um menino que ainda no completara dois anos de idade era como jogar cartas com um luntico: as cartas podiam ir para qualquer lugar 
e, de repente, voc mesmo comeava a atir-las para trs.
    - Tudo em ordem por a? - Rachel perguntou.
    - Tudo - Louis respondeu, desta vez sem qualquer hesitao...
    Percebeu que j tinha cruzado a barreira quando Rachel perguntara se fora at a casa de Jud na vspera e respondera que sim. Em sua mente, ouviu Jud Crandall 
dizer: O solo do corao de um homem  mais empedernido, ..... . Mas um homem planta o que pode... E cuida do que plantou.
    - Mas se quer saber, com toda a honestidade, est um pouco montono. Saudades suas.
    - Acha que vou mesmo acreditar que no est gostando de tirar umas frias da mulher e dos filhos.
    - Oh, estou gostando do silncio - ele admitiu -,  claro. Mas fica estranho depois do primeiro dia.
    - Posso falar com o papai? - Era a voz de Ellie ao fundo.
    - Louis? Ellie quer falar com voc.
    - Muito bem, passe o telefone para ela.
    Conversou com Ellie por quase cinco minutos. A menina contou da boneca que a av lhe dera, do passeio que fizera com o av at os currais ("puxa, como eles cheiram 
mal, papai", disse EIlie e Louis pensou: o cheiro de seu av tambm no  dos melhores, meu bem), contou como ajudara a fazer po e como Gage fugira da me quando 
ela estava mudando sua roupa. Gage tinha corrido pelo corredor e cado na porta do escritrio do av (Cuidado Gage!, mas olhe quanta coisa bonita tem a dentro!, 
Louis pensou, um sorriso largo se abrindo no rosto).
    Chegou realmente a acreditar que ia escapar do problema do gato - pelo menos naquela manh - e ia pedir que Ellie chamasse de novo a me quando a menina perguntou:
    - Como est oChurch, papai? Est sentindo a minha falta?
    O sorriso desapareceu da boca de Louis, mas ele respondeu prontamente, num tom de perfeita despreocupao:
    - Acho que est timo. Dei a ele um ensopado de carne que sobrou ontem  noite e depois mandei que fosse dormir. Hoje ainda no vi o Church, mas tambm estou 
acordando agora.
    Oh, rapaz, voc daria um bom assassino... Fria como uma lagartixa. Quando viu pela ltma vez o morto, Dr. Creed? Ele veio para jantar. Tinha um prato de ensopado, 
eu me lembro. No o vi mais desde ento.
    - Bem, d um beijo nele por mim.
    - Eu no, beije voc o Church - Louis brincou e a filha riu.
    - Quer falar outra vez com a mame, papai?
- Quero. Passe o telefone pra ela.
    E o assunto estava encerrado. Conversou por mais um ou dois minutos com Rachel, mas no houve meno do nome de Church. Trocaram beijos e abraos e Louis desligou.
    -  isso a - disse para o aposento vazio, ensolarado.
    E o pior de tudo  que no se sentia mal, de fato no se sentia absolutamente culpado.


    Steve Masterton telefonou por volta das nove e meia convidando Louis para jogar tnis na universidade: no havia ningum l, disse num tom vibrante; se quisessem, 
podiam jogar o dia inteiro.
    Louis entendia a vibrao. Quando havia movimento na universidade, s vezes era preciso esperar dois dias por uma quadra de tnis. Mesmo assim, no aceitou o 
convite, dizendo que precisava trabalhar num artigo para a Revista da Faculdade de Medicina.
    - Tem certeza de que no quer jogar? - Steve insistiu. - Voc sabe que trabalhar demais faz mal  sade.
    - Ligue mais tarde - disse Louis. - Quem sabe eu no mudo de idia...
    Steve disse que telefonaria de novo e desligou. Desta vez, Louis dissera apenas uma meia mentira; de fato pretendia trabalhar no artigo (que abordava o tratamento 
de molstias contagiosas, como catapora e mononudeose, no ambiente da enfermaria), mas a principal razo que o fez declinar da oferta de Steve foram as dores diversas 
que estava sentindo. Tomara conscincia delas assim que terminou de conversar com Rachel e foi para o banheiro escovar os dentes. Os msculos das costas pareciam 
vergados, rangentes, os ombros estavam doloridos pelo esforo de carregar o gato naquete maldito saco de lixo, os tendes atrs dos joelhos pareciam cordas de guitarra 
tocadas trs oitavas acima do tom normal. Deus, ele pensou, e voc tinha a estpida impresso de que ainda estava em forma! Teria sido engraado jogar tnis com 
Steve, dobrando-se pra l e pra c como um velho com artrite.
    E por falar em velhos, lembrou-se de que no fizera sozinho a caminhada da vspera; fora com um sujeito que se aproximava dos oitenta e cinco anos... Mas era 
capaz de jurar que Jud estava menos dolorido que ele!
    Passou uma hora e meia trabalhando no artigo, mas no conseguiu faz-lo progredir. O vazio da casa e o silncio comearam a mexer com seus nervos e, por fim, 
empilhou as folhas de papel sulfite amarelo e alguns textos de consulta, xerocados, na prateleira sobre a mquina de escrever. Depois vestiu o casaco e atravessou 
a estrada.
    Jud e Norma no estavam em casa, mas havia um envelope com seu nome preso na porta da varanda. Tirou-o do percevejo e abriu-o com o polegar.
    Louis,
    A patroa e eu fomos a Bucksport fazer umas compras e dar uma olhada num armrio de cozinha do Emporium Calorium que Norma anda de olho h sculos. Devemos almoar 
no McLeod e s voltaremos no final da tarde. Se quiser, venha at aqui, hoje  noite, para uma ou duas cervejas.
    Sua famlia  problema seu. No quero me meter na vida dos outros, mas se Ellie fosse minha filha, eu no teria pressa de dizer que o gato foi atropelado na 
estrada... Por que no deixar ela aproveitar o passeio?
    E por falar nisso, Louis, eu tambm no comentaria o que fizemos ontem  noite, pelo menos nas vizinhanas de Ludlow Norte. H outras pessoas na cidade que conhecem 
o velho cemitrio micmac e h gente que enterrou ali os animais... Pode-se dizer que  uma outra parte do "Simitrio" de Bichos. Acredite ou no, existe at um touro 
enterrado l em cima! O velho Zack McGovern, que viveu o resto de seus dias na Estrada de Stackpole, enterrou Hanratty, um touro premiado, no cemitrio micmac. Foi 
em 67 ou 68. Ha, ha, ha! Eu quase estourei a barriga de tanto rir quando ele me disse que tinha levado aquele touro l pra cima com os dois filhos!.. . Mas por aqui, 
Louis, as pessoas no gostam muito de falar do lugar e tambm no gostam que gente que consideram "de fora "faa comentrios sobre ele... No porque existam velhas 
supersti6es, de trezentos anos ou mais (embora elas existam,  claro), mas porque tm vergonha de admitir que acreditam nessas coisas; acham que qualquer sujeito 
"de fora" ficaria rindo delas.  um comportamento absurdo, voc no, acha? No faz sentido, mas  um dado. Ento, se quiser me fazer um favor, no comente a coisa 
com ningum, combinado?
    Voltaremos a tocar no assunto, talvez hoje  noite, e vai compreender melhor, mas pode ter certeza de que agiu muito bem. Eu sabia que ia fazer a coisa direito.
Jud


P.S.: Norma no sabe o que diz o bilhete. Contei a ela outra histria. Se no se importa, gostaria que ela no ficasse sabendo onde fomos ontem. No  a primeira 
mentira que conto  patroa em cinqenta e oito anos de casamento. Acho que a maioria dos homens diz algumas mentiras s suas mulheres, mas voc sabe, a maior parte 
deles poderia confess-las diante de Deus sem ter de abaixar os olhos.
    Bem, passe por aqui  noite e vamos biritar um pouco.

J.
    Louis continuou parado no ltimo degrau da escada que conduzia  varanda de Jud e Norma, agora vazia, as confortveis cadeiras de palhinha guardadas para a primavera 
seguinte. Franzia a testa e olhava o bilhete. No dizer a Ellie que o gato foi atropelado... Ele no tinha dito. Outros animais enterrados l em cima? Supersties 
de trezentos anos?
e vai compreender melhor.
    Tocou a frase com o dedo e pela primeira vez deixou que sua mente voltasse a se concentrar no que tinham feito na noite anterior. A coisa j estava meio borrada 
em sua memria, tinha uma textura difusa, como a de uma nvoa de flocos de algodo, uma textura de sonho ou de aes executadas sob o efeito de drogas. Lembrava-se 
de ter subido nos troncos cados e do estranho brilho da luz no pntano; lembrava-se tambm que, l, a temperatura parecia mais alta, cinco ou dez graus a mais... 
Todas as lembranas, porm, eram como a conversa que se tem com o anestesista antes que ele nos desligue como se desliga um interruptor.
    Acho que a maioria dos homens diz algumas mentiras s suas mulheres...
    s mulheres e tambm s filhas, Louis pensou; mas era fantstico como Jud parecia adivinhar o que se passara com ele naquela manh, tanto no telefonema quanto 
em sua mente.
    Dobrou lentamente o bilhete (escrito numa folha de papel pautado, como o dos cadernos escolares) e colocou-o no envelope. Ps o envelope no bolso da cala e 
tornou a cruzar a estrada.

    Era por volta de uma hora da tarde quando Church voltou como um gato de conto de fadas. Louis estava na garagem, onde h seis semanas vinha trabalhando num conjunto 
um tanto ousado de prateleiras. Serviriam para guardar, fora do alcance de Gage, coisas como garrafas de leo para limpar pra-brisas, preparados contra a neve e 
ferramentas de pontas afiadas. Martelava um prego quando Church se aproximou, a cauda no ar. No deixou cair o martelo nem acertou o dedo; o corao se contraiu 
no peito, mas no comeou a pular; um fio quente pareceu queimar-lhe por um instante o estmago mas logo esfriou (como o filamento de uma lmpada que brilha muito 
forte por um ou dois segundos e depois se apaga).Mais tarde diria a si mesmo que era como se tivesse passado toda a ensolarada manh daquela sexta-feira esperando 
que Church voltasse; como se,
numa regio mais profunda, mais primitiva de sua mente, soubesse qual era o sentido de toda a caminhada noturna at o cemitrio micmac.
    Pousou o martelo devagar, cuspiu na palma da mo os pregos que segurava na boca e colocou-os no bolso do avental. Caminhou em direo a Church e suspendeu o 
gato.
    O        peso normal, ele pensou com uma espcie de excitao mrbida. O mesmo que pesava antes de ser atropelado. Peso de um gato vivo. Estava mais pesado no 
saco. Era mais pesado quando estava morto.
    Desta vez, seu corao deu um tranco, saltou pela boca, e por um momento a garagem pareceu oscilar.
    Church abaixou as orelhas e deixou que Louis o acariciasse. Louis o levou para o sol, sentando-se nos degraus da porta da cozinha. Ento o gato quis ir para 
o cho, mas Louis o abraou, mantendo-o firme no colo. O corao pulava, mas de maneira cada vez mais regular.
    Afundou a mo no pescoo peludo de Church, lembrando-se do modo nauseante como, na vspera, a cabea do gato rolara sobre o pescoo quebrado. Agora sentia apenas 
msculos saudveis e tendes. Esticou Church e concentrou os olhos no focinho do animal.
    O que viu fez com que deixasse o gato cair na relva, cobrisse o rosto com as mos e fechasse os olhos. Tudo pareceu oscilar de novo; a vertigem o envolveu, fazendo-o 
cambalear - era o tipo de sensao que j tivera no amargo fim de longas bebedeiras, pouco antes do vmito comear.
    Havia sangue ressecado no focinho de Church, e nos bigodes compridos dois fragmentos pequenos de plstico verde. Pedaos do saco do inferno.
    Voltaremos a tocar no assunto e vai compreender melhor...
    Oh, meu Deus, ele j compreendia mais do que queria compreender.
    S falta um fio de cabelo, Louis pensou, para eu me ver no primeiro asilo de loucos.

    Levou Church para dentro, pegou-lhe a vasilha azul de comida e abriu uma lata de rao de fgado e atum. Enquanto tirava da lata a mistura acinzentada, Church 
ronronou e se esfregou de um lado para o outro nas suas pernas. O contato causou-lhe um arrepio; precisou apertar violentamente os dentes para no dar um chute no 
animal. Os pelos pareciam lustrosos demais, espessos demais - numa palavra, repugnantes. Achou que nunca mais encostaria a mo em Church.
    Quando se curvou para pr a vasilha no cho, Church se atirou como um raio para peg-la e Louis poderia jurar que ele tinha cheiro de terra, como se ainda houvesse 
terra no pelo.
    Recuou vendo o gato comer. Podia ouvi-lo mastigar. . . Ser que Church sempre mastigara daquele jeito? Talvez, mas nunca tinha reparado. Sem dvida era um som 
desagradvel. Grosso, Ellie diria.
    Num impulso, Lous deu meia-volta e subiu para o andar de cima. Quando atingiu o alto da escada, estava quase correndo. Despiu-se e ps toda a roupa na cesta 
de roupa suja (embora a tivesse tirado da gaveta naquela manh). Encheu a banheira de gua quente, o mais quente que pde suportar, e mergulhou.
    O        vapor se erguia  sua volta; podia sentir a quentura atuando nos msculos, afrouxando-os, atuando em sua cabea, fazendo a tenso diminuir. Quando a 
gua comeou a esfriar, sentiu-se sonolento e bem-disposto outra vez.
    O gato voltou, um gato de conto de fadas: tudo bem, era isso, era um fato.
    Fora apenas um equvoco. Ontem mesmo achara que, para um animal que tinha sido atropelado, as marcas no corpo de Church eram muito pequenas.
    Ponderou:
    Pense em todas as marmotas, em todos os ces e gatos que voc j viu estirados nas estradas: corpos estraalhados, vsceras espalhadas; pasta sem forma nem cores, 
como diz Loudon Wainwright naquela msica sobre um zorrilho morto.
    Era evidente agora. Church levara um grande golpe e perdera os sentidos. O gato que conduzira at o velho cemitrio micmac estava inconsciente, no morto. No 
se costuma dizer que um gato tem sete vidas? Graas a Deus, no tinha contado nada a Ellie! Melhor que ela nunca soubesse o quanto Church esteve perto da morte.
    O        sangue no focinho e no peito... O modo como a cabea estava solta...
    Mas era mdico, no veterinrio. Fizera um diagnstico errado, s isso. As circunstncias para um exame acurado no foram das melhores: o gato estatelado no 
gramado de Jud sob uma temperatura de sete graus abaixo de zero, e j era quase noite fechada. Alm do mais, estava usando luvas. Isso podia ter...
    Urna sombra volumosa, disforme, se ergueu nos ladrilhos da parede. Corno a cabea de um pequeno drago ou de uma serpente monstruosa. Alguma coisa tocou-lhe 
o ombro nu, algo que deslizava. Louis recuou num repelo, derramando gua pela borda da banheira e encharcando o tapete de espuma. Depois se virou, o corpo contrado... 
E defrontou-se com os olhos turvos, de um verde amarelado, do gato da filha. Church havia se empoleirado na tampa do vaso sanitrio.
    O gato parecia oscilar lentamente de um lado para o outro. Como se estivesse bbado. Louis o fitava, repugnado, um grito contido pelos dentes cerrados. Church 
nunca tivera aquela aparncia, nem antes nem depois de ser castrado; nunca balanara, como uma cobra tentando hipnotizar sua presa. Pela primeira vez, assaltou-lhe 
a idia de que aquele seria um gato diferente, um gato que apenas se parecia com Church, um gato que entrara por acaso em sua garagem quando ele estava fazendo aquelas 
prateleiras... O verdadeiro Church continuava enterrado sob um monte de pedras no penhasco do bosque.
    Mas a fisionomia tinha os mesmos traos... At a orelha raiada... E a pata com aquele jeito engraado... Ellie esmagara um pedao daquela pata na porta dos fundos 
da pequena casa suburbana em que moravam. Na poca, Church era pouco mais que um filhotinho.
    Era Church, sem dvida.
- Saia daqui! - Louis murmurou num tom spero.
    Church o encarou por mais alguns instantes (Deus, os olhos eram diferentes, tinham alguma coisa diferente!), e depois pulou da tampa do vaso. O pulo no teve 
a agilidade to comum nos gatos. Church pareceu cambalear desajeitadamente, o lombo batendo na banheira; depois foi embora.
    No  um gato, Louis pensou.  uma coisa.  uma coisa castrada, no esquea!
    Saiu da banheira e se enxugou depressa, vigorosamente. Tinha feito a barba e estava quase vestido quando o telefone tocou, ecoando na casa vazia. O barulho o 
fez rodopiar, arregalar os olhos, levantar as mos. Abaixou-as devagar. O corao disparava. Os msculos se enchiam de adrenalina.
    Era Steve Masterton, ligando outra vez por causa do tnis. Louis acabou concordando em encontr-lo no ginsio em uma hora. Realmente perdera toda a noo do 
tempo e jogar tnis seria a ltima coisa do mundo que ia querer fazer, mas precisava sair de casa. Queria se afastar do gato, daquele gato misterioso cujo lugar 
no era de modo algum ali.
    Vestiu-se rapidamente, socou um short, uma camiseta e uma toalha na sacola de zper e desceu correndo as escadas.
    Church estava deitado no quarto degrau a contar de baixo. Louis saltou por cima do gato e quase caiu. Conseguiu agarrar o corrimo e escapou por um triz do que 
podia ter sido uma queda fatal.
    Quando chegou ao fim da escada, tinha a respirao convulsa, o corao aos pulos, a adrenalina vergastando atravs de seu corpo.
    Church continuou l, esticado... Parecia sorrir para ele.
    Louis saiu. Podia ter colocado o gato na rua, mas no o fez. At aquele instante, porm, no acreditava que conseguisse toc-lo de novo.

    Jud acendeu o cigarro com um fsforo da cozinha, sacudiu a chama e jogou o palito no cinzeiro de metal com um anncio descorado de Jim Beam impresso no fundo.
- Sim, foi Stanley Bouchard quem me falou do lugar...
    Fez uma pausa, meditando.
    Diante deles, no xadrez do oleado que cobria a mesa da cozinha, havia copos de cerveja quase ainda nem tocados. Atrs, o aquecedor a leo embutido na parede 
estalou trs vezes, vagarosamente; depois houve silncio. Louis comera alguma coisa em companhia de Steve: sanduches com muito molho no quase deserto Bear's Den. 
Logo descobrira que quando se pede um cheeseburger, um cheesesalada ou um americano no Maine, ningum sabe do que se est falando.  preciso pedir um sub ou um wopbur' 
ger. Ai nos atendem.
    De barriga cheia, ele comeava a se sentir melhor. Era capaz de ver as coisas com mais clareza, mas ainda no se sentia nada ansioso para voltar quela casa 
escura e vazia onde o gato - vamos encarar o fato, rapaz! - podia estar, literalmente, em qualquer lugar.
    Norma estivera um bom tempo com eles, vendo televiso e trabalhando num bordado que mostrava o sol caindo atrs de um pequeno templo do interior. A cruz na cumeeira 
do telhado tinha uma silhueta negra contra o sol poente. Era para vender, disse ela, no leilo da igreja uma semana antes do Natal. O leilo era sempre um acontecimento.
    Os dedos moviam-se com agilidade, espetando a agulha na fazenda, trabalhando o ponto dentro da moldura. Naquela noite, sua artrite era quase imperceptvel. Louis 
achava que podia ser o tempo, frio mas muito seco. Recuperara-se muito bem do ataque cardaco e, ali na cozinha, menos de dez semanas antes do derrame cerebral que 
iria mat-la, parecia menos plida e at mais jovem. Louis podia perceber a bela moa que havia sido.
    s quinze para as dez, Norma deu boa-noite e Louis ficou sozinho com Jud, que parara de falar e parecia apreciar a fumaa do cigarro subindo mais e mais, como 
um garoto contemplando um mastro de barbeiro*  (*Poste listado de vermelho, azul e branco na porta de certas barbearias americanas para ver aonde vo as listas.) 
 o smbolo da profisso de barbeiro. (N. do T.)
    - Stanny ... . - Louis procurou estimul-lo num tom delicado.
    Jud piscou, parecendo voltar a si.
    - Oh, sim - disse ele. - Todo mundo em Ludlow, e acho que tambm nos arredores de Bucksport, Prospect e Orrngton, chamava-o Stanny B. Foi no ano em que morreu 
meu cachorro Spot, 1910, eu acho; a primeira vez que ele morreu. Stanny estava bem mais velho e no regulava muito bem. No era s Stanny que sabia do cemitrio 
micmac, mas foi atravs dele que fiquei sabendo do lugar e ele ouviu a histria do pai e o pai tinha ouvido do av. Era uma famlia de franco-canadenses, eu me lembro.
    Jud riu e sorveu a cerveja.
    - Ainda posso ouvir ele falar com aquele sotaque ingls maluco. Me encontrou sentado atrs de uma cocheira que havia na Rodovia 15 (naquele tempo era s uma 
estrada que ia de Bangor a Bucksport). A cocheira ficava bem no lugar onde hoje  a Orinco. Spot ainda no estava morto, mas ia ser morto... Meu pai me mandou buscar 
um pouco de milho. Era o velho Yorky que vendia. Como a gente precisava tanto de milho quanto uma vaca precisa de um quadro-negro, percebi de cara porque ele me 
mandou sair de casa.
    - Ia matar o cachorro?
    - Sabia como eu gostava do Spot, foi por isso que me mandou sair. Pedi o milho ao velho Yorky (o Yorky tomava conta da cocheira), e enquanto ele foi buscar me 
sentei numa pedra de amolar que havia L atrs. Ento abri um berreiro.
    Jud balanou lenta e brandamente a cabea, sorrindo.
    - Ento o velho Stanny B veio andando em minha direo - disse ele. - Metade das pessoas da cidade achava que era fraco da bola; as outras, que era perigoso. 
Seu av tinha sido um grande negociante e caador de peles. Isso foi nos ido, de 1800.0 av de Stanny andava de um lado pro outro, do Canad a Derry e Bangor, chegando 
s vezes a Skowhegan. Sempre negociando com peles, ou pelo menos foi o que me disseram. Guiava uma grande carroa coberta com lonas de couro cru. Era como aqueles 
carroes dos vendedores ambulantes de drogas. A carroa tinha cruzes por todo lado, pois era um bom cristo e sempre que bebia demais proclamava a ressurreio 
dos mortos. Era Stanny quem contava, Stanny gostava de falar do av... S que na carroa tambm havia amuletos pagos dos ndios. O velho acreditava que todos os 
ndios, no importa de que tribo, pertencem a uma nica e grande tribo - a tribo perdida de Israel de que a Bblia fala. Achava que a magia dos ndios funcionava 
porque, apesar de eles serem ces do inferno, eram tambm cristos, por mais estranho e esquisito que pudesse parecer.
    "0 av de Stanny continuou comprando dos micmacs, continuou fazendo bons negcios com eles muito tempo depois que quase todos os caadores e negociantes j tinham 
ido para o oeste... porque no queriam negociar com os ndios a um preo justo e porque, Stanny dizia, o velho sabia a Bblia inteira de cor. Os mcmacs gostavam 
de ouvi-lo repetir as palavras que os homens brancos diziam a eles antes da chegada dos caadores de peles e dos lenhadores."
    Jud ficou em silncio. Louis esperou.
    - Os micmacs falaram ao av de Stanny B sobre um cemitrio que no usavam mais porque o vendigo azedara o solo. Falaram tambm do Pequeno Pntano de Deus, dos 
degraus e tudo mais...
    Jud continuou:
    - Naquele tempo, voc podia ouvir as histrias do vendigo por todo o norte do pas. Eram histrias que os ndios tinham de ter, assim como precisamos de nossas 
histrias crists. Norma me chamaria de herege se me ouvisse dizer isso, mas acredite, Louis,  verdade... s vezes, se o inverno era muito longo e duro, e se a 
comida era pouca, alguns ndios tinham de enfrentar o beco sem sada de morrer de fome ou... ou fazer outra coisa...
- Canibalismo?
    Jud balanou os ombros numa expresso de d(mvida. 
        - Quem sabe... Talvez pegassem algum que j estivesse velho e no servisse pra mais nada a no ser dar um bom ensopado. Inventavam, ento, que tinham sido 
tocados por um vendigo que atravessou a aldeia ou acampamento quando todos estavam dormindo. Achavam que o vendigo dava a todos aqueles que tocava um gosto pela 
carne de sua prpria espcie. 
        Louis sacudiu a cabea.
        - Era como dizer que o diabo os mandava fazer isso.
        - Exato. Em minha opinio, os micmacs que viviam aqui tiveram de fazer a coisa (uma ou duas vezes, at mesmo umas dez vezes ou uma dzia de vezes) e enterravam 
os ossos das pessoas que comiam l em cima, no cemitrio deles.
        - Acharam ento que o solo tinha se tornado uma coisa m - Louis murmurou.
    - Pois . E Stanny B veio vindo por trs da cocheira, acho que pra tirar uma soneca - disse Jud. - Era meio biruta mesmo. Herdou um milho de dlares quando 
o av morreu, pelo menos  o que diziam, mas a nica coisa que conseguiu na vida foi ser o bobo local. Ele me perguntou porque eu estava chorando, e eu contei. Ento 
Stanny disse que havia um meio de se dar um jeito nas coisas, mas s se eu tivesse coragem e tivesse certeza de que queria aquilo.
    "Eu disse que daria tudo para Spot ficar vivo e perguntei se ele conhecia algum veterinrio. 'Veterinrio, eu no conheo', Stanny respondeu, 'mas sei como salvar 
o cachorro, rapaz... V pra casa e mande o seu pai colocar o bicho num saco de farinha, mas no enterre, no enterre de jeito nenhum! Arraste o saco ate o "simitrio" 
de bichos e deixe o saco perto daquelas rvores cadas. V sozinho. Depois volte pra c, depois que fizer tudo direito.'
    "Eu perguntei pra que fazer isso e Stanny mandou que eu ficasse acordado naquela noite e sasse de casa quando ele atirasse uma pedra na janela. 'E vou fazer 
isso  meia-noite, garoto...Se voc esquecer Stanny B e dormir, o problema  seu! Stanny B tambm vai esquecer voc, e ento adeus cachorro, pode acreditar que ele 
vai direto pro inferno!'"
    Jud encarou Louis e acendeu outro cigano.
    - Resolvi fazer o que Stanny mandou. Quando voltei, meu pai disse que metera uma bala na cabea do Stop, pra ele parar de sofrer. Nem precisei falar do "simitrio" 
de bichos. Meu pai me perguntou se eu no achava que o Spot ia querer ser enterrado l, e eu respondi que sim... Sa de casa arrastando o cachorro num saco de farinha. 
O pai perguntou se eu queria ajuda e respondi que no, porque me lembrei do que Stanny B tinha dito.
    "Fiquei acordado de noite... Pareceu uma eternidade. Voc sabe como as crianas vem essa coisa do tempo. Eu achava que j devia estar quase amanhecendo, mas 
o relgio s batia dez horas, depois onze... Uma vez ou duas quase ca no sono, mas sempre voltava a ficar acordado e bastante alerta. Era como se algum me sacudisse: 
'Acorde Jud! Acorde!' Como se algum ou alguma coisa quisesse ter certeza de que eu no ia mergulhar no sono."
    Louis ergueu as sobrancelhas e Jud moveu os ombros com um ar de indiferena.
    - Quando o relgio da sala, embaixo, bateu meia-noite, eu me levantei, me vesti e fiquei sentado na cama, a lua brilhando na janela. O problema  que o relgio 
bateu meia-noite e meia, depois uma hora, e nada de Stanny B. Esse estpido francs do Canad se esqueceu de mim, pensei comigo. Estava comeando a tirar de novo 
a roupa quando duas pedras atingiram a janela, com fora suficiente pra quebrar o vidro. De fato, uma das pedras rachou uma vidraa, mas s reparei na manh seguinte, 
e minha me s viu quando o inverno chegou, e achou que fora obra da neve.
    "Voei at a janela e a suspendi com fora. Era uma janela de guilhotina, que rangeu e fez um barulho no batente. Acho que as janelas fazem sempre isso quando 
se  criana e se quer sair de casa depois da meia-noite..
    Louis riu, embora nunca tivesse pretendido sair de casa no meio da noite quando tinha apenas dez anos. No entanto, tinha certeza de que, se tivesse pretendido, 
as janelas iam ranger como nunca seriam capazes de ranger  luz do dia.
    - Achei que meu pai e minha me iam pensar que a casa estava sendo assaltada, mas quando meu corao parou de pular, ouvi o ronco do pai serrando madeira no 
quarto. Olhei para fora e vi Stanny B. Estava na entrada da casa, olhando pra cima, o corpo balanando como num vendaval, embora no houvesse mais que um sopro de 
brisa. Acho que ele nunca teria vindo se no atingisse aquele estgio de bebedeira em que se fica com os olhos arregalados, como uma coruja com diarria, e no nos 
importamos com nada... Stanny deve ter achado que estava sussurrando, mas abriu um berreiro: 'Ei, garoto, voc vai descer ou ser que tenho de ir a em cima peg-lo?'
    "'Chiii!', eu coloquei o dedo na boca, morrendo de medo que o pai acordasse e me desse a maior surra da minha jovem vida. 'O que voc disse?', Stanny perguntou, 
ainda mais alto que antes. Se a janela do quarto dos meus pais desse para a estrada, eu estaria arruinado. A sorte  que dormiam no quarto que  hoje o meu quarto 
e o de Norma, com vista pro rio."
    - Aposto que desceu a escada como um foguete - disse Louis. -Ser que tem outra cerveja, Jud?
    Louis j passara dois copos de seu limite habitual, mas naquela noite no fazia mal. Naquela noite, parecia quase obrigatrio beber um pouco mais.
    - Se eu descesse a escada como um foguete, pode acreditar que me pegariam - disse Jud, acendendo outro cigarro. Esperou at Louis se sentar de novo. - No, eu 
no me atreveria a ir pela escada. Teria de passar na porta do quarto dos meus pais. Resolvi descer pelo caramancho, me segurando aqui e ali, o mais depressa que 
pude. Tive um pouco de medo, eu admito, mas depois que me vi a caminho do "simitrio" de bichos com Stanny B, me esqueci at do pai.
    Soltou a fumaa numa nuvem compacta.
    - Subimos l, ns dois, e acho que Stnny B deve ter cado mais de meia dzia de vezes. Estava realmente num porre feio. Cheirava como se tivesse mergulhado 
num tanque cheio de usque. Levava uma picareta e uma p e, em determinado ponto, quase caiu de garganta em cima de um galho pontudo... Quando chegamos ao "smuterio" 
de bichos, achei que fosse me atirar a picareta, a p, e ir embora, me deixando sozinho pra cavar o buraco.
    "Em vez disso, pareceu at ficar sbrio, ao menos por um instante. Disse onde amos, disse que amos atravessar os troncos cados e mergulhar no bosque, onde 
havia outro local pra enterrar os mortos. Olhei para Stanny, que voltou a parecer to embriagado que mal conseguia se manter em p; depois olhei para as rvores 
cadas: 'No pode escalar isso a, Stanny B', eu disse. 'Vai quebrar o pescoo.'
    "E ele respondeu: 'No vou quebrar meu pescoo, nada disso... Nem eu nem voc. Posso andar muito bem e voc pode arrastar tranqilamente seu cachorro.' E estava 
com a razo. Stanny deslizou como seda sobre os troncos, jamais olhando pra baixo. Consegui fazer o mesmo, arrastando Spot, embora ele estivesse pesando mais de 
quinze quilos (eu pesava pouco mais de quarenta). Tenho de dizer a verdade, Louis: senti-me um tanto dolorido e empenado no dia seguinte. Ser que hoje no  voc 
quem est se sentindo cansado?"
    Louis no respondeu, s balanou a cabea.
     - Andamos e andamos - disse Jud. - O caminho parecia no ter fim. E os bosques pareciam mais freqentados naquele tempo. Havia pssaros gritando nas rvores, 
mas voc no conseguia identificar de que espcie eles eram. Havia animais perambulando, provavelmente cervos.  claro que tambm devia haver alguns alces, ursos 
e gatos-do-mato... Eu arrastava Spot. Aps algum tempo, comecei a imaginar que o velho Stanny B tinha ido embora e e eu estava seguindo um ndio. Seguindo um ndio 
que, de repente, se virou pra mim, os olhos muito negros e muito sorridentes, o rosto coberto com as listas daquela pintura fedorenta feita de gordura de urso. Tambm 
imaginei que tinha um machado em forma de falco, feito de pederneira, e uma bandeja de madeira e couro tranado. Achei que o ndio havia me agarrado pela nuca e 
me arrancado o cabelo... E junto com o cabelo foi a parte superior do crnio.
    "O Stanny que parecia um ndio no estava mais cambaleando nem caindo; andava na reta, com firmeza, cabea erguida; era um tipo de andar corajoso, mas atento... 
Quando chegamos  beira do Pequeno Pntano de Deus e ele se virou pra falar comigo, vi que era mesmo o Stanny, sem dvida. No cambaleava nem caa porque estava 
assustado. Era o medo que o deixava sbrio.
    "Disse as mesmas coisas que lhe contei ontem  noite: falou das gralhas, do fogo-de-santelmo e mandou que eu no desse importncia a nada que visse ou ouvisse. 
'Principalmente', disse ele, 'no fale uma s palavra se algum se dirigir a voc'.. Ento comearam a atravessar o pntano. E vi uma coisa. No vou dizer o que 
foi, Louis, mas acredite que j voltei l umas cinco vezes desde aquele dia e nunca vi nada como aquilo. Nem vou ver, Louis, porque minha caminhada de ontem  noite 
foi minha ltima jornada ao cemitrio micmac."
    N&o estou aqui sentado acreditando em tudo que ele diz, estou?, Louis perguntou a si mesmo, quase em voz alta, mas muito descontrado. As trs cervejas o ajudavam 
a parecer descontrado, pelo menos aos olhos de sua prpria mente. No estou aqui sentado engolindo essa histria de cemitrios indgenas, um velho francs do Canad, 
uma coisa chamada vendigo, bichos que voltam a viver, no ? Pelo amor de Deus, o gato estava desmaiado, s isso. Um carro o atropelou e ele DESMAIOU - nem mais, 
nem menos. O resto so divagaes senis de um velho, mais nada!
    Exceto que no era bem assim e Louis sabia que no era bem assim. Trs cervejas no iam alterar o fato, trinta e trs cervejas tambm no.
    Em primeiro lugar, Church estivera morto; em segundo lugar, estava vivo agora; por fim, havia algo de fundamentalmente diferente no animal, algo essencialmente 
errado com ele. Alguma coisa tinha acontecido. Jud retribura o que, no seu entender, fora um favor... Mas a medicina do cemitrio micmac talvez no fosse das melhores, 
e agora Louis percebia que algo nos olhos de Jud dizia que o velho tinha conscincia disso. Louis pensou no que tinha visto - ou julgou ter visto - no rosto de Jud 
na noite anterior. Era um brilho de travessura e contentamento, mas muito desagradvel. J lhe passara pela cabea que a deciso de lev-lo naquela jornada noturna 
para enterrar o gato da filha podia no ter partido inteiramente de Jud.
    Mas se no partiu dele, de quem partiu?, sua mente perguntava. No encontrando resposta, Louis tirava da cabea a interrogao.
    - Enterrei o Spot e constru o monumento - Jud continuou num tom montono. - Quando conclu o trabalho, Stanny B havia adormecido. Precisei sacudi-lo como diabo 
para fazer com que se levantasse; mas quando acabamos de descer aqueles quarenta e quatro degraus...
- Quarenta e cinco - Louis murmurou.
    Jud balanou a cabea.
    - Sim,  isso, no ? Quarenta e cinco... Quando acabamos de descer aqueles quarenta e cinco degraus, ele j caminhava com bastante firmeza. Como se tivesse 
voltado a ficar sbrio. Voltamos atravessando o pntano, o bosque e os troncos cados. Finalmente cruzamos a estrada e chegamos  casa. Eu achava que deviam ter 
passado dez horas, mas ainda era noite fechada.
    "'O que vai acontecer agora?' - perguntei a Stanny B. 'Agora voc vai esperar e vai ver o que acontece', disse Stanny e foi embora, de novo cambaleando, o corpo 
guinando de um lado pro outro. Deve ter dormido atrs da cocheira naquela noite... O fato  que meu cachorro Spot sobreviveu dois anos a Stanny B. Depois o fgado 
estragou e o envenenou. Foi encontrado por dois garotinhos, na estrada, a 4 de julho de 1912, duro como um pedao de pau.
    "Quanto a mim, a nica coisa que fiz foi escalar o caramancho, cair na cama e adormecer quase no mesmo instante em que encostei a cabea no travesseiro".
    "Na manh seguinte, s me levantei s nove. Minha me estava chamando por mim. O pai trabalhava na estrada de ferro e tinha sado de casa s seis horas."
    Jud fez uma pausa, meditando:
    - Minha me no estava s chamando por mim, Louis. Estava gritando o meu nome.
    Jud foi at a geladeira, apanhou uma pequena garrafa de cerveja e abriu-a na ala da gaveta de uma mesinha onde havia um cesto de po e uma torradeira. Seu rosto 
parecia amarelado sob a lmpada do teto; tinha a cor da nicotina. Tragou metade da cerveja, arrotou como um tiro de canho e deu uma olhada no corredor, para ver 
se Norma estava mesmo dormindo. Virou-se de novo para Louis.
    - Pra mim  difcil falar sobre isso - disse. - A coisa ficou revirando na minha mente, anos e anos, mas nunca contei a ningum. Tem gente que sabe o que aconteceu, 
mas nunca comentou comigo. As pessoas se portam do mesmo jeito nas coisas de sexo, eu acho. Estou contando a voc, Louis, porque voc tem agora um tipo diferente 
de bicho na sua casa. No necessariamente um bicho perigoso, mas.., diferente. J notou?
    Louis lembrou-se do modo como Church pulara desajeitadamente do vaso sanitrio, o lombo batendo na banheira; lembrou-se dos olhos embaados, um olhar quase, 
mas no inteiramente estpido, cravado sobre ele.
    Balanou afirmativamente a cabea.
    - Quando cheguei ao andar de baixo, minha me estava encostada num canto da copa, entre a geladeira e a mesa. No cho, havia um monte de fazenda branca, cortinas 
que ela pretendia pendurar. Spot, meu cachorro, estava de p na soleira da porta. Tinha sujeira por todo o corpo e manchas de lama subindo pelas patas. O pelo da 
barriga estava imundo, todo enroscado e cheio de ns. Ele simplesmente estava ali, nem rosnando nem nada, mas simplesmente ali. Acho, no entanto, muito compreensvel 
que tivesse acuado minha me, pretendesse ou no fazer isso. Ela parecia aterrorizada, Louis. No sei at que ponto voc gostava dos seus pais, mas eu sei o quanto 
gostava dos meus: eu os adorava. Saber que tinha feito uma coisa que deixava minha me to apavorada tirou toda a alegria que senti ao ver o Spot na porta... Se 
bem que no fiquei muito espantado ao v-lo chegar...
    - Entendo o que est dizendo - Louis interrompeu. - Quando vi o Church hoje de manh, simplesmente... pareceu que era uma coisa....
    Ele fez uma pausa. Perfeitamente natural? Aquelas foram as palavras que lhe vieram  cabea, mas no eram as palavras certas.
    - Pareceu que era uma coisa esperada.
    - Exatamente - disse Jud acendendo um novo cigarro. Suas mos tremiam um pouco. - O fato  que minha me me viu ali, ainda de pijama, e gritou: 'D comida ao 
seu cachorro, Jud! Ele precisa ser alimentado... Tire-o daqui antes que ele suje as cortinas!'
    "Ento pus algumas sobras de comida na vasilha do Spot e o chamei".
A princpio ele no veio... Era como se no conhecesse o prprio nome e eu quase pensei: bem, este no  o Spot,  algum cachorro da rua parecido com o Spot, mas 
no  ele.
    - Sim! - Louis exclamou.
    Jud sacudiu a cabea.
    - Mas na segunda ou terceira vez que chamei, ele veio. Deu uma espcie de bote na minha direo; quando o quis levar para a varanda ele bateu com fora na porta 
e quase caiu de quatro. Mas devorou a comida; comeu como um lobo. A esse tempo o susto inicial j tinha passado e eu
comeava a fazer uma idia do que havia acontecido. Eu me ajoelhei e abracei o Spot, estava muito contente em v-lo de novo. Ento, ele lambeu o meu rosto e...
    Jud estremeceu e acabou a cerveja.
    - Louis, a lngua dele estava fria. Ser lambido pelo Spot era como esfregar um peixe morto no rosto.
    Por um momento nenhum dos dois falou. Louis quebrou o silncio:
    - Continue.
    - O Spot comeu. Quando vi que estava satisfeito, levei-o para uma banheira velha que guardvamos para ele no telheiro dos fundos. Dei-lhe um banho. Spot sempre 
detestara tomar banho, geralmente era preciso eu e meu pai para dar banho nele; no fim, ficvamos com a camisa fora da cala e toda a roupa ensopada, o pai xingando 
e Spot parecendo meio envergonhado, como fazem os cachorros. Na maioria das vezes, rolava no cho assim que saa do banho e depois corria para perto do varal onde 
minha me estendia a roupa, sacudia-se e respingava sujeira por todos os lenis que ela havia pendurado. A me gritava pra ns dois que, antes de ficar de cabelos 
brancos, ia atirar aquele cachorro nas mos do primeiro que passasse na rua.
    "Mas, naquele dia, o Spot se sentou tranqilamente na banheira e deixou que eu o lavasse. No fez o menor movimento e eu no gostei nada daquilo. Era como.. 
como lavar um pedao de carne. Depois do banho, peguei uma toalha velha e o enxuguei. Pude ver os lugares onde o arame farpado o ferira... No havia pelo em nenhum 
desses pontos e a carne parecia meio franzida. Era como se as feridas tivessem cicatrizado h cinco anos ou mais."
    Louis balanou a cabea. Em seu trabalho, j encontrara essas coisas de vez em quando. A ferida nunca parecia fechar completamente. Isso o fez pensar em tmulos, 
nos dias que passou como aprendiz de agente funerrio - e como nunca havia terra suficiente para tampar de novo o buraco.
    - Ento vi a cabea dele. Tinha havido outra ferida ali, perto da orelha, mas o plo voltou a crescer; era um plo branco que formava um pequeno crculo.
    - Foi onde seu pai deu o tiro - Louis conduiu.
Jud confirmou.
    - Um homem ou animal que recebe um tiro na cabea no tem uma morte assim to certa, Jud. H gente que tentou se matar desse jeito e agora vive nas enfermarias 
dos hospitais ou mesmo andando por ai, firme como o diabo... Uma bala pode atingir a placa do crnio, viajar em volta dele num semicfrculo e sair do outro lado sem 
chegar a penetrar no crebro. Eu mesmo vi o caso de um sujeito que deu um tiro acima da orelha direita, mas a bala contornou o crebro e s o matou porque rasgou 
a veia jugular, l do outro lado da cabea. A trajetria dessa bala parecia mais um mapa rodovirio de estradinhas municipais.
    Jud sorriu.
    - Acho que soube da histria por um dos jornais de Norma, o Star ou o Enquirer, um deles... Mas se o meu pai disse que o Spot estava morto, Louis, pode ter certeza 
que era verdade.
    - Muito bem - disse Louis -, se voc diz que  assim, por que no acreditar?
    - O gato de sua filha tinha mesmo morrido?
    - Eu achei que sim.
    - Mas no teve certeza?  mdico!
    - Voc parece estar dizendo: "Tem de ter certeza, Louis.  Deus!" E eu no sou Deus. Estava escuro...
    - Certo, estava escuro, mas a cabea dele girou no pescoo... E quando voc o puxou, ele foi arrancado do cho congelado, Louis. Como um pedao de fita gomada 
puxado da madeira. Coisas que esto vivas no fazem isso. Voc s pra de derreter o gelo onde est estendido quando j morreu.
    Na sala, o relgio bateu dez e meia.
    - O que o seu pai disse quando chegou em casa e viu o cachorro? -Louis perguntou.
    - Eu estava do lado de fora, jogando bola de gude no cho, de certa forma  espera dele. Me sentia como se tivesse feito alguma coisa errada e soubesse que, 
provavelmente, ia levar uma surra. O pai apareceu no porto por volta das oito horas, usando o macaco com avental e o bon de aba comprida... Sabe como  o bon?
    Louis fez que sim, depois abafou um bocejo com as costas da mo.
    - Sim, est ficando tarde - disse Jud. - Vou acabar logo a histria.
    - No  que esteja ficando tarde - disse Louis. - Eu  que estou algumas cervejas acima da minha marca. Continue, Jud. No tenha pressa. Quero saber o que aconteceu.
      Meu pai tinha uma velha marmita onde levava o almoo - disse Jud. - Atravessou o porto com ela balanando, vazia, na mo. Assobiava alguma coisa. Estava escurecendo, 
mas me viu ali. Eu tinha o olhar meio triste e ele disse: 'O que andou aprontando, Judkins?', e depois: 'Cad sua...,

    "Foi ento que o Spot saiu da escurido. No vinha correndo como costumava fazer, pronto para pular sobre o pai, dar-lhe uma lambida, mas apenas andando, abanando 
a cauda. Meu pai deixou cair a marmita e deu um passo atrs. Aposto que se n batesse com as costas na cerca pontuda, teria dado meia-volta e cado. Ficou parado 
ali, contemplando o cachorro. E vendo que o Spot no ia pular pra lhe fazer festa, pegou-o gentilmente pelas patas e suspendeu-o um pouco - era como se pegasse as 
mos de uma dama para danar uma valsa. Ficou muito tempo olhando para o cachorro. Depois se virou pra mim: 'EIE. precisa de um banho, Jud. Est com cheiro da terra 
em que voc o enterrou.' Ai entrou em casa.
    - E o que voc fez? - Louis perguntou.
    - Dei-lhe outro banho. Como da outra vez, ele se sentou tranqilamente na banheira enquanto eu o lavava... Quando entrei em casa, minha me tinha ido deitar, 
embora ainda no fosse nem nove horas ..... . Ento o pai falou: 'Temos de conversar, Judkins.' Eu me sentei na frente dele e ele me tratou como adulto pela primeira 
vez na vida. O cheiro da madressilva atravessava a estrada vindo do terreno onde agora  a sua casa; o cheiro das rosas vinha daqui mesmo.
    Jud Crandall suspirou.
    - Sempre achei que seria bom se ele conversasse comigo daquele jeito, mas no foi. No foi nada bom. Hoje, Louis, eu tenho a estranha sensao de estar vivendo 
uma histria que j se repetiu muitas vezes.  como olhar num espelho que est na frente de outro espelho e reflete sua imagem por todo um corredor de novos espelhos. 
 uma histria que deve ter sido sempre a mesma, exceto pelos nomes...  como quando faz alguma coisa de sexo, no ?
    - Seu pai compreendeu o que se passou com Spot?
    - Sim. E sabia de tudo. 'Quem o levou l em cima, Jud?', ele me perguntou, e eu contei. S balanou a cabea, como se tivesse suas suspeitas confirmadas. Sem 
dvida, desconfiou de Stanny, embora naquele tempo j houvesse em Ludlow seis ou oito pessoas que poderiam ter me levado at l. Mas acho que teve certeza de que 
Stanny B era o nico sujeito louco o bastante para realmente fazer aquilo.
    - Voc no perguntou por que ele mesmo no o levou at l Jud?
    - Perguntei - Jud respondeu. - Nm momento daquela longa conversa, eu fiz a pergunta. E ele respondeu que era um mau lugar, muito deserto. E que freqentemente 
no fazia qualquer coisa boa pelas pessoas que tinham perdido seus bichos nem pelas pessoas nem pelos bichos. Ele me perguntou se eu gostava do Spot do modo como 
ele era antes e, voc pode imaginar, Louis, que tive um certo receio de responder...  importante que me compreenda bem... Mais cedo ou mais tarde, acho que vai 
me perguntar por que o 1evei at l, se isso era uma coisa que no se devia fazer. No  verdade?
         Louis concordou. Como Ellie ia encarar Church ao voltar? A dvida no lhe sara da cabea enquanto jogava tnis com Steve Masterton naquela tarde.
         - Talvez eu tenha feio isso porque acho que as crianas precisam aprender que s vezes a morte  melhor - disse Jud com alguma hesitao.
         -  uma coisa que sua Ellie no sabe, e tenho o pressentimento de que talvez ela no saiba porque sua mulher tambm no sabe. Ainda vai poder me dizer se 
estou errado ou no.
         Louis abriu a boca, mais fechou-a de novo.
         Jud continuou, agora falando devagar, parecendo saltar de palavra a palavra, como tinha saltado de elevao em elevao no Pequeno Pntano de Deus, na noite 
anterior. 
         - Tenho visto isto acontecer pelos anos afora - disse. - Acho que j lhe contei que Lester Morgan enterrou um touro premiado l em cima. Um touro escocs 
preto, chamado Hanratty. Parece nome de touro?... Bem, o bicho morreu por causa de uma espcie de lcera, e Lester arrastou-o num tren at o cemitrio micmac No 
sei como conseguiu, no sei como conseguiu passar pelos troncos cados, mas se costuma dizer que nada  impossvel. E pelo menos no que diz respeito quele cemitrio, 
acho que  verdade.
         Bem Hanratty. voltou, mas Lester o matou com um tiro, duas semanas depois.O touro se 
tornara traioeiro, realmente traioeiro. Mas foi o nico animal com quem isso aconteceu. A maioria deles ficam apenas... um pouco estpidos..., um pouco lentos... 
um pouco..."".
- Um pouco mortos? 
         - Sim. - disse Jud - Um pouco mortos. Como se tivessem estado... em algum lugar... e voltado...mas no inteiramente. Sua filha, Louis, no entanto no vai 
saber de nada disso. Isto , no vai saber que o gato foi atropelado, morreu e voltou. J sei que voc est pensando que no se pode ensinar uma lio a uma criana 
a menos que a criana saiba que h uma lio a aprender.Mas...
           - Mas s vezes acontece - disse Louis, mais para si mesmo que para Jud.
           - Sim - Jud concordou - s vezes acontece. Talvez ela aprenda alguma coisa sobre o que a morte realmente :o ponto onde a dor cessa e as boas memrias 
comeam. No  o fim da vida, mas o fim da dor. Voc no vai lhe dizer isto,  claro; ela pode descobrir por si mesma.
    "E se ela for como eu estou pensando, continuar a gostar muito do gato. Church no vai se tornar perverso, morder, nem nada disso. Ela vai continuar a am-lo... 
Mas vai tirar suas concluses. E dar um suspiro de alvio quando ele finalmente morrer".
    - Foi por isso que me levou at o cemitrio micmac? - Louis perguntou.
    Sentia-se melhor agora. Tinha urna explicao. Era obscura, dirigia-se mais  lgica das impresses nervosas que a lgica da mente racional, mas naquelas circunstncias 
achou que era aceitvel. Isso significava que podia esquecer a expresso que, na vspera, julgou ter visto brevemente no rosto de Jud, aquela alegria travessa e 
sinistra.
    - Sim, foi por isso...
    Bruscamente, quase agressivamente, Jud cobriu o rosto com ambas as mos. Por um segundo, Louis achou que estivesse sendo vitima de alguma dor sbita e comeou 
a se levantar da cadeira, preocupado. Viu ento a ondulao convulsa no peito de Jud e percebeu que o velho lutava para no chorar.
    - Foi por isso e no foi - disse numa voz estrangulada, abafada. -Fiz isso pela mesma razo que Stanny B fez , pela mesna razo que Lester Morgan fez. Lester 
levou Linda Lavesque at l em cima depois que o cachorro dela foi atropelado na estrada. Levou at l, embora tenha precisado sacrificar o touro, porque ele corria 
pelo pasto atrs das crianas, como se estivesse louco. Mesmo assim a levou atl, mesmo assim, Louis -Jud quase gemeu. - O que, pelo amor de Deu, voc pode deduzir 
de tudo isso?
        - Jud, do que voc est falando? - Louis perguntou, alarmado.
    - Lester fez isso e Stanny fez isso pela mesma razo que eu fiz. Voc fez isso porque a coisa se apoderou de voc. Agiu daquela maneira porque aquele cemitrio 
 um lugar secreto e voc queria compartilhar do segredo. Quando a gente encontra uma razo que parece suficientemente boa, ora... - Jud tirou as mos do rosto e 
encarou Louis com olhos que pareciam incrivelmente velhos, incrivelmente plidos. - Ento resolvemos ir em frente e fazer a coisa... Inventamos razes... E elas 
sempre parecem boas razes... Mas, em geral, agimos assim simplesmente porque queremos. Ou porque temos de agir assim. Meu pai no me levou at cemitrio micmac 
porque s tinha ouvido falar dele; no tinha ido at l. Mas Stanny B fora at ... . e me levou. Se passaram setenta anos... E ento... de modo totalmente inesperado...
    Jud sacudiu a cabea, levou a mo  boca e tossiu.
    - Escute - disse ele -, escute, Louis. Pelo que eu sei, o touro de Lester foi o nico animal que ficou realmente perverso. Mas acho que o pequins de Linda Lavesque 
pode ter mordido o carteiro uma vez, depois que voltou... Tambm ouvi algumas outras histrias... Animais que ficaram um tanto desagradveis... Mas Spot sempre foi 
um bom cachorro. Tinha sempre um cheiro de terra, no importa quantas vezes eu desse banho nele; tinha sempre um cheiro de terra... Mas era um bom cachorro. Depois 
daquilo minha me nunca mais encostou a mo nele, mas sem dvida era um bom cachorro... Escute, Louis, se quiser pegar o gato hoje  noite e mata-lo, no vou contar 
nada a ningum .......
    "Aquele lugar... toma conta de voc da forma mais inesperada possvel.. E voc inventa as mais diferentes explicaes do mundo... Mas eu posso ter errado, Louis. 
 o que estou lhe dizendo. Lester podia estar errado. Stanny B podia estar errado. Diabo, eu no sou Deus. Trazer a morte de volta para a vida... Isto  mais ou 
menos se fazer de Deus, voc no acha?"
    Louis abriu outra vez a boca, mas tornou a fech-la. O que ia falar soaria errado, errado e cruel. Jud s vou conseguir superar isso tudo quando matar de novo 
esse maldito gato.
    Jud acabou sua cerveja e arrumou-a cuidadosamente junto s outras cervejas vazias.
    - Eu acho que sim - ele concluiu. - Bem, j disse o que precisava dizer.
    - Posso lhe fazer mais uma pergunta? - disse Louis.
    - Faa - disse Jud.
    - Algum j enterrou uma pessoa l em cima?
    O brao de Jud tremeu convulsivamente, duas garrafas de cerveja caram da mesa e uma delas quebrou.
    - Deus nosso Senhor! - ele exclamou. - No! E quem faria uma coisa dessas? Nem devia fazer essa pergunta, Lous!
    - Pura curiosidade - disse Lous, pouco  vontade.
    - No  bom ser curioso a respeito de certas coisas - retrucou Jud CrandalL
    Pela primeira vez, Jud pareceu realmente velho e acabado aos olhos de Louis Creed: como se estivesse  beira de seu tmulo, um tmulo aberto e pronto para receb-lo.
    
    E depois, em casa, mais uma coisa veio  mente de Louis sobre o aspecto de Jud naquele momento.
    Parecia que ele estava mentindo.

Louis s percebeu que estava embriagado quando chegou  garagem.
    L fora havia um cu estrelado e um luar um tanto frio. No era um luar suficientemente luminoso para lanar uma sombra, mas iluminava a estrada.
    Assim que entrou na garagem, Louis no enxergou mais nada. Havia um interruptor em algum lugar, ms no conseguia se lembrar onde. Foi avanando lentamente, 
arrastando os ps, a cabea rodando, antecipando uma dolorosa pancada no joelho. Teve medo de esbarrar num dos brinquedos das crianas, ouvi-lo cair, tropear nele. 
O velocpede de Ellie com rodas vermelhas. O rob de Gage.
    Onde estaria o gato? Ser que tinha deixado Church dentro de casa?
    Seu corpo oscilou para um dos lados e jogou-o contra a parede. A ponta de um cano atingiu-o na palma da mo; ele gritou "Merda!" para o escuro ao seu redor, 
percebendo pelo som da palavra que estava mais assustado que enfurecido. A garagem parecia ter virado de pernas pro ar. Agora no era apenas o interruptor de luz; 
agora j no sabia onde estava porra nenhuma, inclusive a porta da cozinha.
    Recomeou a andar, devagar, a palma da mo doendo. Ser cego  assim, pensou, o que o fez lembrar de um concerto de Stevie Wonder que assistira com Rachel.. Quando? 
H seis anos? Parecia incrvel, mas j devia ter sido h seis anos. Na poca, ela estava grvida de ElIie. Dois rapazes conduziram Stevie Wonder ao sintetizador, 
guiando-o por entre os cabos que se enroscavam no palco. E mais tarde, quando Stevie se levantou para danar com uma das cantoras do coro, a moa soube lev-lo cuidadosamente 
para um espao desimpedido. Danou muito bem, Louis se recordava, mas, para faz-lo, teve de ser conduzido a um espao adequado.
        E que tal a mo de algum para me levar at a porta da cozinha?, ele pensou e, bruscamente, estremeceu.
    Se algum tipo de mo sasse naquele momento do escuro, ele gritaria muito - muito, muito, muito!
    Ficou imvel, o corao batendo forte.
    Vamos l, disse para si mesmo. Pare com essa palhaada. Venha logo, venha.. -
Onde, afinal, estava a merda do gato?
    Ento bateu em alguma coisa... No para-choque traseiro da camionete.
A dor comeou abaixo do joelho, percorreu todo o corpo e os olhos umideceram. Agarrou a perna e esfregou, equilibrando-se como uma gara na outra perna, mas em compensao 
descobriu onde estava, a geografia da garagem voltou a se fixar com nitidez na sua mente; alm disso, a vista estava se acostumando  escurido e j distinguia o 
ambiente num tom arroxeado. Sim, deixara o gato dentro de casa, lembrava-se agora. Realmente no quisera se aproximar dele, peg-lo, tir-lo de casa e...
    E foi ento que o corpo peludo e quente de Church escorregou oleoso em seu p, como um vagaroso redemoinho d'gua. Depois veio a cauda repulsiva, enroscando-se 
na barriga da perna dele como serpente traioeira.E a Louis gritou. Abriu bem a boca e gritou.


    - Papai! - Ellie gritou.
    Desceu correndo a rampa de desembarque na direo dele, fazendo ziguezague entre os passageiros como um artilheiro na grande rea. A maior parte das pessoas 
ia abrindo caminho, sorrindo. Louis ficou um tanto embaraado pelo ardor da filha, mas acabou sentindo um grande, imenso sorriso se estampando tambm no seu rosto.
    Rachei trazia Gage no colo, e quando Ellie gritou o menino viu o pai.
    - Paaai! - ele se manifestou efusivamente, comeando a pular nos braos de Rachel. Ela sorriu (um pouco cansada, Louis pensou) e ps Gage no cho. O garoto comeou 
a correr atrs de Ellie, as pernas bamboleando com rapidez. - Paaai! Paaai!
    Louis observou que o filho usava um casaco que ainda no vira, com certeza presente do av. Ento Ellie se arremessou contra ele, subiu por ele acima corno se 
Louis fosse uma rvore.
- Oh, papai! - a menina berrou e deu um caloroso beijo em seu rosto. 
        - Oi, meu bem - disse ele curvando-se para pegar Gage. Ps o garoto na curva do brao, abraou-o e suspendeu-o junto com Ellie. - Como estou contente em 
ter vocs de volta!
    Rachel se aproximou. Num dos braos a bolsa e a sacola de viagem, no outro, a sacola de fraldas de Gage. Eu vou crescer logo estava impresso na sacola de fraldas, 
visando antes o nimo dos pais que as intenes da criana. Rachel parecia uma fotgrafa profissional ao trmino de longa e estafante misso.
    Louis se curvou entre os filhos e beijou-a na boca.
    - Oj.
    - Oi, doutor - ela respondeu e sorriu.
    - Voc parece esgotada.
    - Estou esgotada. Chegamos a Boston sem nenhum problema. Fizemos a conexo sem nenhum problema. Decolamos sem problemas. Mas quando o avio comeou a se aproximar 
daqui, Gaga olhou pela janela, disse "bonito, bonito" e vomitou na roupa toda.
    - Oh, Deus.
    - Mudei a roupa dele no banheiro do avio - disse Rachel. - No deve ser nenhum vrus nem nada desse tipo. S um enjo areo.
    - Vamos pra casa - disse Louis. - Tenho uma carne assada no forno.
    - Carne assada! - Ellie gritou no ouvido do pai, cheia de prazer e agitao.
    - Assada! Sada! - Gage gritou no outro ouvido de Louis, o que, pelo menos, equalizou a ressonncia.
    - Vamos indo - disse Louis. - Vamos pegar as malas e ir pra casa.
    - Papai, como est o Church? - Ellie perguntou quando Louis a ps no cho.
    Lous esperava a pergunta, mas no contava com o rosto ansioso de Ellie, a profunda ruga de preocupao que apareceu entre seus olhos muito azuis. Louis franziu 
a testa e olhou para Rachel.
    - Ela acordou gritando neste fim de semana - explicou calmamente a mulher. - Teve um pesadelo.
    - Sonhei que Church tinha sido atropelado - disse Elle.
    - Acho que foi um excesso de sanduches de peru no Dia de Ao de Graas - disse Rachel. - Teve um pouco de diarria tambm. Mas passou logo, no se preocupe. 
Vamos sair deste aeroporto. Esta semana me fartei de aeroportos pelos prximos cinco anos.
    - Ora, Church est timo, querida - Louis respondeu pausadamente.
    Sim, est timo. Ronda o dia inteiro pela casa e fica me olhando com aqueles olhos estranhos, turvos - como se tivesse visto alguma coisa que tenha feito explodir 
quase toda a sua inteligncia de gato. Est muito bem!  noite, coloquei-o fora de casa com uma vassoura, porque no gosto de encostar a mo nele. Mas consegui varr-lo 
e ele saiu. Outro dia, quando abri a porta da sala, Ellie, tinha um rato na boca, ou pelo menos o que sobrou do rato. Engolira as tripas todas, como desjejum. E 
por falar em desjejum, eu vomitei o meu naquela manh. Quanto ao mais...
    - Ele est timo!
    - Ah - disse Ellie e o sulco entre os olhos se dissipou. - Ainda bem. Quando eu tive aquele sonho, fiquei achando que ele tinha morrido.
    - Foi mesmo? - Louis perguntou e sorriu. - Os sonhos so engraados, no so?
    - Sooonho! - Gage gritou. Atingira o estgio de papagaio que Louis j conhecia dos primeiros anos de Ellie. - Sooonho!
    Puxou com fora o cabelo do pai.
    - Vamos l, pessoal - disse Louis, e foram todos para o setor de bagagem.
    J tinham chegado  camionete no estacionamento quando Gage comeou a dizer "bonito, bonito" com uma voz estranha, soluante. Desta vez, vomitou em cima de Louis, 
que pusera uma cala nova de l para receber a mulher e os filhos. Gage parecia achar que bonito era a palavra-cdigo para eu tenho de vomitar agora, sinto muito, 
mas abram caminho.
    Afinal, devia ser algum vrus.
    Durante os vinte e seis quilmetros do aeroporto de Bangor  casa deles em Ludlow, Gage comeou a mostrar sinais de febre e caiu numa desagradvel sonolncia. 
Quando Louis deu a r para entrar na garagem, viu, pelo canto do olho, Church deslizar furtivamente por cima de um muro, a cauda no ar, olhos estranhos fixados no 
carro. O gato desapareceu nas sombras do crepsculo e, logo a seguir, Louis notou um camundongo de barriga aberta ao lado de uma pilha de quatro pneus (ele trocara 
os pneus da camionete enquanto Rachel e os meninos estavam fora). Sob o ltimo claro de luz do sol entrando na garagem, as tripas do camundongo tinham um rude brilho 
cor-de-rosa.
    Louis saltou e esbarrou de propsito na pilha de pneus, arrumados um sobre o outro como peas de um jogo de damas. Os dois pneus de cima cairam e cobriram o 
rato.
    - Opa! - ele exclamou.
    - Voc  um desastrado, papai - disse Ellie num tom carinhoso.
    - Acho que tem razo - Louis concordou numa espcie de bom humor febril. Teve vontade de dizer bonito, bonito e vomitar tudo que havia em seu estmago.
    - O papai  um desastrado...
    Louis lembrava que Church s tinha morto um rato antes daquela esquisita ressurreio; s vezes acuava um camundongo e brincava com o bicho, daquela fatal maneira 
felina que acaba em destruio, mas ele, a filha ou Rachel sempre intervinham antes do fim. E sabia que, quando um gato  castrado, dificilmente faria mais do que 
conceder ao camundongo um olhar de interesse, pelo menos estando bem-alimentado.
    - Voc vai continuar a sonhando ou far a gentileza de me ajudar com este menino? - Rachel perguntou. - Volte do Planeta Mongo, Dr. Creed. Aqui na Terra h 
gente que precisa de voc.
    Rachel parecia cansada e irritada.
    - Desculpe, meu bem - disse Louis.
        Circundou o carro para pegar Gage, que parecia quente como brasa num fogo de lenha. ele, a filha e a mulher comeram sua famosa carne assada com tempero 
 moda do Sul; Gage ficou reclinado no sof da sala, febril e aptico, sorvendo na mamadeira uma canja de galinha e vendo desenhos animados na tev.
    Depois do jantar, Ellie foi at a porta da garagem e chamou por Church. Louis, que lavava os pratos enquanto Rachel desfazia as malas no andar de cima, achou 
que o gato no viria, mas ele veio... Veio caminhando naquele passo lento, quase imediatamente, como se - como se - estivesse emboscado l fora. Emboscado! A palavra 
assaltou de imediato a mente de Louis.
    - Church! - Eliie gritou. - Oi, Church!
    A menina pegou o gato e abraou-o. Louis observava pelo canto do olho; as mos, que antes remexiam no fundo da pia em busca de algum talher esquecido, ficaram 
imveis. Viu a expresso de contentamento no rosto da filha ir aos poucos se transformando num certo ar de perplexidade.
O gato jazia tranqilo em seus braos, orelhas baixas, os olhos nos dela.
    Aps algum tempo - pareceu muito tempo - a menina ps Church no cho. O gato foi se afastando para a sala de jantar sem olhar para trs.
Carrasco de casnundongos, Lus pensou distrado. Deus, o que fizemos naquela noite?
    Tentou honestamente se recordar, - mas tudo j parecia muito longnquo, vago e obscuro como a agitada morte de Victor Pascow no cho do vestbulo da enfermaria. 
Podia lembrar torrentes de vento cruzando o ar e o brilho branco da neve no terreno atrs da casa que levava aos bosques. Mais nada.
    - Papai? - Ellie chamou numa voz baixa, contida.
    - O que , meu bem?
    - Church tem um cheiro engraado.
    -  mesmo? - Louis perguntou, a voz cuidadosamente neutra.
        - ! - Ellie respondeu perturbada. - Tem mesmo! Nunca teve esse cheiro antes! Parece um cheiro de... Parece um cheiro de lama!
    - Bem, talvez tenha se esfregado no cho, querida - disse Louis. -Seja l o que for, vai perder esse cheiro.
    - Eu espero que sim - disse Ellie num timbre cmico de matrona. Depois saiu da cozinha.
    Louis encontrou o ltimo garfo, lavou-o e destampou a pia. Ficou ali parado, contemplando a noite l fora enquanto a gua oleosa escorria pelo ralo com um forte 
rudo de suco.
    Quando o ralo parou de fazer barulho, pde ouvir o vento, no muito impetuoso, mas constante, vindo do norte, trazendo o inverno. Ento, percebeu que estava 
com medo, simplesmente, estupidamente com medo, do modo como se tem medo quando uma nuvem cruza subitamente o sol e ouvimos, em algum lugar, uma batida que no sabemos 
identificar.
    - Trinta e nove e meio? - Rachel perguntou. - Meu Deus, Lou! Voc tem certeza?
    -  uma virose - disse Louis.
    Procurou no deixar que a voz de Rachel, parecendo quase acusadora, lhe irritasse os ouvidos. Ela estava cansada. Fora um dia longo, cruzara metade do pas com 
os meninos. Eram onze horas da noite e o dia ainda no terminara. Ellie dormia profundamente em seu quarto. Gage estava na cama deles, num estado que podia ser mais 
bem descrito como semiconscente. Louis medicara o filho uma hora antes.
    - A aspirina vai fazer a febre cair de manh, querida.
    - No vai lhe dar um antibitico ou qualquer coisa assim?
    Pacientemente, Louis explicou:
    - Se fosse um resfriado ou uma infeco da garganta, eu lhe daria isso. Mas no . O que ele tem  uma virose e os antibiticos no funcionam muito bem nesses 
casos. Poderiam provocar uma diarria e desidrat-lo ainda mais.
    - Tem certeza de que  uma virose?
    - Bem, se quiser uma segunda opinio - Louis falou irritado -, chame outro mdico.
    - No precisa gritar comigo! - disse Rachel em voz alta.
    - Eu no estava gritando!
    - Estava - Rachel insistiu -, voc estava gri-gri-gritando...
    Os lbios da mulher comearam a tremer; ela ps as mos no rosto. Louis percebeu que havia olheiras fundas e escuras sob seus olhos e ficou com remorsos.
    - Desculpe - disse ele, sentando-se a seu lado. - Meu Deus, no sei o que est havendo comigo. Me perdoe, Rachel.
    - Esquea, tudo bem - disse Rachel, sorrindo palidamente. - Voc no me disse uma vez que viajar era uma droga? Bem, foi uma droga... Fiquei com medo que voc 
bronqueasse quando desse uma espiada nas gavetas do Gage... Acho que talvez seja melhor contar agora, enquanto est
sentindo pena de mim.
    - Porque bronquear?
    Ela repetiu o sorriso amarelo.
    - Minha me e meu pai compraram dez casacos novos para o Gage.
Ele estava usando um deles hoje.
    - Reparei que estava de roupa nova - Louis disse laconicamente.
    - Vi que reparou - ela respondeu e torceu o rosto numa careta cmica que o fez rir, embora no sentisse nenhuma vontade de rir. - ... E seis vestidos novos para 
Ellie.
    - Seis vestidos! - ele disse, sufocando o mpeto de berrar. De repente, sentia-se furioso, morbidamente furioso, e ofendido de uma forma que no podia explicar. 
- Por qu, Rachel? Por que deixou que seu pai fizesse isso? Ns no precisamos... Podemos comprar...
    Ele se calou. A raiva o deixara sem voz e, por um momento, viu-se carregando o gato de Ellie atravs dos bosques, passando o saco plstico de uma para outra 
mo... E enquanto isso, Irwin Goldman, aquele filho da puta de Lake Forest, tentava comprar a afeio de Ellie sacando o famigerado talo de cheques e acionando 
a famigerada caneta...
    Por um instante, esteve  beira de explodir:
    Ele comprou seis vestidos e eu trouxe o maldito gato de volta depois que estava morto... Quem gosta mais dela?
    Sufocou as palavras. Nunca poderia dizer aquilo. Nunca.
    Rachel encostou suavemente a mo na sua nuca.
    - Louis - disse. - Foram os dois juntos. Por favor, tente compreender. Por favor. Gostam muito das crianas e no tm muito Contato com elas, voc mal reconheceria 
meu pai.Pode acreditar.
    - Eu o reconheceria muito bem - Louis murmurou.
    - Por favor, querido. Procure compreender. Tente ser gentil. Isso no humilha voc.
    Ele a encarou por um longo tempo.
    - Humilha sim - acabou dizendo. - Talvez voc no entenda, mas humilha.
    Rachel abriu a boca para responder. Foi ento que Ellie gritou de seu quarto:
-        Papai! Mame! Algum!
    Rachel se levantou bruscamente, mas Louis sentou-a de novo.
    - Fique aqui com o Gage, eu vou ver...
    J desconfiava qual era o problema. Mas tinha posto o gato l fora, maldio! Depois que Ellie foi deitar, surpreendera Church na cozinha farejando perto da 
vasilha de comida e colocou-o l fora. No queria o gato dormindo com a filha. No queria mais. Estranhos pensamentos de doena, misturados a lembranas da agncia 
funerria do tio Carl, tinham-lhe ocorrido ao imaginar o gato dormindo na cama de Ellie.
Ela vai perceber que h algo errado, que antes Church era melhor.
    Pusera o gato na rua, mas quando entrou no quarto, Ellie estava sentada na cama, semi-adormecida, e Church esparramado sobre a colcha, como uma sombra achatada. 
Os olhos do gato estavam abertos e brilhavam com ar estpido  luz que vinha do corredor.
    - Papai, tira ele daqui - Ellie quase gemeu. - Ele est cheirando to mal.
    - Chiii, Ellie, durma! - disse Louis, espantado com a calma da prpria voz. Lembrou-se da manh aps o incidente de sonambulismo, o dia que se seguiu  morte 
de Pascow. Chegou  enfermaria e foi direto para o banheiro olhar-se no espelho, convencido de que devia estar com uma cara terrvel. Mas tinha uma aparncia perfeitamente 
normal. No podia deixar de imaginar quanta gente havia, andando por a, com segredos medonhos trancados no peito.
Isto no  um segredo, maldio!  apenas um GATO!
    Ellie tinha razo. Ele estava cheirando muito mal.
    Tirou o gato do quarto da menina e levou-o para o andar de baixo, tentando respirar pela boca. Havia cheiros piores: merda era pior, colocando as coisas sem-cerimnia. 
H um ms enfrentara um problema com a fossa. Jud veio ver Puffer & Sons bombeando a fossa e comentou: "Este perfume no  dos melhores, no acha, Louis?" O cheiro 
de uma ferida gangrenada - que o velho Dr. Bracermunn, da faculdade de medicina, chamava "carne apimentada" - tambm era pior. At o cheiro que vinha do transformador 
da Civic quando ela ficava muito tempo parada era pior.
    Mas, sem dvida, era um cheiro bastante desagradvel. E afinal, como o gato conseguira entrar? Ele o pusera para fora, varrendo-o com a vassoura quando todo 
mundo estava no andar de cima. Aquela era a primeira vez que realmente segurava o gato desde que o viu comer no dia do seu retorno, quase h uma semana. Parecia 
quente em seus braos, imvel como um doente. Louis se perguntou: Que buraco voc encontrou para entrar, seu sacana?
    Pensou no sonho daquela noite... Pascow simplesmente atravessando a porta entre a cozinha e a garagem.
    Talvez no houvesse qualquer buraco. Talvez ele simplesmente tivesse passado atravs da porta, como um fantasma.
    - Esquea isso - murmurou alto, num tom ligeiramente spero.
    Ento, repentinamente, Louis teve certeza de que o gato comearia a arranh-lo, a lutar em seus braos. Mas Church continuava absolutamente imvel, irradiando 
aquele estpido calor e aquele cheiro nojento, fitando o rosto de Louis como se pudesse ler os pensamentos que lhe corriam atrs dos olhos.
    Abriu a porta e atirou o gato na garagem, talvez com um pouco de violncia.
    - Fique ai fora - disse ele. - Mate outro rato ou qualquer coisa assim!
    Church atingiu o solo desajeitadamente, o traseiro elevando-se como um calombo e depois desmoronando. Pareceu atirar a Louis um olhar de raiva, esverdeado, feio. 
Depois foi se afastando num passo embriagado e desapareceu.
    Deus me livre, Jud, ele pensou, mas se eu matasse gostaria que ficasse mesmo de boca fechada.
    Foi at a pia da cozinha e lavou as mos e os braos com vigor, como se estivesse fazendo a assepsia para uma operao. Voc fez isso porque a coisa se apoderou 
de .... . Inventou raz6es... E elas sempre parecem boas ....... Mas fez isso principalmente porque se j esteve l em cima, aquele  o seu lugar, voc pertence a 
.... . E inventa as mais perfumadas razes do mundo...
    No, no podia censurar Jud. Fora por sua prpria vontade e no podia censurar Jud.
Fechou a torneira e comeou a enxugar as mos e os braos.
    Subitamente a toalha parou de se mover e ele encarou o que tinha  frente: o pequeno pedao de noite emoldurado pela janela da pia.
Ento isto significa que agora  o meu lugar? Que tambm  meu?
No. No se eu no quiser.        
Pendurou a toalha no cabide e subiu as escadas.
    Rachel estava deitada, as cobertas puxadas at o queixo e Gage bem agasalhado a seu lado. Pousou os olhos no marido com um ar de desculpas.
    - Voc se importa, querido? S por esta noite? Vou me sentir melhor com ele do meu lado. Est to quente.
    - No - disse Louis. - Tudo bem. Vou pegar a cama de abrir l embaixo.
- Voc realmente no se importa?
    - No. Isso no far mal nenhum a Gage e vai fazer voc se sentir melhor.
Ele fez uma pausa e sorriu.
    - Mas voc tambm vai pegar a virose.  quase certo. Acho que isso no a far mudar de idia, de acordo?
    Ela devolveu o sorriso e balanou a cabea.
    - Por que Ellie estava fazendo aquele alvoroo?
    - Church. Queria que eu tirasse Church de l.
         - Ellie queria que voc tirasse Church de l?  inacreditveL
    - Sim,  - Louis concordou, acrescentando: - Disse que ele estava cheirando mal; e tambm achei que est um tanto perfumado. Deve ter se esfregado em algum canteiro 
ou coisa parecida.
    - Isso  muito estranho - disse Rachel, virando de lado na cama.
        - Acho que Ellie teve mais saudades de Church que de voc.
    - Pois  - disse Louis. Ele se curvou e beijou-a suavemente na boca.
        - Durma, RacheL
    - Eu te amo, Lou. Estou muito contente de estar novamente em casa. E desculpe por eu dormir com Gage.
    - Tudo bem - disse Louis, apagando a luz.


    No andar trreo, pegou as almofadas do sof, montou a cama de abrir e procurou se preparar mentalmente para uma noite com as molas do estrado enfiadas nas costas. 
Pelo menos, havia um lenol na cama; escaparia dos arranhes do colcho. Tirou dois cobertores da prateleira mais alta do armrio do corredor e esticou-os na cama. 
Comeou a despir-se...
    Acha que Church entrou de novo? timo... D um giro pela casa e verifique. No far mal nenhum, como voc disse a Rachel. Pode ser at bom. Dar uma olhada para 
ver se as portas esto bem fechadas no vai faz-lo pegar nenhuma virose.
    Andou lentamente pelo andar de baixo, verificando se as portas e janelas estavam trancadas. Sem dvida, tinha fechado tudo e no viu Church em lugar algum.
    - Vamos ver - disse ele. - Vamos ver voc entrar esta noite, seu gato estpido.
    Isto foi seguido por um desejo mental de que as bolas de Church congelassem l fora. Se bem que Church no tivesse,  claro, mais nenhuma.
    Apagou as luzes e foi deitar. Quase imediatamente comeou a sentir o estrado nas costas. Estava jurando que ficaria metade da noite acordado quando adormeceu. 
Dormiu confortavelmente, deitado de lado na cama de abrir, mas quando despertou...
      estava no cemitrio indgena alm do "simtrio"de bichos. Desta vez, sozinho. Desta vez ele mesmo matara Church e, por algum motivo, decidira faz-lo de novo 
reviver. Por qu, s Deus sabia, no Louis. Enterrou Church numa cova mais profunda e Church no conseguia sair de dentro dela. Podia ouvir o gato miando em algum 
lugar debaixo da terra, um miado que mais parecia um choro de criana. O som atravessava os poros do solo, filtrava-se pela camada pedregosa... O som e o cheiro, 
aquele cheiro terrivelmente enjoativo de podrido, decomposio. O simples fato de respir-lo fazia com que sentisse o peito pesado, como se houvesse um peso em 
cima dele.
    O choro... O choro...
    O choro ainda continuava...
         E o peso ainda estava sobre seu peito.
- Louis!
    Era a voz de Rachel, o tom alarmado.
    - Louis, quer vir aqui?
    Estava mais do que alarmada; estava verdadeiramente assustada. O choro parecia engasgado, abafado. Era Gage.
    Abriu os olhos e deu com os olhos verde-amarelados de Church. A menos de dez centmetros dos dele, O gato se aninhara em seu peito, enroscado como um bichinho 
de estimao de um comovedor romance para moas. O cheiro flua em ondas doentias, lentas. Church ronronava.
    Louis teve uma exclamao de susto e mal-estar. Estendeu ambas as mos num gesto instintivo de defesa. Church caiu da cama com um baque surdo, batendo com o 
lombo no cho e se afastando com aquele passo cambaleante.
    Jesus! Jesus! Ele estava em cima de mim! Oh, Deus, ele estava bem em cima de mim!
    No sentiria maior averso se acordasse com uma aranha na boca. Por um instante, achou que ia vomitar.
    - Louis!
    Afastou os cobertores e tropeou para a escada. Uma luz fraca saa pela porta de seu quarto. Rachel estava de p, no alto da escada, com a camisola de dormir.
    - Louis, ele est vomitando de novo... Engasgando com o vmito... Estou assustada.
    - Pronto, j vou - disse ele aproximando-se do corredor e pensando: conseguiu entrar. De alguma forma conseguiu entrar. Pelo porta, s pode ser. Talvez haja 
alguma janela quebrada l embaixo. Tem de haver uma janela quebrada. Vou ver isso amanh quando voltar. Diabo, posso ver antes mesmo de ir para o trabalho! Posso...
    Gage parou de chorar e comeou a fazer um desagradvel e abafado som gargarejante.
    - Louis! - Rachel gritou.
    Louis andou rpido. Gage estava deitado de lado e vomitava na toalha velha que Rachel colocara perto dele. Vomitava, mas no muito. O maior problema era nos 
pulmes: Gage ia ficando roxo com um incio de asfixia.
    Louis agarrou o menino pelas axilas, percebendo o quanto o filho estava quente sob o macaco felpudo. Virou-o de cabea para baixo, para faz-lo arrotar. Depois 
se inclinou para trs e sacudiu-o. O pescoo do menino balanou convulsivamente. Antes tossiu em voz alta e depois arrotou. E uma surpreendente rajada de vmito, 
quase slido, espalhou-se pela mesa-de-cabeceira e pelo cho. Gage comeou a chorar de novo: um som estridente, consistente, mas que foi msica para os ouvidos de 
Louis. O filho s poderia gritar daquele jeito se estivesse absorvendo um suprimento ilimitado de ar.
    Os joelhos de Rachel vergaram e ela se deixou cair na cama, as mos segurando a cabea. Tremia violentamente.
    - Ele quase morreu, no foi, Louis? Ele quase mo-mo-mo... Oh,
meu Deus...
    Louis andava em volta do quarto com o filho nos braos. Os gritos de Gage iam se transformando num choro lamuriento;j estava quase dormindo de novo.
    - Tinha noventa e nove por cento de chances de conseguir sair dessa sozinho, Rachel. S dei uma ajuda.
    - Mas ele esteve perto - disse Rachel.
    Levantou um olhar opaco para o marido. Parecia atnita, como se no pudesse acreditar que aquilo tinha acontecido.
- Louis, ele esteve to perto.
    Subitamente Louis se lembrou de Rachel gritando na cozinha ensolarada:
Ele no vai MORRER, ningum vai MORRER por aqui...
- Querida - disse Louis -, ns todos estamos prximos. Sempre estamos perto.
    Sem dvida, o ltimo acesso de vmito tinha sido causado pelo leite. Gage acordara por volta da meia-noite, disse ela, mais ou menos uma hora depois de Louis 
ter ido dormir, com seu "choro de fome". Rachel dera-lhe uma mamadeira. Cochilou um pouco enquanto ele estava bebendo. Cerca de uma hora depois, o acesso de vmito 
comeou.
    - No d mais leite - disse Louis, e Rachel concordou, quase com humildade. - Nada de leite!
    5 duas e quinze, Louis tornou a descer, e passou quinze minutos procurando o gato. Durante a busca, viu que a porta ligando a cozinha com o poro estava entreaberta, 
exatamente como ele suspeitara. Lembrou-se de sua me lhe falando de um gato que aprendera a abrir aqueles trincos antigos, como o daquela porta. O gato simplesmente 
subia no corrimo da escada e batia com a pata na maaneta da porta at conseguir abrir o trinco. Um truque muito esperto, Louis pensou, mas no pretendia deixar 
que Church se acostumasse a execut-lo. Afinal, a porta do poro tambm tinha uma fechadura...
    Encontrou Church cochilando sob o fogo e sem-cerimnia, colocou-o fora de casa. A caminho da cama de abrir, fechou de novo a porta do poro.
    E desta vez, fez a chave girar na fechadura.
    De manh, a temperatura de Gage estava quase normal. Embora a palidez do rosto ainda fosse muito intensa, o menino tinha um brilho de animao no olhar e parecia 
cheio de vida. Muito depressa, praticamente em uma nica semana, seu balbuciar sem sentido convertera-se num amontoado de palavras; repetia quase tudo que ouvia. 
Ellie se esforava para ensin-lo a dizer "merda".
    - Diga merda, Gage - Ellie mandava, comendo um mingau de aveia.
    - Merda, Gage - o menino respondia satisfeito diante de seu prprio pratinho de mingau. Louis permitira o mingau de aveia, mas Gage teria de com-lo com pouco 
acar. Como de hbito, Gage parecia us-lo mais para lavar a cabea do que para comer.
    Ellie morria de rir.
    - Diga peido, Gage.
    - Pei-Gage - disse Gage abrindo um sorriso, o mingau de aveia espalhado no rosto. - Pei e merda.
    Ellie e Louis explodiram numa gargalhada. Era impossvel no rir.
    Rachel no parecia to satisfeita.
    - Acho que essa conversa  bastante vulgar para logo de manh -disse ela, servindo os ovos de Louis.
    - Merda e pei e pei e merda - Gage entoava com alegria e EIlie ria tampando a boca. O lbio de Rachel contorceu-se um pouco e Louis achou que ela parecia cem 
por cento melhor que na vspera, apesar de no ter dormido bem. Grande parte daquilo seria simplesmente alivio, Louis sups. Gage estava melhor e ela estava em casa.
    - No diga isso, Gage - Rachel exclamou.
    - Bonito - disse Gage, para variar, e vomitou em sua tigela todo o cereal que tinha comido.
    - Oh, que coisa grossa ! - Ellie gritou e fugiu da mesa.
    Louis ento explodiu de rir. No pde evitar. Riu at chorar e chorou at voltar a rir de novo. Rachel e Gage olhavam-se como se ele tivesse ficado maluco.
    No, Louis podia ter dito a eles. Andei meio maluco, mas acho que agora vou ficar bom. Acho mesmo.
    No sabia se tudo estava acabado ou no, mas se sentia como se tudo estivesse em ordem; e talvez isso fosse suficiente.
    E, pelo menos durante algum tempo, foi suficiente.

    A virose de Gage durou uma semana, depois passou. Mas da a mais uma semana, o garoto voltou a cair de cama com um princpio de bronquite. Ellie tambm a pegou 
e depois Rachel; durante os dias que antecederam o Natal, os trs andaram pela casa ofegantes como velhos e asmticos ces de caa. Louis no pegou a doena e Rachel 
parecia quase ressentir-se disso.
    A ltima semana de aulas na universidade foi bem agitada para Louis, Steve, Surrendra e Charlton. No havia a gripe espanhola - pelo menos ainda no -, mas muita 
bronquite, alm de vrios casos de mononucleose e pneumonia galopante. Dois dias antes das aulas serem encerradas por causa do Natal, seis rapazes do diretrio estudantil 
foram conduzidos  enfermaria. Estavam embriagados e gemiam. Alguns instantes de confuso lembraram terrivelmente o caso de Pascow. Todos os seis bobalhes tinham 
se apinhado no tobog mecnico de razovel extenso (na realidade, pelo que Louis pde deduzir, os seis tinham feito uma fila indiana, sentando-se nos ombros uns 
dos outros). E assim, comearam a escorregar pelos altos e baixos do tobog. Hilariante. Exceto que, aps ganhar uma boa velocidade, a esteira do tobog saiu dos 
eixos e bateu num dos canhes da Guerra Civil que havia no ptio. O resultado foi um pulso, dois braos, uma cabea e nada menos de sete costelas quebradas, alm 
de contuses demasiado numerosas para serem computadas. S o rapaz que vinha no fim da fila escapou sem um arranho. Quando o tobog bateu no canho, aquela alma 
afortunada voou pelos ares e pousou de cabea num monte de neve. Encaixar todos aqueles ossos no tinha sido nada engraado. Enquanto engessava, enfaixava e punha 
esparadrapos nos rapazes, Louis repreendia-os severamente. Mais tarde, no entanto, quando contou a Rachel o que tinha acontecido, riu novamente at chorar. Rachel 
contemplou-o com um ar de estranheza, no entendendo o que podia ser to engraado. Louis no poderia dizer-lhe que aquilo fora um acidente sem maiores conseqncias. 
As pessoas tinham se ferido, mas todas superariam o problema com facilidade. Seu riso era em parte alvio da tenso, mas era tambm um riso de triunfo... Mais uma 
vitria hoje, Louis.
    Os casos de bronquite na famlia comearam a melhorar quando, a 16 de dezembro, a escola de Ellie suspendeu as aulas para os feriados do Natal. Todos os quatro 
se prepararam para desfrutar um feliz e antiquado Natal provinciano. A casa de Ludlow Norte, que parecera to estranha naquele dia de agosto quando entraram no caminho' 
que conduzia ao galpo-garagem (estranha e at hostil, com Ellie se machucando e, quase ao mesmo tempo, Gage sendo mordido por uma abelha), nunca fora mais aconchegante 
que agora.
    Na vspera de Natal, aps as crianas irem dormir, Louis e Rachel escapuliram para o andar de baixo como ladres, os braos cheios de caixas coloridas: carros 
para Gage, que recentemente descobrira o prazer de brincar com aquelas mquinas de brinquedo, as bonecas Barbie e Ken para Ellie, um jogo de varetas, um enorme tren, 
roupinhas de boneca, um fogo de brinquedo com uma luzinha no forno e outras coisas.
    Louis e Rachel sentaram-se lado a lado sob as lmpadas da rvore de Natal Remexeram os presentes com satisfao, Rachel num macio pijama de seda, Louis de roupo. 
No podiam lembrar de j terem passado uma noite to agradveL A lareira estava acesa, e de vez em quando um deles se levantava para atiar o fogo.
    Winston Churchll roou uma vez na perna de Louis e ele empurrou o animal com uma repugnncia quase distrada... Aquele cheiro. Mais tarde, viu Church tentando 
se instalar perto de Rachel, mas a mulher tambm o empurrou com uma exclamao impaciente: "Passa!" Logo a seguir, viu Rachel esfregando a palma da mo no pijama, 
como se costuma fazer quando tocamos alguma coisa suja ou portadora de micrbios. Achou que ela fazia aquilo inconscientemente.
    Church deslizou para junto da lareira e esticou-se desajeitadamente diante do fogo. O gato parecia ter perdido tudo que tivera de gracioso; perdera tudo naquela 
noite, uma noite que Louis raramente se permitia lembrar. E Church tambm perdera outra coisa. Louis tinha conscincia disso, mas levou um ms inteiro para perceb-lo 
com exatido. O gato no possua mais aquele rosnado, aquele ronco de motor, particularmente ntido quando estava dormindo. Havia noites em que Louis precisava se 
levantar e fechar a porta do quarto de Ellie para conseguir pegar no sono.
    Agora o gato dormia como uma pedra. Como um animal morto.
    No, ele se lembrou, houve uma exceo:  noite em que despertou numa cama de abrir com Church enroscado em cima do peito, como um cobertor fedorento. . . Naquela 
noite, Church tinha ronronado. Ou, pelo menos, produzira algum som.
    Mas como Jud Crandall vira muito bem (ou adivinhara), as coisas no eram assim to ms. Lous encontrou uma janela quebrada no poro, atrs da fornalha. Ao consert-la, 
o vidraceiro fez com que poupassem alguns dlares de combustvel para o aquecimento. Achou que, por ter chamado sua ateno para a vidraa quebrada (coisa que podia 
ter levado semanas, at meses, para descobrir), Church no deixava de merecer sinceros agradecimentos.

    Ellie no queria mais dormir com o gato,  verdade, mas s vezes, quando estava assistindo tev, deixava Church subir em seu colo e cochilar. Nem sempre, porm, 
Louis pensou, remexendo no saco de peas de plstico que serviam para montar o tren da filha. s vezes o afugentava: "V embora, Church, voc est cheirando mal." 
Mas dava-lhe comida regularmente, e com carinho. Mesmo Gage no estava livre de dar ao velho Church um eventual puxo na cauda. . . Aquilo era um gesto de amizade, 
no de malvadeza, Louis estava convencido: Gage parecia um velho monge puxando uma felpuda corda de sino. Nessas ocasies, Church se arrastava apaticamente para 
baixo de um dos aquecedores, onde o menino no poderia alcan-lo.
    Podamos ter notado mais diferenas se fosse um cachorro, Louis pensou, mas os gatos so sempre animais to independentes... Independentes e estranhos. Misteriosos 
mesmo. No era de admirar que as rainhas e faras do velho Egito quisessem ter os gatos mumificados e instalados com eles nas tumbas triangulares para servirem de 
guias no Outro Mundo. Sem dvida, os gatos eram muito estranhos...
    - Como est se saindo com esse tren, chefe?
    Louis mostrou o produto acabado.
- Est pronto!
    Rachel apontou para o saco, que ainda tinha trs ou quatro peas de plstico.
- E essas?
        - So peas sobressalentes. - disse Louis com certo ar de culpa.
        - E melhor que sejam mesmo. A menina pode quebrar o pescoo.
    -Isso s mais tarde - Louis retrucou maliciosamente. - Quando tiver doze anos e comear a fazer exibies em seus novos patins.
    Rachel gemeu.
    - Vamos l, doutor, tenha pena!
    Louis esticou o corpo, ps a mo nas costas e flexionou o tronco. A espinha estalou.
    - A esto os brinquedos.
    - E todos montados! Lembra do ano passado?
    Ela riu e Louis tambm. No ano anterior, praticamente tudo que compraram teve de ser montado. Os dois ficaram de p at as quatro da madrugada. Acabaram exaustos 
e mal-humorados. E l pelo meio da tarde do dia seguinte, Ellie achou que as caixas dos brinquedos eram mais interessantes que os prprios brinquedos.
    - Que coisa grossa! - disse Louis, imitando a filha.
    - Bem, vamos deitar - disse Rachel - Tambm vou lhe dar um presente de Natal...
    - A mulher - disse Louis, ficando finalmente de p - de quem eu gosto mais.
    - No seja to mentiroso - disse ela, escondendo um riso com as mos. Naquele momento, ficou assombrosamente parecida com Ellie ....... e com Gage.
    - S um minuto - disse Louis. - Tenho de fazer mais uma coisa.
    Foi at o armrio do corredor e pegou uma de suas botas. Tirou a grade da frente da lareira, onde o fogo ia se apagando.
    - Louis, o que...
    - Voc vai ver.
    No lado esquerdo da lareira j no havia fogo, s uma grossa camada de cinzas escura e fofa. Louis cravou a bota em cima, deixando uma marca profunda. Depois 
usou a bota como um grande carimbo de borracha, fazendo pegadas.
    - Ai est - disse ele, depois de pr de novo a bota no armrio. - Gosta?
    Rachel estava rindo de novo.
    - Louis, Ellie vai ficar maluca com isso!
    Durante as duas ltimas semanas de aula, Ellie ouvira rumores inquietantes no jardim de infncia de que os pais  que eram o Papai NoeL A idia fora reforada 
por um Papai Noel um tanto magricela que vira numa lanchonete da Alameda Bangor. O Papai Noel estava sentado no balco, a barba para o lado, comendo um cheeseburguer. 
Aquilo deixou Ellie bastante perturbada (talvez mais o cheeseburguer que a barba postia), apesar de Rachei assegurar-lhe que os Papais Nois das lojas e dos grupos 
do Exrcito da Salvao eram realmente "auxiliares" enviados pelo verdadeiro Noel. Este estava muito ocupado, no Plo Norte, completando relaes de brinquedos e 
lendo cartas de crianas chegadas na ltima hora. No tinha de se envolver em trabalhos de relaes pblicas nas ruas.
    Louis tornou a colocar cuidadosamente a grade da lareira. Agora havia duas ntidas pegadas de botas ali, uma nas cinzas e outra na borda da fornalha. As duas 
se voltavam para a Arvore de Natal, como se o Papai Noel tivesse descido pela chamin e deixado junto da rvore os presentes destinados  casa dos Creed. A iluso 
era perfeita, a no ser que Ellie percebesse oue eram duas pegadas de p esquerdo. . . Louis, porm, no acreditava que a filha fosse assim to analtica.
    - Louis Creed, eu te amo! - disse Rachel, beijando o marido.
    - Voc se casou com algum que sabe das coisas, meu bem - disse Louis, sorrindo com afeto. -  s me provocar e no h o que eu no seja capaz de fazer.
    Caminharam para a escada. Ele apontou para a mesinha de jogo que Ellie colocara na frente da tev. Em cima dela havia biscoitos de aveia e dois tabletes de chocolate. 
Havia tambm uma lata de bolachas. Para voc, Papai Noel, dizia um bilhete na grande e caprichada caligrafia de Ellie.
    - Voc quer um biscoito ou um chocolate? - Louis perguntou.
    - Um chocolate - Rachel respondeu, comendo. imediatamente metade da barra.
    Louis abriu uma lata de cerveja.
    - Acho que uma cerveja assim to tarde vai me dar um pouco de azia - disse.
    - Azar o seu - ela respondeu bem-humorada. - Vamos subir, doutor!
    Louis largou a cerveja e, bruscamente, agarrou o bolso do roupo, como se tivesse esquecido alguma coisa - embora estivesse plenamente consciente daquele pequeno 
peso durante toda a noite.
    - Olhe aqui - disse. - Para voc. Se quiser, pode abrir agora. Afinal, j passa da meia-noite. Feliz Natal, meu bem.
    Ela virou a pequena caixa, embrulhada em papel prateado e amarrada com um grande cordo de cetim azuL
    - Louis,o que ?
    Ele sacudiu os ombros.
    - Um sabonete, uma amostra grtis de xampu, sei l...
    Abriu o presente sentada num degrau, viu a caixa da Tiffany e quase deu um grito de satisfao. Removeu o enchimento de algodo e ficou irn6vel, de boca ligeiramente 
aberta.
    - Bem? - ele perguntou ansioso. Era a primeira vez que lhe comprava uma verdadeira jia e estava nervoso. - Voc gosta?
    Ela estendeu a fina corrente de ouro nos dedos e voltou a pequena safira para a luz do corredor. Depois girou-a lentamente e a pedra pareceu atirar frios raios 
de luz azulada.
    - Oh, Louis,  to maravilhoso...
    Rachel comeou a chorar e Louis se sentiu ao mesmo tempo comovido e alarmado.
    - Ei, meu bem, no faa isso - disse. - Ponha o cordo no pescoo.
    - Louis, ns no podemos... Voc no pode comprar...
    - Chii - disse ele. - Consegui guardar algum dinheiro desde o Natal passado... E no foi assim to caro...
    - Quanto custou, Louis?
    - Nunca vou dizer, Rachei - respondeu solenemente. - Nem um exrcito de torturadores chineses conseguiria me fazer contar... Dois mil dlares.
- Dois mil...!
    Ela o abraou com tanta fora e to de repente que quase o fez rolar pela escada.
    - Louis, voc est louco!
    - Ponha no pescoo - ele pediu de novo.
    Rachel obedeceu. Louis ajudou-a no fecho. Depois ela se virou com um sorriso.
    - Quero subir e dar uma olhada no espelho - disse. - Quero me curtir um pouco.
    - Ento se curta um pouco - disse ele. - Vou colocar o gato l fora e apagar as luzes.
    - Quando fizermos amor - disse Rachel, olhando tristemente nos olhos dele -, vou tirar tudo, menos isto.
    - Apronte-se, ento - disse Louis, e ela riu.
    Louis pegou Church e prendeu-o debaixo do brao. J no se preocupava muito em ter uma vassoura para enxot-lo. Achava que, apesar de tudo, tinha quase se acostumado 
outra vez com o gato. Seguiu para os fundos da casa, apagando as luzes por onde passava. Ao abrir a porta que comunicava a cozinha com a garagem, uma corrente de 
ar frio rodopiou em volta de suas pernas.
    - Tenha um feliz Natal, Ch...
    Ele parou. Havia um corvo morto estendido no capacho. A cabea estava estraalhada. Uma das asas fora arrancada e jazia atrs do corpo como uma folha queimada. 
Church imediatamente pulou dos braos de Louis e comeou a farejar avidamente o corvo congelado. Inclinou a cabea para a frente, abaixou as orelhas e, antes que 
Louis pudesse virar o rosto, arrancou um dos olhos leitosos arregalados do animal.
    Church ataca de novo, Louis pensou um tanto morbidamente e virou o rosto; no, porm, sem antes ter visto a cavidade sangrenta e funda que alojara o olho do 
corvo. Eu.nem devia me incomodar, no de.... J vi coisas piores, oh, sim, Pascow, por exemplo, Pascow foi pior, muito pior...
    Mas a coisa o incomodou. Sentiu o estmago se revirar. O quente fluxo de excitao sexual se extinguiu de repente. Deus, este pssaro  praticamente do tamanho 
dele. Com certeza pegou-o desprevenido. Bem, bem de surpresa.
    Aquilo teria de ser limpo. Ningum precisa de um presente desse tipo na manh de Natal... Competia a ele, no ? Claro que sim. A ele e a mais ningum. De um 
modo subconsciente, reconhecera toda a responsabilidade que cara sobre seus ombros desde a noite do retomo da famlia, quando derrubou de propsito os pneus para 
esconder o corpo dilacerado do camundongo que Church matara.
    O solo do corao de um homem  mais empedernido, Louis.
    A frase surgiu to clara em sua mente... Parecia ter adquirido um carter tridimensional e audveL Louis estremeceu um pouco, como se Jud tivesse se materializado 
perto de seu ombro e falasse em voz alta.
    Um homem planta o que pode... E cuida do que plantou.
    Church ainda estava curvado vorazmente sobre o pssaro morto. Ocupava-se agora da outra asa. Havia um tenebroso rudo de roar  medida que Church a puxava de 
um lado para o outro, de um lado para o outro... Mas no conseguia solt-la do cho... E isso a, a carne da porra do pssaro devia ser to infecta quanto merda 
de cachorro, mas tambm podia servir de alimento para o gato, tambm podia...
    De repente, Louis deu um chute no animal, um chute forte. O lombo do gato se ergueu e depois se abaixou, encostando no cho. Church se afastou, dispensando-lhe 
mais um daqueles feios olhares verde-amarelados.
    - Por que no tenta comer a mim - disse Louis, ele prprio bufando como um gato.
    - Louis?
A voz de Rachel vinha fraca do banheiro no andar de cima.
    - No vem deitar?
    - Fique a - ele respondeu. - J vou!
    S tenho de dar um jeito nesta sujeira, Rachel, est bem? Porque  minha responsabilidade.
    Tateou em busca do interruptor de luz da garagem. Foi at o armrio sob a pia da cozinha e pegou um dos amaldioados sacos verdes de lixo. Levou o saco para 
a garagem e tirou a p de um prego na parede. Com ela, arrancou o corvo do capacho e despejou-o no saco. Depois removeu a asa despedaada e tambm a fez deslizar 
para o saco. Deu um n fechando o saco e colocou-o na cesta de lixo perto da Civic. Quando acabou, suas pernas estavam ficando entorpecidas pelo frio.
    Church estava parado na porta da garagem. Lous fez-lhe um gesto ameaador com a p e o animal foi embora, deslizante como lodo.
    Rachel j estava deitada, usando apenas o cordo de safira... Exatamente como prometera. Sorriu languidamente para o marido.
    - Por que demorou tanto tempo, chefe?
    - A lmpada da pia estava queimada - disse Louis. - Tive de trocar.
    - Venha c - disse Rachel, segurando-o delicadamente... Mas no pela mo. - Bicho-papo sai de cima do telhado - cantava em voz baixa, um breve sorriso ondulando 
o canto dos lbios. - Deixa o menino dormir sono ....... Oh, Louis querido, o que  isso?
    - Algo que acabou de acordar, eu acho - disse ele, deslizando para fora do roupo. - Vamos ver se conseguimos fazer com que ele durma de novo antes do Papai 
Noel chegar, o que voc acha?
    Ela se apoiou num cotovelo; Louis sentiu-lhe a respirao quente e doce
    - Boi, boi, boi... Boi da cara ..... . Pega este menino que tem medo de careta... Voc tem medo de careta, Louis?
    - Acho que sim - disse ele. Sua voz no foi de todo firme.
    - Vamos ver se voc  to gostoso quanto parece - disse Rachel.
    O ato sexual foi bom, mas depois Louis no se sentiu mergulhando serenamente no sono, como geralmente acontecia quando o sexo era bom... Mergulhando no sono 
em paz consigo mesmo, satisfeito com a esposa, a vida. Ficou deitado de olhos abertos na escurido da madrugada de Natal, ouvindo a respirao lenta e profunda de 
Rachel, pensando no pssaro morto na porta da cozinha. . . O presente que Church lhe dava.
    No se esquea, Dr. Creed. Eu estava vivo, depois morto e agora estou vivo de novo. Completei o ciclo e estou aqui para dizer que voc sai do outro lado com 
a caixa de ronrom quebrada e um gosto renovado pela caa. Estou aqui para dizer que um homem planta o que pode e cuida do que plantou. No esquea, Dr. Creed, fao 
parte do que o seu corao ter agora de cultivar... Existe sua esposa, sua filha, seu ..... . E existo eu. Tenha sempre em mente o segredo e cuide bem do seu jardim.
    Neste ponto, Louis adormeceu.


    O inverno passou. A crena de Ellie no Papai Noel foi restaurada - ao menos temporariamente - pelas pegadas na lareira. Gage abrira os presentes fazendo um carnaval, 
parando de vez em quando para mascar um pedao de papel de embrulho de aparncia particularmente saborosa. E, naquele ano, ambos os meninos concluram no meio da 
tarde que as caixas de brinquedos eram mais divertidas que os prprios brinquedos.
    Na noite de Ano Novo, os Crandall vieram provar o leite-de-ona de Rachel, e Louis surpreendeu-se examinando mentalmente Norma. Tinha aquele olhar plido, quase 
transparente, que j encontrara em outras ocasies. Sua av teria dito que Norma estava comeando a "definhar", o que talvez no fosse uma palavra to inadequada 
para classificar o processo. As mos, inchadas e desfiguradas pela artrite, estavam cobertas de manchas por causa de problemas no fgado. O cabelo parecia mais ralo. 
Os Crandall foram embora por volta das dez e os Creed passaram o Ano Novo juntos, diante da tev. Foi a ltima vez que Norma esteve na casa deles.
    A maioria dos dias das frias de meio de ano foram chuvosos e lamacentos. Em termos de custos de aquecimento, Louis ficou satisfeito com o degelo, mas o tempo 
continuou bastante desolador, melanclico. Ele fez alguns servios domsticos, construindo prateleiras e armrios para a esposa. Montou tambm um modelo Porsche 
no escritrio. Quando as aulas recomearam, a 23 de janeiro, sentiu-se satisfeito por voltar  universidade.
    O surto de gripe espanhola finalmente chegou. Uma epidemia razoavelmente sria irrompeu no campus menos de uma semana aps o incio do semestre de primavera, 
deixando Louis muito atarefado. Chegava a trabalhar dez e s vezes doze horas por dia, chegando em casa exausto... Mas o nimo continuava relativamente bom.
    O frio voltou repentinamente a 29 de janeiro. Houve uma nevasca seguida por uma semana com temperaturas bem abaixo de zero, que entorpeciam os ossos. Louis examinava 
o brao engessado de um jovem que queria desesperadamente - e em sua opinio, inutilmente - jogar beisebol naquela primavera, quando uma das auxiliares de enfermagem 
ps a cabea na porta e avisou que Rachel estava ao telefone.
    Louis foi atender em sua sala. Rachel estava chorando, o que o deixou imediatamente alarmado. Ellie, pensou. Caiu do tren e quebrou o brao. Ou fraturou o crnio. 
Lembrou-se dos rapazes malucos do diretrio escorregando pelo tobog.
    - Alguma coisa com as crianas? - perguntou. - Rachel?
    - No, no - ela respondeu chorando ainda mais. - No houve nada com as crianas.  Norma, Lou. Norma Crandall. Morreu hoje de manh. Por volta das oito horas, 
logo aps o desjejum, Jud contou. Ele veio ver se voc estava aqui. Eu disse que voc tinha sado h meia hora. Ele... Oh, Lou, ele parecia to perdido, to atordoado.., 
to ,~... Graas a Deus, Elle j tinha ido para a escola e Gage  pequeno demais para entender...
    Louis franziu as sobrancelhas, e apesar da terrvel notcia percebeu que sua mente se voltava para Rachel, era o nimo de Rachel que sua mente tentava apreender. 
Pois l estava a coisa de novo! Nada em que se pudesse pr o dedo, porque era uma atitude global e imutvel. Aquela morte era um segredo, um terror, e tinha de ser 
mantida longe das crianas, sobretudo longe das crianas, do mesmo modo como as senhoras e os cavalheiros vitorianos acreditavam que a verdade nua e crua das relaes 
sexuais devia ser mantida longe das crianas.
    - Meu Deus! - exclamou. - Foi o corao?
    - No sei - Rachel respondeu. No estava mais chorando, mas a voz era sufocada e rouca. - No pode vir, Louis? Voc  amigo dele e acho que ele est precisando 
de voc.
Voc  amigo dele.
    Bem,  verdade, Louis pensou com ligeira surpresa. Nunca esperei fazer amizade com um homem de oitenta anos, mas foi isso que aconteceu. E ocorreu-lhe que agora 
no podiam deixar de ser amigos, considerando o segredo que havia entre eles. Supunha que h muito tempo Jud sentira que eram amigos. Servira-lhe de guia naquela 
noite e, apesar de tudo que acontecera desde ento, apesar dos camundongos mortos, apesar dos pssaros, Louis acreditava que provavelmente a deciso de Jud fora 
correta. Pelo menos fora uma deciso movida pela compaixo. Faria o que pudesse por Jud, e se isso significasse ficar do seu lado como um irmo na morte de Norma, 
ele o faria.
    - Estou a caminho - disse Louis desligando o telefone.

    No fora um ataque cardaco. Fora um derrame cerebral, repentino e provavelmente indolor. Quando Louis chamou Steve Masterton e contou o que estava acontecendo, 
Steve disse que no se preocuparia em ir correndo.
    - As vezes Deus tambm apronta - disse Steve - e manda voc sair de campo e pendurar a chuteira.
    Rachel no quis absolutamente falar sobre o assunto e no parecia disposta sequer a permitir que Louis fizesse comentrios.
    Ellie ficou mais surpresa e curiosa do que transtornada. Na opinio de Louis, era uma reao perfeitamente saudvel numa menina de seis anos. Queria saber se 
a Sra. Crandall morrera com os olhos abertos ou fechados. Louis disse que no sabia.
    Jud parecia bastante controlado, principalmente levando em conta que Norma compartilhara cama e mesa com ele por quase sessenta anos. Louis encontrou o velho 
(que naquele dia parecia realmente um velho de oitenta e trs anos) sentado sozinho na mesa da cozinha, fumando um Chesterfield, bebendo uma garrafa de cerveja, 
os olhos perdidos na direo da sala.
    Levantou-se quando Louis entrou.
    - Bem, ela se foi, Louis.
    Falara num tom irremedivel e calmo. Louis achou que o significado da coisa ainda no lhe penetrara integralmente na conscincia, ainda no lhe atingira os pontos 
mais fracos. Mas ento a boca de Jud comeou a tremer e ele cobriu os olhos com a mo. Louis aproximou-se e ps o brao em volta dele. Jud desistira de se controlar. 
Chorava. Tinha percebido a realidade, tudo bem. Agora Jud compreendia perfeitamente. A mulher tinha morrido.
    - Isso faz bem - disse Louis. - Isso faz bem, Jud. Ela ia querer que voc chorasse um pouco, eu acho. Provavelmente ficaria furiosa se voc no chorasse.
    O prprio Louis comeou a chorar. Os dois se abraaram com fora.
    Jud chorou por mais ou menos dez minutos, depois a torrente passou. Louis prestou grande ateno na reao de Jud: ouviu-o como mdico e como amigo. Esteve atento 
a tudo na conversa. Queria saber se Jud tinha uma apreenso ntida de quando acontecera (no precisava verificar se tinha plena conscincia de onde acontecera, isto 
no provada nada, porque para Jud Crandall onde fora sempre Ludlow, no Maine); esteve particularmente atento a qualquer meno do nome de Norma no presente do indicativo. 
Jud deu pouco ou nenhum sinal de estar perdendo o discernimento. Louis sabia que muitas vezes um casal de velhos, convivendo juntos anos e anos, morria quase de 
mos dadas. .. As vezes, s havia um ms, uma semana, at mesmo um dia de intervalo entre a morte de um e a morte de outro. Seria o choque, talvez, ou mesmo alguma 
profunda urgncia interior de acompanhar aquele que se foi (Louis percebia que muitos de seus pensamentos referentes ao mundo espiritual e ao mundo sobrenatural 
tinham sofrido uma serena mas, no obstante, significativa transformao.)
    Louis concluiu que Jud estava sentindo extremamente a morte da esposa, mas ainda conservava a vontade de viver. No via nele qualquer trao daquele definhar, 
daquela transparncia que cercava Norma no dia de Ano Novo, quando os quatro tinham se sentado em sua sala de estar bebendo leite~de-ona.
    Jud tirou uma cerveja da geladeira, o rosto ainda vermelho e inchado.
    - Foi logo de manh - disse ele -, mas o sol no brilha em todo lugar, e quando  dia num lado  noite no outro...
    - Tudo bem, fique tranqilo - disse Louis abrindo a cerveja. Fixou os olhos em Jud: - Devemos fazer um brinde a Norma?
    - Acho que sim - disse Jud. - Voc a devia ter visto aos dezesseis anos, Louis, voltando da igreja com o casaco desabotoado... Seus olhos saltariam das rbitas. 
Podia ter feito o diabo parar de beber. Graas a Deus, nunca me pediu para fazer isso.
    Louis balanou a cabea e ergueu um pouco a cerveja.
    - A Norma - disse.
    Jud brindou contra o copo de Louis. Estava chorando de novo, mas tambm sorria.
    - Que ela fique em paz - disse Jud - e, onde quer que esteja, que a artrite no lhe cause mais dor.
    - Amm - disse Louis e bebeu a cerveja com Jud.

    Foi a nica vez que Louis viu Jud ficar um pouco mais que ligeiramente alto. Ainda assim, porm, no ficou embriagado. Falava de suas lembranas, um fluxo contnuo 
de memrias e casos, cheios de colorido, nitidez e s vezes emocionantes. Mas entre as histrias do passado, Jud sabia enfrentar o presente, e com uma coragem que 
s Louis podia admirar; se fosse Rachel que tivesse morrido depois da laranjada e dos flocos de milho matinais, sem dvida no seria capaz de absorver to bem a 
situao.
    Jud ligou para a Funerria Brookings-Smth, em Bangor, e procurou tratar quase tudo pelo telefone. Marcou o enterro. Sim, queria Norma perfumada, queria Norma 
num determinado vestido que ele providenciaria; sim, tambm escolheria a roupa de baixo; no, no queria que a funerria fornecesse os sapatos especiais amarrados 
num cordo. Ser que teriam algum para lavar-lhe o cabelo?, ele perguntou. A mulher lavara a cabea na segunda-feira  noite e, portanto, os cabelos j deviam estar 
sujos quando morreu. Prestava ateno no que lhe diziam, e Louis, cujo tio estivera no que o pessoal do meio chamava "negcio silencioso", sabia que o agente funerrio 
estava explicando que lavar e preparar o corpo fazia parte do servio prestado. Jud balanou a cabea e agradeceu ao homem, depois ouviu de novo. Sim, respondeu, 
queria que usassem pintura, mas s uma coisa muito leve.
    - Todo mundo sabe que est morta - disse acendendo um Chesterfield. -- No precisam transform-la numa mscara de pintura.
        O caixo seria fechado durante o funeral, Jud explicou ao dono da agncia com serena autoridade. Ficaria aberto antes do enterro para que pudessem velar 
o corpo. Norma seria enterrada no cemitrio de Mount Hope, onde os dois tinham comprado lotes em 1951. Estava com os papis na mo e deu o nmero do lote ao agente, 
para que a sepultura pudesse ser preparada: H-101. Como contaria mais tarde, reservara o H-102 para ele.
Ps o fone no gancho e se virou para Louis:
    - No conheo outro cemitrio mais bonito no mundo que esse de Bangor - disse. - Se quiser, abra outra cerveja, Louis. Isto vai demorar um pouco.
    Louis ia recusar - sentia-se um pouco alto - quando uma imagem grotesca surgiu repentinamente diante dos seus olhos: Jud puxando o cadver de Norma numa padiola 
pag atravs dos bosques. Ia para o cemitrio micmac, alm do "simitrio" de bichos.
    Aquilo teve o efeito de um tapa. Levantou-se sem uma palavra e tirou outra cerveja da geladeira. Jud fez um sinal de aprovao e pegou de novo o telefone.
    Por volta das trs da tarde, quando Louis foi em casa para comer um sanduche e tomar um prato de sopa, Jud j progredira bastante na organizao dos ltimos 
ritos de Norma; passava de um ponto a outro como algum planejando um jantar de certa importncia. Telefonou para a Igreja Metodista de Ludlow Norte, onde ocorreria 
o verdadeiro funeral, e para o escritrio da administrao do cemitrio em Mount Hope; eram telefonemas que competiam ao agente funerrio da Brookings-Smith, mas 
Jud resolveu faz-los pessoalmente. Pouca gente pensaria naquelas providncias ou, se pensasse, dificilmente encontraria foras para tom-las. Louis s via razes 
para admirar a coragem do amigo.
    Mais tarde, Jud telefonou para os poucos parentes ainda vivos de Norma e dele, seguindo o ndice de um velho livro de telefones com pginas soltas e capa de 
couro. E entre as chamadas tomava cerveja e rememorava o passado.
    Louis sentia grande admirao por ele... E carinho?
    Sim, seu corao confirmava. Carinho.

    Naquela noite, quando desceu de pijama para dar um beijo no pai, Ellie perguntou se a Sra. Crandall iria para o cu. Quase sussurrou a pergunta no ouvido de 
Louis, como se percebesse que seda melhor a me no ouvir. Rachel estava na cozinha fazendo um empado de galinha, que pretendia dar a Jud no dia seguinte.

    Do outro lado da estrada, todas as luzes estavam acesas na casa de Jud Crandall. Havia carros estacionados defronte ao gramado, bem como de ambos os lados da 
estrada, por mais de trinta metros em cada direo. O derradeiro velrio seria no dia seguinte, na funerria, mas muita gente tinha vindo  noite para confortar 
Jud, para ajud-lo a recordar o passado e a chorar o passamento de Norma (a que uma vez, durante a tarde, Jud se referira como a "ida de Norma na frente"). Entre 
aquela casa e a casa dos Creed, soprava um vento frio de fevereiro. Uma camada escura de gelo ia manchando a estrada. O perodo mais frio do inverno do Maine finalmente 
chegara.
    - Bem, eu realmente no sei, querida - disse Louis, pondo Ellie no colo. Na tev, passava um faroeste cheio de correrias. Na tela, sem despertar a ateno de 
nenhum dos dois, um homem rodopiou e caiu. Louis tinha conscincia (e no se sentia muito  vontade com isso) de que a filha provavelmente sabia muito mais sobre 
o Homem-Aranha, o Homem dos Seis Milhes de Dlares e os Super-Amigos do que sobre Moiss, Jesus e So Paulo. Era filha de uma judia no-praticante e de um descuidado 
metodista; supunha que suas idias sobre o spiritus mundi eram as mais vagas possveis: nem mitos, nem sonhos, mas sonhos de sonhos. E j  tarde para lhe ensinar 
alguma coisa, foi o que pensou. Ela s tem cinco anos, mas j  tarde. Deus, est ficando tarde to depressa!
    Mas os olhos da menina estavam cravados nele; tinha de conversar com ela.
    - As pessoas acreditam em coisas muito variadas sobre o que acontece conosco quando morremos - disse. - Alguns acham que vamos para o cu ou para o inferno. 
Outros acreditam que voltamos a nascer de novo, como crianas pequenas...
    - Sei, "carnao". Foi o que aconteceu a Audrey Rose naquele filme da tev.
    - Mas voc no viu esse filme!
    RacheI, ele pensou, teria seu prprio derrame cerebral se achasse que Ellie andava vendo filme de terror.
    - Marie me contou na escola.
    Marie era a autoproclamada melhor amiga de Ellie, uma menininha magricela e suja que parecia estar sempre  beira da anemia, da hepatite ou mesmo do escorbuto. 
Tanto Louis quanto Rachel encorajavam a amizade, mas um dia Rachel lhe confessou que quando Marie ia embora sentia um mpeto de verificar se no havia pulgas ou 
piolhos na cabea da filha. Louis tinha rido e concordado.
    - A me de Marie deixa ela ver todos os programas.
    Louis preferiu ignorar a crtica implcita na afirmao.
    - Bem, a coisa se chama reencarnao, mas acho que voc pegou a idia. Os catlicos acreditam em cu e inferno, mas acham que h tambm um lugar chamado limbo 
e outro chamado purgatrio. E os hindus e budistas acreditam no nirvana..
    Havia uma sombra na parede da sala de jantar. Era Rachel. Escutando.
    Louis continuou, mais devagar.
    - H provavelmente muitas outras crenas. Mas o que realmente acontece, Ellie, ningum sabe. As pessoas dizem que sabem, mas o que pretendem dizer  que acreditam 
nisso ou naquilo por causa da f. Sabe o que  a f?
    - Bem...
    - Aqui estamos ns dois, sentados em minha poltrona - disse Louis. - Voc acha que esta poltrona ainda estar aqui amanha?
    - Sim, claro.
    - Ento voc tem f que ela estar aqui. E eu tambm. A f  acreditar que encontraremos uma coisa num certo lugar. Entendeu?
    - Sim - Ellie confirmou com a cabea.
    - Mas no sabemos que a coisa estar l. Afinal, algum ladro maluco de poltronas pode entrar e levar a poltrona, certo?
    Ellie riu. Louis sorriu.
    - Simplesmente temos f de que no vai acontecer. A f  uma grande coisa, EIlie, e as pessoas realmente religiosas querem que acreditemos que no h diferena 
entre f e conhecimento, mas no acho que seja assim... Porque h muitas idias diferentes sobre o assunto. O que sabemos  o seguinte... Quando se morre, uma das 
duas coisas acontece: ou nossas almas e pensamentos sobrevivem de alguma forma  experincia da morte ou no sobrevivem. Se sobrevivem, podemos pensar muita coisa, 
h possibilidades infinitas. Se no sobrevivem, ento no sobra nada.  o fim.
    - Como ir dormir?
    Ele pensou um pouco e depois respondeu:
    - E mais como evaporar, eu acho.
    - Em que voc tem f, papai?
    A sombra na parede moveu-se e voltou a ficar imvel.
    Por quase toda a sua vida adulta - desde os dias da universidade, ele supunha - acreditara que a morte era o fim. J vira muita gente morrer e nunca sentira 
o sopro de uma alma passando por perto a caminho.., de algum lugar; no tivera esse mesmo pensamento quando Victor Pascow morreu? Concordava com seu professor de 
Psicologia 1. Provavelmente as experincias de vida aps a morte narradas em revistas eruditas e depois vulgarizadas na imprensa popular nada mais significavam que 
um desesperado expediente mental contra a investida da morte. A inventividade infinita da mente humana, tentando afugentar o absurdo de seu prprio fim pela construo 
de uma iluso de imortalidade. Tambm concordava com um colega de alojamento que, numa conversa informal que durou a noite toda, quando ele estava no segundo ano 
da faculdade de medicina em Chicago, dissera que a Bblia parecia estranhamente cheia de milagres que cessaram quase completamente durante a era da racionalidade 
("cessaram totalmente", ele dissera a princpio, mas fora forado a recuar por alguns colegas que, com certa razo, alegaram que ainda aconteciam muitas coisas misteriosas, 
pequenos bolses de perplexidade num mundo que, de um modo geral, se transformara num lugar bem-iluminado, tanto pela eletricidade quanto pelo conhecimento - havia, 
por exemplo, o caso do sudrio de Turim, que resistira a todos os esforos empreendidos para desmascar-lo). "Ento Cristo devolveu a vida a Lzaro.. .", disse esse 
colega (o rapaz se tornou um obstetra altamente respeitado em Dearbon, no Michigan). "Pra mim, tudo bem. Se tiver de engolir isso, posso at conseguir. Isto , tive 
de admitir a idia de que o feto de um par de gmeos s vezes engole o outro no tero, como uma espcie de canibal ainda no nascido, e vinte ou trinta anos depois, 
aparece com dentes nos pulmes, para provar que fez a coisa... Acho que sou capaz de admitir isso, sou capaz de admitir qualquer coisa. Mas gostaria de ter visto 
o atestado de bito de Lzaro... Percebem o que estou dizendo? No estou discutindo que tenha sado da tumba. Mas gostaria de ter visto o atestado de bito originaL 
Sou como So Tom, dizendo que s ia acreditar que Jesus tinha ressuscitado se pudesse ver os buracos dos pregos e encostar as mos no corpo do homem. Pelo que sei, 
ele era o verdadeiro mdico da patota, no Lucas."
    No, sem dvida jamais acreditara em sobrevivncia aps a morte. Pelo menos, no at Church.
    - Acho que continuamos... - respondeu lentamente  filha. - Mas de que modo continuamos  coisa que eu no sei. Pode ser at que aconteam coisas diferentes 
para diferentes pessoas. Pode ser at que uma pessoa obtenha aquilo em que acreditou durante toda a sua vida. Mas acredito que continuamos, acredito que a Sra. Crandall 
est provavelmente em algum lugar, onde poder se sentir feliz.
    - Voc tem f nisso a. - disse Eliie.
    No era uma pergunta. A menina parecia fascinada.
    Louis sorriu, satisfeito, mas um pouco embaraado.
    - Acho que sim. E tambm tenho f de que j est na hora de voc ir pra cama. J est na hora h dez minutos.
    A menina o beijou duas vezes, uma nos lbios, outra no nariz.
    - Voc acha que os animais continuam?
    - Sim - ele respondeu sem pensar, e por pouco no acrescentou: especialmente os gatos. Na realidade, as palavras chegaram a ondular por um segundo em sua lngua, 
e sentiu a pele ficar fria, plida.
    - Est bem - disse a filha escorregando para o cho. - Vou dar um beijo na mame.
    - V logo.
    Louis ficou contemplando a menina. Na porta da sala, ela se virou para trs.
    - Fui realmente uma tola sobre Church naquele dia, no fui? - ela perguntou. - Chorando daquele jeito!
    - No, querida - disse o pai. - No acho que tenha sido uma tola.
    - Se Church morresse agora, eu podia agentar - disse Ellie e, ligeiramente sobressaltada, pareceu refletir sobre o pensamento que deixara escapar. Depois, como 
se concordasse consigo mesma, concluiu: - Sem dvida podia!
    E foi dar um beijo na me.

    Mais tarde, na cama, Rachel falou:
    - Ouvi o que estava conversando com ela...
    - E no acha que estou certo? - Louis perguntou. Julgou que talvez fosse melhor discutir logo o assunto, se era isso que Rachel queria.
    - No... - disse a mulher com uma hesitao que no lhe era muito caracterstica. - No, Louis, o problema no  bem esse.  que fiquei... assustada. E voc 
me conhece. Quando fico com medo, fico agressiva.
    Louis no se lembrava de alguma vez ter ouvido Rachel falar com tanto esforo. Achou que devia ser mais cauteloso do que fora com a filha. Estava pisando em 
campo minado.
    - Com medo de qu? De morrer?
    - No eu mesma morrer - ela respondeu. - No penso... mais nisso. Mas quando era menina, pensava bastante. s vezes custava a dormir. Sonhava com monstros vindo 
me pegar na cama... E todos os monstros eram parecidos com minha irm Zelda.
    Sim, Louis pensou. A est; afinal, depois de tanto tempo de casados, a est!
    - Voc no fala muito sobre Zelda - disse.
    Rachel sorriu e acariciou-lhe o rosto.
    - Est sendo gentil, Louis. Eu nunca falo sobre ela. Tento nunca pensar nela.
    - Sempre deduzi que devia ter suas razes.
    - E tenho.
    Ela fez uma pausa, pensando.
    - Sei que morreu de... meningite raquidiana...
    - Meningite raquidiana - ela repetiu. - No h mais retratos dela l em casa.
    - H um retrato de uma menina na escrivaninha de seu pai...
    - No escritrio! Sim, tinha me esquecido desse. E acho que minha me tambm leva um na carteira. Ela era dois anos mais velha do que eu. Pegou a doena... E 
ficou no quarto dos fundos... Ficou no quarto dos fundos como um segredo sujo, Louis. Estava morrendo l, minha irm morria no quarto dos fundos e era isso que ela 
era, um segredo sujo... Foi sempre um segredo sujo!
    De repente, Rachel perdeu completamente o controle. Nos soluos cada vez mais altos Louis pressentiu um incio de histeria e ficou assustado. Estendeu a mo 
e tocou-lhe o ombro, mas Rachel imediatamente se esquivou. Ele sentiu a camisola escapulir sob a ponta dos dedos.
    - Rachel, meu bem, no...
    - No me diga que no - disse ela. - No me faa calar, Louis. Consegui reunir foras para falar agora, mas jamais quero voltar a tocar no assunto... Provavelmente 
no vou dormir nada esta noite...
    - Foi assim to horrvel? - ele perguntou, embora conhecesse a resposta. Aquilo explicava muita coisa, mesmo coisas que nunca relacionara diretamente com o trauma 
da mulher. Rachel nunca comparecera a um enterro com ele, nem mesmo ao de Ai Locke, um colega da faculdade de medicina que morreu quando sua moto colidiu com um 
nibus. Ai visitava regularmente o apartamento dos dois e Rachel gostava muito dele. No entanto, no foi ao funeral.
    Estava doente naquele dia, Louis se lembrou. Pegou um resfriado ou alguma coisa desse tipo. Parecia sria, mas no dia seguinte j estava bem.
    Depois do enterro estava bem outra vez, ele se corrigiu. Lembrou-se de ter pensado, j naquela poca, que o problema podia ter sido psicossomtico.
    - Foi horrvel, pode acreditar. Muito pior do que voc possa imaginar. Ns a vimos definhar dia a dia, Louis, e no havia nada que pudssemos fazer. No parava 
de sentir dores. Seu corpo parecia atrofiado... mirrado. Os ombros formavam uma corcunda e o rosto foi se franzindo at ficar parecido com uma mscara. As mos eram 
como ps de passarinho. s vezes eu tinha de aliment-la. Odiava fazer aquilo, mas fazia, e nunca de cara feia. Quando as dores aumentaram, comearam a dar-lhe os 
analgsicos... A princpio suaves, depois drogas que a teriam transformado numa viciada se ela sobrevivesse. Mas,  claro, todos sabiam que no ia sobreviver. Acho 
que por isso  que ela se transformou num tamanho... segredo para todos ns. Porque ns queramos que ela morresse, Louis, desejvamos que ela morresse. S desse 
modo ela no sofreria mais. S desse modo ns no sofreramos mais. Ela estava comeando a parecer um monstro, estava comeando a ser um monstro... Oh, Deus, sei 
como isso deve soar terrvel aos seus ouvidos...
    Rachel ps a cabea entre as mos. Louis tocou-a delicadamente.
- Rachel, isto no soa terrvel.
    - No minta! - ela gritou. - Isto  terrvel!
    - Mas  o que acontece - disse ele. - Vtimas de enfermidade prolongada freqentemente se tornam monstros exigentes, desagradveis. A idia do paciente que sofre 
longo tempo como um santo  uma grande fico romntica. Quando o primeiro ciclo de dores vem  tona e cerca um paciente amarrado  cama, ele comea a reagir de 
forma agressiva, a pr pra fora toda a sua angstia. No pode deixar de agir assim, embora isso em nada o ajude.

    Rachel fixou os olhos nele, espantada... quase com esperana. Mas logo a dvida se estampou em seu rosto.
    - Est inventando coisas.
    Louis sorriu com um ar severo.
    - Quer que eu mostre os meus livros? Que tal estatsticas sobre suicdios? Quer dar uma olhada? Em famlias onde um paciente com doena incurvel foi mantido 
em casa, a incidncia de suicdios sobe para a estratosfera, principalmente nos seis meses que se seguem  morte do doente.
- Suicdio?
    - As pessoas engolem plulas, abrem um cano de gs ou do um tiro nos miolos. Ficam odiando... sua fraqueza... sua repugnncia.., sua pena...
    Ele balanou os ombros e uniu suavemente os punhos fechados.
    - Os sobreviventes comeam a se sentir como se tivessem cometido um assassinato. Uma sensao que s vezes no conseguem suportar.
    Uma espcie absurda de alvio envolveu o rosto inchado de Rachel
    - Ela estava impertinente... Odiosa. As vezes urinava na cama de propsito. Minha me perguntava se queria ajuda para ir ao banheiro... e mais tarde, quando 
no podia mais se levantar, se queria a comadre... Zelda dizia que no... Depois urinava na cama para minha me, ou minha me e eu termos de mudar os lenis. E 
dizia que tinha sido sem querer, mas se podia ver o sorriso nos olhos dela, Louis. Se podia ver. O quarto tinha sempre o cheiro de urina e de remdios... Havia vidros 
e vidros de um analgsico que cheirava como xarope de cereja contra a tosse. O cheiro estava sempre l... As vezes eu acordava no meio da ....... Mesmo agora ainda 
acordo de vez em quando sentindo o cheiro do xarope de cereja... E penso, enquanto ainda no acordei de todo... Penso "Zelda j morreu? J?"... Penso...
    Rachel tomou flego. Louis pegou-lhe a mo e ela apertou seus dedos com uma fora incrvel, selvagem.
    - Quando mudvamos a roupa de Zelda, podamos ver como as costas estavam contorcidas e cheias de calombos. Perto do fim, Louis, perto do fim parecia que... parecia 
que o nus tinha sido repuxado at o meio das costas.
    Agora os olhos midos de Rachel tinham adquirido uma aparncia vtrea, apavorada, com os olhos de uma criana recordando um pesadelo repetitivo e demasiadamente 
horrvel.
    - E s vezes ela me tocava com suas... suas mos... suas mos de passarinho... E s vezes eu quase gritava para que no encostasse em ..... E uma vez, quando 
ela encostou a mo no meu rosto, entornei um pouco de sopa no brao, me queimei e gritei... Gritei e tambm pude ver o sorriso nos olhos dela.
    - Perto do fim, as drogas deixaram de fazer efeito. Ento ela era a nica que gritava e nenhum de ns conseguia lembrar como ela era antes, nem mesmo minha me. 
Havia apenas aquela coisa repugnante, louca, gritando no quarto dos fundos.. . Nosso segredo sujo.
    Rachei engoliu em seco. A garganta estalou. 
    - Meus pais no estavam em casa quando finalmente.., quando ela... voc sabe, quando ela...
    Com um esforo terrvel, desesperado, Rachel extraiu a palavra.
    - Quando ela morreu, meus pais no estavam em casa. Eu tinha ficado sozinha com Zelda. Era a semana de Pscoa e eles saram rapidamente para visitar uns amigos. 
Uma sada de poucos minutos... Eu estava na cozinha, lendo uma revista... Pelo menos folheava. Esperava a hora de dar mais remdios a Zelda, porque ela estava gritando. 
Estava gritando desde que meus pais haviam sado. No conseguia ler com ela gritando daquele jeito. E ento... bem, o que aconteceu foi que... bem... Zelda parou 
de gritar... Lous, eu tinha pesadelos toda noite. Comecei a pensar que ela me odiava porque minhas costas eram boas, porque eu no estava sempre com dor, porque 
eu podia andar, porque eu ia viver... Comecei a imaginar que ela queria me matar. Mesmo hoje, agora, ainda no acho que tudo tenha sido fruto da minha imaginao. 
Ainda acho que ela me odiava. No acredito que fosse capaz de me matar, mas se pudesse se apoderar do meu corpo... expulsar-me do meu corpo como numa histria fantstica, 
acho que teria feito. Quando parou de gritar, fui at o quarto para ver se estava tudo bem... Para ver se no cara da cama nem jogara os travesseiros no cho... 
Entrei e olhei-a. Parecia ter engolido a prpria lngua e estava nos engasgos finais da morte. Louis - a voz de Rachel elevou-se mais uma vez, chorosa e assustadoramente 
infantil, como se ela estivesse regredindo, revivendo a experincia -, Louis, eu no sabia o que fazer! Eu tinha oito anos!
    - No,  claro que no podia saber - disse Louis.
    Ele se virou e abraou-a. Rachel agarrou-se a ele com o pnico de um mau nadador cujo barco emborcou no meio do lago.
    - Algum lhe fez algum tipo de censura, meu bem?
    - No - disse ela -, ningum me censurou. E ningum poderia ter feito nada. Ningum poderia alterar o fato. Ningum conseguiria impedir que.aquilo acontecesse, 
Louis. Ela no havia engolido a lngua. Ela comeou a fazer um barulho, uma espcie de, eu no sei... Aaaaaaaaa. .. Mais ou menos ....
    Na angustiante e total recordao daquele dia, Rachel fez uma imitao mais que fidedigna do modo como a irm Zelda devia ter gemido. A mente de Louis disparou 
para Victor Pascow. Apertou mais a mulher.
    - E houve cuspidelas, cuspes pelo queixo...
    - Rachel, j chega - disse ele, com a voz no inteiramente firme. -Conheo os sintomas.
    - Eu estou explicando - ela disse obstinada. - Estou explicando por que no posso ir ao enterro da pobre Norma e por que tivemos aquela estpida discusso outro 
dia...
    - Chiii... Isso est esquecido.
    - Eu no esqueci, no. Lembro muito bem, Louis. Lembro to bem quanto me lembro de minha irm Zelda tendo aqueles engasgos na cama. Foi em 14 de abril de 65.
    Por um instante, houve silncio no quarto.
    - Eu a virei contra o travesseiro e bati-lhe nas costas - Rachel continuou. - Era tudo que eu sabia fazer. Seus ps estavam se debatendo... E as pernas tortas... 
E houve um som como se ela estivesse soltando gases intestinais... E achei que ela ou eu estvamos fazendo aquilo, mas era outra coisa, era a costura sob ambas as 
mangas da minha blusa que se descoseram quando acabei de vir-la de costas. Ela comeou a... ter convulses... e vi que seu rosto estava virado de lado no travesseiro. 
Pensei, oh, ela est sufocando, Zelda est sufocando e vo dizer que fui eu quem a sufocou. Vo dizer: Voc a odiava, Rachel, e era verdade, e eles iam dizer: Voc 
queria que ela morresse, e isso tambm era verdade. O primeiro pensamento, Louis, o primeiro pensamento que me ocorreu quando Zelda comeou a se debater na cama 
daquele jeito foi: Oh, bom, finalmente Zelda est morrendo e isso vai terminar. Ento virei-a de novo e seu rosto tinha ficado negro. Os olhos estavam esbugalhados 
e o pescoo inchado. Ento ela morreu, Louis... Comecei a recuar pelo quarto. Acho que pretendia atravessar a porta, mas bati na parede e derrubei um quadro...... 
Era uma gravura tirada de um dos livros do mgico de Oz; que Zelda gostava de ler antes de cair na cama por causa da meningite, quando estava bem... Era uma gravura 
de Oz, o Grande e Terrvel, s que Zelda sempre o chamou de Oz o Gande e Tevel. Desde pequenininha se acostumou a cham-lo assim... Ficava parecida com Elmer ....... 
Minha me mandou colocar a gravura num quadro ....... era a gravura que Zelda mais gostava... Oz, o Gande e Tevel... O quadro caiu, bateu no cho e o vidro se espatifou. 
Eu comecei a gritar porque sabia que ela estava morta e pensei... acho que pensei que fosse o fantasma dela, vindo me pegar, e eu sabia que seu fantasma me odiaria, 
como ela me odiava, s que o fantasma no estaria preso  cama... Ento eu gritei, gritei e sa correndo de casa. Zelda morreu! Zelda morreu! Zelda morreu! E os 
vizinhos.., todos chegaram s janelas... Me viram descer a rua correndo, a blusa toda rasgada sob os braos... Eu no parava de gritar: Zelda morreu! Talvez todos 
tenham pensado que eu estava chorando, Louis, mas acho... Acho que talvez eu estivesse rindo. Acho que era isso o que eu estava fazendo.
    - Se estava rindo, eu a cumprimento por ter conseguido - disse Louis.
    - No est falando srio - disse Rachel, com a extrema segurana de quem tinha revivido muitas, muitas vezes aquela cena.
    Louis percebia que finalmente Rachel poderia livrar-se das lembranas horrveis, ranosas, que por tanto tempo vinham-na assombrando. Talvez nunca daquela parte, 
nunca de todo, mas certamente da maioria das outras. Louis Creed no era psiquiatra, mas sabia que na vida de qualquer pessoa existem coisas enferrujadas, mas no 
de todo enterradas. Sabia que as pessoas parecem compelidas a voltar a essas coisas, a traz-las  tona, por mais que elas firam. Naquela noite, Rachel tentara extrair 
tudo do fundo de si mesma, como um dente grotesco, apodrecido, ftido, a coroa enegrecida, os nervos inflamados, a raiz cheirando mal. Fora extrado. Tudo bem se 
sobrasse algum outro dente menos nocivo, Deus ia ajudar e ele permaneceria adormecido, exceto no fundo dos sonhos de Rachel Sem dvida, j era extraordinrio que 
ela tivesse sido capaz de remover o dente podre; aquilo no apenas depunha a favor de sua coragem, aquilo a proclamava em alto e bom som. Louis estava admirado. 
Tinha vontade de dar um brado de apoio.
    Sentou-se na cama e acendeu a luz.
    - Sim - disse -, eu a cumprimento. E se precisasse de mais uma razo para... para realmente no simpatizar com sua me e seu pai, acho que j a teria. Nunca 
deviam ter deixado voc sozinha com ela, Rachel. Nunca.
    Como uma criana, a criana de oito anos que era quando a coisa incrvel e torpe aconteceu, Rachel protestou:
    - Lou, era a semana da Pscoa...
    - Nem que fosse o dia do Juzo Final - ele falou em voz baixa, mas num tom spero e brusco que a fez recuar um pouco. Louis se lembrou das estagirias da enfermaria, 
aquelas duas auxiliares cujo azar foi estarem de planto na manh em que Pascow morreu. Uma delas, uma valente moa chamada Carla Shavers, voltou no dia seguinte 
e trabalhou to bem que mesmo Charlton ficou impressionado. A outra nunca mais foi vista. Louis no ficou surpreso e no a censurou.
    Onde estava a enfermeira? Deviam ter contratado uma enfermeira para cuidar de Zelda. . . Saram, simplesmente saram, deixando uma criana de oito anos para 
cuidar da irm' que morria, que provavelmente ja estava clinicamente insana. Por qu? Porque era a semana da Pscoa. E porque a elegante Dory Goldman no podia suportar 
o mau cheiro precisamente naquela manh, e tinha de se afastar um pouco de casa, mesmo que apenas por pouco tempo. Ento Rachel se encarregou da coisa. No tinham 
vizinhos, amigos?. .. Mas foi Rachel quem se encarregou da coisa. Oito anos de idade, rabo-de-cavalo, blusa de marinheiro. Rachel se encarregou da coisa. Rachel 
podia ficar e suportar o mau cheiro. Por que a mandavam para Camp Sunset, em Vermont, seis semanas por ano, se no por ter agentado o mau cheiro da irm moribunda, 
quase em coma? Dez novas mudas de roupa para Cage, seis vestidos novos para Ellie e "eu pago suas despesas durante a faculdade de medicina se voc se afastar de 
minha filha... . "Mas onde estava o exuberante talo de cheques quando a filha estava morrendo de meningite raquidiana e a outra filha estava sozinha com a irm 
seu bastardo? Onde estava a porra da enfermeira?
    Louis se levantou da cama.
    - Onde voc vai? - Rachel perguntou, alarmada.
    - Pegar um Valiurn pra voc.
    - Voc sabe que eu no gosto...
    - Esta noite gosta.

    Ela tomou o comprimido e contou-lhe o resto da histria. A voz continuou calma do incio ao fim. O tranqilizante estava agindo.
    Uma vizinha pegou a Rachel de oito anos atrs de uma rvore onde ela havia se agachado, gritando sem parar: "Zelda morreu!" O nariz sangrava. Havia sangue por 
toda a roupa. A mesma vizinha chamou a ambulncia e os pais. Conseguiu fazer cessar a hemorragia nasal, acalmou-a com uma xcara de ch quente, deu-lhe duas aspirinas 
e Rachel foi capaz de dizer onde estavam os Goldman. Estavam visitando o Sr. e a Sra. Cabron do outro lado da cidade; Peter Cabron era o contador do pai.
    Naquela noite, muita coisa se modificou. Zelda tinha morrido. Seu quarto foi limpo e perfumado. Toda a moblia retirada. O quarto ficou como uma caixa vazia. 
Mais tarde, muito mais tarde, transformou-se no quarto de costura de Dory Goldman.
    O        primeiro pesadelo aconteceu naquela noite. Quando despertou s duas horas da madrugada gritando pela me, Rachel ficou horrorizada ao descobrir que 
mal podia se levantar da cama. Suas costas doam muito. Fizera muita fora para virar Zelda na cama. Com o jorro de energia propiciado pelo aumento da adrenalina, 
conseguira levantar Zelda com fora suficiente para rasgar as mangas da blusa.
    Que tinha feito muita fora tentando impedir que Zelda morresse era uma coisa indiscutvel, bvia, elementar meu caro Watson. Evidente para todo mundo, menos 
para Rachel. A menina Rachel teve certeza de que aquilo era uma vingana de Zelda, vinda de alm-tmulo. Zelda sabia que Rachel estava satisfeita por ela ter morrido; 
Zelda sabia que quando Rachel saiu correndo de casa, gritando com toda a fora dos pulmes, proclamando aos quatro ventos que Zelda morreu, Zelda morreu, estava 
rindo, no chorando; Zelda sabia que tinha sido assassinada e por isso faria Rachel ter meningite raquidiana - logo as costas de Rachel comeariam a se contorcer, 
a se deformar; tambm ela ficaria de cama para sempre, lenta e irremediavelmente se transformando num monstro, as mos virando garras de passarinho.
    Logo ela comearia a gritar de dor, exatamente como Zelda; depois, passaria a molhar a cama; finalmente, ia morrer se engasgando com a prpria lngua. Seria 
a vingana de Zelda.
    Ningum conseguiu demover Rachel desta convico. Nem a me, nem o pai, nem o Dr. Murray, que diagnosticou uma ligeira distenso nas costas e bruscamente (cruelmente, 
diriam alguns; Louis, por exemplo) mandou que Rachel parasse de se comportar to mal. Devia se lembrar que a irm tinha acabado de morrer, disse o Dr. Murray, os 
pais estavam arrasados e no era hora dela armar um espetculo infantil para chamar ateno.
    S a lenta diminuio da dor foi capaz de convenc-la de que no estava sendo vtima de alguma vingana sobrenatural de Zelda nem de alguma justa punio de 
Deus.
    Durante meses a fio (na realidade anos, oito anos, ela acabou confessando) acordava no meio da noite com pesadelos. A irm morria sem parar nesses pesadelos. 
Na escurido do quarto, as mos de Rachel voavam para as costas, para ter certeza de que estava tudo bem. Na esteira terrvel desses sonhos, freqentemente acreditava 
que a porta ia abrir de repente e Zelda cambalearia em sua direo, roxa e deformada, os olhos totalmente esbranquiados e brilhantes, a lngua escura caindo pelos 
lbios, as mos transformadas em verdadeiras garras para matar a criminosa que estava ali deitada, assustada, as mos apertando as costas...
    No compareceu ao enterro de Zelda nem a nenhum outro enterro.
    - Se tivesse me contado isto antes - disse Louis -, muita coisa teria ficado esclarecida.
    - Lou, eu no podia - ela respondeu. J parecia muito sonolenta.
        - Desde essa poca, fiquei... acho que fiquei com uma certa fobia do assunto.
    S uma certa fobia?, Louis pensou. Bem, tudo bem.
    - No posso... evitar isso. Racionalmente, sei que voc tem razo, que a morte  perfeitamente natural... Sim, por que no?... Mas o que a minha mente sabe e 
o que acontece... dentro de mim...
    - Entendo.
    - No dia em que briguei com voc... Eu sabia que era muito natural Ellie ter chorado... Era um meio de se acostumar  idia... Mas no pude evitar. Sinto muito, 
Louis.
    - No precisa se desculpar - disse Louis, acariciando-lhe o cabelo.
        - Mas se voc se sente melhor assim... Ela sorriu.
    -  claro. Eu me sinto melhor... E acho que consegui pr pra fora algo que durante anos envenenou uma parte de mim.
    - Tambm acho.
    Os olhos de Rachel foram se fechando sem querer e depois se abriram de novo, devagar.
    - E no culpe meu pai pelo que aconteceu, Louis. Por favor. Aquela poca foi terrvel para os dois. As contas, as contas do tratamento de Zelda, chegavam aos 
cus. Meu pai tinha perdido a chance de se expandir para os subrbios e as vendas na loja do centro no andavam boas. Minha me tambm estava ficando meio enlouquecida 
com tudo aquilo.
    Rachel acrescentou:
    - Bem, tudo passou. Foi como se a morte de Zelda tivesse dado o sinal para os bons tempos voltarem. Tinha havido um aperto, mas os juros baixaram e papai conseguiu 
um emprstimo. Desde ento, s andou para a frente... Acho que os dois se tornaram muito ciumentos com relao a mim. No s porque eu fui a nica filha que restou, 
mas...
    - Por causa do sentimento de culpa - disse Louis.
    - Sim, acho que sim... Espero que no fique furioso comigo se eu adoecer durante o enterro de Norma...
    - No, querida, no vou ficar furioso.
    Louis pegou-a pela mo.
    - Posso levar Ellie?
    A mo de Rachel apertou a dele.
    - Oh, Louis, eu no sei... Ela  to criana...
    - J sabe de onde vm os bebs h pelo menos um ano - Louis lembrou.
    Rachel ficou um bom tempo em silncio, olhando para o teto e mordendo os lbios.
    - Se acha que  melhor assim - disse finalmente. - Se acha que no vai.., no vai mago-la.
    - Tome conta da casa, Rachel - disse ele, e naquela noite os dois dormiram muito abraados. Quando Rachel acordou tremendo, no meio da noite, o efeito do Valium 
encerrado, ele acarinhou-a com as duas mos e sussurrou em seu ouvido que estava tudo bem. Ela dormiu de novo.
    
    
    
    - Para o homem (e para a mulher),  como as flores no vale, que hoje esto florindo e amanh so atiradas no fogo: o tempo do homem  apenas uma estao; tem 
um comeo e um fim. Vamos rezar ao Senhor.
    Ellie, resplandecente numa marinheira azul, comprada especialmente para a ocasio, abaixou a cabea to bruscamente que Louis, sentado a seu lado no banco da 
igreja, ouviu o pescoo estalar. Ellie estivera em poucas igrejas e, naturalmente, era seu primeiro funeral; a combinao das duas coisas levara-a a guardar um respeitoso 
e inabitual silncio.
    Para Louis, foi uma experincia incomum com a filha. Sempre ofuscado pelo amor que tinha por ela (como sempre estava ofuscado pelo amor que tinha por Gage), 
raramente a observava com maior cuidado; mas naquele dia achou que se defrontava com um caso tpico de criana chegando ao fim do primeiro grande estgio de desenvolvimento 
da vida; um ser formado de quase pura curiosidade, estocando sem parar novas informaes em circuitos quase infinitos. Ellie continuou em silncio, mesmo quando 
Jud, estranho mas elegante no terno preto e sapatos sociais (Louis achou que era a primeira vez que o via calar qualquer outra coisa alm de chinelos ou botas verdes 
de borracha), curvou-se para beij-la:
    - E uma satisfao ver voc aqui, meu bem - disse Jud. - E aposto que Norma tambm est muito contente.
    Ellie tinha arregalado os olhos.
    Agora, o pastor metodista, Reverendo Laughlin, pronunciava a bno, pedindo que Deus voltasse Sua face para eles e lhes trouxesse a paz.
    - Por favor, os que vo levar a urna se aproximem - disse.
    Louis comeou a se levantar, mas Ellie o fez parar, puxando-o freneticamente pelo brao. Parecia assustada.
    - Papai! - ela sussurrou em voz alta. - Onde voc vai?
    - Sou um dos que vo levar a urna querida - disse Louis, sentando um momento do lado dela e pondo o brao em volta de seus ombros. - Ou seja, vou ajudar a carregar 
o caixo de Norma. Sou eu e mais trs pessoas: dois sobrinhos de Jud e o irmo de Norma.
        - Onde vamos nos encontrar?
        Louis olhou a frente. Os outros trs j estavam se reunindo ao lado de Jud. As demais pessoas comeavam a sair da igreja, algumas chorando.
        - Se ficar l fora na escada, encontro voc l - disse. - Tudo bem, Ellie?
        - Tudo bem. Mas no esquea de mim.
        - No vou esquecer.
       Ele tornou a se levantar, mas Ellie puxou-o outra vez pela mo.
        -        Papai?
        - O qu, meu bem?
        - No a deixe cair - Ellie sussurrou.        

        Louis juntou-se a Jud e Jud apresentou-o aos sobrinhos, que na realidade eram primos em segundo ou terceiro graus... descendentes do irmo do pai de Jud. 
Eram rapazes fortes, de vinte e poucos anos, muito parecidos. O irmo de Norma j teria bem mais de cinqenta, Louis pensou, e embora o pesar de uma morte na famlia 
se revelasse em seu rosto, reagia bastante bem.
         - E um prazer conhec-los - disse Louis. Sentia-se um pouco encabulado. Era um estranho no crculo da famlia.
         Os trs o cumprimentaram com sinais de cabea.
          - llie est bem? - Jud perguntou. A menina parara no vestbulo, olhando.
          claro que est. Ela simplesmente quer ter certeza de que eu vou desaparecer numa nuvem de fumaa, Louis pensou e quase sorriu. Mas ento, aquilo chamou 
outro pensamento: Oz, o Gande e Tevel. E o sorriso desapareceu.
           - Sim, acho que sim - disse e acenou para a filha. A menina respondeu ao aceno e finalmente saiu da igreja num rodopio da marinheira azul. Por um instante, 
Louis ficou impressionado em ver como ela parecia adulta. Por mais fugidia que fosse, era o tipo de iluso capaz de fazer um homem pensar.
           - Todos prontos? - perguntou um dos sobrinhos.
           Louis balanou a cabea; o irmo mais novo de Norma tambm.
           - Vamos devagar com ela - disse Jud. Sua voz tinha se tornado rouca. Ele se virou e, de cabea baixa, desceu lentamente o corredor.
           Louis foi para uma das pontas do caixo cinza metlico que Jud escolhera para a mulher, uma urna da American Eternal Pegou sua ala e os quatro foram 
carregando lentamente o corpo de Norma para o claro, embora frio, ar do incio de fevereiro. Algum, possivelmente o zelador da igreja, tinha espalhado uma boa camada 
de cinzas sobre o caminho que a neve batida tornara escorregadio. Junto  calada, o motor de um Cadillac fnebre funcionava em marcha lenta, lanando no ar de inverno 
uma fumaa branca. O agente funerrio, ao lado de um filho robusto, acompanhava o transporte do corpo, pronto para ajudar se algum (talvez o irmo de Norma) escorregasse 
ou desse sinais de fraqueza.
     Jud tambm estava perto do agente e observou os quatro fazendo a urna deslizar para a traseira do veculo.
    - Adeus, Norma - ele disse e acendeu um cigarro. - Daqui a pouco estarei com voc, minha velha.
    Louis pousou o brao em volta do ombro de Jud e o irmo de Norma postou-se do outro lado, fazendo o agente funerrio e o filho recuarem. Os dois sobrinhos corpulentos 
(primos em segundo grau, ou o que quer que fossem) j haviam se afastado, cumprida a misso de levantar e transportar a urna. Talvez s conhecessem o rosto da morta 
de fotografias ou de umas poucas visitas de cortesia, tardes que devem ter parecido interminveis na sala de Norma, comendo biscoitos e tomando a cerveja de Jud. 
Dificilmente teriam prestado ateno s velhas histrias de tempos que no viveram e de pessoas que no conheceram; mas, sem dvida, teriam lamentado o tempo perdido 
(um carro que podia ter sido lavado e polido, um jogo de boliche no clube, pelo menos uma luta de boxe assistida na tev ao lado de amigos). Sem dvida, teriam aguardado 
ansiosos o momento de ir embora quando o dever estivesse cumprido.
    Pelo menos na viso dos sobrinhos, a participao de Jud na famlia fazia agora parte do passado. Jud era como um asteride sendocorrodo pela eroso, perdendo 
a maior parte de sua massa, minguando, pouco mais. que um gro de poeira. O passado. Fotografias num lbum. Histrias antigas contadas em quartos que talvez parecessem 
quentes demais para eles... Eles no eram velhos; no havia artrite em suas juntas; o sangue deles no tinha enfraquecido. O passado eram alas de caixes a pegar, 
erguer e depois largar. Afinal, se o corpo humano era um envelope para guardar a alma - cartas de Deus para o universo, como muitas igrejas ensinavam, a urna da 
American Eternal era um envelope para guardar o corpo; para aqueles primos ou sobrinhos jovens e fortes, o passado era apenas uma carta no reclamada a ser arquivada.
    Deus guarde o passado, Louis pensou e estremeceu ao imaginar que, um dia, ele tambm pareceria pouco familiar aos olhos de gente do seu prprio sangue - seus 
netos (se Ellie ou Gage tivessem filhos e ele vivesse tempo suficiente para conhec-los). O centro se deslocava. Linhas familiares degeneravam. Sobravam rostos jovens 
olhando de velhas fotos.
    Deus guarde o passado, ele pensou outra vez e apertou com mais fora os ombros de Jud.
    Os condutores do carro puseram as flores junto da urna. A janela eltrica da traseira do furgo se levantou e estalou nos encaixes. Louis voltou para onde a 
filha se encontrava e foi junto com ela para sua camionete, segurando-lhe o brao para que no escorregasse com os sapatos novos de sola de couro. Os motores dos 
carros iam se pondo em movimento.
    - Por que esto acendendo os faris, papai? - Ellie perguntou num leve tom de admirao. - Por que esto acendendo os faris em pleno dia?
    - Esto fazendo isso - Louis explicou, sentindo a voz um pouco embargada - em honra da morta, Ellie.
    Puxou o boto que ligava os faris da camionete.
    - Vamos.

    Por fim, encerrada a cerimnia fnebre (que na realidade limitou-se ao rito na pequena capela de Mount Hope; nenhuma sepultura seria cavada para Norma antes 
da primavera), Ellie e o pai voltavam para casa quando a menina irrompeu em lgrimas.
    Louis se virou para a filha, surpreso, mas no particularmente alarmado.
    - Ellie, o que h?
    - No vai ter mais biscoitos - Ellie soluou. - Norma fazia os melhores biscoitos de aveia que eu j comi. Mas no vai fazer mais biscoitos nenhum porque morreu. 
Papai, por que as pessoas precisam morrer?
    - Realmente eu no sei - disse Louis. - Para dar lugar a outras pessoas, talvez. Pessoas novas como voc e seu irmo Gage.
    - Nunca vou me casar, nem fazer sexo e ter bebs! - Ellie declarou, chorando mais que nunca. - Ento talvez isso nunca acontea comigo!  terrvel!  no-no-nojento!
- Mas  o fim de todo o sofrimento - disse Louis num tom calmo.
         - E como mdico, j vi muito sofrimento. Uma das razes que me levaram a querer o emprego na universidade foi que estava cansado de ver gente sofrendo dia 
aps dia. Gente nova muitas vezes fica doente, at mesmo muito doente... Mas isso no  exatamente a mesma coisa que sofrimento. Ele fez uma pausa.
    - Acredite voc ou no, querida, quando as pessoas ficam muito velhas, a morte no parece to m nem to assustadora. Bem, mas voc ainda tem anos e anos e anos 
pela frente.
    Ellie chorou um pouco mais, fungou e depois parou. Antes de chegarem, perguntou se podia ouvir o rdio. Louis disse que sim e ela sintonizou Shakin' Stevens 
cantando Tliis Ole House na WACZ. Logo estava cantarolando tambm. Quando chegaram em casa, correu para a me e contou tudo sobre o enterro. Apesar dos pesares, 
Rachel ouviu tranqila, compreensiva e solidria, embora Louis percebesse uma certa palidez e um ar de preocupao em seu rosto.
    Ento Ellie perguntou se ela sabia fazer biscoitos de aveia. Rachel pousou o tric e se levantou, como se j estivesse esperando alguma coisa desse tipo.
    - Sei - disse. - Quer me ajudar?
    - Oba! - Ellie gritou. - Vamos mesmo fazer os biscoitos, mame?
    - Vamos se o seu pai ficar uma hora tomando conta do Gage.
    - Eu fico com ele - disse Louis. - Com todo o prazer.

    Louis passou a noite ocupado com um longo artigo do The Duquesne Medical Digest, lendo e fazendo anotaes. A velha controvrsia sobre suturas que se abriam 
comeara de novo. Entre o relativamente pequeno nmero de pessoas preocupadas em coser ferimentos, a discusso parecia interminvel, como aquele velho problema psicolgico, 
natureza versus educao.
    Pretendia escrever, naquela mesma noite, uma carta externando sua discordncia do artigo, provando que a argumentao do articulista era falaciosa, os exemplos 
viciosos, a pesquisa quase criminosamente descuidada. Procuraria, em suma, com muito bom humor, no deixar pedra sobre pedra de toda aquela estpida baboseira. Tentava 
encontrar na estante do escritrio o Tratamento das Feridas, de Troutman, quando Rachel desceu at o meio da escada.
    - No vai subir, Lou?
    - Daqui a pouco...
    Ele voltou os olhos para a mulher.
- Tudo bem?
    - Os meninos esto dormindo profundamente, os dois.
Louis a contemplou com carinho.
    - S ..... . voc no.
    - Tudo bem. Estava lendo.
    - Tudo bem mesmo?
- Tudo - ela respondeu e sorriu. - Amo voc, Louis.
    - Tambm amo voc, meu bem.
    Virou-se de novo para a estante e l estava, onde sempre estivera, o livro de Troutman. Pegou-o.
    - Church trouxe um rato pra dentro de casa quando voc e Ellie estavam no enterro - disse Rachel, tentando sorrir. - Ah, que porcaria!...
    - Diabo, Rachel, sinto muito!
    Esperou no parecer to culpado como de fato se sentia.
    - Deu muito trabalho?
    Rachel se sentou na escada. No penhoar de flanela cor-de-rosa, o rosto sem maquiagem, a testa muito branca, o cabelo amarrado para trs com um elstico, formando 
um curto rabo-de-cavalo, Rachel parecia uma criana.
    - Bom, eu dei conta de tudo - disse ela -, mas, voc sabe, precisei enxotar o cretino do gato com o tubo do aspirador. S assim ele parou de acuar o... cadver. 
Chegou a bufar pra mim. Foi a primeira vez que Church bufou pra mim. Ultimamente, parece um gato diferente. Acha que pode estar com algum problema de sade, Louis?
    - No - ele respondeu com hesitao -, mas posso lev-lo ao veterinrio se voc quiser.
    - Acho que seria bom - disse ela e olhou para o marido com ar indefeso. - Mas no vai subir? Eu s... Eu sei que est trabalhando, mas...
    - J estou indo - disse ele, levantando-se como se j no tivesse qualquer coisa importante a fazer no escritrio. E realmente no tinha... exceto que, agora, 
a carta jamais seria escrita porque perdera o ritmo da coisa e amanh suas preocupaes seriam outras. Sem dvida, era responsvel pelos ratos de Church. Os ratos 
que Church podia trazer para dentro de casa, arranhes ensangentados feitos pelas garras, intestinos  mostra, talvez at sem cabea. Sim. Era responsvel pelos 
ratos de Church.
    - Vamos dormir - disse, apagando as luzes.
    Ele e Rachel subiram juntos a escada. Louis ps-lhe o brao em volta da cintura e amou-a mais que tudo no mundo... No entanto, mesmo ao penetrar dentro dela, 
e apesar da grande ereo, no pde deixar de ouvir o vento de inverno do outro lado das janelas cobertas de neve, no pde deixar de pensar em Church, o gato que 
pertencera  sua filha e que agora lhe pertencia - pensar onde estaria ele, o que estaria emboscando ou matando. O solo do corao de um homem  mais empedernido... 
O vento gemia seu canto amargo e, no a muitos quilmetros dali, Norma Crandall, que uma vez tricotara gominhos iguais para Ellie e Gage, jaza na urna cinza metlica 
da American Eternal, provisoriamente num escaninho de laje do cemitrio de Mount Hope. Agora, o algodo branco que o agente funerrio usou para encher suas bochechas 
j estaria ficando preto.


    No dia do seu aniversrio, Eliie voltou s seis horas. Chegou do jardim de infncia com um chapu de papel torto na cabea, a mo cheia de desenhos que os coleguinhas 
fizeram dela (no melhor desses desenhos, Ellie parecia um simptico espantalho) e histrias fantsticas sobre uma briga durante o recreio.
    Na universidade, o surto de gripe espanhola passou. Tiveram de mandar dois estudantes para o Centro Mdico do Maine em Bangor e Surrendra Hardu provavelmente 
salvou a vida de um calouro em estado bastante grave, um rapaz com o terrvel nome de Peter Humperton. Ele entrara em convulses pouco depois de chegar  enfermaria.
    Rachel desenvolveu uma ligeira fascinao por um manequim louro de uma loja de confeces em Brewer. Certa noite, contou entusiasmada a Louis como o jeans parecia 
vestir um corpo de verdade.
    - Mas  apenas uma armao forrada com papel higinico - acrescentou.
    - Um dia desses d um aperto no lugar certo - Louis sugeriu. -Se ele gritar, pode no ser.
    Rachel riu at chorar.
    A meia-estao de cu azul, atmosfera tranqila, mas temperatura ainda bem fria, foi substituida pelos dias de maro, onde as geadas se alternavam com os aguaceiros. 
As estradas ficaram esburacadas e por toda parte surgiram tabuletas alaranjadas: "Cuidado, trecho em obras." A dor profunda, intima e angustiante de Jud Crandall 
passou, aquela dor que, segundo os psiclogos, comea cerca de trs dias aps a morte de um ser amado e, na maioria dos casos, dura de quatro a seis semanas (como 
o perodo de tempo que os habitantes da Nova Inglaterra s vezes chamam de inverno profundo"). Mas o tempo passa, e o tempo solda um estado de esprito no outro, 
at construir uma espcie de arco-ris. A dor mais forte diminui, transforma-se numa dor relativamente branda; a dor relativamente branda transforma-se em tristeza 
e a tristeza em lembrana. Um processo que, se levar de seis meses a trs anos, pode ser considerado normal. O dia do primeiro corte de cabelo de Gage veio e passou. 
Quando Louis viu que o cabelo do filho ganhara fora, riu por fora mas sentiu tristeza dentro do peito.
    A primavera veio, e durou algum tempo.


    Louis Creed passaria a acreditar que o ltimo dia realmente feliz de sua vida foi 24 de maro de 1984. As coisas que estavam por vir, que iam pairar sobre ele 
e a famlia como lminas de guilhotina, ainda estavam ocultas, a mais de sete semanas no futuro. No entanto, naquelas sete semanas de intervalo, nada mais pareceu 
conservar a mesma colorao de antes. Mesmo se nenhuma daquelas coisas terrveis tivesse acontecido, Louis jamais ia esquecer aquele dia. Os dias realmente bons, 
achava ele, bons do primeiro ao ltimo minuto, eram bastante raros. Talvez na vida normal de um homem, mesmo nas melhores circunstncias, houvesse menos que um ms 
de dias realmente bons. Deus, em Sua infinita sabedoria, parecia muito mais generoso quando distribua a dor.
    Aquele dia caiu num sbado e ele passou a tarde em casa, tomando conta de Gage, enquanto Rachel e Ellie foram ao mercado. Tinham ido com Jud na velha e barulhenta 
pickup 1H 59, no porque a camionete de Louis estivesse enguiada, mas porque Jud realmente gostava da companhia das duas e ficara satisfeito em lev-las. Rachel 
perguntou se ele cuidaria de Gage, ele respondeu que podia ir sossegada. Estava contente por v-la sair: aps um inverno no Maine, passado quase inteiramente em 
Ludlow, achava que a mulher devia aproveitar toda e qualquer oportunidade para se afastar um pouco de casa. No tinha se queixado e entregava-se com nimo aos afazeres 
domsticos, mas Louis percebia que comeava a ficar um pouco nervosa e superagitada.
    Gage acordou de sua soneca por volta das duas horas, ranheta, malhumorado. Descobrira o gosto da manha e se entregava a ele. Louis recorreu a vrios expedientes 
para divertir o filho, mas sem nenhum resultado. Gage repudiou todos.
          Para tornar as. coisas piores, o menino comeou a mexer a barriga como se estivesse com fortes clicas e, perto do umbigo dele, Louis encontrou uma das 
bolas de gude azuis com que Ellie brincava. Sorte o garoto no a ter engolido, pois costumava pr na boca tudo que pegava. Decidiu guardar todas as bolas de gude 
que pudesse haver pela casa e sentiu-se aliviado com a deciso. Gage parou de contrair a barriga, mas continuou rabugento.
         Louis ouvia o vento do incio de primavera soprar em volta da casa. As sombras das rvores agitavam-se no terreno vizinho da Sra. Vinton. De repente, lembrou-se 
do abutre, uma pipa que, num impulso, comprara h cinco ou seis semanas na volta da universidade. Teria comprado linha tambm? Sem dvida, graas a Deus!
         - Gage! - ele chamou. Gage encontrara um lpis verde embaixo do sof e estava fazendo rabiscos num dos livros favoritos de Ellie. Mais uma coisa para alimentar 
o fogo da rivalidade fraterna, Louis pensou e sorriu. Se Ellie ficasse realmente furiosa com os rabiscos, Louis simplesmente mencionaria o tesouro nico que encontrara 
perto do umbigo de Gage.
         - O qu? - Gage respondeu com ar esperto. J estava falando bastante; Louis achava que at bem demais para a idade dele.
         - No quer sair?
         - Sair! - Gage exclamou agitado. - Quero. Onde esto meus sapatos, papai?
         Esta frase, se reproduzida foneticamente, seria mais ou menos assim: Om t meu tapato, papai? Louis ficava freqentemente impressionado pela fala de Gage, 
no porque fosse "engraadinha", mas porque achava que as crianas pequenas pareciam imigrantes aprendendo uma lngua estrangeira, de uma forma atabalhoada, mas 
razoavelmente simptica. Sabia que os bebs fazem todos os sons que a voz humana  capaz de produzir... O erre arrastado, to difcil para estudantes de primeiro 
ano de francs, os grunhidos e estalos que os boximanes da Austrlia fazem na abertura da laringe, as grossas, speras consoantes do alemo. Perdiam a aptido quando 
aprendiam a lngua materna, e Louis freqentemente se perguntava se a infncia no seria antes um perodo de esquecimento que de aprendizado.
         Os "tapatos" de Gage foram finalmente encontrados.., tambm estavam embaixo do sof. Uma das outras crenas de Louis era que, em famlias que tm crianas 
pequenas, a rea sob as poitronas comea, aps algum tempo, a desenvolver uma forte e misteriosa fora eletromagntica que passa a sugar todo tipo de coisa: de garrafas 
e alfinetes de fralda a lpis de cor e velhas revistas infantis, com pedaos de doces amassados entre as pginas.
    O casaco de Gage, porm, no estava sob o sof, mas no meio da escada. Por sua vez, o gorro Red Sox, sem o qual Gage se recusava a sair, foi bem mais difcil 
de achar, porque estava onde devia estar - no armrio. Aquele, naturalmente, era o ltimo lugar onde algum pensaria em procur-lo.
    - Vamos aonde, papai? - Gage perguntou num tom bastante amistoso, dando a mo a Louis.
    - Vamos at o terreno da Sra. Vinton. Vamos soltar uma pipa, rapaz!
    - Uma ppa?! - Gage perguntou sem entender muito bem.
    - Voc vai gostar - disse Louis. - Espere um instante, garoto.
    Agora estavam na garagem. Louis encontrou o molho de chaves, abriu o pequeno armrio que servia como depsito e acendeu a luz. Revirou o armrio e achou o abutre, 
ainda na embalagem da loja, com a etiqueta do preo. Comprara a pipa num dia muito escuro de meados de fevereiro, quando sua alma ansiava por um pouco de sol.
    - Pai? - Gage perguntou na inflexo do idioma gags para "que diabo voc tem a, papai?"
    -  a pipa - Louis respondeu, tirando-a da embalagem. Interessado, Gage observou-o abrir o abutre, que esparramou as asas por talvez um metro e meio de plstico 
resistente. Os olhos salientes, avermelhados, encararam os dois da pequena cabea no alto de um pescoo descarnado e rosado.
    - Pssaro! - Gage gritou. - Pssaro, papai! Virou um pssaro!
    - Sim,  um pssaro - Louis concordou, enfiando as varetas nos encaixes atrs da pipa e vasculhando de novo o armrio em busca dos cento e cinqenta metros de 
linha que comprara. Olhou por sobre o ombro e repetiu para Gage:
    - Voc vai gostar, garoto!
    Gage gostou.
    Levaram a pipa para o terreno da Sra. Vinton e Louis a fez subir para o cu com vento daquele final de maro. J no soltava uma pipa desde... desde os doze 
anos? Dezenove? Deus, era terrvel!
    A Sra. Vinton era uma mulher quase da idade de Jud, embora extremamente mais frgil. Morava numa casa de tijolos vermelhos, na frente do terreno, e saa muito 
raramente. Atrs da casa, o terreno acabava onde comeavam os bosques - os bosques que primeiro conduziam ao "simitrio" de bichos e depois ao cemitrio micmac.
    - A pipa est voando, papai! - Gage gritou.
    - , olhe como ela sobe! - Louis tambm gritou, entusiasmado, rindo. Deu linha com tanta rapidez que o cordo se transformou num fio em brasa correndo na palma 
da mo.
    - Olhe o abutre, Gage! Est subindo pra cachorro!
    - Pra cachorro! - Gage gritou e riu alto, morrendo de alegria.
    O sol saiu de detrs de uma espessa nuvem cinzenta de primavera e, quase de imediato, a temperatura pareceu subir dois ou trs graus. Foram envolvidos pela luz 
brilhante, pelo calor instvel de um fmal de maro se esforando para ser abril. Pisavam no mato do terreno da Sra. Vinton. Acima deles, o abutre ascendia para o 
cu azul, cada vez mais alto, as asas de plstico abertas e tensas contra a firme corrente de ar, ainda mais alto, e Louis comeava a se sentir como uma criana, 
subindo com a pipa, saltando em direo  pipa, vendo o mundo ficar cada vez menor, como deve ser o mundo no sonho dos cartgrafos. O terreno da Sra. Vinton, tranqilo 
e ainda branco, mas com camadas de relva cada vez mais densas seguindo o recuo da neve... No apenas um terreno agora, mas um grande paralelo-grama cercado por encostas 
rochosas em dois de seus lados... Depois a estrada no fundo, uma cicatriz preta e reta, e o vale do rio. O abutre via tudo isso com os olhos injetados planando l 
no alto. Via o rio como uma faixa acinzentada, serena, metlica, pedaos de gelo ainda flutuando sobre as guas; do outro lado via Hampden, Newburgh, Winterport 
com um navio nas docas; talvez visse o Moinho de St. Regis em Bucksport, sob sua contnua exalao de fumaa; talvez o fim do prprio continente, onde o Atlntico 
batia com fora na rocha nua.
    - Olhe a pipa onde vai, Gage! - Louis gritou, rindo.
    Gage tinha a cabea to inclinada para trs que corria o risco de cair de costas. Um enorme sorriso cobria-lhe o rosto. Acenava para o abutre.
    Louis deu folga na linha e mandou Gage segur-la com uma das mos. Gage obedeceu sem pestanejar. No podia tirar os olhos da pipa, sacudindo e danando no vento, 
fazendo sua sombra deslizar de um lado para outro no terreno.
    Louis enrolou duas vezes a linha na mo de Gage e olhou para o filho, boquiaberto com o forte puxo na pipa.
    - E ai?! - Gage exclamou.
     - Voc est soltando a pipa - disse Louis. - Agarre bem, garotinho. A pipa  sua.
    - Gage est soltando a pipa? - disse Gage, como se pedisse uma confirmao no ao pai, mas a si mesmo. Puxou de novo a linha para experimentar, a pipa balanou 
no ar. Gage puxou mais forte, a pipa mergulhou. Louis ria junto com ele. Gage estendeu a outra mo, tateou no ar e Louis segurou-a. Permaneceram assim, um ao lado 
do outro, no meio do terreno da Sra. Vinton, olhando o abutre.
    Louis jamais esqueceria aquele momento. Quando se sentiu subindo com a pipa, como uma criana, sentiu-se tambm mais prximo de Gage. Era como se tivesse encolhido 
at caber dentro do corpo do filho e olhar pelas janelas que eram seus olhos: contemplar um mundo enorme e radiante, onde o terreno da Sra. Vinton era quase to 
grande quanto o Pntano de Bonnevlle, onde a pipa planava, quilmetros acima dele, a linha dando coices em seu punho como uma coisa viva, o vento soprando e lhe 
revirando os cabelos.
    - A pipa est voando! - Gage gritou para o pai. Louis ps o brao em volta dos ombros do filho e beijou-o no rosto, onde o vento tinha feito florir um tom rosado.
    - Gosto muito de voc, Gage - disse o pai. Era uma confisso entre os dois e era timo.
    E Gage, que agora tinha menos de dois meses de vida, riu num tom estridente e muito alegre.
- A pipa est voando! A pipa est voando, papai!

    Ainda estavam soltando pipa quando Rachel e Ellie chegaram. Os dois faziam o abutre subir to alto que quase perdiam a linha. No viam mais a face do pssaro; 
a pipa era apenas uma silhueta negra no cu.
    Louis ficou satisfeito ao v-las e deu uma gargalhada quando Ellie pegou a pipa e deixou cair o carretel, que foi rolando, aos trambolhes, pela relva. Quando 
Ellie o alcanou, pouco faltava para o final da linha escapar. No entanto, soltar pipa no meio dos dois filhos alterava um pouco as coisas, e Louis no ficou muito 
aborrecido em voltar para casa quando Rachel o chamou, vinte minutos depois, dizendo que Gage j apanhara vento demais. Podia se resfriar.
    Ento a pipa foi puxada para baixo, lutando para subir a cada volta do carretel, mas finalmente se rendendo. Louis dobrou-a, fazendo as asas negras encolherem, 
escondendo os olhos salientes e avermelhados. Depois colocou o abutre debaixo do brao e voltou a aprision-lo no armrio da garagem. Naquela noite, Gage comeu um 
enorme suprimento de cachorros-quentes e castanhas, e enquanto Rachel vestia-lhe o macaco de dormir, Louis levou Ellie para um canto e teve uma conversa franca 
sobre o perigo de deixar as bolas de gude ao alcance do irmo. Em outras circunstncias, acabaria gritando com a filha, pois Ellie costumava se tornar extremamente 
arrogante - at mesmo insolente - quando se sentia acusada de ter cometido algum erro. Simplesmente era esse seu jeito de lidar com a crtica negativa, o que, sem 
dvida, no impedia que o pai ficasse furioso quando ela se tornava muito rspida e ele estava particularmente cansado. Mas naquele dia a pipa o deixara muito bem-humorado 
e Ellie parecia disposta a ser razovel. Concordou em ser mais cuidadosa e desceu para assistir televiso at s oito e meia, uma indulgncia comum nos dias de sbado, 
e ela adorava. Muito bem, agora as bolas de gude devem ficar fora do caminho e o perigo maior est afastado, Louis pensou, no sabendo que bolas de gude no eram 
realmente o problema, que resfriados tambm no eram o problema, que o problema seria um grande caminho da Orinco, que o problema seria a estrada... Um perigo de 
que Jud Crandall j os advertira naquele 1 de agosto do ano anterior.

    Naquela noite, subiu quinze minutos depois de Gage ter ido dormir. Encontrou o filho tranqilo, mas ainda acordado, bebendo um resto de leite da mamadeira e 
olhando contemplativamente para o teto.
    Louis pegou um dos ps do garoto e beijou-o.
    - Boa noite, Gage.
    - A pipa est voando, papai.
    - Ela voa mesmo, no ?
    Sem absolutamente qualquer razo, Louis sentiu lgrimas nos olhos.
    - Vai subindo at o cu, meu garoto.
    - A pipa est voando - disse Gage. - At o cu.
    E de um momento para o outro, o menino virou de lado, fechou os olhos e adormeceu.
    Louis estava entrando no corredor quando olhou para trs e viu olhos sem corpo, verde-amarelados, fitando-o do armrio de Gage. A porta do armrio estava entreaberta... 
era s uma fenda. Seu corao deu um salto para a garganta,  boca se contraiu e desenhou um esgar.
    Abriu a porta do armrio, pensando
    (Zelda,  Zelda no armrio, a lngua escura saindo por entre os lbios.)
    que no sabia bem o que era, mas,  daro, era apenas Church, Church estava no armrio, e quando viu Louis arqueou as costas como um gato num carto de Halloween. 
Bufou para ele, a boca parcialmente aberta, revelando dentes afiados como agulhas.

    - Passa! - Louis sussurrou.
    Church bufou outra vez e no se mexeu.
    - Passa fora, vamos!
    Pegou a primeira coisa que lhe caiu nas mos entre. a baguna dos brinquedos de Gage. Era uma brilhante locomotiva de plstico, que na semi-obscuridade tinha 
um tom marrom de sangue coagulado. Brandiu-a na direo de Church, mas alm de no sair do lugar, o gato tornou a bufar.
    E de repente, sem raciocinar, Louis atirou o brinquedo no animal, a srio, no pretendendo errar; ele martelou o brinquedo no gato o mais forte que pde, furioso 
e tambm assustado, assustado com aquela coisa que se escondia na escurido do armrio do quarto do filho e se recusava a sair, como se tivesse um direito adquirido 
de estar l.
    A locomotiva atingiu o gato em algum ponto morto. Church proferiu um grasnido e fugiu, revelando sua habitual falta de jeito ao esbarrar na porta e quase cair.
    Gage se mexeu na cama, resmungou alguma coisa, mudou de posio e voltou a ficar quieto. Louis sentiu uma ligeira nusea. O suor lhe escorria em gotas pela testa.
    - Louis? - Rachei gritou no andar de baixo, parecendo assustada.- Gage caiu do bero?
    - Ele est bem, querida. Foi Church que bateu em alguns brinquedos.
    - Oh, tudo bem.
    Irracionalmente ou no, Louis se sentia como se ao subir para dar uma olhada no filho tivesse encontrado uma cobra rastejando sobre ele, ou um rato enorme empoleirado 
na prateleira sobre o bero. Sem dvida, era irracional. Mas quando Church bufou daquela maneira no armrio...
(Zelda voc acha que Zelda voc acha que Oz o Gande e Tevel?)
    Fechou a porta do armrio de Gage, empurrando com o p alguns brinquedos para dentro dele. Ouviu o estalo curto do trinco. Depois de mais um instante de hesitao, 
fechou o armrio a chave.

    Voltou para o bero de Gage. Ao se mexer, o menino chutara os dois cobertores at os joelhos. Louis desembaraou as cobertas, puxou-as para cima e ficou parado, 
um longo tempo, contemplando o filho.

  
                     

PARTE DOIS
O
CEMITRIO MICMAC
Quando Jesus chegou a Betnia, viu que Lzaro j estava sepultado h quatro dias. Quando Marta soube que Jesus vinha chegando, correu ao seu encontro.

- Senhor - disse ela -, se estivesses aqui, meu irmo no teria morrido. Mas agora ests aqui, e sei que tudo o que pedires a Deus, ele te conceder.


Jesus lhe respondeu: - Teu. irmo ressuscitar.


Evangelho Segundo So Joo (parfrase)


Ei, i, vamos l!
        
                                   THE RAMONES




    Provavelmente  um erro acreditar que possa haver um limite para o horror que a mente humana pode suportar. Parece, ao contrrio, que certos mecanismos exponenciais 
comeam a prevalecer  medida que o infortnio se torna mais profundo. Por menos que se goste de admitir, a experincia humana tende, sob muitos aspectos, a corroborar 
a idia de que quando o pesadelo se torna suficientemente terrvel, o horror produz mais horror, um mal que acontece por acaso engendra outro, freqentemente menos 
ocasional, at que finalmente a desgraa parece tomar conta de tudo. E a mais aterradora de todas as questes talvez seja simplesmente querer saber quanto horror 
a mente humana pode experimentar conservando uma atenta, viva, implacvel sanidade. Quase nem  preciso dizer que esses ventos tm seu prprio absurdo tipo Rube 
Goldberg. Em determinado ponto, tudo passa a se tornar um tanto engraado. Pode ser esse o ponto em que a sanidade comea a resgatar a si mesma ou a ceder, sucumbir; 
o ponto em que o senso de humor de uma pessoa comea a fazer valer seus direitos.
    Louis Creed podia ter nutrido tais pensamentos se estivesse pensando racionalmente depois do enterro do filho, Gage William Creed, a dezessete de maio, mas qualquer 
pensamento racional - ou tentativa disso - cessara na casa funerria, onde uma briga de socos com o sogro (bastante grave) resultou num evento ainda mais terrvel, 
um trecho final de escandaloso melodrama gtico, que espatifou tudo que restava do frgil autocontrole de Rachel. Os lances de revista de terror registrados naquele 
dia s se concluram quando Rachel foi arrastada, gritando, da Sala Leste da Funerria Brookings-Smith, onde Gage jazia num caixo fechado, e entorpecida com um 
sedativo pelo marido.


    A grande ironia  que ela no teria vivido aquele episdio final, aquela extravagncia de horror, podemos dizer assim, se a briga entre Louis Creed e o Sr. Irwin 
Goldman, de Dearborn, tivesse ocorrido nas horas de velrio da manh (dez s onze e trinta) e no nas horas de velrio da parte da tarde (quatorze s quinze e trinta). 
Rachel no comparecera de manh: simplesmente no fora capaz de ir. Ficou em casa com Jud Crandall e Steve Masterton. Louis no tinha idia de como teriam atravessado 
as ltimas quarenta e oito horas sem o apoio de Jud e Steve.
    Foi uma sorte para Louis - e uma sorte para todos os trs membros restantes da famlia - que Steve tivesse se apresentado to prontamente, pois Louis, ao menos 
por certo tempo, ficou incapaz de tomar qualquer iniciativa, mesmo uma to insignificante quanto dar  esposa algum remdio para amortecer a dor profunda. Nem ao 
menos reparou que Rachel tinha pretendido vir  visita de manh com o casaco que usava em casa, do qual arrancara alguns botes. Seu cabelo estava despenteado, sujo, 
embaraado. Os olhos, buracos inexpressivos e sombrios, pareciam to afundados nas rbitas quanto os olhos de uma caveira. Todo o corpo estava flcido. A carne pendia 
do rosto. Naquela manh, sentou-se  mesa de caf mastigando ruidosamente uma torrada sem manteiga e dizendo frases soltas, que no faziam qualquer sentido.
    - Sobre aquele Winnebago que voc quer comprar, Lou... - dissera em certo ponto.
    A ltima vez que Louis falara em comprar aquele carro fora em 1981.
    Louis limitou-se a balanar a cabea e continuou tomando seu desjejum. Bebia um copo grande de chocolate. O chocolate fora um dos alimentos favoritos de Gage 
e naquela manh Louis quis beb-lo. Detestava chocolate, mas ainda assim quis beb-lo. Estava caprichosamente metido no seu. melhor palet (no era preto, no tinha 
palet preto, mas, pelo menos, era de um cinza bem escuro). Acabara de fazer a barba, tomar banho e pentear o cabelo. Parecia at elegante, embora estivesse entorpecido 
pelo choque.
    EIlie vestira uma cala jeans azul e uma blusa amarela. Trouxe uma fotografia para a mesa de caf. A foto, uma ampliao do instantneo tirado por Rachel com 
a cmara SX-70 que ganhara de Louis e das crianas no ltimo aniversrio, mostrava Gage. sorrindo dos fundos do capuz do casaco da Sears, sentado no tren de Ellie 
e puxado pela irm. Rachel surpreendera Ellie olhando pelo ombro e sorrindo para Gage. Gage devolvia o sorriso.
    Ellie trouxe a fotografia, mas no falou muita coisa.
    Louis estava incapacitado de perceber o estado emocional da esposa ou da filha; limitava-se a fazer o desjejum, enquanto a mente respirava o acidente vezes sem 
conta. Mas no filme de sua mente a concluso era outra. No filme de sua mente ele era mais rpido, e tudo que acontecia era que Gage levava uma surra por no ter 
parado quando o pai e a me gritaram.
    Era Steve quem realmente prestava assistncia a Rachel e Ellie. Proibiu que Rachel fosse ver o corpo na parte da manh (embora "ver o corpo" no fosse boa expresso, 
devido ao caixo fechado; se estivesse aberto, Louis pensou, todos sairiam gritando da sala, inclusive ele) e proibiu terminantemente que Ellie fosse ao velrio. 
Rachel protestou. Ellie continuou sentada, com a expresso grave, silenciosa, seu retrato com Gage numa das mos.
    Foi Steve quem deu a Rachel a injeo de que ela precisava e a Ellie uma colher de ch de um lquido sem cor. Geralmente Eilie choramingava e resmungava quando 
precisava tomar remdios - qualquer tipo de remdio - mas dessa vez bebeu silenciosamente e sem caretas. Por volta das dez horas da manh estava dormindo no quarto 
(sempre com o retrato na mo) e Rachel estava sentada diante da televiso, vendo a "Roda da Fortuna". Suas respostas s perguntas de Steve eram lentas. Permanecia 
atnita, mas o rosto perdera aquele olhar de loucura que tanto preocupara (e assustara) Steve quando ele chegou s oito e quinze daquela manh.
    Jud,  claro, fizera todos os preparativos. Fizera-os com a mesma calma eficincia com que tratou do enterro da mulher trs meses antes. Mas foi Steve Masterton 
quem levou Louis para um canto, pouco antes de ele sair para o velrio.
    - Talvez ela v at l hoje  tarde, se eu achar que vai resistir -disse Steve.
    - Tudo bem.
    -  tarde, o efeito da injeo j ter passado. Seu amigo, o Sr. Crandall, diz que vai ficar com Ellie durante o velrio...
    - Est bem.
    - Vai jogar monoplio ou alguma coisa com ela...
    - Ahn...
    - Mas...
    - Certo.
    Steve parou. Estavam na garagem, a rea favorita de Church, o lugar para onde ele trazia os pssaros e ratos mortos. Pelo menos os que Louis encontrava. L fora 
brilhava o sol de maio e um tordo cruzava apressado o caminho da garagem, como se tivesse importantes negcios a tratar. Talvez tivesse.
    - Louis - disse Steve. - Voc tem de esfriar um pouco a cabea.
    Louis se virou para Steve, interrogando-o gentilmente com o olhar. No ouvira muita coisa do que Steve dissera - estava pensando que se tivesse sido um pouco 
mais rpido podia ter salvo a vida do filho -, mas no deixou de perceber a ltima observao.
    - No se sei reparou - disse Steve -, mas Ellie no est falando. E Rachel teve tamanho choque que sua prpria noo de tempo parece ter se deformado.
    - Certo! - disse Louis. Percebeu mais energia em sua resposta, mas no entendeu por que respondera assim.
    Steve pousou a mo no ombro de Louis.
    - Lou, elas nunca precisaram tanto de voc como agora. E talvez jamais voltem a precisar dessa maneira. Por favor, rapaz. .. Posso dar um remdio  sua mulher, 
mas... voc... Olhe, Louis, voc tem... Oh, Deus, droga, que merda de porra foi acontecer!
    Louis viu, com uma espcie de alarme, que Steve comeava a chorar.
    - Pois !
    Em sua mente, viu Gage correndo pelo gramado em direo  estrada. Gritavam para Gage voltar, mas ele no obedecia (ultimamente sua brincadeira preferida era 
correr do papai e da mame). Saram correndo atrs dele, Louis rapidamente deixando Rachel para trs, mas Gage estava com grande vantagem, Gage estava rindo, Gage 
estava correndo do papai - era esse o jogo - e Louis ia encurtando a distncia, mas muito devagar. Gage corria pelo suave declive do gramado, agora para a beira 
da Rodovia 15, e Louis pediu a Deus que Gage casse (quando crianas pequenas correm, quase sempre caem, porque o controle de uma pessoa sobre as pernas s se torna 
realmente eficaz aos sete ou oito anos). Louis pediu a Deus que Gage casse, casse, sim, casse e quebrasse o nariz, e precisasse levar alguns pontos na cabea, 
qualquer coisa, porque agora podia ouvir o ronco de um caminho vindo na direo deles, um daqueles grandes caminhes com dez rodas, que no paravam de andar de 
um lado para o outro entre Bangor e a fbrica da Orinco em Bucksport. Ento ele berrou o nome de Gage; achou que Gage tinha ouvido e tinha tentado parar. Gage parecia 
ter percebido que era o fim da brincadeira, que os pais no berram
pela gente quando  s uma brincadeira, e Gage tentou parar, e ento o som do caminho era muito alto, o som do caminho enchia o mundo -era trovejante. Louis se 
atirou para a frente num grande arremesso, sua sombra manchando o cho como, naquele dia de maro, a sombra da pipa-abutre manchara a relva ainda esbranquiada pela 
neve do terreno da Sra. Vinton. Acreditou que as pontas dos dedos chegaram a roar nas costas da jaqueta do filho, mas o movimento de Gage j o levara para dentro 
da estrada, e o caminho tinha se tornado um estrondo, a luz do sol brilhava nos pra-choques cromados e o caminho se transformou no guincho spero, de fundo de 
garganta, de uma buzina externa; e tudo aquilo aconteceu no sbado, trs dias atrs.
    - Estou bem - disse. - Tenho de ir agora.
    - Se voc puder esfriar a cabea e ajud-las - disse Steve, limpando os olhos com a manga do casaco -, estar ajudando a si mesmo. Vocs trs tm de superar 
isso juntos, Louis. No h outro jeito. Todo mundo sabe que no h outro jeito.
    - Est bem - Louis concordou e, em sua mente, tudo comeou de novo a acontecer, s que dessa vez ele conseguia pular meio metro na frente, agarrar as costas 
da jaqueta de Gage e o resultado era diferente.

    Quando houve a cena na Saia Leste, Ellie empurrava o marcador de monoplio distrada - e silenciosa - pelo tabuleiro. Jud Crandall estava a seu lado. A menina 
sacudiu os dados com uma das mos e apertou na outra a fotografia em que puxava Gage no tren.
    Steve Masterton achou que Rachel tinha condies de enfrentar o velrio  tarde. ( luz dos acontecimentos posteriores, foi uma deciso que veio a lamentar profundamente.)
    Os Goldman tinham voado para Bangor naquela manh e estavam hospedados no Holiday Inn. O pai de Rachel ligara quatro vezes por volta do meio-dia e Steve teve 
de ser muito firme com o velho (quase ameaador na quarta chamada). Irwin Goldman queria ir at l e nem todos os ces do inferno o fariam ficar longe da filha naquele 
momento de necessidade, disse ele. Steve respondeu que naquele momento Rachel precisava descansar um pouco antes de ir ao velrio para se refazer o mais possvel 
do choque inicial. Disse que no conhecia todos os ces do inferno, mas conhecia um mdico-assistente, sueco-americano, que no tinha qualquer inteno de permitir 
a entrada fosse l de quem fosse na casa dos Creed antes que Rachel aparecesse em pblico por sua livre e espontnea vontade. Aps o velrio daquela tarde, disse 
Steve, seria uma satisfao deixar a rede de apoio dos parentes assumir a direo das coisas. At ento, queria que Rachel ficasse sozinha.
    O        velho xngou-o em idiche e bateu o telefone no gancho. Steve ficou na expectativa de que Goldman realmente aparecesse por l, mas, ao que tudo indicava, 
resolvera esperar. Por volta do meio-dia, Rachel parecia um pouco melhor. Pelo menos tinha conscincia do perodo do dia em que estava e foi at a cozinha para ver 
se havia sanduches ou alguma coisa para comer.
    - Depois, provavelmente as pessoas vm pra c, no ? - ela perguntou a Steve.
    Steve concordou com a cabea.
    No encontrou salsichas, nem carne assada, mas havia um peru na geladeira. Rachel o levou para descongelar no escorredor. Pouco depois, Steve deu uma espiada 
na cozinha e viu-a de p junto a pia, olhando fixamente o peru no escorredor e chorando.
    - Rachel?
    Ela se virou para Steve.
    - Gage gostava muito de peru. Principalmente do peito... Mas nunca mais ele vai comer outro pedao...
    Steve mandou que ela fosse se vestir, sem dvida o teste final de sua capacidade para se controlar. Quando desceu usando um vestido preto, simples, amarrado 
na cintura, e carregando uma pequena carteira tambm preta (na realidade uma bolsa para acompanhar um vestido de noite), Steve achou que estava muito bem e Jud concordou.
    Steve levou-a at a cidade. Ficou com Surrendra Hardu no saguo da Sala Leste e contemplou Rachel deslizar pelo corredor como alma penada, na direo do caixo 
coberto de flores.
    - Como esto as coisas, Steve? - Surrendra perguntou em voz baixa.
    - Terrveis, uma merda! - Steve tambm respondeu num tom baixo, mas spero. - Como voc achava que elas deviam estar?
    - Achava que deviam estar terrveis, uma merda - disse Surrendra, e suspirou.

    O        problema realmente comeara durante o velrio na parte da manh, quando Irwin Goldman recusou-se a apertar a mo do genro.
    Sem dvida, a presena de tantos amigos e parentes forara Louis a sair um pouco da teia do seu torpor, orara-o a reparar no que acontecia ao redor, a voltar-se 
para fora. Atingira aquele estgio malevel de dor que os agentes funerrios conhecem bem e sabem manejar e dirigir em proveito prprio. Louis foi levado de um lado 
para o outro como uma pedra num jogo de gamo.
    Do lado de fora da Sala Leste havia um pequeno saguo onde as pessoas podiam fumar e sentar em poltronas confortveis. As poltronas pareciam ter vindo diretamente 
de um leilo tumultuado em algum velho clube masculino ingls que tivesse falido. Ao lado da porta que conduzia  sala do velrio, havia um pequeno cavalete de metal 
negro, com moldura dourada. Sobre ele fora afixada uma pequena tabuleta que dizia apenas: GAGE WILLIAM CREED. Do outro lado do espaoso prdio branco, cheio de portas 
e corredores como uma boa e velha casa, havia um saguo idntico na sada da Sala Oeste, onde a tabuleta do cavalete indicava: ALBERTA BURNHAM NEDEAU. Nos fundos 
da casa ficava a sala que dava de frente para o rio. O cavalete  esquerda da porta que ligava esta sala com seu respectivo saguo estava vazio; no havia ningum 
l naquela manh de tera-feira. No andar de baixo, ficava a exposio dos caixes, cada modelo iluminado por um pequeno spot preso no teto. Se o comprador olhasse 
para o teto (Louis olhou e o agente funerrio franziu severamente a testa), as sombras dos spots sugeririam a presena de estranhos animais empoleirados pelo salo.
    Jud fora l com ele no domingo, um dia depois da morte de Gage, para escolher o caixo. Entraram pelo andar de baixo e em vez de dobrar imediatamente  direita 
para o showroom, Louis, meio atordoado, continuou seguindo o corredor em direo a uma porta branca de vaivm, simples' como aquelas portas que comunicam o salo 
com a cozinha em certos restaurantes. Jud e o agente funerrio falaram rapidamente e ao mesmo tempo: "No  por a!", e Louis desviou obedientemente. Sabia o que 
havia atrs daquela porta. Afinal, seu tio fora agente funerrio.
    A Sala Leste estava mobiliada com fileiras bem-arrumadas de cadeiras dobrveis (aquelas caras, com assento e costas de um forro tipo pelcia). Logo na frente, 
numa rea que parecia um misto de nave de igreja com varanda, ficava o caixo de Gage. Louis escolhera o modelo em jacarand rosado da American Casket Company. "Repouso 
Eterno", era assim que o chamavam. Estava forrado com seda cor-de-rosa, tipo pelcia. O agente funerrio concordou que, sem dvida, era uma bonita urna, e desculpou-se 
por no ter nenhuma com forro azul. Louis respondeu que ele e Rachel nunca fizeram tais distines. O agente concordou e perguntou se ele j havia pensado como ia 
custear as despesas do funeral. Caso contrrio, poderia acompanh-lo at o escritrio e passar rapidamente em revista trs de seus planos de financiamento mais populares...
    Na mente de Louis, um locutor apregoou brusca e animadamente: compre agora e pague depois o caixo do seu garoto!
    Sentindo-se como participante de um sonho, ele respondeu:
    - Vou saldar toda a conta com meu Carto Master.
    - Otimo - disse o agente.
    O caixo no tinha mais que um metro e vinte de comprimento, um mini caixo. No obstante custou a Louis mais de seiscentos dlares. Louis supunha que a urna 
se apoiava num cavalete, mas as flores tornavam difcil qualquer verificao e ele no queria chegar perto demais. O cheiro de todas aquelas rosas teriam lhe causado 
nuseas.
    No fundo do corredor, junto da porta que levava ao saguo-sala de estar, havia um livro sobre um suporte. Preso ao suporte, havia uma caneta esferogrfica. Foi 
ali que o agente funerrio o colocou, para que ele pudesse "receber os psames de parentes e amigos".
    Supostamente, os parentes e amigos deviam assinar o livro com seus nomes e endereos. Louis nunca fizera a menor idia da finalidade daquele costume fantstico, 
e no seria agora que ia perguntar. Acreditava que quando o funeral acabasse, o livro ficaria com ele e Rachel. Parecia a mais maluca de todas as coisas. Guardava 
em algum lugar o lbum da escola primria, o lbum do ginsio e o lbum da faculdade de medicina. Havia tambem o lbum de casamento, com O DIA DO MEU CASAMENTO estampado 
na capa, letras imitando ouro numa capa imitando couro. O lbum comeava com uma foto de Rachel na frente do espelho, experimentando o vu de noiva na manh da cerimnia, 
ajudada pela me; acabava com a foto de dois pares de sapatos do lado de fora de uma porta trancada de hotel. Tambm havia o "livro do beb" de Ellie (estavam cansados 
de colocar, talvez um pouco exageradamente, novas fotografias nele). Este lbum, com espaos para MEU PRIMEIRO CORTE DE CABELO (onde se acrescentava um anel de cabelo 
do beb) e UPA! (onde se colocava uma foto do beb caindo de bunda no cho), era simplesmente engraadinho demais.
    Agora, para guardar junto com os outros, havia um novo lbum. Como poderiam cham-lo?, Louis se perguntou, parado e entorpecido ao lado do suporte com o livro, 
esperando a recepo comear. MEU LIVRO DA MORTE? AUTGRAFOS DO MEU FUNERAL? O DIA EM QUE
ENTERRAMOS GAGE? Ou quem sabe alguma coisa mais digna, tipo UMA MORTE NA FAMLIA?
    Virou a capa do livro, que, como a capa de O DIA DO MEU CASAMENTO, era uma imitao de couro.
    No havia nada escrito.
    Como era quase de se esperar, a Srta. Dandridge foi a primeira a chegar, a bondosa senhorita que tomara conta de Ellie e Gage em dezenas de ocasies. Louis recordou 
que fora ela quem ficara com as crianas na noite do dia em que Victor Pascow morreu. A Srta. Dandridge viera pegar os meninos e Rachel tinha feito amor com ele, 
primeiro na banheira, depois na cama.
    Ela estava chorando, chorando muito e ao ver a fisionomia calma, serena de Louis, explodiu em novas lgrimas e se aproximou dele (foi como se tateasse na direo 
dele). Louis abraou-a, percebendo que era assim que as coisas funcionavam, ou pelo menos era assim que deviam funcionar: uma espcie de peso humano que oscilava 
de um lado para o outro, afrouxando o impacto da perda, dando-lhe uma vlvula de escape dissolvendo a rocha do choque com o calor do pesar.
    Sinto muito, a Srta. Dandridge estava dizendo, sacudindo o escurecido cabelo do rosto plido. Um menino to meigo. Eu gostava tanto dele, Louis, estou sentindo 
tanto,  uma estrada terrvel, espero que ponham o motorista do caminho na cadeia pra sempre, estava indo em muita velocidade, ele era to meigo, to doce, to 
esperto, por que Deus quis levar Gage, eu no sei, ns no podemos compreender, no , mas estou sentindo tanto, tanto, tanto...
    Louis confortou-a; abraou-a e confortou-a. Sentiu suas lgrimas no colarinho, a presso dos seios contra ele. Ela queria saber onde estava Rachel, e Louis disse 
que Rachel estava descansando. A Srta. Dandridge prometeu ir v-la, e disse que ficaria com Ellie a qualquer hora que precisassem e pelo tempo que precisassem. Louis 
agradeceu.
    Ela se afastou, ainda fungando, os olhos mais vermelhos que nunca sobre o leno preto. J se aproximava do caixo quando Louis a chamou de volta. O agente funerrio, 
cujo nome Louis no conseguia lembrar, pedira-lhe que fizesse as pessoas assinarem o livro. Que o diabo o levasse se no as mandasse fazer isso.
    Convidado misterioso, assine aqui por favor, ele pensou e por pouco no explodiu em cacarejos de riso barulhento, histrico.
    Foram os olhos inconsolveis, pungentes da Srta. Dandridge que afastaram as gargalhadas.
    - Senhorita, se importaria em assinar o livro? - pediu, e como parecesse necessrio dizer mais alguma coisa, acrescentou: -  para Rachel.
         -  claro - disse ela. - Pobre Louis e pobre Rachel.
    E subitamente Louis percebeu o que ela ia dizer em seguida, e, por alguma razo, teve medo; contudo l vinha a coisa, inevitvel, como a bala do revlver de 
grosso calibre de algum matador. Percebeu que seria repetidamente atingido por aquela bala nos prximos e interminveis noventa minutos, e de novo na parte da tarde, 
enquanto as feridas da manh ainda estivessem gotejando sangue:
    - Graas a Deus, ele no sofreu, Louis. Pelo menos foi rpido.
    Sim, foi rpido, no se preocupe, pensou em dizer - ah, como aquilo desarmaria completamente o rosto da Srta. Dandridge e como ele sentiu uma urgncia doentia 
em diz-lo, simplesmente borrifar-lhe as palavras na cara. Foi rpido, isso no h dvida. E  por isso que o caixo est fechado, nada podia ter sido feito de Gage 
mesmo se eu e Rachel achssemos que os mortos da famlia devem ser vestidos com o mximo de apuro, como manequins de grandes magazines, e ainda por cima pintados 
com ruge, p-de-arroz e batom. Foi rpido, minha querida senhorita. Num instante ele estava entrando na estrada e no instante seguinte estava cado no cho, mas 
l na frente da casa do Ringers. A coisa bateu nele, matou-o, depois o arrastou, e  melhor voc imaginar que foi rpido. Uns cem metros ou um pouco mais, incluindo 
tudo, a extenso de um campo de futebol americano. Eu corri atrs dele, senhorita, sa gritando sem parar o nome dele. Como se eu, um mdico, ainda esperasse que 
estivesse vivo. Corri dez metros e l estava o bon de beisebol, corri mais vinte e l estava um dos tnis 'Guerra nas Estrelas', corri mais quarenta e o caminho 
j tinha sado da estrada, a cabine se dobrando ao meio naquele terreno em frente ao celeiro do Ringers. As pessoas estavam saindo das casas e eu continuei gritando 
o nome dele, Srta. Dandridge, e na marca dos cinqenta metros l estava a jaqueta virada pelo avesso, e na marca dos setenta l estava o outro tnis, e depois, l 
estava Gage.
    Subitamente, tudo ficou embaado. Tudo desapareceu de vista. Podia ver obscuramente o canto do suporte onde o livro se cravava na palma da sua mo, mas s isso.
    - Louis? - era a voz da Srta. Dandridge. Distante. Um misterioso som de pombos ecoando nos ouvidos dele.
    - Louis?
    Mais perto agora. Alarmada.
    O mundo voltou a entrar em foco.
        - Voc estbem?        -
        Ele sorriu.
    - timo - disse. - Estou timo, senhorita.
    A Srta. Dandridge assinou por ela e pelo marido - Sr. e Sra. David Dandrdge - em letras de frma arredondadas. Acrescentou tambm o endereo: Estrada de Old 
Buscksport, 67, Rural Box. Depois ergueu os olhos para Louis e abaixou-os .depressa, como se ter aquele endereo na prpria estrada onde Gage morrera constitusse 
um crime.
    - Fique em paz, Louis - ela sussurrou.
    David Dandridge sacudiu a mo e murmurou alguma coisa inarticulada, o saliente pomo-de-ado, pontudo como uma flecha, movendo-se para cima e para baixo. Depois, 
correu atrs da esposa pelo corredor, para a contemplao ritual de um caixo construdo em Storyville, Ohio, um lugar onde Gage nunca fora e onde no o conheciam.

    Atrs dos Dandridge vieram todos, numa fila que arrastava os ps. Louis recebeu-os, recebeu os apertos de mo, os abraos, as lgrimas. O colarinho e o ombro 
do palet cinza-escuro logo ficaram bastante midos. O aroma das flores comeou a atingir at mesmo os fundos da sala e a permear o local com cheiro de enterro. 
Era um cheiro de que se lembrava dos tempos de infncia, aquele doce, espesso, fnebre aroma de flores. Pelos clculos de Louis, informaram-no trinta e duas vezes 
de que "Felizmente Gage no sofreu", vinte e cinco de que "Ningum conhece os caminhos de Deus" e, por ltimo, num total de doze vezes, que "Agora ele est com os 
anjos".
    A coisa comeou a afet-lo. Em vez daqueles pequenos aforismos irem perdendo qualquer sentido que pudessem ter (assim como nosso prprio nome perde seu sentido 
e identidade se for repetido indefinidamente), pareciam perfurar cada vez mais fundo, ameaando atingir-lhe pontos vitais. Quando a sogra e o sogro fizeram sua inevitvel 
apario, j se sentia como um lutador agarrado numa chave de brao.
    A primeira coisa que lhe veio  mente foi que Rachel tinha razo... E como tinha razo! De fato, Irwin Goldman estava bem mais velho. Teria.., quantos anos? 
Cinqenta e oito, cinqenta e nove? Naquela manh parecia um calmo e circunspecto septuagenrio... Quase absurdamente parecido com o primeiro-ministro de Israel, 
Menachem Begin, a cabea calva, os culos que lembravam o fundo de garrafas de Coca-Cola. Ao voltar da viagem na semana do Dia de Ao de Graas, Rachel dissera 
que Irwin Goldman envelhecera, mas Louis no esperava tanto. Sem dvida, no estaria to mal no Dia de Ao de Graas. Afinal, ainda no perdera um dos netos.
    Dory caminhava a seu lado, o rosto praticamente invisvel sob duas - talvez trs - camadas de um pesado vu negro. O cabelo estava elegantemente pintado de azul, 
cor preferida pelas senhoras idosas que julgam pertencer s classes superiores da Amrica. Vinha agarrada ao brao do marido. Tudo que Louis conseguiu ver atrs 
do vu foi o brilho das lgrimas.
    E de repente ele achou que era hora de admitir que guas passadas no movem moinho. No podia mais conservar o velho rancor. De repente, passara a lhe pesar 
demais... Ou talvez fosse apenas o peso acumulado de tanta coisa tola.
    - Irwin, Dory - ele murmurou. - Obrigado por terem vindo.
    Fez um gesto com os braos, como se quisesse ao mesmo tempo apertar a mo do pai de Rachel e abraar-lhe a me, ou, quem sabe, abraar os dois. De um modo ou 
de outro, o fato  que sentiu suas prprias lgrimas cairem pela primeira vez e, por um instante, teve a idia maluca de que todas as brigas poderiam ser apagadas, 
de que ao menos a morte de Gage serviria para fazerem as pazes. Era como se tivesse pisado em alguma novela romntica para senhoras, onde os custos da morte se transformam 
em reconciliao, onde a morte  capaz de engendrar alguma coisa mais construtiva que aquela dor interminvel, estpida, sufocante, sempre continuando, continuando, 
continuando.
    Dory se inclinou, fez um gesto, comeou, talvez, a abrir os braos. Disse alguma coisa: "Oh, ..... ." e alguma coisa mais que no deu para entender. E ento 
Goldman puxou a mulher. Por um momento, criou-se um embarao entre os trs que passou despercebido de todos os outros (excluindo, talvez, o agente funerrio, que 
discretamente de p no canto mais afastado da Sala Leste pode ter notado - Louis achou que o tio Carl perceberia). Ele permaneceu com os braos parcialmente estendidos, 
mas Irwin e Dory Goldman continuaram to duros, to rgidos quanto um casal num bolo de casamento.
    Louis viu que no tinha lgrimas nos olhos do sogro: eles brilhavam de raiva. (Ser que est pensando que eu matei o Gage para contrari-lo?) Os olhos pareciam 
avali-lo, julg-lo o mesmo homem insignificante e imprestvel, o homem que raptara Rachel para causar-lhe toda aquela dor... Depois os olhos desviaram, moveram-se 
para a esquerda, para o caixo de Gage, e ento se suavizaram.
    Louis ainda fez um ltimo esforo.
- Irwin - disse. - Dory, por favor. Temos de enfrentar isso unidos.
- Louis - Dorry disse outra vez... Gentilmente, Louis pensou...
Mas logo estavam se afastando, Irwin Goldman puxando a mulher e no olhando mais para lado nenhum, muito menos para Louis Creed. Aproximaram-se do caixo e Goldman 
tirou um pequeno barrete preto do bolso do palet.
    Vocs no assinaram o livro, Louis pensou. Ento subiu-lhe pelo tubo digestivo um arroto silencioso, mas to desagradavelmente cido que seu rosto se contorceu 
num esgar.

    O        velrio da parte da manh finalmente acabou. Louis telefonou para casa. Jud atendeu e perguntou como iam as coisas. Tudo bem, disse Louis. Depois pediu 
que Jud chamasse Steve.
    - Se ela conseguir se vestir sozinha, vou deix-la ir  tarde - disse Steve. - Por voc tudo bem?
    - Sim - disse Louis.
    - Muito bem - disse Steve. - Olhe, vamos nos encontrar para o almoo, est bem?
    - Estou bem - Louis respondeu lacnico. - Agentando o tranco.
    Fiz todos assinarem o livro. Todos exceto Dory e Irwin. Esses dois no quiseram.
    - Tudo bem - disse Steve. - Olhe, vamos nos encontrar para o almoo, est bem?
    Almoo! Encontrar para o almoo! Parecia uma idia to fantstica que Louis se lembrou dos livros de fico cientfica que lera na adolescncia: histrias de 
Robert A. Heinlein, Murray Leinster, Gordon R. Dickson. Os nativos aqui no planeta Quark tem um costume estranho quando um de seus filhos morre, Tenente Abelson: 
eles se "encontram para o almoo'. Sei que parece grotesco e brbaro, mas lembre-se, este planeta ainda no foi colonizado pela Terra.
    - Certo - disse Louis. - Que tal um bom restaurante para passar o tempo entre as visitas do funeral, Steve?
    - Vamos devagar, Lou - disse Steve, mas pelo tom no parecia muito aborrecido. No seu estado absurdo de calma, Louis nunca se sentira to capaz de analisar as 
pessoas. Talvez fosse apenas uma iluso, mas, naquele momento mesmo, desconfiou que Steve estaria pensando que um jorro sbito de sarcasmo, esguichado com um punhado 
de blis, era prefervel ao anterior estado de desligamento da realidade.
    - No se preocupe - disse a Steve. - Que tal o Benjamin's?
    - Certo - disse Steve. - O Benjamin' s esta timo.
    Louis dera o telefonema do gabinete do agente funerrio. Na sada, ao passar pela Sala Leste, viu que estava quase vazia, mas Irwin e Dory Golclman continuavam 
sentados na primeira fila, as cabeas curvadas. Louis achou que iam ficar ali para sempre.

    O        Benjamin's foi a escolha certa. Bangor era uma cidade onde se almoava cedo e por volta de uma da tarde o restaurante j estava quase deserto. Jud fora 
junto com Steve e Rachel e todos comeram galinha frita. Durante o almoo, Rachel foi at o banheiro e demorou tanto tempo que deixou Steve nervoso. Ele estava  
beira de pedir  garonete que fosse verificar, quando Rachel voltou, os olhos vermelhos.
    Louis comeu um pouco da galinha e tomou bastante cerveja Schlitz; Jud acompanhou-o copo a copo, falando pouco.
    Os pratos voltaram quase intactos, e com seu discernimento meio sobrenatural Louis viu a garonete, uma moa gorda de rosto bonito, debater-se intimamente sem 
saber se devia ou no perguntar se haviam gostado da comida, dar outra olhada nos olhos vermelhos de Rachel e concluir que a pergunta seria inoportuna. Durante o 
caf, de forma brusca e bastante desagradvel, Rachei disse uma coisa que chocou a todos (particularmente a Louis, que comeava a ficar sonolento com a cerveja).
    - Vou dar as roupas dele para o Exrcito da Salvao.
    - Vai? - Steve perguntou um momento depois.
    - Vou - disse Rachel. - De qualquer modo, j esto bem usadas. Todos os casacos.. . as calas de veludo.. . as camisas. Algum ficar contente em receb-las. 
Ainda podem ser muito teis. Exceto,  claro, as roupas que ele estava vestindo. Essas esto... destroadas.
    A ltima palavra causou um choque terrveL Rachel ainda tentou beber o caf, mas foi intil. Logo estava soluando com o rosto nas mos.
    Foi um momento esquisito. Havia linhas de tenso se cruzando sobre a mesa, mas, de repente, todas pareceram convergir para Louis. Ele percebeu a coisa com aquele 
mesmo discernimento meio sobrenatural que experimentava desde a manh. De todas as suas percepes, alis, aquela foi a mais ntida, a mais certa. Mesmo a garonete 
sentia as linhas convergentes no ar. Louis observou-a ficar imvel por um instante diante de uma mesa ao fundo, onde arrumava guardanapos e talheres. De incio, 
ficou um tanto confuso, mas depois entendeu: esperavam que ele consolasse a mulher.
    No podia fazer isso. Queria fazer. Sabia que era o seu dever. Mesmo assim, no podia. Foi o gato que se atravessou em seu caminho. Sbita e inexplicavelmente. 
O gato. A porra do gato. Church com todos os camundongos estraalhados, com os pssaros que ps pra sempre fora de forma. Quando os encontrava, Louis limpava prontamente 
a sujeira, sem queixa nem comentrio, sem absolutamente qualquer protesto. Tinha, afinal, arranjado a sarna para se coar. Mas ser que tambm era responsvel pelo 
o que acontecera a Gage?
        Olhou para os dedos. Observou os prprios dedos. Viu os dedos rasparem de leve nas costas da jaqueta de Gage. Ento a jaqueta de Gage escapou. Gage escapou.
    Olhou para a xcara de caf e deixou a esposa chorando ao lado dele. No procurou consol-la.
        Aps um momento (provavelmente um momento bem curto em termos do tempo dos relgios, mas que no deixou de parecer longo a todos eles), Steve ps o brao 
em volta de Rachel e apertou-a carinhosamente. Seus olhos caram sobre os de Louis - um ar de irritao. Louis desviou o olhar para Jud, mas Jud olhava para baixo, 
como se estivesse envergonhado. No havia ajuda ali.
          - Sabia que ia acontecer alguma coisa desse tipo - disse Irwin Goldman.
          Foi assim que a confuso comeou.
      - J sabia disso quando ela se casou com voc. "Vai comer o po que o diabo amassou e muito mais", eu disse. E agora olhe isso... Este caos.
          Louis olhou violentamente para o sogro, que aparecera diante dele como se tivesse sado de uma caixa de surpresas, um maligno boneco de barrete; depois, 
instintivamente, olhou para onde Rachel devia estar, perto do livro sobre o suporte (o turno da tarde era dela, que no comparecera de manh), mas Rachel se fora.
         Na parte da tarde, o velrio estava menos freqentado. Aps mais ou menos meia hora, Louis foi para a primeira fila de cadeiras e ficou ali sentado, perto 
do corredor, consciente de muito pouca coisa (marginalmente consciente do mau cheiro das flores saturando o ambiente), exceto do fato de estar muito cansado e sonolento. 
Fora s parcialmente a cerveja, ele achava que sua mente finalmente parecia pronta para se desligar por algum tempo. Sem dvida, isso no era mau. Depois de doze 
ou dezesseis horas de sono, talvez conseguisse consolar um pouco Rachel.
    Pouco depois sua cabea afundou e ele se descobriu contemplando as mos, frouxamente unidas entre os joelhos. Atrs dele, o rumor de vozes ia diminuindo. Quando 
retornou do almoo, ficou aliviado ao ver que Irwin e Dory no estavam l, mas devia ter percebido que aquela ausncia era algo bom demais para durar muito tempo.
    - Onde est Rachel?
    - Com a me. De onde nunca devia ter sado - Goldman respondeu. Tinha o estudado ar de triunfo de um homem que tivesse acabado de fechar um bom negcio. O hlito 
tinha cheiro de usque. Bastante usque. Estava na frente de Louis como um ridculo advogado de provncia diante de um homem no banco dos rus, um homem indubitavelmente 
culpado. O corpo no parecia muito firme.
    - O que voc disse a ela? - Louis perguntou, sentindo agora um incio de pnico. Sabia que Goldman tinha dito alguma coisa. Estava estampado no rosto.
    - Nada alm da verdade. Eu disse: "Foi isto o que voc arranjou, casando-se contra a vontade de seus pais." Eu disse...
    - Disse isso mesmo? - Lous perguntou com ar incrdulo. - No teve coragem de dizer isso, no ?
    - Disse isso e ainda mais - Goldman respondeu. - Sempre tive certeza de que as coisas acabariam assim... Assim ou de forma parecida. Percebi o tipo de homem 
que voc era desde a primeira vez que o vi.
    Goldman se inclinou para a frente, exalando um bafo de scotch.
    - Voc nunca me enganou, seu mdicozinho metido a besta... Induziu minha filha a um casamento estpido, irresponsvel, depois a transformou numa lavadora de 
pratos, depois deixou o filho dela ser atropelado na estrada como um... um animal.
    A maioria dessas palavras no chegou a penetrar na cabea de Louis. Ele ainda se agarrava  idia de que aquele homenzinho imbecil pudesse ter...
    - Voc disse isso? - ele repetiu. - Disse mesmo isso?
    - Espero que apodrea no inferno! - disse Goldman e algumas cabeas se viraram acintosamente. Lgrimas comeavam a escorrer dos olhos castanhos e vermelhos de 
Irwin Goldman. A cabea calva brilhava sob a luz mortia das lmpadas fluorescentes. - Voc transformou minha filha adorada numa criada de cozinha... Destruiu o 
futuro dela... Levou-a embora... Deixou meu neto morrer numa estrada de provncia, uma morte suja!
    A voz elevou-se num berreiro provocador.
    - Onde voc estava? Sentado de bunda no cho enquanto ele brincava na estrada? Pensando em seus estpidos artigos mdicos? O que voc estava fazendo, seu merda? 
Seu merdinha! Assassino de crianas! A.....
    E ali estavam os dois. Ali estavam os dois, na frente da Sala Leste. Ali estavam, e Louis viu seu brao avanar. Viu a manga do palet revelar o punho da camisa 
branca. Viu o brilho suave de uma abotoadura. Rachel dera-lhe as abotoaduras no terceiro aniversrio de casamento, jamais podendo adivinhar que um dia o marido iria 
us-las para ir ao funeral do filho deles, um filho que na poca ainda nem nascera. O punho estava ali na ponta do brao. E entrou em contato com a boca de Goldman.
    Sentiu os lbios do velho achatarem, se contorcerem. Sem dvida foi uma sensao nauseante, esmagar uma lesma seria parecido. No teve qualquer satisfao fazendo 
aquilo. Sob a carne dos lbios do sogro, pde sentir a severa e firma regularidade da dentadura.
    Goldman oscilou para trs. Seu brao bateu de lado no caixo de Gage. Um dos vasos repletos de flores caiu com rudo. Algum gritou.
    Era Rachel, debatendo-se nos braos da me que tentava pux-la para trs. Todos que l estavam - um total de dez ou quinze pessoas - pareceram petrificados entre 
o susto e o constrangimento. Steve levara Jud de volta a Ludlow e Louis estava contente por ele ter feito isso. No gostaria que Jud testemunhasse aquela cena. Era 
uma coisa indecente.
    - No o machuque! - Rachel gritou. - Louis, no machuque o meu pai!
    Irwin Goldman, do bem-abastecido talo de cheques, gritou num tom estridente:
    - Gosta de bater nos velhos, no ?
    Estava sorridente entre um punhado de sangue na boca.
    - Gosta de bater nos velhos, no ? Eu j esperava por isso, seu sacana nojento. Eu j esperava por isso.
    Louis se virou e Goldman atingiu-o no pescoo. Foi um golpe com o lado da mo, desajeitado mas forte. Pegou Louis de surpresa. Uma dor paralisante, que lhe tornaria 
difcil engolir qualquer coisa nas prximas duas horas, explodiu em sua garganta. A cabea rodopiou para trs e ele caiu no corredor apoiado num dos joelhos.
    Primeiro o cheiro das flores, agora eu, pensou. O que  mesmo que diz aquela msica dos Ramones? Ei, i, vamos l!
    Achou que estava com vontade de rir, mas no havia riso dentro dele. Da garganta ferida s saiu um pequeno gemido.
    Rachel gritou outra vez.
    Irwin Goldman, a boca gotejando sangue, avanou para o genro ajoelhado e chutou-o violentamente nos rins. A dor foi como um jato de angstia. Louis apoiou-se 
no tapete para no cair de barriga no cho.
    - Voc no presta nem pra bater nos velhos, rapaz! - Goldman gritou com um entusiasmo frentico. Chutou novamente Louis, desta vez no acertando nos rins, atingindo 
o alto da ndega esquerda com o sapato preto. Louis gemeu de dor e se estatelou no tapete. O queixo bateu no cho com um baque audveL Mordeu a lngua.
    - A est! - Goldman gritou. - A est o chute no traseiro que eu devia ter dado na primeira vez em que rondou l por casa, seu bastardo. A est!
    Chutou outra vez, agora na outra ndega. Goldman ria e chorava ao mesmo tempo. Louis reparou que o velho estava com a barba por fazer - um sinal de luto.
    O agente funerrio correu na direo deles. Rachel se soltara dos braos da Sra. Goldman e tambm correu, gritando.
    Louis se virou com dificuldade e sentou-se no cho. Ento o sogro chutou-o mais uma vez, mas Louis pegou-lhe o p com as duas mos, apertou-o com fora, como 
uma bola bem defendida, e puxou o mais forte que pde.
    Goldman foi arremessado para trs, berrando, rodopiando com os braos abertos para tentar manter o equilbrio. Caiu sobre a urna "Repouso Eterno", de Gage, que 
fora fabricada na cidade de Storyville, em Ohio, e no custara nada barato.
    Oz, o Gande e Tevel acabou de cair em cima do caixo do meu filho, Louis pensou atordoado. A urna caiu do cavalete com um enorme estrondo. A ponta esquerda 
caiu primeiro, depois a direita. O trinco estalou. Apesar dos gritos e choros, apesar dos berros de Goldman (que afinal estava apenas brincando de gato e rato), 
Louis ouviu o trinco estalar.
    O        caixo no chegou a abrir, espalhando no cho, para horror de todos, os restos feridos e lgubres de Gage. Mas Louis teve a mrbida certeza de que s 
foram poupados do espetculo pelo modo como a urna caiu (pelo fato de no ter cado de lado). Podia muito bem ter cado de outro jeito. Mesmo assim, na frao de 
segundos antes da tampa encaixar de novo no trinco quebrado, ele viu alguma coisa cinzenta - a roupa que tinham trazido para envolver o corpo de Gage. E uma ponta 
rosada. Talvez a mo do menino.
    Sentado ali no cho, Louis tapou o rosto e comeou a chorar. Perdera todo interesse no sogro, no que acontecia  sua volta, nas suturas permanentes versus suturas 
que se dissolviam, no ser supremo do universo. Nesse momento, Louis Creed quis estar morto. E de repente, estranhamente, uma imagem o dominou: Gage nas orelhas de 
Mickey Mouse, Gage rindo e apertando as mos de um enorme Pateta na Main Street em Disney World. Viu a coisa com muita nitidez.
    Um dos ps do cavalete tambm cara; o outro ficou inclinado contra o tablado baixo. Um pastor poderia subir naquele tablado e fazer um panegrico. Goldman estava 
esparramado no meio das flores, tambm chorando. Pingava gua dos vasos derramados. As flores, algumas amassadas e quebradas, exalavam mais forte que nunca um perfume 
atroz.
    Rachel gritava sem parar.
    Louis no podia atend-la. A imagem de Gage nas orelhas do Mickey Mouse ia se desbotando, mas agora ele ouvia uma voz anunciando que haveria fogos de artifcio 
no encerramento daquela noite. Tapou o rosto com as mos, no querendo que ningum mais o visse, que visse sua face manchada de lgrimas, que visse sua runa, sua 
culpa, sua dor, sua vergonha e, principalmente, que lhe pressentisse o desejo covarde de estar morto, longe de todo aquele infortnio.
    O agente funerrio e Dory Goldman tiraram Rachel dali. Rachel ainda estava gritando. Mais tarde, em outra sala (uma sala que Louis presumiu que fosse reservada 
especialmente para aqueles que no suportavam a dor: a Sala dos Histricos, talvez), ficou muito silenciosa. O prprio Louis, entorpecido, mas j controlado e sabendo 
o que estava fazendo, deu-lhe uma injeo calmante - depois de insistir para que o deixassem sozinho com a mulher.


    Quando chegaram em casa, levou-a para a cama e deu-lhe outra injeo. Depois, puxou-lhe o cobertor at o queixo e contemplou o rosto muito plido, branco como 
cera.
    - Rachel, sinto muito - disse. - Daria qualquer coisa para isso no ter acontecido.
    - Tudo bem - ela respondeu com voz estranha, aptica; em seguida virou de lado, afastando-se dele.
    Louis ouviu a maante questo: Tudo bem com voc?, subindo para seus lbios, mas a fez recuar. No era uma pergunta sincera, no era o que realmente queria saber.
    - Voc est muito mal? - perguntou por fim.
    - Bastante mal, Louis - respondeu a mulher, emitindo depois um som que podia ter sido um riso. - Estou terrvel, sem dvida.
    Ainda faltava alguma coisa, mas Louis no seria capaz de fornec-la. De repente, sentiu um certo ressentimento da mulher, de Steve Masterton, da Srta. Dandridge 
com o marido que tinha um pomo-de-ado em forma de flecha, de toda a maldita turma. Por que teria de ser ele o eterno consolador? Que porra era aquela?
    Apagou a luz e saiu do quarto. Achou que tambm no conseguiria fazer grande coisa pela filha.
    Por um instante absurdo, contemplando Ellie na obscuridade do quarto, pensou estar diante de Gage; chegou a acreditar que tudo no passara de um pesadelo hediondo, 
como o sonho de Pascow levando-o pelos bosques. Por um instante, sua mente cansada agarrou-se  idia. As sombras ajudavam - havia apenas a luz oscilante da televiso 
porttil que Jud levara para o quarto de Ellie.... para ajud-la a passar as horas. As longas, longas horas.
    Mas no era Gage,  claro, era Ellie, que agora no apenas segurava o retrato em que puxava Gage no tren, como tambm estava sentada na cadeira do irmo. Trouxera 
a cadeira do quarto dele. Era uma pequena "cadeira de diretor", com o assento e as costas de lona. Atrs estava escrito: Gage. Rachel encomendara pelo correio quatro 
cadeiras daquelas. Cada membro da famlia tinha a sua, com o respectivo nome atrs.
    Ellie j era muito grande para a cadeira de Gage. Parecia muito apertada e o fundo de lona curvava-se perigosamente. Segurava a fotografia contra o peito e olhava 
a tev, onde passava um filme.
    - Ellie - disse o pai, desligando repentinamente a televiso, - hora de dormir!
    Ela conseguiu se soltar da cadeira e dobrou-a. Talvez pretendesse lev-la para a cama.
    Louis vacilou, querendo falar alguma coisa sobre a cadeira, mas resolveu ceder.
    - Quer que eu ajeite o cobertor?
    - Quero, por favor - disse ela.
    - Voc.., quer dormir com a mame esta noite?
    - No, obrigada.
    - Tem certeza?
    A menina sorriu ligeiramente.
    - Tenho. Ela puxa o cobertor.
    Louis devolveu o sorriso.
    - Vamos l, ento.
    Em vez de tentar pr a cadeira na cama, Ellie tornou a abri-la junto da cabeceira, e uma imagem absurda veio  mente de Louis: l estava o consultrio do menor 
psiquiatra do mundo.
    Enquanto mudava de roupa, Ellie ps seu retrato com Gage em cima do travesseiro. Vestiu o baby doll, pegou de novo o retrato, foi para o banheiro, pousou o retrato 
para lavar o rosto, escovar os dentes, fazer xxi e tomar o tablete de flor. Apanhou de novo o retrato e foi se deitar com ele.
    Louis se sentou ao lado da filha.
    - Ellie, quero que saiba que se continuarmos nos amando, vamos conseguir ultrapassar tudo isso.
    Cada palavra era como mover um vago repleto de fardos molhados; o esforo fazia Louis se sentir exausto.
    - Vou desejar com todo o corao - Ellie disse calmamente - e pedir a Deus para Gage voltar.
    - Ellie...
    - Deus pode traz-lo de volta se quiser. Pode fazer qualquer coisa que quiser.
    - Ellie, Deus no faz coisas desse tipo - disse Louis um tanto angustiado, sua mente revendo Church agachado na tampa do vaso sanitrio, fitando-o com aqueles 
olhos turvos quando ele estava na banheira.
    - Faz sim - disse a menina. - Na aula d catecismo, o professor nos falou sobre o Lzaro. Ele estava morto e Jesus o trouxe de volta. Disse: "Lzaro, vem para 
fora!" O professor explicou que se ele s tivesse dito "Vem para fora!", provavelmente todo mundo que estava enterrado no cemitrio teria se levantado e Deus s 
queria Lzaro.
    Um comentrio absurdo surgiu na boca de Louis (se bem que o dia tenha sido saturado de coisas absurdas):
    - Isso foi h muito tempo, Ellie.
        - Vou deixar as coisas preparadas - disse a menina. - Tenho o retrato e vou sentar na cadeira dele...
    - Ellie, voc est grande demais para a cadeira de Gage - disse Louis, pegando-lhe a mo quente, febril. - Vai quebr-la.
    - Deus no vai deixar que ela quebre.
    O        tom de Ellie era sereno, mas Louis observou as olheiras fundas.
        V-la assim partia-lhe o corao, e ele precisou desviar o olhar. Talvez quando a cadeira do irmo quebrasse, Ellie comeasse a entender um pouco melhor 
o que tinha acontecido.
    - Vou andar com o retrato e sentar na cadeira dele. Tambm vou tomar o caf da manh por ele.
    De manh, tanto Ellie quanto Gage costumavam tomar um prato de mingau de aveia. Ellie dissera uma vez que Gage devorava o mingau como um bicho-papo; s vezes 
reclamava: se o nico mingau daquela casa fosse mingau de aveia, preferia comer um ovo cozido... ou at mesmo nada.
    - Vou comer aveia mesmo que eu deteste, vou ler todos os livros com figuras do Gage e vou.., vou... voc sabe... deixar as coisas prontas....., para o caso...
    Agora ela estava chorando. Louis no procurou consol-la, limitou-se a puxar o cabelo que caa em sua testa. O que ela falava fazia um certo sentido, mesmo que 
fosse uma lgica um tanto maluca. Conservar os circuitos abertos. Conservar as coisas em ordem. Conservar Gage no presente, cem por cento presente. Recusar-se a 
deixar que ele se afastasse. Lembrar quando Gage fez isso ou aquilo... Sim, aquela foi boa... O velho Gage era um garoto incrvel! Aos poucos, a coisa iria deixando 
de parecer to ntida, iria deixando de causar tanta ansiedade. Talvez ela achasse, Louis pensou, que seria fcil demais admitir desde o primeiro momento que Gage 
estava morto.
    - Ellie, no chore mais - disse ele. - Isto vai passar.
    O        choro no ....... Chorou por quinze minutos. Na realidade, dormiu antes das lgrimas cessarem. Mas, afinal, dormiu. No andar de baixo, o relgio bateu 
dez horas no silncio da casa.
    Se  isto que voc quer, Ellie, conserve-o vivo, Louis pensou e beijou-a. Os psicanalistas provavelmente iam achar que no  nada saudvel, mas por mim tudo 
bem. Porque sei que um dia (talvez esta sexta-feira mesmo) voc vai se esquecer do retrato; vou encontr-lo sobre sua cama, neste quarto vazio, enquanto voc anda 
de bicicleta no jardim, passeia no terreno atrs da casa ou brinca na casa de Kathy McGown, fazendo roupas de bonecas na maquininha de costura dela. Gage no estar 
mais com voc, no ocupar mais todo o espao que existe em sua cabecinha de menina. Ter comeado a se tornar "uma coisa que aconteceu em 1984'. Um sopro do passado".
    Louis saiu do quarto e parou um instante no patamar da escada, pensando (no seriamente) em ir se deitar.
    Sabia do que precisava e desceu para buscar. aqui

    Louis Albert Creed estava determinado a se embriagar. No poro, havia cinco caixas de cerveja Schlitz Light. Louis bebia cerveja, Jud tambm, Steve Masterton 
idem, at a Srta. Dandridge beberia s vezes uma ou duas cervejas enquanto tomasse conta dos meninos (da menina, Louis se corrigiu, descendo a escada do poro). 
Mesmo Charlton, nas poucas vezes em que fora  casa dele, preferira cerveja (desde que fosse uma cerveja leve) a um copo de vinho. Por isso, no ltimo inverno, Rachel 
sara um belo dia e fizera a desconcertante compra de dez caixas, quando a Schlitz Light estava em promoo no supermercado Brewer A & P. Assim voc para de correr 
para o Julio's, em Orrington, toda vez que aparece algum l em casa, ela dissera. E pra de me repetir o que disse Robert Parker: qualquer cerveja no congelador 
depois dos bares fecharem  uma boa cerveja, no  isso? Ento beba a que temos em casa e pense nos dlares que est economizando.
    No ltimo inverno... Quando as coisas estavam bem. Quando as coisas estavam bem. Engraado como sua mente fizera rpida e facilmente aquela diviso crucial.
    Louis trouxe para cima uma das caixas e ps as latas no refrigerador. Pegou uma delas e abriu. Com o barulho da porta da geladeira, Church veio ondulando lento 
e enferrujado da copa e olhou interrogativamente para Louis. No chegou muito perto, talvez Louis j o tivesse chutado um nmero excessivo de vezes.
    - No h nada pra voc - disse ao gato. - J comeu sua lata de rao. Se quiser mais alguma coisa, mate um pssaro.
    Church continuou ali, os olhos fixos nele. Louis tomou metade da lata de cerveja e sentiu-a subir  cabea quase de imediato.
    - Voc nem ao menos gosta de com-los, no ? - perguntou. -Mat-los j o satisfaz.
    Church se afastou para a sala, concluindo que no conseguiria nada. Louis seguiu-o pouco depois.
    De repente, ocorreu-lhe de novo: Ei, i, vamos l!
    Louis sentou-se em sua poltrona contemplando Church. O gato estava reclinado no tapete, perto do aparelho de tev, observando Louis, talvez pronto para correr 
se Louis se mostrasse agressivo e decidido a lhe dar um chute no traseiro.
    Mas Louis apenas ergueu a cerveja.
    - A Gage - disse. - A meu filho, que podia ser um artista, um nadador olmpico ou a porra do presidente dos Estados Unidos. O que voc diz, seu gato babaca?
    Church fitou-o com aqueles olhos baos, estranhos.
    Louis bebeu o resto da cerveja em grandes goles que feriram sua garganta ainda sensvel, levantou-se, foi at a geladeira e pegou a segunda lata.
    Quando acabou a terceira, sentiu que, pela primeira vez naquele dia, recuperara um certo equilbrio. E depois de atravessar toda a primeira embalagem de seis 
latas, achou que da a mais ou menos uma hora ia conseguir dormir. Voltou da geladeira com a oitava ou nona lata (realmente j perdera a conta e comeava a andar 
em ziguezague). Seus olhos caram sobre Church: agora o gato estava sonolento no tapete (ou fingia estar). O pensamento veio to naturalmente que, sem dvida, j 
devia estar ali h muito tempo, simplesmente esperando a hora de saltar de seu esconderijo na mente.
    Quando vai pr mos  obra? Quando vai enterrar Gage no anexo do "simitrio"de bichos?
    E na esteira disso:
    Lzaro, vem para fora!
    E a voz sonolenta, entorpecida de Ellie:
    O professor explicou que se ele s tivesse dito "Vem para fora!", provavelmente todo mundo que estava enterrado no cemitrio teria se levantado.
    Louis foi atingido por um calafrio de tamanha intensidade que segurou os prprios braos quando o tremor lhe atravessou o corpo. Lembrou-se do primeiro dia de 
Ellie na escola, como Gage dormira no colo dele enquanto a menina tagarelava sobre o "Velho MacDonald" e a Sra. Berryman. Ele dissera: Deixe eu pr o Gage na cama, 
e quando levou Gage para o andar de cima foi assaltado por uma terrvel premonio, uma premonio que agora era capaz de compreender: naquele dia, em setembro, 
uma parte dele soube que Gage ia morrer em breve. Uma parte dele pressentiu que Oz, o Gande e Tevel estava  espreita. Era um absurdo, uma coisa tola, uma superstio 
besta, do tipo mais vulgar.., e, no entanto, era verdade. Ele soube. Louis derramou um pouco de cerveja na camisa e Church ergueu indagadoramente os olhos para descobrir 
se aquilo era um sinal de que o festival de chute ao gato ia comear.

    Louis se lembrou da pergunta que fizera a Jud; lembrou-se do modo como o brao de Jud tinha tremido, derrubando duas garrafas de cerveja vazias que havia na 
mesa. Uma delas tinha quebrado. Nem devia fazer essa pergunta, Louis!
    Mas ele queria fazer a pergunta - ou pelo menos pensar nela. O "simitrio" de bichos. O que estava alm do "simitrio" de bichos. A idia exercia uma atrao 
fatal. Havia um equilbrio lgico que era impossvel negar. Church fora morto na estrada; Gage fora morto na estrada. L estava Church (diferente,  claro, at mesmo 
desagradvel sob certos aspectos), mas l estava ele. Ellie, Gage, Rachel, todos mantinham um relacionamento bastante razovel com o gato. Ele matava pssaros, certo, 
e virava alguns camundongos pelo avesso, mas matar pequenos animais era coisa normal num gato. Church de modo algum se transformara num gato Frankenstein. Sob muitos 
pontos de vista, era to bom quanto antes.

    Voc est racionalizando, uma voz sussurrou. Ele no  to bom quanto antes. Ele est enfeitiado, Louis... lembra-se do corvo?
    - Meu Deus! - Louis exclamou em voz alta, num tom perturbado, trmulo, que mal conseguiu reconhecer como seu.
    Deus, oh, sim, timo, certo. Se havia um momento apropriado para invocar o nome de Deus fora de uma histria de fantasmas ou vampiros, o momento era aquele. 
Afinal em que - em que, em nome de Deus - ele estava pensando? Estava pensando numa suja blasfmia em que nem ele mesmo era capaz de acreditar completamente. Pior, 
estava mentindo para si mesmo. No apenas racionalizando, mas simplesmente mentindo.
    Ento qual  a verdade? Voc est querendo tanto a porra da verdade,e qual  a verdade?
    A verdade  que Church no era mais absolutamente um gato - comece por a. Parecia um gato, agia como um gato, mas na realidade era apenas um pobre arremedo. 
As pessoas, sem dvida, no podiam compreender este arremedo, mas podiam senti-lo. Lembrou-se de uma noite em que Charlton fora visit-los. Era um pequeno jantar 
pouco antes do Natal. Depois da refeio, estavam conversando na sala e Church pulou no colo dela. Charlton empurrara imediatamente o gato, um rpido e instintivo 
esgar de averso repuxando-lhe a boca.
    A coisa passara em branco. Ningum fizera comentrios. Mas... foi o que houve. Charlton sentira que havia alguma coisa errada com o gato.
    Louis acabou de entornar a cerveja e saiu em busca de outra. Seria uma obscenidade se Gage voltasse modificado daquela maneira.
    Fez a ala da lata pipocar e tomou um grande gole. Estava bbado, realmente bbado, e amanh estaria com a cabea em pandarecos. Com Fui de Ressaca ao Enterro 
de Meu Filho, por Louis Creed, autor de Como No Consegui Segur-lo no Momento Decisivo e vrias outras obras.
    Bbado. Certo. E suspeitava agora de que se embriagara porque no seria capaz de pensar naquela idia maluca em estado sbrio.
    A despeito de tudo, a idia tinha aquela atrao fatal, aquele brilho angustiante, aquele fascnio. Sim, sobretudo isso... Fascnio.
    Sentiu Jud atrs dele, falando dentro de sua mente:
    Voc fez isso porque a coisa se apoderou de voc. Agiu daquela maneira porque aquele cemitrio  um lugar secreto e voc queria compartilhar do segredo... Inventamos 
razes... E elas sempre parecem boas razes....... Mas em geraL agimos assim simplesmente porque queremos. Ou porque temos de agir assim.
    A voz de Jud, baixa e arrastada, cheia de inflexes do norte, a voz de Jud lhe dava calafrios, lhe arrepiava a pele, fazia os plos do cabelo na nuca ficarem 
em p.
    H coisas secretas, ..... . O solo do corao de um homem  mais empedernido.., como o solo no velho cemitrio micmac. Mas um homem planta o que pode... e cuida 
do que plantou.
    Louis comeou a passar em revista as outras coisas que Jud lhe dissera sobre o cemitrio micmac. Comeou a conferir os dados, a classific-los, a sintetiza-los, 
exatamente como fazia quando se preparava para os exames mais importantes na faculdade de medicina.
    O cachorro. Spot.
    Pude ver os lugares onde o arame farpado o ferira... No havia plo em nenhum desses pontos e a carne parecia meio franzida.
    O touro. Outra ficha aberta na mente de Louis.
    Lester Morgan enterrou um touro premiado l em cima. Um touro escocs preto, chamado Hanratty.. . Lester arrastou-o num tren at o cemitrio micmac.. . matou-o 
com um tiro duas semanas depois. O touro se tornara traioeiro, realmente traioeiro. Mas foi o nico animal com quem isso aconteceu.
    Ele se tornou traioeiro.
    O solo do corao de um homem  mais empedernido.
    Ele se tomou realmente traioeiro.
    Foi o nico animal com quem isso aconteceu.
    Mas fez isso principalmente porque se esteve l em cima, aquele  o seu lugar.
    A carne parecia meio franzida.
    Hanratty.. . Parece nome de touro?
    Um homem planta o que pode... e cuida do que plantou.
    So meus ratos. E meus pssaros. Eu enganei os babacas.
     seu lugar, um lugar secreto. Ele pertence a voc e voc pertence a ele.
    Ele se tornou traioeiro, mas foi o nico animal com quem isso aconteceu.
    O que voc pretende fazer mais tarde, Louis, quando o vento soprar com fora no meio da noite e a lua estender um caminho branco atravs dos bosques at aquele 
lugar? No quer subir de novo aqueles degraus? Quando as pessoas esto vendo um filme de terror acham sempre que o heri ou a herona so estpidos porque sobem 
aqueles degraus, mas na vida real as pessoas sempre agem assim... Fumam, no usam cintos de segurana, mudam-se com a famlia para a margem de estradas movimentadas, 
onde as grandes jamantas ficam passando dia e noite de um lado para o outro. E ento, Louis, o que voc me diz? Quer subir os degraus? Pretende conservar seu filho 
morto ou avanar para o que est atrs da Porta Nmero Um, Porta Nmero Dois, Porta Nmero Trs?
    Ei, i, vamos l!
    Ele se tornou traioeiro... o nico animal... a carne parecia.., um homem... seu... dele...
    Sentindo que ia vomitar, Louis despejou o resto da cerveja na pia. A sala oscilava em grandes movimentos giratrios.
    Houve uma batida na porta.
    Durante um bom tempo (pelo menos o tempo pareceu bastante longo), acreditou que fosse apenas em sua cabea, uma alucinao... Mas a batida continuou, paciente, 
sem parar, implacvel. E de sbito Louis se descobriu pensando na histria da mo do macaco e um terror frio deslizou para dentro dele. Parecia sentir aquela mo 
com total realidade fsica... Era como uma mo sem vida que tivesse sido conservada numa geladeira, mo que bruscamente revivia sem corpo, e deslizava por dentro 
de sua camisa para lhe apertar a carne sobre o corao. Era uma imagem tola, tola e de mau gosto, mas, oh, ele no a sentia como uma coisa tola. No!
    Caminhou at a porta. Andou com ps que no podia sentir e levantou o trinco com dedos inseguros. Quando puxou a porta, pensou:
     Pascow. De volta do tmulo e maior do que nunca, como dizem de Jm Morrison. Pascow a de p no calo de ginstica, cheio de vida, mas bolorento como po 
h um ms dormido. Pascow com sua horrvel cabea destroada, Pascow trazendo novamente o aviso: no v l em cima. Como era aquela velha msica do The Animals? 
Meu bem, por favor, no v, meu bem POR FAVOR no v, voc sabe que eu a amo, meu bem, por favor, no v...
    A porta escancarou e ali no degrau, de p no escuro, no vento daquele meio de noite entre o dia do velrio de Gage e o dia do enterro, ali estava Jud Crandall. 
O ralo cabelo branco era soprado na friorenta escurido.
    Louis procurou dar uma risada. O tempo parecia ter voltado agilmente para o passado. De novo era o Dia de Ao de Graas. Logo colocariam o corpo rgido e insolitamente 
pesado do gato de Ellie, Winston Churchill, num saco plstico de lixo e se poriam a caminho. Oh, no me pergunte o que h; vamos logo fazer nossa visita.
    - Posso entrar, Louis? - Jud perguntou. Tirou um mao de Chesterfield do bolso da camisa e ps um deles na boca.
    - Escute - disse Louis -,  tarde e tomei uma pilha de cerveja.
    - Ahn, eu posso sentir at o cheiro.
    Jud riscou um fsforo, O vento apagou. Riscou outro fsforo fazendo concha com as mos, mas as mos tremeram e deixaram de novo o fsforo ao sabor do vento. 
Pegou um terceiro fsforo, preparou-se para risc-lo e ento ergueu os olhos para Louis, de p no umbral da porta.
    - No consigo acender esta coisa - disse Jud. Vai me deixar entrar ou no?
    Louis se ps de lado para Jud passar.
    Sentaram-se  mesa da cozinha diante de latas de cerveja. A primeira vez que Jud p6e os ps em nossa cozinha, Louis pensou, um tanto surpreso. Quando estavam 
atravessando a sala, Ellie gritara no meio do sono e os dois tinham se congelado como bonecos de algum jogo infantil. O grito, porm, no havia se repetido.
    - Muito bem - disse Louis -, o que voc est fazendo aqui  meia-noite e quinze do dia em que meu filho vai ser enterrado? Voc  amigo, Jud, mas isto j  exagerar 
um pouco.
    Jud tomou a cerveja, limpou a boca com as costas da mo e encarou Louis. Havia alguma coisa clara e positiva naquele olhar, mas Louis acabou se desviando dele.
    - Voc sabe por que estou aqui - disse Jud. - Voc est pensando em coisas que no devem ser pensadas, Louis. Pior ainda, tenho medo de que esteja pensando seriamente 
nelas.
    - No estava pensando em coisa alguma, a no ser em ir me deitar - disse Louis. - Tenho um enterro amanh.
    - Hoje  noite h uma angstia extra no seu corao, um sofrimento alm do que seria normal, e eu sou responsvel por isso - Jud falou em voz baixa. - Pelo que 
sei, posso ter sido at mesmo responsvel pela morte de seu filho.
    Louis ergueu os olhos, sobressaltado.
    - O qu!?... Jud, no fale bobagem!
    - Voc est pensando em lev-lo l pra cima - disse Jud. - No negue que a idia tem lhe passado pela cabea, Louis.
    Louis no respondeu.
    - At que ponto vai a influncia daquele lugar? - disse Jud. - Seria capaz de me dizer? No,  daro. Eu tambm no saberia responder, e olhe que vivi toda a 
minha vida neste canto do mundo. Sei alguma coisa sobre os micmacs, e aquele lugar sempre foi considerado uma espcie de lugar sagrado para eles.., mas no num bom 
sentido. Stanny B me contou. Meu pai tambm me contou, mais tarde, depois que Spot morreu pela segunda vez. Agora os micmacs, o estado do Maine e o governo dos Estados 
Unidos esto brigando na justia pela posse dessas terras. Quem de fato as possui? Na verdade ningum sabe, Louis. Ningum sabe mais. De tempos em tempos, muita 
gente tem reivindicado as terras, mas a coisa nunca ficou resolvida. Anson Ludlow, o bisneto do pai do fundador da cidade,  um exemplo. Sua reivindicao talvez 
fosse a mais justificada dentre os pretendentes brancos, pois Joseph Ludlow, o Velho, teve tudo isso como concesso do Bom Rei Jorge, um privilgio da poca em que 
o Maine era apenas uma grande provncia da Colnia da Baa de Massachusetts. Mas at mesmo ele enfrentou muitos problemas em juzo porque havia outras reivindicaes 
se cruzando com a dele. Outros Ludlow queriam a rea, e tambm um sujeito chamado Peter Dimmart, que alegava poder provar de forma bastante convincente que, por 
debaixo dos panos, tambm era um Ludlow. . . No fim da vida, Joseph Ludlow, o Velho, tinha pouco dinheiro, mas possua muitas terras e, de vez em quando, simplesmente 
presenteava com duzentos ou quatrocentos acres algum que tivesse cado em suas boas graas.
    - No h registro de nenhuma escritura? - Louis perguntou, fascinado apesar de tudo.
    - Oh, nossos antepassados eram todos rudes demais para registrar escrituras - Jud respondeu, acendendo outro cigarro na ponta do anterior. - A concesso original 
da terra diz o seguinte...
    Jud fechou os olhos e citou:
    - "Do grande e velho bordo que se acha localizado no alto da Crista Quince berry at  beira do Riacho Orrington; assim corre o traado de norte a sul."
    Jud sorriu sem muito humor.
    - Mas dizem que o velho e grande bordo caiu em 1882. Por volta de 1900 j estava totalmente apodrecido e coberto de musgo. O Riacho Orrington, por sua vez, foi-se 
cobrindo de lodo e transformou-se num pntano nos dez anos entre o fim da Grande Guerra e a quebra da Bolsa de Valores. Um problema e tanto esse estouro da bolsa, 
hein! De qualquer modo, no chegou a prejudicar o velho Anson. Ele foi atingido e morto por um raio em 1921, bem no lugar onde est aquele cemitrio dos micmacs.
    Louis fitava Jud. Jud sorvia a cerveja.
    - No importa. H muitos lugares onde o problema da posse  to complicado que nunca fica resolvido e s serve para os advogados ganharem dinheiro. Coisas do 
diabo! Mas acho que, no fim, os ndios vo conseguir de volta essas terras e acho que  o mais certo. . . No importa, Louis. Vim aqui esta noite para lhe falar 
de Timmy Baterman e do pai dele.
    - Quem  Timmy Baterman?
    - Timmy Baterman foi um dos vinte e poucos rapazes de Ludlow que foi lutar contra Hitler l fora. Partiu em 1942. Voltou em 1943, numa urna com uma bandeira 
em cima. Morreu na Itlia. O pai, Bill Baterman, viveu toda a vida nesta cidade. Quase enlouqueceu quando recebeu o telegrama... mas depois se acalmou. Sabia da 
histria do cemitrio micmac... e logo percebeu o que estava disposto a fazer.
    O calafrio voltou. Louis encarou Jud por um longo tempo, tentando ler a mentira nos olhos do velho. No havia mentira neles. Mas o fato daquela histria vir 
 superfcie naquele momento parecia extremamente conveniente.
    - Por que no me contou isto naquela noite? - disse Louis por fim.- Depois daquilo... Depois daquilo que fizemos com o gato? Quando perguntei se j tinham enterrado 
algum l em cima, respondeu que no.
    - Porque voc no precisava saber - disse Jud. - Mas agora precisa.
    Louis ficou um longo tempo em silncio.
- Ele foi o nico?
        - O nico de quem eu soube - Jud respondeu num tom grave. - Mas se foi o nico a passar por isso? Duvido, Louis. Duvido muito. Gosto bastante daquele sermo 
do Eclesiastes - Eu no acredito que haja qualquer coisa nova sob o sol. Oh, s vezes o brilho que cintila sobre uma coisa se modifica, mas isso  tudo. O que foi 
experimentado uma vez j foi experimentado antes.., e antes... e antes.
    Jud baixou o olhar para as mos manchadas. Na sala, o relgio bateu suavemente a meia-noite e meia.
    - Acredito que um homem com sua profisso esteja acostumado a observar os sintomas para descobrir as doenas que se escondem sob eles... e cheguei  concluso 
de que devia lhe falar sem rodeios quando Mortonson da casa funerria me contou que voc havia encomendado uma sepultura comum em vez de um tmulo fechado.
    Louis fitou-o por um longo tempo, sem nada dizer. Jud ficou muito vermelho, mas no desviou o olhar.
    - Parece que est ficando um tanto bisbilhoteiro - disse Louis por fim. - Isso  um pouco chato.
    - Mas no perguntei nada a ele.
    - No diretamente, talvez.
    Jud no respondeu. Embora seu rubor ficasse ainda mais carregado (a pele do rosto se aproximou de uma colorao arroxeada), os olhos no tremeram.
    Finalmente, Louis suspirou. Sentia-se muito cansado.
    - Oh, merda. No importa. Talvez voc tenha razo. Talvez a coisa estivesse em minha mente. Mas se estava, era no fundo. No pensei muito no tipo de sepultura 
que encomendei. Estava pensando em Gage.
    - Sei que estava pensando em Gage. Mas voc sabe a diferena. Seu tio era agente funerrio.
    Sim, ele sabia a diferena. Um tmulo fechado era feito de cimento, uma coisa destinada a durar muito, muito tempo. O cimento formava uma urna retangular reforada 
com vigas de ao e, depois da cerimnia fnebre, um brao mvel abaixava uma tampa de concreto ligeiramente curva sobre o tmulo. A tampa era selada com uma substncia 
semelhante ao asfalto derretido que os departamentos de estradas de rodagem usam para tapar buracos. O tio Carl contara a Louis que esse material (marca registrada 
"Sempre Trancado") adquiria um fantstico poder de vedao depois de estar completamente seco.
    O tio Carl, que como todo mundo gostava de contar suas lorotas (pelo menos quando estava em companhia de colegas de profisso, e encarava Louis, que trabalhou 
alguns veres com ele, como uma espcie de aprendiz de agente funerrio), falou ao sobrinho de uma exumao que fizera por ordem do procurador municipal do Condado 
de Cook. Tio Carl fora a Groveland para supervisionar o trabalho. Essas coisas so complicadas, ele dizia, e as pessoas .cujas idias sobre exumao vm dos filmes 
de terror com Boris Karloff como o monstro do Dr. Frankenstein e Dwight Frye como Igor tm uma viso inteiramente fantasiosa. Abrir um tmulo lacrado no era trabalho 
para dois homens com ps e picaretas - a no ser que dispusessem de seis semanas para fazer a coisa. Mas o tempo costumava ser mais curto. O tmulo era aberto com 
um guindaste colocado  beira da sepultura. Ao contrrio do que se supunha, porm, no se tratava simplesmente de puxar a tampa. Toda a sepultura, as paredes de 
concreto j um pouco midas e manchadas, era arrancada cio cho. Tio Cal gritou para o operador do guindaste recuar. Queria voltar  funerria e apanhar alguma coisa 
que pudesse enfraquecer um pouco a fora do lacre.
    Das duas uma, ou o operador do guindaste no ouviu ou resolveu continuar por sua prpria conta, como um menino num guindaste de brinquedo, com alavancas de plstico, 
tentando derrubar um castelo de cartas. Segundo tio Carl, o estpido operador quase acabou cavando a prpria sepultura. A carneira j fora puxada em trs quartos 
da sua extenso (tio Carl e seu assistente podiam ouvir a gua gotejando do fundo da urna de cimento; tinha sido uma semana de muita chuva na regio); de repente, 
o guindaste tombou e projetou-se com um baque sobre o tmulo. O operador bateu no pra-brisas e quebrou o nariz. As brincadeiras daquele dia custaram ao Condado 
de Cook cerca de trs mil dlares; dois mil e cem dlares a mais que o preo normal daquelas divertidas operaes. Na opinio do tio Carl, o ponto central da histria 
era que, seis anos depois, o operador do guindaste foi eleito presidente do sindicato local de operadores de mquinas.
    Sepulturas comuns eram coisas mais simples. Na realidade, no passavam de modestas caixas de concreto abertas em cima. So colocadas no buraco da sepultura na 
manh do funeral. Ao trmino da cerimnia, baixa-se o caixo para o seu interior. Os coveiros, ento, trazem a tampa, que geralmente se divide em duas partes. Essas 
partes so ariadas verticalmente nas extremidades do tmulo, ali permanecendo como suportes de livros. Cada uma dessas partes tem anis de ferro encaixados nas pontas. 
Os coveiros passam correntes por eles e as arreiam suavemente sobre a boca do tmulo. Cada segmento da tampa pesa cerca de trinta, talvez trinta e cinco quilos -quarenta, 
no mximo. E no  usado qualquer tipo de lacre.
    Um homem abriria uma sepultura dessas com razovel facilidade; era isso que Jud estava insinuando.
    Seria razoavelmente fcil um homem desenterrar o corpo do filho e sepult-lo em outro lugar.
Chiiii.. . chiii. No vamos falar dessas coisas. Sio coisas secretas.
    - Sim, acho que conheo a diferena entre um tmulo fechado e uma sepultura comum - disse Louis. - Mas eu no estava pensando em... em que voc acha que eu estava 
pensando?...
    - Louis...
    -  tarde - disse Louis. -  tarde, estou bbado e com dor de cabea. Se tem alguma histria para contar, comece logo e acabe logo com ela.
    Talvez eu devesse ter bebido martinis, Louis pensou. Assim j estaria suficientemente inconsciente quando ele bateu.
    - Tudo bem, Louis. Obrigado.
    - V em frente.
    Jud parou um momento para pensar e comeou a fala.
        -Naquele tempo (foi durante a guerra), o trem ainda parava em Orrington e Bill Baterman tinha um carro fnebre estacionado na plataforma,  espera do trem 
de carga que traia o corpo do filho Timmy. O caixo foi descarregado por quatro ferrovirios. Eu era um deles. No trem, vinha um sujeito do exrcito encarregado 
do registro de bitos, uma espcie de verso militar de agente funerrio, Loms, comum em tempo de guerra... Mas o homem no saltou. Estava bbado, sentado num dos 
vages de carga ao lado de doze outros caixes.
      "Pusemos Timmy na traseira de um Cadillac fnebre (naquele tempo ainda se ouvia algumas pessoas chamarem os carros fnebres de 'carruagens rpidas', porque 
antigamente a preocupao maior era fazer os corpos chegarem ao cemitrio antes de apodrecer). Bill Baterman acompanhou tudo, o rosto duro como pedra, incrivelmente. 
. .eu no sei... incrivelmente seco, eu acho. No deixava cair uma lgrima. Naquele dia, o maquinista do trem era Huey Garber e ele contou que sem dvida o sujeito 
do exrcito estava fazendo uma viagem muito longa. Disse que o homem j entregara um vago repleto daqueles caixes em Limestone, Presque Isle, e a partir de l 
ele e os caixes tomaram o rumo suL
    "O sujeito do exrcito se aproximou de Huey, tirou uma garrafinha de usque barato do bolso do uniforme e disse naquele sotaque macio e arrastado do sul: 'Bem, 
Seu Maquinista, hoje o senhor est levando o trem da morte, sabia disso?'
    "Huey balanou a cabea.
    "'Bem, est mesmo. Isso  o que chamam de trem fnebre l no Alabama.' Huey diz que o sujeito tirou uma lista do bolso e passou os olhos nela. 'Agora temos de 
deixar dois caixes em Houlton, depois temos um para Passadumkeag, dois para Bangor, um para Derry, um para Ludlow e por a vai. Estou me sentindo um leiteiro meio 
fedorento. Quer um gole?'".
    "Bem, Huey no quis beber alegando que Bangor e Aroostook eram muito rgidas no que dizia respeito a maquinistas com bafo de usque, mas o sujeito do registro 
de bitos props que um fizesse vista grossa  bebedeira do outro. 'Apertamos as mos e ficou tudo bem', disse Huey".
    "E assim continuaram, descarregando aqueles caixes cobertos com bandeiras a cada uma ou duas estaes. Entregaram dezoito ou vinte naquele dia. Huey contou 
que a coisa continuou assim at Boston, e em cada parada havia parentes chorando e gemendo. Menos em Ludlow. .. E em Ludlow ele ficou assustado ao ver a cara de 
Bill Baterman. Bill, disse ele, parecia estar morto por dentro, s  espera de que a alma subisse para comear a cheirar mal. No fim do dia, Huey acordou o sujeito 
do exrcito e os dois fizeram uma farra (beberam quinze ou vinte copos). Huey ficou mais embriagado do que nunca, foi para uma casa de putas, o que nunca fizera 
em toda a sua vida, e acordou com uma quantidade de chatos to grande e repulsiva que chegava a se arrepiar. Disse que se o trem fosse o que chamavam trem da morte, 
nunca mais queria voltar a conduzir um deles".
    "O corpo de Timmy foi levado para a Casa Funerria Greenspan, na Rua Fern (ficava do outro lado de onde agora  a Lavanderia New Franklin). Dois dias depois, 
foi enterrado no Cemitrio da Boa Vista com todas as honras militares".
    "Bem,  o que eu lhe digo, Louis, a Sra. Baterman j estava morta h dez anos. Morrera com a segunda criana que tinha tentado trazer ao mundo, e isso teve muito 
a ver com o que aconteceu. Um segundo filho podia ter ajudado a aliviar a dor, voc no acha? Um segundo filho podia ter feito o velho Bill no esquecer que havia 
outros sentindo a mesma dor que ele, outros que dependiam da ajuda dele para superar a crise. Acho que, pelo menos sob esse ponto de vista, voc teve mais sorte, 
isto , ainda tem uma filha e tudo mais... Uma filha e uma esposa, vivas e bem de sade".
    "Segundo a carta que Bill recebeu do tenente encarregado do peloto do filho, Timmy foi baleado a 15 de julho de 1943, na estrada que ia para Roma. O corpo foi 
embarcado para a Amrica dois dias depois e chegou a Limestone no dcimo nono dia. J na manh seguinte era colocado no trem da morte de Huey Garber. A maioria dos 
praas que morriam na Europa eram enterrados na Europa, mas todos os rapazes que voltaram para casa naquele trem eram casos especiais. Timmy morrera atacando um 
ninho de metralhadoras e, aps a morte, ganhou a Estrela de Prata.
    "Timmy foi enterrado... No posso jurar, mas acho que foi em 22 de julho... Quatro ou cinco dias depois, Marjorie Washburn, que naquele tempo entregava a correspondncia 
do correio, viu Timmy caminhando pela estrada na direo da cocheira do Velho York. Bem, Marjorie, que chamavam de Margie, quase atirou o carro fora da estrada e 
voc pode imaginar por qu. Voltou para os correios, jogou a sacola de couro cheia de cartas ainda no entregues em cima da escrivaninha de George Anderson e disse 
que ia pra casa dormir.
    "'Margie, voc est doente?', George perguntou. 'Est branca como asa de gaivota.'".
    "'Levei o maior susto de minha vida e no quero falar sobre isso disse Margie Washburn. 'Tambm no vou tocar no assunto com Brian, nem com minha me, nem com 
ningum. Quando eu for para o cu, se Jesus me pedir pra contar a ele, a talvez eu conte. Mas no tenho muita certeza.' Depois foi embora.
    "Todo mundo sabia que Timmy tinha morrido; o anncio do enterro sara uma semana antes no Daily News de Bangor e no American de Ellsworth, com retrato e tudo. 
Metade dos moradores da regio acompanharam o enterro at a cidade. E de repente Margie o encontrava, caminhando pela estrada - cambaleando pela estrada, ela finalmente 
revelou a George Anderson... mas s vinte anos depois, no leito de morte. George me disse que ela parecia ter necessidade de contar a algum o que havia visto. George 
achava que a coisa devia estar pesando na cabea dela, voc sabe...
    "Timmy estava plido, ela confessou, usava calas muito largas e uma surrada e desbotada camisa de flanela, embora naquele dia a temperatura fosse de mais ou 
menos trinta e dois graus  sombra. Margie tinha sentido todo o seu cabelo se arrepiar. 'Os olhos dele eram como passas enfiadas em massa de po. Vi um fantasma, 
Georgie. Foi isso o que me assustou tanto. Nunca pensei que veria uma coisa dessas, mas vi.'
    "Bem, para encurtar histria, logo algumas outras pessoas tambm viram Timmy. A Sra. Stratton, bem, ns a chamvamos de "Dona" e ningum sabia se era solteira, 
divorciada ou desquitada. Morava numa pequena casa de sala e quarto ali onde a Estrada Pedersen se junta com a Estrada Hancock. Stratton tinha um monte de discos 
de jazz e s vezes deixava voc participar de uma festinha com ela se voc tivesse alguma nota de dez dlares que no fosse fazer muita falta. Bem, ela viu Timmy 
da varanda. Disse que o rapaz atravessou a estrada e parou no acostamento.
    "Simplesmente ficou ali parado, ela disse, as mos balanando ao lado do corpo, a cabea um pouco curvada, como um lutador de boxe  beira de receber um nocaute. 
Stratton ficou parada na varanda, o corao a cem por hora, apavorada demais para se mexer. Ento disse que ele se virou e parecia um bbado tentando dar meia-volta. 
Uma perna foi  frente, a outra quis se virar para trs e ele quase caiu. A Dona disse que ele olhou em sua direo. ela sentiu as mos perderem a fora. Deixou 
cair um cesto com a roupa que acabara de lavar e a roupa se esparramou no cho, sujando-se toda de novo.
    "Disse que os olhos de Timmy ..... . disse que pareciam mortos e turvos como bolas de gude, Louis. Mas ele a viu.., e ....... e Stratton contou que falou com 
ela. Perguntou se ainda tinha aqueles discos, porque gostaria de ouvir um pouco de vitrola ao lado dela. Talvez naquela noite mesmo. E a Sra. Stratton se trancou 
dentro de casa, ficou quase uma semana sem sair, e custou muito a se recuperar do susto.
    "Muita gente viu Timmy Baterman. Muitos esto mortos agora, a Sra. Stratton por exemplo. Outros se mudaram. Mas ainda sobraram alguns velhos faladores como eu 
que podero contar a histria... se algum souber lhes perguntar.
    "Ns o vimos,  o que estou lhe dizendo, andando pra l e pra c na Estrada Peclerson, um quilmetro e meio para leste da casa do pai e um quilmetro e meio 
para oeste. Ia de um lado pro outro, de um lado pro outro o dia todo, e pelo que se dizia, a noite toda. Camisa amassada, rosto plido, cabelo espigado, cala s 
vezes aberta e aquele olhar... aquele olhar..
    Jud fez uma pausa para acender um cigarro, depois apagou o fsforo e encarou Louis por entre a nuvem dealizante de fumaa azul. E embora a histria fosse,  
claro, inteiramente absurda, no havia trao de mentira em seus olhos.
    - Voc sabe, existem essas histrias e esses filmes (no sei se so verdadeiros) sobre os zumbis l do Haiti. Nos filmes, eles simplesmente saem cambaleando 
por a, os olhos mortos olhando fxamente em frente, um passo muito lento, o corpo meio torto. Timmy Baterman era assim, Louis, como um zumbi num filme, mas no 
era s isso. Havia mais alguma coisa. Havia alguma coisa em movimento atrs dos olhos dele. s vezes se podia notar e s vezes no. Alguma coisa atrs dos olhos 
dele, Louis. No acho que se possa chamar aquilo de pensamento. No sei que maldito nome se poderia dar.
    "Antes de mais nada, era um olhar malicioso. O olhar com que devia ter dito  Sra. Stratton que queria ouvir discos com ela. Havia alguma coisa se passando ali, 
mas no acredito que fosse pensamento e no acredito que tivesse muito a ver (talvez no tivesse nada a ver) com Timmy Baterman. Lembrava mais um... um sinal de 
rdio que viesse de algum lugar. Quando se olhava pra ele, uma idia vinha logo  cabea: 'Se ele encostar a mo em mim, vou dar um grito.' Era assim.
    "Ia de um lado pro outro, pra cima e pra baixo da estrada. E um dia, quando cheguei do trabalho (deve ter sido, oh, digamos que mais ou menos a 30 de julho), 
encontrei George Anderson, o encarregado dos correios, sentado na varanda de trs, tomando mate com Hannibal Benson, que era ento nosso segundo representante no 
conselho municipal, e Alan Purinton, que era o chefe dos bombeiros. Norma tambm estava sentada l, mas no dizia uma palavra.
    "George no parava de esfregar o toco da perna direita. Tinha perdido quase toda a perna num acidente na estrada de ferro e o toco o incomodava demais nos dias 
quentes e abafados. Mas sofrendo ou no, l estava ele.
    "'Isto j foi longe demais', George me disse. 'Em primeiro lugar, Magie no quer mais entregar a correspondncia na Estrada Pedersen. E em segundo lugar, a coisa 
est comeando a criar problemas com o governo.'
    "'Como est criando problemas com o governo?', perguntei.
    "Hannibal ento disse que recebera um telefonema do Ministrio da Guerra. Um tenente chamado Kinsman, cuja funo era impedir que uma ou outra intriga cercando 
os militares adquirisse propores maiores. 'Quatro ou cinco pessoas escreveram cartas annimas para o Ministrio da Guerra', explicou Hannibal, 'e este Tenente 
Kinsman est comeando a ficar um pouco preocupado. Se tivesse recebido apenas uma carta, teria rido e tudo bem. Se fosse a mesma pessoa escrevendo um monte de cartas, 
chamaria a polcia estadual em Derry Baracks informando que havia um psicopata em Ludlow com muita raiva da famlia Baterman. Mas as cartas vinham de pessoas diferentes. 
Tinha certeza disso porque as caligrafias eram diferentes. E todas as.cartas diziam a mesma coisa absurda: se Timothy Baterman est morto, seu cadver anda muito 
gil pra cima e pra baixo na Estrada Pedersen, a cabea jogando de um lado pro outro.
    "'Este Kinsman vai mandar algum aqui ou talvez ele mesmo venha se a coisa no parar', Hannibal concluiu. 'Vo querer saber se Timmy est morto, ou se houve 
algum engano e ele est vivo, andando por a sem licena do comando. No gostam de imagina que possa haver algum erro em seus registros de bitos. E se houve, vo 
querer saber quem foi enterrado no caixo de Timmy.'
    "Bem, voc pode imagina a enrascada, Louis. Ficamos ali sentados quase uma hora, bebendo mate gelado e conversando. Norma perguntou se queramos sanduches, 
mas ningum quis.
    "Pisamos e repisamos o assunto e, por fim, decidimos ir at a casa de Baterman. Nunca vou esquecer aquela noite, nem que fique duas vezes mais velho do que estou 
agora. Estava quente, mais quente que as portas do inferno, o sol caindo detrs das nuvens. Nenhum de ns queria ir, mas tnhamos que ir. Norma percebeu isso antes 
mesmo de ns. Me levou pra dentro de casa dando alguma desculpa e disse: 'No vo ficar a tagarelando e deixar a coisa passar em brancas nuvens. Precisam toma uma 
providncia.  uma abominao.'"
    Jud mediu calmamente Louis com o olhar.
    - Foi assim que ela chamou a coisa, Louis. A expresso foi dela. Uma abominao. E Norma no se esqueceu de cochichar no meu ouvido: 'Se acontecer alguma coisa, 
Jud, saia correndo. No importa os outros (cada um ter de cuidar de si. Fuja daquela casa ao primeiro sinal de perigo.'
    "Fomos no carro de Hannibal Benson - aquele filho da puta conseguia todos os cupons de racionamento que queria, eu no sei como. Ningum falou muito, mas todos 
ns fumvamos como chamins. Estvamos com medo, Louis, no podamos estar com medo maior. E o nico que acabou falando alguma coisa foi AIan Purinton. Disse a George: 
'Aposto o que vocs quiserem como Bill Baterman foi pedir ajuda ao diabo naqueles bosques ao norte da Rodovia 15.' Ningum respondeu, mas lembro que George aquiesceu 
com a cabea.
    "Bem, chegamos l e Alan bateu na porta, mas ningum veio atender. Ento fomos para os fundos da casa e l estavam os dois. Bill Baterman sentados na espreguiadeira 
perto de uma garrafa de cerveja e Timmy nos fundos do terreno, contemplando aquele sol vermelho, sanguinolento, que ia caindo. Sob o crepsculo, o rosto dele tinha 
um tom alaranjado, como se o tivessem esfolado vivo. E Bill... era como se o diabo j tivesse levado sua alma. Flutuava dentro das roupas. Achei que devia ter perdido 
uns vinte quilos. Os olhos estavam afundados nas rbitas, como pequenos animais no fundo de duas cavernas.., e a boca no parava de tremer do lado esquerdo."
    Jud fez uma pausa, parecendo meditar, depois mexeu ligeiramente a cabea.
    - Louis, ele parecia possesso...
    "Timmy se virou para ns e sorriu. E apenas por v-lo sorrir uma pessoa j tinha vontade de gritar. Depois se virou de novo para o sol que ia caindo no horizonte. 
Bill disse: 'No escutei vocs baterem o que sem dvida era uma mentira descarada. Alan batera naquela porta com fora suficiente para acordar... para acordar um 
defunto".
    "Ningum parecia estar com muita vontade de falar, ento tomei a iniciativa. Disse: 'Bill, soube que seu filho morreu na Itlia.".
    "'Foi um engano', disse ele me olhando de frente".
    "'Foi mesmo?', perguntei".
    "'No esto vendo Timmy ali em p?', ele insistiu".
    "'Ento quem voc acha que estava naquele caixo que foi enterrado no Cemitrio da Boa Vista?', Alan Purinton perguntou.
    "'E eu sei l?', disse Bill. 'Isso pouco me importa.'".
    "Ele se levantou para pegar um cigarro, mas deixou cair todos os cigarros do mao nos degraus da cozinha, e quando tentou apanh-los, partiu dois ou trs".
    "'Provavelmente ter de haver uma exumao', disse Hannibal. 'Sabe disso, no ? Recebi um telefonema do Ministrio da Guerra, Bill. Esto querendo saber se 
enterraram o filho de alguma outra me sob o nome de Tmmy.'".
    "'Bem, o que tenho a ver com isso?', disse Bill em voz alta. 'No  problema meu, certo? Tenho o meu rapaz. Timmy chegou em casa no dia seguinte. Voltou com 
neurose de guerra ou algo desse tipo. Est um pouco estranho, mas vai ficar bom.'
    "'Vamos colocar as cartas na mesa, Bill', disse eu, ficando repentinamente furioso. 'Se e quando abrirem aquele caixo do exrcito, vo encontr - lo vazio, 
a no ser que voc tenha se dado ao trabalho de ench-lo de pedras depois que tirou seu filho de l, e acho que no se preocupou com isso. Sei o que aconteceu; Hannbal, 
George e Alan que vieram comigo sabem o que aconteceu; e voc sabe muito bem. Andou rondando l pelos bosques, Bill, e trouxe um monte de problemas para este lugar 
e para si mesmo.'
    "'Acho que vocs tambm sabem onde fica a porta da rua', disse ele 'No tenho de explicar nada, nem me justificar pra vocs, nem coisa alguma. Quando recebi 
aquele telegrama, a vida saiu de dentro de mim. Senti vida escorrendo, como escorre a urina de dentro do meu corpo. Bem, eu consegui trazer meu rapaz de volta. Eles 
no tinham o direito de lev-lo. Era apenas um garoto de dezessete anos. Era tudo que me restava de sua querida me, e o dever que obrigaram ele a cumprir foi uma 
merda. Ento foda-se o exrcito, foda-se o Ministrio da Guerra, fodam-se os Estados Unidos da Amrica e fodam-se vocs quatro. Consegui que ele voltasse. E ele 
vai ficar bom. Isso  tudo que eu tenho a dizer! Agora faam o favor de dar meia-volta e voltar pelo mesmo caminho de onde vieram!'
    "Sua boca tremia tique-tique-tique, o suor lhe cobria a testa em gotas enormes, e foi assim que percebi que ele estava maluco. E eu tambm teria ficado ....... 
vivendo com... aquela coisa."
    Louis sentia um embrulho no estmago. Bebera cerveja demais e depressa demais. Dai a pouco a cerveja ia se derramar num vmito. A sensao de peso, de carga 
no estmago, dizia-lhe que aquilo no ia demorar.
    - Bem, no podamos fazer grande coisa. Estvamos prontos para ir embora. Hannibal disse: 'Bill, que Deus o ajude.'
    "Bill respondeu: 'Deus nunca me ajudou. Eu ajudei a mim mesmo.'
    "Foi ento que Timmy veio andando em nossa direo. Havia alguma coisa errada at no modo dele andar, Louis. Caminhava como um homem velho, muito velho. Suspendia 
e abaixava um dos ps num movimento arrastado; depois erguia o outro. Era como ver um caranguejo andar. As mos pendiam do lado das pernas. E quando ele chegou perto, 
podia-se ver marcas vermelhas em seu rosto. Pareciam espinhas ou pequenas queimaduras. Calculo que foi onde a metralhadora Kraut o atingiu. Acho que por pouco no 
lhe arrancou a cabea.
    "Tinha cheiro de sepultura. Era um cheiro nauseante, como se tudo dentro dele estivesse sem vida, podre. Vi Alan Purinton levantar a mo para cobrir o nariz 
e a boca. O fedor era terrvel. Quase espervamos ver pequenos vermes se contorcendo no cabelo dele..
- Chega - disse Louis num tom spero. - J ouvi o bastante...
        - Ainda no - disse Jud. Falou com extrema veemncia. - Sem dvida, ainda no. E olhe que no consigo fazer a coisa parecer to m quanto de fato foi. S 
mesmo quem viu pde compreender como foi terrvel. Ele estava morto, Louis. Mas estava vivo tambm. E ele... ele... ele sabia coisas.
    - Sabia coisas? - Lous puxou a cadeira para a frente.
    - . Deitou os olhos em Alan por um longo tempo, uma espcie de sorriso na boca (pelo menos pudemos ver seus dentes) e falou com uma voz muito rouca; todos tiveram 
de esticar a cabea para ouvi-lo. Era como se tivesse cascalho nos pulmes. 'Sua mulher est fodendo com o homem que trabalha com ela na drugstore, Purinton. O que 
acha disso? Ela grita quando goza. O que voc acha?'
        "Alan deu uma espcie de arfada e todos notaram que Timmy conseguira atingi-lo profundamente. Alan est agora num asilo de velhos em Gardener, ou pelo menos 
estava at pouco tempo atrs... J deve estar bem perto dos noventa anos. Na poca em que isso aconteceu, tinha cerca de quarenta e havia algum falatrio sobre sua 
segunda esposa. Era prima em segundo grau e fora morar com Alan e Lucy, a primeira mulher de Alan, pouco antes da guerra. Bem, Lucy morreu, e um ano e meio depois, 
Alan se casou com aquela moa. Laurine era o nome dela. No teria mais de vinte e quatro anos quando casou com Alan. Realmente havia certos comentrios em torno 
da vida dela, voc sabe. Como homem, voc ia dizer que tinha uns modos livres e fceis, mas pouco mais que isso. As mulheres, porm, achavam que era uma moa sem 
moral. Talvez o prprio Alan tivesse algumas desconfianas. Ele disse: 'Cale a boca! Cale a boca ou vou lhe da um soco, seja l que diabo voc for!'".
    "'Agora chega, Timmy', disse Bill com um aspecto pior que nunca - como se fosse vomitar, perder os sentidos ou ambas as coisas. 'Cale-se agora, Timmy.'
    "Mas Timmy no deu importncia a Bill. Olhou para George Andersou e disse: 'Aquele neto por quem voc sente tanta afeio est apenas esperando voc morrer, 
meu velho. O dinheiro  tudo que ele quer, o dinheiro que ele acha que voc enfiou num cofre do Banco Oriental de Bangor.  por isso que o agrada tanto, embora pelas 
costas s faa chacota, tanto ele quanto a irm. Velho perna de pau,  assim que chamam voc', disse Timmy e... Louis, a voz dele estava modificada. Tinha um tom 
muito ordinrio. Era daquele modo que a voz do neto de George teria soado se... voc sabe, se as coisas que Timmy estava dizendo fossem verdadeiras.
    "'Ei, velho perna de pau', disse Timmy, 'no acha que eles vo ficar putos quando descobrirem que voc  pobre como um rato de igreja porque perdeu tudo em 1938? 
No vo ficar putos, George? No vo ficar simplesmente putos?'
    "George deu um passo atrs, perdeu o equilbrio, a perna de pau se vergou e ele caiu de costas na varanda de Bill, derrubando a garrafa de cerveja. Estava branco 
como a camiseta que usava, Louis".
    "Bill ajudou-o a ficar de p e trovejou para o filho: 'Timmy, pare com isso! Pare com isso!' Mas Timmy no estava disposto a parar. Disse alguma coisa m sobre 
Hannibal e tambm disse alguma coisa m sobre mim...Timmy parecia estar... delirando, eu diria. Sem dvida estava delirando. Gritava! E ns comeamos a recuar, e 
depois comeamos a correr, arrastando George pelos braos o melhor que podamos, pois as correias e cintas daquela imitao de perna estavam todas torcidas, a perna 
estava completamente torta, o p virado pra trs e arrastando na relva.
    "Na ltima viso que tive de Timmy Baterman, ele estava nos fundos do terreno, perto do varal, o rosto todo vermelho sob o sol poente, as marcas do rosto bem 
ntidas, o cabelo todo espigado e parecendo um tanto... poeirento. Ria e berrava sem parar: 'Velho perna de pau! Velho perna de pau! E o chifrudo do lado! Marido 
de puta! At logo, cavalheiros! At logo! At logo!' Continuou rindo, mas o riso era uma espcie de grito, realmente um grito. ... Havia alguma coisa dentro dele... 
gritando... gritando... gritando."
    Jud parou. Seu peito moveu-se rapidamente para cima e para baixo.
    - Jud - disse Lous -, as coisas que esse Timmy Baterman falou a voc...eram verdadeiras?
    - Eram verdadeiras - Jud sussurrou. - Deus! Era tudo verdade. s vezes eu costumava ir a um bordel em Bangor. A maioria dos homens faz isso, eu acho, embora 
talvez um bom nmero deles ande sempre na linha com a esposa. Eu simplesmente sentia necessidade - ou compulso - de transar de vez em quando com uma mulher diferente. 
As vezes o sujeito paga uma mulher pra fazer as coisas que no tem coragem de pedir  esposa. Os homens tambm cuidam de seus jardins, Louis. E sem dvida o que 
eu fazia no era nenhuma coisa terrvel. Continuava indo l as escondidas h oito ou nove anos. Norma no teria me deixado se soubesse da histria. Mas alguma coisa 
dentro dela morreria para sempre. Alguma coisa preciosa, doce.
    Os olhos de Jud estavam vermelhos, inchados e lacrimejantes. As lgrimas do velho so singularmente desagradveis, Louis pensou. Mas quando a mo de Jud avanou 
sobre a mesa, Louis apertou-a com firmeza.
    - Ele s nos disse coisas ms - Jud continuou pouco depois. - S coisas ms. Deus sabe que h muita coisa ruim na vida de qualquer ser humano, no ? Dois ou 
trs dias depois, Laurine Purinton deixou Ludlow para sempre. As pessoas que a viram na cidade antes dela subir no trem disseram que exibia dois olhos roxos e tinha 
um decote muito decente. Alan nunca fez qualquer comentrio sobre o caso. George morreu em 1950, e se deixou alguma coisa para o neto e a neta, eu no sei. Hannbal 
foi chutado do conselho municipal por causa de uma acusao muito semelhante  que Timmy Baterman lhe fizera. No vou contar exatamente o que foi (voc no precisa 
saber), mas desvio de fundos pblicos se aproxima bastante da coisa, eu acho. Falaram at em process-lo por desfalque, mas no chegaram a esse ponto. Sem dvida 
perder o cargo j foi punio suficiente, ele nunca mais conseguiu fazer nada na vida.
    "Mas aqueles homens tambm tinham seu lado bom. Isso tem de se admitir, embora as pessoas no costumem se lembrar muito dessas coisas. Foi Hannlbal quem, um 
pouco antes da guerra, conseguiu as verbas para comear a construo do Hospital Geral do Maine Oriental. Alan Purinton foi um dos homens mais generosos e mo aberta 
que conheci. E a nica ambio do velho George Anderson era continuar a vida toda como encarregado dos correios".
    "Mas aquela coisa s quis falar sobre o que eles tinham de ruim. S quis lembrar do mal porque era uma coisa m... e porque sabia que ns representvamos uma 
ameaa. O Timmy Baterman que tinha ido pra guerra era um garoto bom, simples, talvez um pouco tolo, mas de bom corao. A coisa que vimos naquela noite, contemplando 
aquele sol vermelho... aquilo era um monstro. Talvez um zumbi, um "dibbuk"* ou um demnio. Talvez nem exista nome para designar uma coisa daquelas, mas os micmacs 
logo iam descobrir o que era, com ou sem nome."
    - E o que era? - Louis perguntou um tanto entorpecido.
    - Uma coisa que foi tocada pelo vendigo - disse Jud num tom sereno. Aspirou profundamente, prendeu o ar por um instante, soltou-o. Depois consultou o relgio.
    - Est na hora de eu ir embora. J  tarde, Louis. Falei nove vezes mais do que pretendia.
    - Acho que no - disse Louis. - Foi bastante revelador. Conte como tudo acabou.


*No folclore hebraico, uma alma penada que pode entrar no corpo de um homem e controlar suas aes. (N. do T.)

         - Duas noites depois, houve um incndio na casa dos Baterman - disse Jud. - A casa ardeu completamente. Alan Purinton disse que no tinha dvidas de que 
no fora um acidente. Algum tinha derramado querosene de uma ponta  outra da pequena casa. Trs dias depois do incndio ainda se podia sentir o cheiro.
    - Ento os dois acabaram carbonizados.
    - Oh, sim, acabaram carbonizados. Mas j estavam mortos antes. Timmy fora baleado duas vezes no peito com o revlver que Bill Baterman tinha em casa, um velho 
Colt. Foi encontrado na mo de Bill. O que ele fez, ou ao menos parece ter feito, foi matar o filho, deit-lo na cama e depois esparramar o querosene. Ento se sentou 
na espreguiadeira ao lado do rdio, acendeu um fsforo e ps na boca o cano do 45.
    - Jesus! - disse Louis.
    - Estavam bastante carbonizados, mas o legista do condado disse que Timmy Baterman parecia j esta morto h duas ou trs semanas.
    Silncio, a batida do relgio.
    Jud se levantou.
    - Eu no estava exagerando quando disse que posso ter matado seu menino, Louis, ou ao menos ter desempenhado algum papel na coisa. Os micmacs conheciam aquele 
lugar, o que no quer necessariamente dizer que eles  que o transformaram no que  agora. Afinal, os mcmacs no viveram sempre aqui. Talvez tenham vindo do Canad, 
talvez da Rssia, talvez da sia, h muito, muito tempo atrs. S habitaram o Maine por uns mil anos, talvez dois mil...  difcil saber, porque no deixam muitas 
marcas na terra que ocupam. E agora j se foram outra vez do mesmo modo como ns, um dia, tambm no estaremos mais aqui, embora eu ache que dixaremos traos bem 
mais profundos, para uso melhor ou pior por parte dos que nos substituirem. O lugar continuar, Louis, no importa quem viva no Maine. No  como se algum fosse 
dono do lugar e pudesse levar seu segredo quando se mudasse.  um lugar mau, amaldioado, e eu no tinha nada de lev-lo at l para enterrar aquele gato. Agora 
tenho conscincia disso. Se voc sabe o que  bom para voc e sua famlia, nunca deixe de estar alerta ao poder daquele lugar. Eu no tive foras para resistir. 
Voc salvou a vida de Norma e eu queria fazer alguma coisa para recompens-lo, mas aquele lugar fez minhas boas intenes servirem aos seus maus propsitos. Tem 
uma fora muito grande e acho que essa fora atravessa determinadas fases, assim como a lua. Foi cheio de fora no passado e estou com medo de que esteja voltando 
a ter pleno poder. Estou com medo que o lugar tenha se servido de mim para chegar at voc atravs de seu filho. Voc entende, Louis, o que estou querendo dizer?
    Encarou Louis com olhos suplicantes.
    - Est dizendo que o lugar sabia que Gage ia morrer, no ? - disse Louis.
    - No. Estou dizendo que o lugar pode ter feito Gage morrer porque eu iniciei voc na fora que existe l em cima. Estou dizendo que posso ter matado seu filho, 
mesmo cheio de boas intenes.
    - Eu no acredito nisso - disse Louis por fim, com voz trmula. No acreditava, no queria. No podia.
    Apertou com fora a mo de Jud.
    - Vamos enterrar Gage amanh. Em Bangor. E  em Bangor que ele vai ficar. Nunca mais pretendo subir ao "simitrio" de bichos, muito menos passar para o outro 
lado.
    - Prometa! - disse Jud num tom spero. - Prometa!
    - Prometo - disse Louis.
    Mas no fundo de sua mente, a inteno persistia - um breve cintilar de esperanas que no se dissipavam totalmente.


    Mas nenhuma dessas coisas aconteceu.
    Todas elas - o caminho da Orinco roncando, os dedos que tocaram as costas da jaqueta de Gage e depois escorregaram, Rachel preparando-se para ir ao velrio 
com o casaco que usava em casa, Ellie carregando o retrato de Gage e pondo a cadeirinha dele perto da cama, as lgrimas de Steve Masterton, a briga com Irwin Goldman, 
a terrvel histria que Jud Crandall contou sobre Timmy Baterman -, tudo isso existiu apenas na mente de Louis Creed durante os poucos segundos em que ele corria 
atrs do filho, do filho sorridente, at a beira da estrada.
    Rachel tinha gritado de novo:
    Gage, solte, no CORRA!
    Mas Louis no perdeu tempo. E foi se aproximando cada vez mais, cada vez mais de Gage, e, sim, uma daquelas coisas realmente aconteceu: de algum lugar, l no 
fim da estrada, veio o ronco de um caminho se aproximando. Um circuito de memria se abriu em algum ponto da mente de Louis e ele ouviu Jud Crandall, naquele primeiro 
dia em Ludiow, falando com Rachel:
    A senhora deve vigi-los quando eles estiverem perto da estrada, Sra. Creed.  uma estrada perigosa para crianas e animais.
    Agora Gage corria pelo suave declive do gramado que se fundia ao acostamento da Rodovia 15, as perninhas gorduchas bamboleando. Sem qualquer hiptese de dvida 
ia cair, se estatelar no cho. Mas ele continuava avanando, e o barulho do caminho estava sem dvida muito perto, era diferente daquele som baixo, abafado, que 
s vezes Louis ouvia flutuando na cama, quase do outro lado da barreira do sono. Nessas horas parecia at um som agradvel, mas agora era apavorante.
    Oh meu bom Deus oh meu bom Jesus deixe-me peg-lo no deixe que ele passe para a estrada!
    Louis deu uma acelerada final e at saltou, jogou-se para a frente, paralelo ao cho como um jogador de futebol americano prestes a marcar um tento. Pelo canto 
do olho pde ver sua sombra deslizando na grama... Pensou na pipa, no abutre, na sombra que a pipa foi imprimindo no terreno de Sra. Vinton... E no momento exato 
em que a corrida de Gage o fazia entrar na estrada, os dedos de Louis atingiram as costas da jaqueta. - e no soltaram.
    Louis puxou o filho para trs, batendo com a cara no cho, batendo no cascalho duro do acostamento, sentindo o nariz sangrar. Ainda por cima, uma dor muito mais 
forte subiu-lhe dos testculos.
    Ohhh, se eu soubesse que ia jogar futebol, tinha colocado meu suporte atltico.
    Mas tanto a dor no nariz quanto a sufocante agonia nos testculos se dissiparam no doce alvio de ouvir Gage berrando. O menino gritava de dor e susto por ter 
batido com o traseiro no cho do acostamento, por ter cado pra trs e batido com a cabea na beira do gramado. Logo depois, seus gritos foram afogados pelo ronco 
do caminho passando e o quase imponente balido da buzina externa.
    Louis conseguiu se levantar, apesar da ardncia no baixo-ventre, e aninhou o filho nos braos. Segundos depois, Rachel os alcanou, chorando e gritando com Gage:
    - Nunca mais corra na estrada, Gage! Nunca mais, nunca mais, nunca mais! A estrada  m! M!
    E Gage ficou to espantado com o sermo que parou de chorar e arregalou os olhos para a me.
    - Louis, voc est com sangue no nariz - disse ela e depois se abraou ao marido com tanta fora e to de repente que por um momento ele nem pde respirar.
    - Podia ter sido pior - disse Louis. - Mas acho que fiquei estril, Rachel. Oh, menina, que dor!
    E ela riu to histericamente que Louis chegou a ficar assustado. Uma idia lhe veio  cabea: Acho que se Gage tivesse morrido, ela seria levada  loucura.
    Mas Gage no tinha morrido; tudo no passara de um momento diabolicamente detalhado de sua imaginao, um momento em que antecipara a morte do filho, do filho 
correndo pelo gramado verde numa tarde ensolarada de maio.
    Gage foi para a escola primria e aos sete anos comeou a acampar. Nos acampamentos mostrou uma formidvel e surpreendente aptido para nadar. Chegou a causar 
uma surpresa quase desagradvel aos pais mostrando ser capaz de ficar um ms longe deles sem qualquer trauma psquico. Aos dez anos, j passava todo o vero fora, 
no campng Agawam, em Raymond; aos onze, ganhou duas fitas azuis e uma vermelha nas piscinas dos quatro campings de Swimathon, que encerraram as atividades de vero. 
Tornou-se um rapaz alto, mas continuou sendo o mesmo Gage, carinhoso e um tanto deslumbrado com as coisas que o mundo tinha a oferecer... Para Gage, os frutos da 
terra nunca eram amargos nem estavam podres.
    Foi um excelente aluno na escola secundria e membro da equipe de natao na John Bapst, a escola paroquial que insistiu em freqentar estimulado por um bom 
parque aqutico. Rachel ficou transtornada, mas Louis no se admirou quando, aos dezessete anos, Gage anunciou sua inteno de se converter ao catolicismo. Rachel 
achava que tudo era por causa da moa com quem o filho estava saindo, pressentia casamento para breve:
    - Aposto o que voc quiser, Louis - disse ela -, como essa sirigaita de medalha de So Cristvo no peito est fazendo a cabea dele!
    O casamento arruinaria os planos universitrios de Gage, suas expectativas olmpicas e ia cerc-lo, aos quarenta anos, de nove ou dez pequenos catlicos correndo 
de um lado para o outro. Pelo menos na viso de Rachel, Gage ia se transformar num motorista de caminho fumador de charutos e com a barriga inchada de cerveja, 
cavando atravs de Pais-Nossos e Ave-Marias seu caminho para a esclerose pr-cardaca.
    Lous suspeitava que as motivaes religiosas do filho no fossem to longe, e embora Gage tenha de fato se convertido (no dia em que ele cumpriu a faanha, 
Louis mandou a Irwin Goldman um postal descaradamente provocador: Talvez voc ainda venha a ter um neto jesuta. Seu genro gentio, Louis), no chegou a desposar 
a moa simptica (e sem dvida nada sirigaita) que tinha namorado durante quase todo o ltimo ano de colgio. Foi para a Universidade Johns Hopkins e integrou-se 
na equipe olmpica de natao.
    Numa tarde longa, deslumbrante, e que deu motivo para muito orgulho, dezesseis anos depois de Louis ter competido com um caminho da Orinco pela vida do filho, 
ele e Rachel (cujos cabelos j estavam quase totalmente grisalhos, embora ela escondesse o fato sob uma tintura) viram Gage conquistar uma medalha de ouro para os 
Estados Unidos. Quando as cmaras da NBC o enquadraram num close, a gua ainda gotejando no rosto e o cabelo escorrido, o olhar do rapaz serenou e, ao som do hino 
nacional, fixou-se na bandeira. Uma fita lhe cercava o pescoo e, na ponta da fita, a medalha de ouro brilhava contra a pele lisa do peito. Ento Louis chorou. Chorou 
junto com Rachel.
    - Acho que isso coroa tudo - Louis comentou com a voz embargada, virando-se para abraar a esposa..
    Mas ela o contemplou com um horror crescente, o rosto muito envelhecido, como se aoitado por dias, meses e anos de tormentas. O som do hino cessou, e quando 
Louis voltou a olhar para a televiso, viu um rapaz diferente, um moo negro, a cabea cheia de caracis de cabelo onde as gotas de gua ainda cintilavam.
    Isso coroa tudo.
O bon.
O bon est...
        Oh, meu Deus, o bon est cheio de sangue.

    Louis acordou com a luminosidade fria e mortia das sete horas de uma manh chuvosa, abraando o travesseiro. A cabea latejava terrivelmente no ritmo das batidas 
de seu corao; a dor subia e descia, subia e descia. Deu um arroto cido, que tinha gosto de cerveja velha. O estmago parecia pesado como chumbo. Tinha chorado; 
o travesseiro estava molhado de lgrimas, coma se envolvido durante o sono pela choradeira de uma sentimentalide msica caipira. Mesmo sonhando, Louis pensou, uma 
parte dele sabia muito bem da verdade e chorara por causa disso.
    Levantou-se e tropeou at o banheiro, o corao correndo em ziguezague dentro do peito, a prpria conscincia das coisas fragmentada pela ressaca febril. Quase 
nem teve tempo de chegar ao vaso sanitrio, onde despejou uma enorme golfada da cerveja da noite anterior.
    AJoelhou-se no cho, olhos fechados, at sentir-se capaz de se equilibrar em p. Tateou pela vlvula e deu a descarga. Foi at o espelho ver at que ponto os 
olhos estavam inchados, mas o espelho fora coberto com um lenol. Ento se lembrou. Transportando-se quase sem querer para um passado que fingia ter esquecido, Rachel 
cobrira todos os espelhos e tirara os sapatos antes de entrar em casa.
    Nada de equipe olmpica de natao, Louis pensou sombriamente, voltando para o quarto e se sentando na cama. O gosto amargo da cerveja impregnava-lhe a boca 
e a garganta; ele jurou (no pela primeira nem pela ltima vez) que nunca mais ia se aproximar daquele veneno. Nada de equipe olmpica de natao, nada de um excelente 
aluno no colgio, nada de namoradinha catlica nem de converso, nada do camping Agawan, nada. Os tnis tinham sido destroados, a jaqueta virada pelo avesso, o 
corpo que era uma graa, rechonchudo mas firme, fora quase desmembrado. O bon ficara cheio de sangue.
    Naquele momento, sentado ali na cama, nas garras de uma ressaca que o entorpecia, junto da janela onde a gua da chuva escorria em gotas preguiosas, a dor o 
assaltou em cheio, como alguma matrona sinistra vinda das galerias do purgatrio. Apoderou-se dele para castr-lo, despedaa-lo, priv-lo de todas as defesas que 
porventura ainda tivesse. Louis ps as mos no rosto e chorou, rolando de um lado para o outro na cama, pensando que faria qualquer coisa para ter uma segunda chance, 
qualquer coisa.


    Gage foi enterrado s duas horas daquela tarde. A chuva tinha parado. Nuvens esfiapadas ainda se moviam no cu e a maior parte do cortejo chegou carregando os 
guarda-chuvas negros fornecidos pelo agente funerrio.
    A pedido de Rachel, o diretor do funeral, que oficiou a breve e nada sectria cerimnia  beira do tmulo, leu a passagem de Mateus que comea: "Deixai vir a 
mim as criancinhas." De p num dos lados do tumulo, Louis contemplou o sogro do outro lado. Por um momento, Goldman devolveu o olhar, mas acabou baixando os olhos. 
No devia estar com vontade de brigar. As olheiras pareciam sacolas de correio; em volta do barrete de seda, preta, o cabelo branco e fino como uma teia de aranha 
esfarrapada esvoaava na brisa. Com a barba j meio grisalha cobrindo-lhe o rosto, assemelhava-se mais do que nunca a um inveterado bebedor de vinho. Dava a Louis 
a impresso de um homem que nem sabia muito bem onde estava. Louis tentou, mas no pde extrair do corao qualquer trao de piedade.
    O pequeno caixo branco de Gage, com o trinco provavelmente consertado, repousava num par de corrimes cromados  beira do tmulo. O terreno ali fora revestido 
com uma grama plstica to violentamente verde que chegava a doer nos olhos de Louis. Sobre aquela superfcie artificial e estranhamente vistosa havia numerosas 
coroas de flores.
    Louis espiou sobre o ombro do diretor do funeral. L atrs havia uma colina baixa, repleta de sepulturas, mausolus de famlia e um monumento romanesco com o 
nome Phipps gravado. Logo acima do telhado inclinado do monumento a Phipps, viu alguma coisa amarela. Olhou com ateno, tentou descobrir o que era. Continuou a 
observ-la mesmo depois que o diretor do funeral pediu: "Inclinemos nossas cabeas para um momento de prece silenciosa." Louis demorou alguns minutos, mas acabou 
descobrindo. Era a ponta de um carrinho de mo. Um carrinho de mo cheio de ps, estacionado l na colina, longe dos olhares dos acompanhantes do enterro de Gage. 
Quando a cerimnia do funeral terminasse, Oz apagaria o cigano no calcanhar de suas terrveis botas de trabalho, enfiaria a guimba num bolso qualquer que tivesse 
na roupa (num cemitrio os coveiros surpreendidos jogando pontas de cigarro no cho so quase sempre sumariamente despedidos - afinal, grande parte da clientela 
morreu de cncer no pulmo), pegaria o carrinho de mo, poria as ps em movimento e tiraria seu filho das vistas do sol para sempre... ou pelo menos at o dia da 
ressurreio.
Ressurreio... ah, a est uma palavra
    (que voc deve tirar de vez da porra da cabea, sabe muito bem disso).
    Quando o diretor do funeral disse "Amm", Louis pegou Rachel pelo brao e levou-a embora. Rachel murmurou um protesto (queria ficar um pouco mais, por favor, 
Louis), mas Louis foi irredutvel. Caminharam para o carro. Ele viu o diretor do funeral recolhendo os guarda-chuvas (o nome da funerria discretamente impresso 
no cabo) e passando-os a um assistente. O assistente os pendurava num suporte que, esticado ali no meio da grama molhada, parecia surrealista. Louis pegou o brao 
de Rachel com a mo direita, e com a esquerda a mo de Ellie, que estava de luvas brancas. Ellie usava o mesmo vestido com que fora ao enterro de Norma Crandall.
    Jud se aproximou quando Lous acomodava sua famlia no carro. Tambm parecia ter passado mal a noite.
    - Voc est bem, Louis?
    Louis balanou afirmativamente a cabea.
    Jud curvou-se para espiar dentro do carro.
    - Como vai, Rachel?
    - Tudo bem, Jud - ela murmurou.
    Jud tocou-lhe o ombro suavemente e desviou os olhos para Ellie.
    - E voc, minha querida?
    - Estou bem - disse Ellie, exibindo um horrvel sorriso de tubaro para mostrar o quanto estava bem.
    - O que  esse retrato que voc tem a?
    Por um instante Lous pensou que a filha ia se agarrar com mais fora ao retrato, recusar-se a mostr-lo, mas com dolorosa prudncia Ellie passou-o as mos de 
Jud.
    Jud pegou a foto com dedos grandes, dedos que pareciam tortos e quase deformados, que pareciam muito mais adequados para lidar com o cmbio de caminhes enormes 
ou engatar peas de grandes mquinas. Mas eram tambm os dedos que haviam tirado um ferro de abelha do pescoo de Gage com a suave, decidida habilidade de um mgico. 
. . ou de um cirurgio.
    - Ora, mas  bonito mesmo! - disse Jud. - Voc puxando Gage no tren. Aposto que ele gostou, no foi, Ellie?
    Comeando a chorar, Ellie balanou a cabea.
    Rachel ia dizer alguma coisa, mas Louis apertou-lhe o brao: No fale nada por enquanto.
    - Eu costumava pux-lo muitas vezes - disse a menina, chorando. - Ele ria o tempo todo. Depois entrvamos, a mame nos dava chocolate e dizia: 'Vo guardar suas 
botas.' Gage agarrava todas as nossas botas e gritava 'Botas! Botas!', gritava to alto que chegava a doer os ouvidos. Voc se lembra, mame?
    Rachel fez que sim.
    - Sim, aposto que foi uma poca muito boa, no  mesmo? - disse Jud devolvendo a foto. - Sei que o Gage est morto agora, Ellie, mas voc pode guardar as memrias 
que tem dele.
    - Vou guardar - disse ela esfregando o rosto. - Eu gostava muito do Gage, Sr. Crandall.
    - Eu sei, meu bem.
    Jud se abaixou e beijou a menina. Quando se levantou, olhou com dureza para Louis e Rachel. Rachel enfrentou o olhar, confusa e um pouco magoada, mas no entendeu. 
Louis entendeu muito bem: O que voc est fazendo por ela?, os olhos de Jud perguntaram. Seu filho est morto, mas a menina no. O que voc est fazendo por ela?
    Louis desviou o olhar. No havia nada que pudesse fazer pela filha, pelo menos ainda no. Ela teria de bracejar sozinha no meio de sua dor. Os pensamentos do 
pai ainda estavam repletos de Gage.

    Ao anoitecer, um amontoado de nuvens cobrira o cu e um vento forte comeara a soprar ao oeste. Louis vestiu uma jaqueta leve, fechou-a at em cima e tirou as 
chaves da Civic do suporte na parede.
    - Onde voc vai, Lou? - perguntou Rachel. Falara sem muito interesse. Depois do jantar, tinha comeado de novo a chorar, e embora chorasse baixo, parecia incapaz 
de parar. Louis a obrigara a tomar um Valium. Agora estava sentada com o jornal aberto em palavras cruzadas que mal tinha iniciado. Na outra sala, Ellie assistia 
silenciosa a um filme na tev, Uma Casinha no Campo, com o retrato de Gage no colo.
    - Acho que vou comprar uma pizza.
    - No ficou satisfeito com o que comeu?
    - No tive muita fome na hora - ele explicou, dizendo a verdade e depois acrescentando uma mentira: - Tenho agora.
    Entre trs e seis horas daquela tarde, tivera lugar na casa de Ludlow o ltimo rito do funeral de Gage. Foi o rito da comida.
    Steve Masterton e a mulher trouxeram uma panela de hambrguer e talharim. Charlton contribuiu com um pastelo.
    - Se sobrar alguma coisa, no precisa ter medo que no estraga -Chariton comentou com Rachel. - E  fcil esquentar.
    Os Danniker, l de cima da estrada, trouxeram um pernil assado. Os Goldman apareceram (nenhum dos dois falou com Louis nem se aproximou dele, coisa que, sem 
dvida, ele no lamentou) com um sortimento de frios em fatias e queijos. Jud tambm trouxe queijo - uma grande rodela de seu velho favorito, o queijo de rato. A 
Srta. Dandridge veio com uma torta de tangerina. E Surrendra Hardu trouxe mas. O rito da comida sem dvida transcendia diferenas religiosas.
    Foi a festa do funeral. Embora tenha sido discreta, o constrangimento no foi absoluto. Houve menos bebida do que numa festa comum, mas houve alguma. Lous tinha 
jurado que nunca mais tocaria em cerveja, mas achou impossvel manter o juramento na atmosfera triste da tarde. Depois de algumas cervejas, pensou em passar adiante 
certas histrias de funeral que o tio Carl lhe contara. Nos funerais sicilianos, as mulheres solteiras cortavam com tesoura um pedao da mortalha do defunto e dormiam 
com ele sob o travesseiro, achando que traria sorte no amor; nos funerais irlandeses, faziam-se casamentos simulados e sempre se amarravam os ps do morto (segundo 
uma antiga crena cltica, isso impediria que o fantasma do falecido sasse andando por a). Tio Carl dizia que o costume de prender etiquetas de identificao nos 
dedes dos ps de cadveres comearam em Nova York: como os primeiros encarregados de necrotrios tinham sido irlandeses, ele acreditava que fosse uma sobrevivncia 
daquela velha superstio.
    Olhando para os rostos que enchiam a sala, Louis concluiu que histrias desse tipo no seriam bem aceitas.
    Rachel s perdera uma vez o controle, mas a me estava ali para consol-la. Ela se agarrou a Dory Goldman e soluou em seu ombro abertamente, com entrega total, 
como fora absolutamente impossvel chorar no ombro do marido. Talvez porque Rachel achasse que ambos tinham culpa da morte de Gage, talvez porque Louis, perdido 
no mundo peculiar de suas fantasias, no encorajasse expanses de dor. De uma forma ou de outra, Rachel procurara consolo na me e Dory estava ali para proporcion-lo, 
misturando suas lgrimas s lgrimas da filha. Irwin Goldman permanecia atrs delas, as mos nos ombros de Rachel. Olhava para o genro com um mrbido ar de triunfo.
    Ellie circulava com uma bandeja de prata cheia de canaps, pezinhos recheados com um palito espetado em cada um deles. Na mo, apertava o retrato de Gage.
    Louis recebeu condolncias. Balanou a cabea e agradeceu. E se tivesse os olhos um tanto distantes, o jeito um tanto frio, as pessoas sem dvida achariam que 
estava se lembrando do passado, do acidente, na vida sem Gage que tinha pela frente. Ningum (talvez nem mesmo Jud) suspetava que tinha comeado a meditar sobre 
a estratgia de roubos de tmulos... teoricamente,  claro; no que pretendesse fazer alguma coisa. Era apenas uma forma de conservar a mente ocupada.
    No que pretendesse fazer alguma coisa.
    
    
    Louis parou na Orrington Comer Store, comprou duas embalagens de cerveja gelada, cada uma com seis latas, e telefonou para encomendar uma pizza de muzzarela 
e cogumelos no Napoli's.
    - Quer me dar o seu nome, por favor?
    Oz, o Gande e Tevel, Louis pensou.
    - Louis Creed.
    - Est certo, Lou, estamos com muitos pedidos, por isso vai demorar uns quarenta e cinco minutos. Tudo bem pra voc?
    - Tudo bem - disse Louis, desligando o telefone. Quando voltou ao Civic e ligou o motor, percebeu que, embora existissem umas vinte pizzarias na rea de Bangor, 
escolhera justamente a que ficava mais perto do Cemitrio da Boa Vista, onde Gage fora enterrado.
    Bem, e que mal h nisso?, pensou um tanto inquieto. A pizza deles  boa. A massa no  congelada. Usam os punhos para amass-la na hora, bem ali na frente da 
gente... Gage costumava rir...
    Ele interrompeu o pensamento.
         Passou pelo Napoli's e foi at o Boa Vista. Achou que j desconfiava que ia fazer aquilo, mas qual era o problema? Nenhum.
    Estacionou e atravessou a rua para os portes de ferro, que brilhavam na ltima luz do dia. Em cima, num semicrculo, havia letras tambm em ferro: Boa Vista. 
Na opinio de Louis, a vista no era nem boa nem m. O cemitrio estendia-se primorosamente por vrias colinas; havia longas alias de rvores (ah, mas naqueles 
ltimos minutos de luz do sol, as sombras que as rvores atiravam pareciam poas, poas negras e sujas como gua estagnada) e alguns salgueiros chores.
    No era um lugar silencioso. A rodovia ficava perto, o rumor do trfego era transportado pelo vento frio, contnuo. O brilho no cu cada vez mais escuro era 
o Aeroporto Internacional de Bangor.
    Esticou a mo para os portes, pensando: Vo estar trancados - mas no estavam. Talvez fosse cedo demais, e mesmo que os trancassem  noite, seria apenas para 
proteger o lugar de bbados, vndalos e casais de namorados adolescentes. Os dias dos violadores de tmulos e ressurreies
    (a est aquela palavra de novo)
    estavam encerrados. O porto da direita se moveu com um leve rudo rangente. Aps dar uma olhada pelo ombro para ter certeza de que ningum o observava, Louis 
entrou. Fechou o porto e ouviu o dique do trinco.
    Parou na entrada daquela residncia suburbana da morte, olhando em volta.
    Um lugar agradvel e retirado, pensou, mas quem vai concordar comigo? Quem? Andrew Marvel8? Afinal, por que a mente humana conserva tamanha quantidade de intil 
lixo superstcioso?
    Ento a voz de Jud ecoou dentro de sua mente, preocupada e... assustada? Sim. Assustada.
    Louis, o que voc est fazendo a? Est se metendo numa estrada por onde no quer viajar.
    Ele afugentou a voz. Se estava atormentando algum, era apenas a si mesmo. Ningum precisava saber que fora l quando a luz do sol mergulhava na escurido.
    Comeou a andar para o tmulo de Gage, seguindo por uma pequena trilha. Pouco depois, viu-se numa alameda cheia de rvores; as folhas que nasceram com a primavera 
sussurravam lugubremente sobre sua cabea. O corao batia-lhe com muita fora no peito. Os tmulos e mausolus estavam dispostos em fileiras irregulares. Por certo 
haveria um zelador num escritrio e, na parede do escritrio, um mapa caprichado dos vinte acres do Boa Vista, cuidadosamente dividido em quadrantes, cada quadrante 
mostrando os tmulos ocupados e os lugares vagos. Terras  venda. Apartamento de um cmodo. Para os que querem dormir tranqilos.
    No tem muita coisa a ver com o "smitrio "de bichos, ele pensou, e isto o fez parar e refletir um pouco. No, no tinha. O "simitrio" de bichos dera-lhe uma 
impresso de ordem brotando quase misteriosamente do caos. Aqueles irregulares crculos concntricos movendo-se para dentro, pedras toscas, cruzes feitas de tbuas. 
Como se as crianas que ali enterraram seus bichos tivessem extrado o padro de sua prpria inconscincia coletiva, como se...
    Por um instante, Louis viu o "simitrio" como uma espcie de comisso de frente anunciando a entrada do bloco circense. O comedor de fogo puxava o cortejo, dava 
um show de graa, porque os donos do circo sabiam muito bem que as pessoas s iam pagar o ingresso se vissem uma ponta da coisa, s iam engolir o bife se sentissem 
o cheiro...
    Aqueles tmulos, aqueles tmulos em crculos quase drudicos.


8 Poeta satrico ingls (1621-1678). (N. do T.)


    Os tmulos no "simtrio" de bichos imitavam o mais antigo de todos os smbolos religiosos: crculos decrescentes formando uma espiral que levava no a um ponto, 
mas ao infinito; ordem tirada do caos ou caos tirado da ordem, dependendo de como funcionasse a mente do observador. Era o smbolo que os egpcios gravaram nas tumbas 
dos faras, O smbolo que os fencios desenharam nas sepulturas de seus falecidos reis; foi encontrado em paredes de cavernas na antiga Micenas e os construtores 
de Stonehenge fizeram dele um relgio para marcar o tempo do universo; na Bblia judaico-crist, apareceu como um redemoinho de dentro do qual Deus falou a J.
    A espiral era o mais velho smbolo de poder no mundo, o mais velho smbolo humano daquela ponte enroscada que podia haver entre o mundo e o abismo.
    Por fim, Louis chegou ao tmulo de Gage. No havia trao de nenhum carrinho de mo com ps. A grama artificial fora removida, algum a enrolara assobiando, pensando 
na cerveja em Fairmount Lounge no fim do trabalho, guardando-a num galpo qualquer junto a outros apetrechos. Onde Gage jazia sobrara um ntido retngulo de terra 
nua, revolvida, cerca de um metro por um metro e meio. A lpide ainda no fora colocada.
    Louis se ajoelhou. O vento soprava em seu cabelo, atirando-o de um lado para o outro. Agora o cu estava quase inteiramente negro. Nuvens corriam por ele.
    Ningum jogou um facho de lanterna no meu rosto e perguntou o que estou fazendo aqui. Nenhum cachorro-vigia latiu. O porto no estava trancado. Os dias dos 
violadores de tmulos esto encerrados. Se eu tivesse vindo com uma picareta e uma p...
    Voltou a si com um estremecimento. Sem dvida estava apenas fazendo um perigoso jogo mental consigo mesmo ao imaginar que no haveria ningum vigiando o Boa 
Vista durante a noite. Suponhamos que um zelador ou guarda o descobrissem enterrado at a barriga no tmulo recente do filho? No era certo que chegasse aos jornais, 
mas podia chegar. Podia ser acusado de um crime. Que crime? Violao de tmulos? Improvvel. Possivelmente invaso de propriedade ou vandalismo. Mas saindo ou no 
nos jornais, a notcia correria. As pessoas iam comentar; era uma histria bem suculenta para ser contada: mdico local  surpreendido desenterrando o filho de dois 
anos de idade, recentemente falecido num trgico acidente na estrada. Perderia o emprego. Mesmo que no perdesse, Rachel ficaria arrepiada com os comentrios, Ellie 
seria atingida por eles, passaria a ser atormentada na escola por uma interminvel tagarelice infantil. Poderiam submet-lo  humilhao de um teste de sanidade 
na esperana de abrandar a pena em juzo.
    Mas eu podia trazer Gage de volta para a vida! Gage podia voltar a viver!
    Ser que acreditava realmente, verdadeiramente, nisso?
    De fato acreditava. Tanto antes quanto depois da morte de Gage repetira vezes sem conta que Church no chegara a morrer, ficara apenas sem sentidos... E tinha 
aberto caminho para fora da sepultura e voltado para casa. Sem dvida, uma histria infantil com sutilezas horripilantes estilo Poe. Sem saber, o rapaz empilha um 
monte de pedras sobre um animal vivo. O fiel felino cava um buraco e volta para casa. timo. O problema  que no foi assim. Church estava morto. Foi o solo do cemitrio 
micmac que lhe devolveu a vida.
    Sentou-se ao lado do tmulo de Gage, tentando colocar em ordem todos os componentes do dilema, da forma mais lgica e racional que a magia negra da coisa permitisse.
    Timmy Baterman, agora. Primeiro ponto: ele acreditava na histria? Segundo ponto: acreditar ou no, faria alguma diferena?
    Apesar de no ser nada conveniente, acreditava, na maior parte da histria. Era inegvel que se existisse um lugar como o cemitrio micmac (como de fato existia) 
e se algumas pessoas o conhecessem (como o conheciam alguns dos mais velhos habitantes de Ludlow), mais cedo ou mais tarde algum tentaria fazer a experincia. A 
natureza humana, como Louis a entendia, tornava muito difcil acreditar que a coisa tivesse se limitado a uns bichinhos de estimao e um ou outro valioso animal 
reprodutor.
    Tudo bem. Mas ser que tambm acreditava que Timmy Baterman fora transformado numa espcie de demnio onisciente?
    Aquela era uma pergunta mais difcil, e ele desconfiava dela porque no queria acreditar nela, porque j vira os maus resultados de misturar preconceitos com 
realidades.
    No, no queria acreditar que Timmy Baterman fosse um demnio, mas tambm no permitiria - realmente no podia permitir - que seus desejos lhe ofuscassem a capacidade 
de julgamento.
    Pensou em Hanratty, o touro. Hanratty, Jud contou, se tornara traioeiro. Timmy Baterman de certo modo tambm se tornara traioeiro. Hanratty fora mais tarde 
abatido pelo mesmo homem que conseguira arrast-lo at o cemitrio micmac num tren. Timmy Baterman fora "abatido" pelo pai.
    Mas porque Hanratty ficara mau, isso significava que todos os animais ficavam maus? No. Hanratty, o touro, no provava qualquer regra geral; na realidade, seria 
uma exceo  regra geral. Era s olhar para os outros animais: o cozinho Spot de Jud, o periquito da velha, o prprio Church. Todos tinham voltado modificados 
e em todos os casos a modificao fora perceptvel. No entanto, pelo menos no caso de Spot, a mudana no fora to grande a ponto de impedir que, anos mais tarde, 
Jud recomendasse o processo de... de...
    (ressurreio)
    Sim, de ressurreio a um amigo.  claro, ultrapassada a linha divisria ele gaguejara um pouco, tentara se justificar um pouco e acabara fazendo jorrar um monte 
de besteira sinistra e confusa, que jamais poderia ser adequadamente chamada de ponto de vista.
    Como podia se recusar a aproveitar a oportunidade (aquela nica, formidvel oportunidade) simplesmente baseado na histria de Tmmy Baterman? Uma andorinha, 
no faz o vero.
    Voc est deformando todas as evidncias em proveito da concluso que quer atingir, sua mente protestou. Pelo menos reconhea a maldita verdade sobre a modificao 
de Church. Mesmo se deixar de lado os animais caados - pssaros e camundongos -, o que dizer do jeito dele? Entorpecido...  a melhor expresso para resumir a coisa... 
No dia em que voc saiu com a pipa. Voc lembra como estava Gage naquele dia? Como estava entusiasmado e cheio de vida, reagindo a tudo? No  melhor se lembrar 
dele desse jeito? Quer trazer de volta um zumbi com todos os ingredientes de um filme de terror classe C? Ou mesmo algo to prosaico quanto um menino excepcional? 
Um menino que coma os dedos, que fique olhando de olhos turvas as imagens de tev e nunca aprenda a escrever o prprio nome? O que disse Jud sobre o cachorro dele? 
"Era como lavar um pedao de carne." E o que voc quer? Um pedao de carne respirando? E mesmo que consiga se satisfazer com isso, como vai explicar  sua mulher 
o retorno de Gage? E  sua filha? E a Steve Masterton? E ao mundo? O que vai acontecer na primeira vez em que a Srta. Dandridge enfiar o nariz na entrada da sua 
casa e deparar com Gage andando de velocpede no quintal? Pode imaginar os gritos, Louis? Pode imagin-la arranhando o rosto com as unhas? E o que me diz dos reprteres? 
O que me diz quando uma equipe do show dos domingos bater na sua porta para fazer uma gravao com uma criana que ressuscitou?
    Ser que tudo isso realmente importava ou era apenas a voz da covardia? Seria mesmo incapaz de enfrentar essas coisas? Ser que Rachel teria alguma outra reao 
alm de lgrimas de alegria para receber o filho de volta?
    Sim, acreditava que havia uma possibilidade real de que Gage voltasse. .. bem... um pouco modificado. Mas isso alterava a qualidade do amor dos pais? Os pais 
amam filhos que nascem cegos, filhos que nascem como gmeos siameses, filhos que nascem com terrveis deformaes fsicas. Os pais pleiteiam merc judicial ou demncia 
para filhos que ao crescer se tornam assassinos, seqestradores ou torturadores de gente inocente.
    Ser ento que no amaria Gage mesmo se Gage tivesse de continuar usando fraldas at os oito anos? Se s aos doze anos conseguisse passar do primeiro ano primrio? 
Mesmo se jamais conseguisse? Deveria ento simplesmente renegar o filho como uma... uma espcie de aborto divino quando havia outro recurso?
    Mas, Lous, meu Deus, voc no vive num vcuo! As pessoas vo dizer......
    Cortou o pensamento de uma forma brusca, com raiva. De todas as coisas que no estava disposto a considerar, a primeira delas era provavelmente o comentrio 
pblico.
    Baixou os olhos para a terra h pouco assentada no tmulo do filho e sentiu uma onda de espanto e horror lhe atravessando o corpo. Sem que tivesse conscincia, 
movendo-se automaticamente, seus dedos tinham desenhado uma forma na sepultura. Tinham feito uma espiral.
    Ele esfregou os dedos de ambas as mos pela terra, apagando o desenho. E saiu do Boa Vista, correndo, julgando-se de fato um transgressor, acreditando, a cada 
volta do caminho, que seria descoberto, detido, interrogado.

    Passou bem tarde para apanhar a pizza, e embora a tivessem deixado em cima de um dos grandes fornos, j estava um tanto fria, gordurosa. Tinha gosto de barro 
cozido. Comeu um pedao quando tomou a estrada de Ludlow e atirou o resto pela janela, com caixa e tudo. No gostava de sujar as ruas, mas no queria que Rachel 
visse uma pzza quase intacta na cesta de lixo. O fato poderia despertar certa desconfiana de que no era bem a pizza o que ele tinha em mente quando foi a Bangor.
    E agora Louis comeava a pensar sobre o tempo e as circunstncias.
    O tempo. O tempo podia ser de uma importncia extrema, crucial mesmo. Timmy Baterman ficara morto um bom tempo antes que o pai pudesse lev-lo at o cemitrio 
micmac. Timmy foi ferido a dezenove... Timmy foi enterrado... No sou capaz de jurar, mas acho que foi em vinte
e dois de julho... Quatro ou cinco dias depois, Marjorie Washburn... viu Timmy subindo a estrada.
    Tudo bem, digamos que Bill Baterman tenha feito a coisa quatro dias aps o enterro. original do filho... No. Se ele tivesse de errar, que fosse pelo lado do 
conservantismo. Digamos trs dias. Para maior clareza de raciocnio, podia admitir que Tmmy Baterman tivesse voltado da morte em vinte e cinco de julho. Isto , 
haviam passado seis dias entre a morte do rapaz e a sua volta, e aquilo era uma estimativa conservadora. Podia muito bem ter transcorrido dez dias. Para Gage, no 
se haviam passado mais de quatro. Um tempo bastante mais reduzido que o de Bill... E ainda seria possvel distanciar consideravelmente o caso de Gage do caso de 
Bill se...
    Se as circunstncias tivessem sido semelhantes s que possibilitaram a ressurreio de Church. Pois Church morrera na poca mais oportuna possvel, no  verdade? 
A famlia estava longe quando o gato foi atropelado. Ningum ficou sabendo da histria; a no ser ele e Jud.
    A famlia estava em Chicago.
    Para Louis, a pea final se encaixou no lugar com um primoroso dique.


    - Voc quer que ns o qu? - Rachel perguntou, olhando-o com assombro.
    Eram dez e quinze. Ellie fora se deitar. Rachel tomara outro Valium aps limpar os detritos da festa do funeral ("festa do funeral" era outra daquelas terrveis 
expresses cheias de paradoxos no revelados, como "horas de visitao", no caso de velrios; mas parecia no haver outro modo de qualificar a reunio de pessoas 
daquela tarde). Estava silenciosa e sonolenta desde que Louis chegara de Bangor... mas isso no importava.
    - Quero que voltem para Chicago com sua me e seu pai - Louis repetiu pacientemente. - Eles vo embora amanh. Se falar com eles agora e marcar logo a passagem 
na DeIta, vai conseguir viajar no mesmo avio.
    - Louis, voc perdeu o juzo? Depois da briga que teve com o meu,....
    Louis comeou a falar com a rapidez de um tagarela, o que era totalmente contrrio ao seu modo de ser. Revelava um entusiasmo um tanto grosseiro. Como um jogador 
que assim que sai do banco dos reservas consegue levar a bola at a meta adversria, cortando e costurando, ludibriando com singular e delirante facilidade quem 
dele se aproxima. Nunca fora um mentiroso particularmente hbil, e no planejara absolutamente nada, mas um fluxo de mentiras plausveis, meias-verdades e inspirada 
justificao despejou-se com facilidade de dentro dele.
    - A briga  uma das razes para eu querer que .voc e Ellie voltem com seus pais.  hora de comear a cicatrizar a ferida, Rachel. Percebi isso... senti isso.., 
no velrio. Quando a briga comeou, eu.estava tentando endireitar as coisas.
    - Mas esta viagem... Realmente no acho que seja uma boa idia, Louis. Ns precisamos de voc. E voc precisa de ns.
    Os olhos de Rachel mediram-no com ar incrdulo.
    - Pelo menos espero que voc precise de ns. E nem eu nem Ellie estamos em condies de...
    - Esto em condies de ficar aqui... - disse Louis com determinao. Era como se estivesse comeando a delirar de febre. - Gostei quando disse que precisa de 
mim e eu tambm preciso de voc e de Ellie. Mas agora este  o pior lugar do mundo para voc, meu bem. Gage est em toda parte, em todo canto da casa. Eu e voc 
sentimos muito,  claro, mas acho que para Ellie as coisas so ainda piores.
    Viu a dor cintilar nos olhos de Rachel e percebeu que conseguira atingi-la. Uma parte dele sentiu vergonha daquela vitria fcil. Todos os livros que lera a 
respeito da morte diziam-lhe que o primeiro e mais forte impulso da pessoa que perdeu um ente querido  se afastar do lugar onde tudo aconteceu... E aprendera tambm 
que sucumbir a esse impulso pode vir a ser exatamente prejudicial, pois d a quem est de luto o duvidoso privilgio de no enfrentar a nova realidade. Os livros 
diziam que o melhor era a pessoa permanecer onde estava, batalhar com a dor no aconchego do lar, at a dor se transformar em lembrana. Mas Louis no se atreveria 
a fazer a experincia com a famlia em casa. Tinha de se livrar de Ellie e Rachel, ao menos por algum tempo.
    - Eu sei - disse ela. - Tenho essa sensao... na casa inteira. Mudei o sof de lugar enquanto voc foi a Bangor... Passei tambm o aspirador para tentar distrair 
minha mente das... das coisas ... e encontrei quatro carrinhos dele... como se estivessem esperando que ele voltasse e... voc sabe, brincasse...
    A voz, trmula desde o incio, se esfacelara. Lgrimas rolaram pelo rosto da mulher.
    - E foi a que tomei o segundo Valium porque comecei a chorar de novo, do jeito que estou chorando agora... Oh, que droga de novela  tudo ... . Oh, me abrace, 
Lou, me abrace por favor!...
    Ele a abraou com carinho, mas se sentiu um farsante. Sua mente tentava arranjar um meio de fazer com que aquelas lgrimas pudessem ser usadas em seu favor. 
Sou um sujeito simptico, tudo bem. Ei  i, vamos l!
    - Quanto tempo isso vai durar? - ela soluou. - Quem sabe se no vai acabar nunca? Se pudssemos t-lo de volta, Louis, juro que tomaria conta dele melhor, isto 
no ia acontecer. O fato daquele motorista estar correndo muito no me livra, no nos livra, da culpa. Nunca imaginei que uma coisa dessas pudesse acontecer com 
ele... A cena fica se repetindo na minha cabea e me machuca tanto, Louis... Nem quando estou dormindo tenho um segundo de descanso: eu sonho com Gage, uma vez atrs 
da outra. . . Eu o vejo correndo na direo da estrada. . . Grito pra ele parar...
    - Chii. .. Agora chega, RacheL
    Ela ergueu o rosto inchado.
    - O Gage nem estava sendo malcriado, Louis. Pra ele tudo no passava de uma brincadeira... O caminho veio na hora errada... A Srta. Dandridge telefonou enquanto 
eu ainda estava chorando. Leu no American de Ellsworth que o motorista tentou se matar.
    - Qu?!
    - Tentou se enforcar na garagem da casa dele. Segundo o jornal, est em estado de choque e com uma depresso profunda...
    - Pena que no conseguiu morrer - disse Louis brutalmente, mas a voz pareceu distante aos seus prprios ouvidos. Sentiu um calafrio tomando conta do corpo. O 
lugar tem poder, Louis... Foi cheio de fora no passado e estou com medo de que esteja voltando a ter pleno poder. - Meu filho est morto e esse motorista foi solto 
por uma fiana de mil dlares... Vai continuar se sentindo deprimido e com vontade de morrer at que um juiz qualquer casse a carteira dele por noventa dias e na 
sada lhe aperte o punho dizendo que est tudo bem.
    - A Srta. Dandridge diz que a mulher pegou as crianas e foi embora -Rachel falou sombriamente. - No leu isso no jornal, mas soube por algum que conhece um 
vizinho dele. No estava bbado. No estava drogado. Nunca teve multas por excesso de velocidade. Mas disse que quando entrou em Ludlow, simplesmente teve vontade 
de pisar fundo no acelerador. Disse que no sabe como aconteceu. Simplesmente aconteceu.
    Simplesmente teve vontade de pisar fundo no acelerador.
O lugar tem poder...        -
    Louis afastou esses pensamentos. Pegou suavemente a esposa pelo brao.
    - Telefone pra seus pais. Telefone agora. No h necessidade de voc e Ellie passarem outro dia nesta casa. Nem mais um dia.
    - Mas no vou sem voc. Louis, eu quero que ns... Eu preciso que fiquemos juntos.
    - Daqui a trs dias, quatro no mximo, vou atrs de vocs.
    Se as coisas corressem bem, Rachel e Ellie poderiam voltar em quarenta e oito horas.
    - Tenho de achar algum para me substituir na universidade, pelo menos meio expediente. Posso tirar esses dias de licena, mas no quero deixar tudo nas costas 
de Surrendra. Jud pode olhar a casa enquanto estivermos fora. Vou desligar a chave geral e guardar os mantimentos no congelador dos Dandridge.
    - A escola de .......
    - Ao diabo com a escola. De qualquer modo, as aulas iam acabar daqui a trs semanas. Eles vo compreender, em face das circunstncias. Podem dizer que a dispensaram 
antes do tempo. Tudo vai dar certo...
    - Louis?
    Ele se interrompeu.
    - O que foi?
    - O que voc est escondendo?
    - Escondendo?
    Ele a encarou diretamente, francamente.
    - No sei do que est falando.
    - No sabe?
    - No. No sei.
    - No importa. Vou ligar agora para minha me... se  isso mesmo o que voc quer.
    -  - disse ele; as palavras ecoaram em sua mente com um timbre de ferro.
    - Talvez seja melhor... para Ellie - disse Rachel.
    Ela o fitou com os olhos vermelhos, ainda ligeiramente vidrados por causa do Valium.
    - Parece febril, Louis. Pode estar ficando doente.
    Antes que ele pudesse responder, Rachel foi at o telefone e ligou para o hotel onde os pais estavam hospedados.


    Os Goldman ficaram radiantes com a proposta. No vibraram tanto com a noticia de que, trs ou quatro dias depois, Louis se juntaria  mulher e  filha, embora, 
na realidade, no tivessem de se preocupar com isso. Louis no tinha a menor inteno de ir a Chicago.
    Na opinio dele, o nico obstculo  viagem de Rachel seria conseguir reservas areas to em cima da hora. Mas tambm aqui a sorte estava do seu lado. Ainda 
havia lugares disponveis no vo da Delta de Bangor para Cincinnati e uma rpida verificao comprovou dois cancelamentos num vo de Cincinnati a Chicago. Ellie 
e Rachel s viajariam com os Goldman at Cincinnati, mas chegariam a Chicago apenas uma hora depois deles.
     quase como magia, Louis pensou, desligando o telefone. E a voz de Jud respondeu prontamente: Foi cheio de fora no passado e estou com medo...
    Ora, v se foder, ele reagiu grosseiramente. Aprendi a aceitar um bom nmero de coisas estranhas nos ltimos dez meses, meu bom e velho amigo. Mas voc acha 
que estou disposto a admitir que um pedao mal-assombrado de cho possa influenciar a reserva de passagens areas? Francamente no!
    - Tenho de fazer as malas - disse Rachel, examinando as informaes sobre os vos que Louis anotara no bloco perto do telefone.
    - Leve s a mala grande - disse Louis.
    Ela o encarou, olhos arregalados, um tanto sobressaltada.
    - Para ns duas? Louis, voc est brincando!
    - Tudo bem, leve tambm duas sacolas de viagem. Mas no v se estafar pegando uma roupa diferente para cada dia dessas trs semanas - ele disse, pensando, principalmente 
porque, muito breve, voc pode estar de volta a Ludlow. - Leve roupa para uma semana ou dez dias. Tem o talo de cheques e os cartes de crdito. compre o que precisar.
    - Mas no podemos... - ela comeou num tom incrdulo. Parecia insegura sobre tudo, manobrvel, bastante confusa. Louis se lembrou do estranho, atordoante comentrio 
que a mulher fizera sobre um Winnebago que uma vez ele tivera vontade de comprar.
    - Temos dinheiro - disse.
    - Bem... acho que podamos usar as economias que estvamos fazendo para os estudos de Gage, mas vamos demorar um dia ou dois para ter o dinheiro em nossa conta 
corrente, fora o tempo para a compensao dos cheques...
    O rosto de Rachel comeou a se enrugar e entrou de novo em colapso. Louis abraou-a. Ela tem razo. A dor nos atinge sem parar, nunca d sinais de ceder.
    - Rachei, no - disse ele. - No chore.
    Mas evidentemente ela continuou a chorar... Tinha de chorar.

    Quando Rachel fazia as malas no andar de cima, o telefone tocou. Louis correu para atend-lo, achando que seria algum do departamento de reservas da Delta informando 
que tinham se enganado - no havia lugares disponveis. Eu devia ter visto que tudo estava indo bem demais.
    Mas no era da Delta. Era Irwin Goldman.
    - Vou chamar Raquel - disse Louis.
    - No.
    Por um instante, no houve mais nada, apenas silncio. Provavelmente ele est sentado do outro lado, tentando decidir de que palavro vai me chamar primeiro.
    Quando Goldman voltou a falar, sua voz parecia muito tensa. Parecia empurrar as palavras para fora contra alguma forte resistncia interior.
    -  com voc que quero falar. Dory pediu que eu telefonasse para me desculpar pelo.., pelo meu comportamento. E acho, Louis, que eu j estava mesmo com vontade 
de lhe pedir desculpas.
    Ora, Irwin! Que generosidade de sua parte! Meu Deus, acho que acabei de molhar as calas!
    - No precisa se desculpar - disse Louis, a voz seca e mecnica.
    - O que eu fiz foi indesculpvel - disse Goldman. Agora no parecia estar empurrando as palavras, parecia estar tossindo. - Sua sugesto de que Rachel e Eileen 
fossem l para casa me fez ver como voc reagiu com grandeza a tudo isso.., e como eu fui pequeno.
    Havia alguma coisa muito familiar naquele tom, alguma coisa estranhamente familiar.
    Ento descobriu o que era e a boca se repuxou numa forte contrao, como se tivesse mordido um grande limo maduro. Era o modo de Rachel (ela estava completamente 
inconsciente disso, Louis tinha certeza) dizer contritamente no fim de certas brigas: Louis, desculpe por eu ter me comportado como uma vbora. Ali estava aquela 
voz, despojada da vivacidade, da jovialidade de Rachel, sem dvida, mas aquela mesma voz dizendo: Louis, desculpe por eu ter me comportado como um bastardo.
    O velho levaria a filha e a neta de volta; as duas correriam do Maine para a casa do vov. Nas asas da Deita e da United, as duas voltariam para o lugar delas, 
para o lugar onde Irwin Goldman queria que ficassem. Ento ovelho podia se dar ao luxo de ser magnnimo. Dentro do que Irwin
sabia, ele era o vitorioso. Por isso vamos esquecer que eu lhe dei um soco na frente do caixo do seu filho morto, Louis, que o chutei depois que voc caiu, que 
derrubei o caixo do cavalete e quebrei o trinco para que voc pudesse ver - acho que voc viu - aquele ltimo pedao da mo do garoto. Vamos esquecer tudo isso. 
Fica o dito pelo no dito.
    Por mais terrvel que seja, Irwin, seu velho porco, eu queria mais  que voc morresse... se isso no estragasse os meus planos.
    - Tudo bem, Goldman - ele disse com voz calma. - Foi... bem... foi um dia muito carregado de emoes para todos ns.
    - Mas isso no justifica - Goldman persistiu e Louis percebeu (embora no quisesse admitir) que o homem no estava sendo apenas diplomtico, no estava dizendo 
que lamentava ter se comportado como um bastardo porque tinha conseguido o que queria. Goldman estava quase chorando e falava num tom enftico, a voz trmula, embargada. 
- Foi um dia terrvel para todos ns. Graas a mim. Graas a um estpido velho cabea de vento. Eu feri minha filha quando ela mais precisava da minha ajuda... Eu 
o ofendi, e talvez voc tambm precisasse da minha ajuda, Louis. Que voc tenha agido assim... com tanta generosidade... depois de eu ter me comportado daquela maneira... 
Isso me faz sentir um lixo. E justamente assim que mereo estar me. sentindo.
    Oh, faa-o parar, faa-o parar, antes que eu comece a gritar com ele e estrague tudo.
    - Provavelmente Rachel lhe contou, Louis, que tivemos outra filha...
    - Zelda. Sim, ela me falou sobre Zelda.
    - Foi difcil - Goldman continuou com aquela voz tremida. -Difcil para todos ns. Difcil principalmente para Rachel (Rachel estava l quando Zelda morreu), 
mas tambm muito difcil para Dory e para mim. Dory quase teve um colapso nervoso...
    E o que voc acha que Rachel teve?, Louis quis gritar. Pensa que uma criana no pode ter tambm um colapso nervoso? Vinte anos depois ela ainda se apavora com 
a simples idia da morte. E agora acontece isto. Esta maldita coisa, esta coisa terrvel! No deixa de ser um milagre que no esteja na porra do hospital, sendo 
alimentada por um tubo nas veias. Ento no me venha dizer como a coisa foi difcil pra voc e sua mulher, seu bastardo.
    - Desde que Zelda morreu, ns.:. acho que nos agarramos muito a Rachel... Sempre querendo proteg-la... e compens-la. Compens-la dos problemas que teve com 
as... as costas... durante anos depois da morte da irm. Reparar nossa culpa por no estarmos l naquela hora.
    Sim, o velho estava realmente chorando. Por que, afinal, ele precisava chorar? Louis teria mais dificuldade em se apegar  pureza,  limpidez de sua raiva. Ficaria 
mais difcil, mas no impossvel. Sua mente evocou propositalmente a imagem de Goldman pondo a mo no bolso do palet e tirando o superabundante talo de cheques... 
Mas, subitamente, viu Zelda Goldman ao fundo, um fantasma irrequieto numa cama que cheirava mal, o rosto contorcido de rancor e agonia, as mos contradas como garras. 
O fantasma Goldman. Oz, o Gande e TeveL
    - Por favor - disse ele. - Por favor, Goldman. Irwin. No fale mais. No vamos tornar as coisas piores do que j so na realidade, est bem?
    - Sei agora que  um homem bom e que fiz um julgamento errado sobre voc, Louis. Oh, escute, eu sei o que est pensando. Ser que sou to estpido? No. Estpido 
sim, mas no to estpido. Acha que s estou dizendo isso porque... Oh, est pensando, oh, sim... Ele est conseguindo o que quer e uma vez tentou me comprar, mas... 
mas Louis, eu juro...
    - Tudo bem, Goldman - disse Louis suavemente. - Eu no posso... eu simplesmente no posso mais ouvir voc falando assim, est certo?
    Agora sua voz tambm tremia.
    - Tudo bem - Goldman respondeu e deu um suspiro. Louis achou que era um suspiro de alvio. - Mas me deixe dizer mais uma vez que lhe peo desculpas. No tem 
de aceitar meu pedido. Mas foi para isso que telefonei, Louis. Desculpe.
    - Esquea - disse Louis, fechando os olhos. Tinha uma trovoada na cabea. - E obrigado, Irwin. Aceito suas desculpas.
    - Obrigado a voc - disse Goldman. - E obrigado.., por deixar elas irem conosco. Talvez seja isso o que as duas precisam. Vamos espera-las no aeroporto.
    - timo - disse Lous, e subitamente lhe ocorreu uma idia. Era absurda, mas tinha o seu encanto. Deixava o dito pelo no dito... e deixaria Gage. descansar 
tranqilamente no tmulo do Boa Vista. Em vez de tentar reabrir urna porta j fechada, colocaria sobre ela uma tranca, depois um ferrolho duplo.., e jogaria a chave 
fora. Faria exatamente o que disse  mulher: colocaria em ordem suas coisas e tomaria um avio para Shytown. Talvez passassem todo o vero em Chicago, ele, Rachel 
e a filha adorvel. Podiam ir ao zoolgico, ao planetrio e andar de barco no lago. Levaria Ellie ao topo da Sears Tower e lhe mostraria o meio-oeste se estendendo 
pelo horizonte, um grande tabuleiro de jogo cheio de magnficas e variadas paisagens. Depois, quando chegasse o meio de agosto, voltariam para aquela casa que agora 
parecia to triste e sombria, e talvez pudessem comear tudo de novo. Talvez pudessem refazer com novo nimo suas vidas. Agora o que havia no lar dos Creed era uma 
trama feia, urdida com sangue empoado.
    Mas aquilo no seria o mesmo que assassinar Gage? Mat-lo uma segunda vez?
    Uma voz dentro dele tentou argumentar que no era bem assim, mas Louis no quis lhe dar ouvidos. Fez incontinenti a voz se calar.
    - Irwin, tenho de subir agora. Quero ver se Rachel no precisa de alguma coisa e depois vou fazer com que ela durma.
    - Est bem. At logo, Lous. E mais uma vez...
    Se Irwin disser mais uma vez que se desculpa, eu dou a porra de um grito.
    - At logo, Irwin - disse ele e desligou o telefone.

    Rachel estava mergulhada numa pilha de roupas quando Louis subiu. Blusas em cima das camas, vestidos nas costas das cadeiras, calas compridas em cabides pendurados 
nas maanetas das portas. Sob a janela, os sapatos se alinhavam como soldados. Parecia estar fazendo as malas devagar, mas com a devida competncia. Louis percebeu 
que a mulher ia levar pelo menos trs malas (talvez quatro), mas no fazia sentido discutir por causa disso. Sem qualquer comentrio, comeou a ajud-la.
    - Louis - disse ela quando os dois fechavam a ltima mala (Louis teve de sentar em cima da mala para que Rachel pudesse fechar o zper) -, tem certeza de que 
no h nada que queira me dizer?
    - Pelo amor de Deus, querida, o que h?
    - No sei o que h - ela respondeu num tom calmo. -  por isso que estou perguntando.
    - O que voc acha que vou fazer? Escapulir para um bordel? Me unir a um circo ambulante? O qu?
    - No sei. Mas h qualquer coisa errada.  como se estivesse tentando se livrar de ns.
-        Rachel, isso  ridculo!
    Falara com veemncia, quase exasperao. Mesmo no meio de todo aquele embarao, no pde deixar de se sentir um tanto ofendido por ser desmascarado com tanta 
facilidade. 
    Ela sorriu levemente.
    - Voc nunca foi um bom mentiroso, Lou.
    Louis comeou a protestar de novo, mas Rachel o interrompeu.
    - Ellie sonhou que voc tinha morrido. Foi essa noite. Acordou chorando e eu fui ver o que havia. Dormi duas ou trs horas com ela e depois voltei para o nosso 
quarto. Ela disse que, no sonho, voc estava sentado na mesa da cozinha de olhos abertos, mas ela sabia que voc estava morto. Disse que podia ouvir Steve Masterton 
gritando.
    Louis fitou-a com um ar de desnimo.
    - Rachel, o irmo acabou de morrer. E normal que ela sonhe que outros membros da .......
    - Sim, no fui incapaz de deduzir isso. Mas o modo como ela contou o sonho... os ingredientes.., parecia uma espcie de profecia.
    Ela riu baixo.
    - Acho que voc tinha de estar l pra ver.
    - Sim, talvez - disse Louis.
    Parecia uma espcie de profecia.
    - Venha dormir comigo - disse Rachel. - O efeito do Valium acabou e eu no quero tomar outro comprimido. Mas estou com medo. Tambm venho tendo meus sonhos...
        - Sonhos?
    - Sonhos com Zelda - ela respondeu sem grande nfase. - Nessas ltimas noites, desde a morte de Gage,  s eu adormecer e l est Zelda. Ela diz que est vindo 
e que dessa vez vai me levar. Que ela e Gage vo me levar. Porque deixei que morressem.
    - Rachel, isso ...
    - Eu sei. Apenas um sonho. Nada de mais. Mas venha dormir comigo, e se puder, afaste de mim os pesadelos, Louis.
    Estavam deitados no escuro, bem juntos um do outro num dos lados da cama.
    - Rachel? Ainda est acordada?
- Sim.
    - Quero lhe perguntar uma coisa.
    - Diga.
    Ele hesitou, no querendo causar mais sofrimento  mulher, mas precisando saber. Perguntou enfim:
    - Voc se lembra do susto que tivemos quando Gage tinha nove meses?
    - Sim.  claro que me lembro. Por qu?

    Quando Gage tinha nove meses, Louis ficou extremamente preocupado com o tamanho de seu crnio. O problema surgiu depois de uma consulta a tabelas cranianas que 
mostravam o desenvolvimento normal, ms a ms, da cabea das crianas. Aos quatro meses, o tamanho do crnio de Gage comeou a atingir o limite mais alto da curva, 
e depois foi ficando cada vez maior. O menino no tinha dificuldade em manter a cabea em p (isso era evidente), mas Louis resolveu lev-lo a George Tardiff, talvez 
o melhor neurologista do meio-oeste. Rachel queria saber o que estava errado e Louis dissera a verdade: temia que Gage tivesse hidrocefalia. O rosto de Rachel ficara 
muito plido, mas ela continuou calma:
    - Gage me parece normal.
    Louis balanou a cabea.
    - A mim tambm. Mas no quero ignorar esta pequena variao, meu bem.
    - Nem deve - disse ela. - Ns no podemos ignorar.
    Tardiff mediu o crnio de Gage e franziu a testa. Encostou dois dedos no rosto de Gage e pressionou. Gage se encolheu. Tardiff sorriu. O corao de Louis se 
encheu de ternura. Tardiff deu uma bola para Gage segurar. Gage segurou-a por algum tempo e depois a jogou no cho. Tardiff pegou a bola e ficou batendo com ela 
no cho, atento aos olhos de Gage. Os olhos de Gage seguiam a trajetria da bola.
    - Eu diria que h cinqenta por cento de chances de que ele seja hidroceflico - Tardiff explicou mais tarde a Louis em sua saia. - No, no... realmente as 
chances podem ser at um pouco maiores que isso. Mas se houver hidrocefalia,  suave. Ele parece muito esperto. A nova tcnica operatria pode resolver facilmente 
o problema... se houver problema.
    - Isso quer dizer cirurgia cerebral - Louis retorquiu.
    - Uma pequena cirurgia cerebral
    Louis estudara o processo pouco depois de ter comeado a se preocupar com o tamanho da cabea de Gage, e a operao, destinada a drenar o excesso de fluido, 
no parecia assim to pequena, ao menos de seu ponto de vista. Mas ficou de boca fechada, achando que devia dar graas a Deus pelo fato da operao existir.
    - Naturalmente - Tardiff continuou -,  bem possvel que seu filho simplesmente tenha uma cabea um tanto grande para os nove meses. Acho que um exame mais detalhado 
do crnio  o melhor ponto de partida. Est de acordo?
    Louis concordou.
    Gage passou uma noite no Hospital Our Sisters of Charity e foi submetido  anestesia geral. A cabecinha adormecida foi encaixada num aparelho que lembrava um 
gigantesco secador de roupas. Rachel e Louis aguardavam no andar de baixo; Ellie estava na casa da av, vendo o tempo todo a Vila Ssamo no novo videocassete do 
av. Para Louis, aquelas horas tinham sido longas, sombrias. Durante esse tempo, fizera suposies com diferentes graus de morbidez e comparara os resultados. Morte 
sob anestesia geral, morte durante uma cirurgia craniana, ligeiro retardamento mental como resultado da hidrocefalia, retardamento cataclsmjco em conseqncia da 
mesma coisa, epilepsia, cegueira... Oh, havia infinitas possibilidades. Para mapas realmente completos de calamidades, Louis se lembrou de ter pensado, consulte 
o mdico que tem dentro de casa.
    Tardiff entrou na sala de espera por volta das cinco horas. Trazia trs charutos. Colocou um na boca de Louis, outro na de Rachel (ela estava demasiado embasbacada 
para protestar) e o terceiro na dele.
    - Tudo bem com o menino. Nada de hidrocefalia.
    - Acenda esta coisa - Rachel dissera, rindo e chorando ao mesmo tempo. - Vou fumar at vomitar.
    Sorridente, Tardiff acendeu os charutos.
    Deus o estava salvando para a Rodovia 15, Dr. Tardiff Louis pensou agora.
    - Rachel, se ele fosse uma criana com hidrocefalia e se a operao no resolvesse.., mesmo assim teria sido capaz de am-lo?
    - Que pergunta esquisita, Louis!
    - Teria sido capaz?
    - Sim,  claro. Teria amado Gage no importa o que houvesse com ele.
    - Mesmo que fosse retardado?
    - Sim.
    - No ia querer intern-lo numa instituio?
    - No, acho que no ia querer - ela respondeu pausadamente. - Sei que com o dinheiro que voc est ganhando agora, poderamos nos dar a esse luxo, isto , poderamos 
intern-lo numa instituio realmente boa... mas acho que eu ia querer t-lo junto de ns, se pudssemos cuidar dele... Por que est me perguntando isso agora, Louis?
    -Acho que estava pensando na Zelda - disse ele, atnito com sua prpria loquacidade. - Tive vontade de saber se voc seria capaz de suportar aquilo de novo. 
    - No ia ser a mesma coisa - disse ela, num tom quase animado. - Gage era... bem, Gage era Gage. Era nosso filho. Isso faria muita diferena. Ia ser difcil, 
eu acho, mas... ser que voc ia querer coloc-lo numa instituio? Um lugar como Pineland?
    - No.
    - Ento vamos dormir.
    -  uma boa idia.
    - Sinto que posso dormir agora - disse ela. - Quero ver o dia de hoje por trs das costas.
    - Amm - disse Louis.
    Um longo tempo depois Rachel falou de novo, num tom sonolento:
    - Voc tem razo, Louis... so apenas sonhos, nvoas...
    - Sem dvida - ele respondeu, beijando-a na ponta da orelha. -Agora durma.
    Parecia uma espcie de profecia.
    Durante um bom tempo, Louis no conseguiu pegar no sono, e pouco antes de conseguir, viu de relance que a curva minguante da lua o contemplava da janela.


    O        dia seguinte foi nublado, mas muito quente. Louis suava muito quando, depois de ter despachado as malas de Ellie e Rachel, tirou os tales de bagagem 
do computador. Achou que manter-se ocupado s estava lhe fazendo bem, mas no via muita coisa em comum com a ltima vez em que pusera a famlia num avio para Chicago, 
fora no Dia de Ao de Graas.
    Elle parecia distante e um tanto esquisita. Vrias vezes naquela manh, Louis levantara os olhos e vira no rosto da filha um ar de estranha especulao.
    A culpa do conspirador est atuante demais, rapaz, ele disse para si mesmo.
    Ellie no fizera qualquer comentrio quando foi informado de que iam todos para Chicago, ela e a me na frente. Talvez passassem o vero inteiro l. Ellie continuou 
em silncio durante todo o desjejum de mingau de aveia. Depois subiu, ps o vestido e os sapatos que Rachel tinha separado. Foi para o aeroporto com o retrato onde 
puxava Gage no tren e sentou-se calmamente numa das poltronas de plstico no saguo do andar trreo. Louis entrou na fila para pegar as passagens e pelo alto-falante 
se ampliavam as informaes de chegadas e chamadas para embarque.
    O        Sr. e a Sra. Goldman apareceram quarenta minutos antes da hora do vo. Irwin Goldman estava alinhado (e, ao que parece, no suava) num sobretudo de 
casimira (apesar da temperatura elevada). Foi at a agncia da Avis para entregar as chaves do carro que tinha alugado. Dory Goldman sentou-se ao lado de Rachel 
e Ellie.
    Louis e Goldman chegaram ao mesmo tempo junto das trs. Louis teve um certo receio de que pudesse haver uma reprise da cena de desculpas ao telefone, mas foi 
poupado disso. Goldman se contentou com um aperto de mo um tanto frouxo e um murmrio de al. O rpido e embaraado olhar que concedeu ao genro confirmou a certeza 
com que Louis despertara naquela manh: o homem estava bbado quando falou com ele.
    Subiram para o saguo superior pela escada rolante e sentaram-se no salo de embarque. No conversaram muito. Dory Goldman manuseava nervosa seu exemplar de 
um romance de Erica Jeing, mas no chegou a abri-lo. Continuava a lanar olhares, um tanto agitada, ao retrato que Ellie tinha na mo.
    Louis perguntou se a filha no queria ir com ele at a livraria, comprar alguma coisa para ler no avio.
    Ellie o estava fitando de novo daquele jeito pensativo. Louis no estava gostando. Aquilo o deixava nervoso.
    - Vai se portar bem na casa da vov e do vov? - perguntou quando atravessavam o saguo.
    - Vou - disse ela. - Papai, o inspetor no vai me pegar? Andy Pasioca disse que tem um inspetor na escola encarregado de pegar as crianas que matam aula.
    - No se preocupe com o inspetor - disse Louis. - Vou dar um jeito na escola. Voc poder comear de novo no outono. No vai haver problemas.
    - Espero que tudo corra bem no outono - disse Ellie. - Nunca estive num primeiro grau. S no jardim de infncia. No sei o que as crianas fazem no primeiro 
grau. Talvez s deveres de casa.
    - Voc vai se dar bem.
    - Papai, voc ainda anda com raiva do vov?
    Louis abriu a boca.
    - Por que diabo voc acha que eu ando... que eu estou aborrecido com seu av, Ellie?
    A menina sacudiu os ombros como se a pergunta no tivesse qualquer importncia.
    - Quando voc fala dele, parece estar sempre de ovo virado.
    - Ellie, que linguagem vulgar!
    - Desculpe.
    A menina atirou-lhe aquele olhar estranho, misterioso e depois se aproximou das prateleiras com livros e revistas infantis: Mercer Meyer, Maurice Sendak, Richard 
Scarry, Beatrix Potter e aquele velho e famoso Dr. Seuss. Como as crianas descobrem essas coisas? Onde vo buscar essas idias? O QUE Ellie sabe? Como tudo isso 
a est afetando? Ellie, o que voc est escondendo atrs desse rostinho plido? De ovo virado - Cristo!
    - Posso ficar com esses, papai?
    Pegara um Dr. Seuss e um livro que Louis no via desde a infncia, a histria do negrinho Sambo e de como um belo dia os tigres comeram as roupas dele.
    Nem pensei que isso existia mais, Louis ruminou, atnito.
    - Sim - disse ele e os dois foram para a pequena fila da caixa. - Eu e seu av gostamos muito um do outro.
    Louis se lembrou da histria que sua me contava... Quando uma mulher queria realmente um beb, "encontrava" um. Lembrou das tolas promessas que fizera de jamais 
mentir para os filhos. Alis, nos ltimos dias, estava se transformando num mentiroso bastante promissor. Mas no queria pensar nisso agora...
    - Sei - disse Ellie e caiu em silncio.
    O silncio enervou-o e Louis tentou quebr-lo:
    - Ento voc acha que vai se divertir em Chicago?
    - No.
    - No? Ora, mas por que no?
    Ela ergueu os olhos com aquela expresso misteriosa.
    - Estou com medo.
    Louis ps a mo na cabea da filha.
    - Com medo? Querida, com medo de qu? No est com medo do avio, est?
    - No. No sei do que estou com medo. Papai, sonhei que fomos ao funeral de Gage e o homem do funeral abriu o caixo e ele estava vazio. Depois sonhei que estava 
em casa e olhei no bero de Gage e ele tambm estava vazio. Mas havia terra dentro dele.
    Lzaro, vem para fora.
    Pela primeira vez, em muitos meses, ele se lembrou do sonho que tivera aps a morte de Pascow... O sonho... E depois acordar e ver que seus ps estavam sujos 
e os ps da cama cobertos de barro e lascas de pinho.
    Os cabelos se arrepiaram em sua nuca.
    - So apenas sonhos - ele disse a Ellie e, pelo menos a seus ouvidos, a voz soou perfeitamente natural. - Vo passar.
    - Quero que voc v conosco - disse ela -, ou que ns trs fiquemos juntos aqui. No podemos ficar, papai? Por favor! No quero ir para a casa da vov e do vov... 
Quero voltar para a escola, est bem?
    - Vai ser por pouco tempo, Ellie - disse ele. - Tenho - engoliu em seco - algumas coisas a fazer aqui e logo estarei com vocs. Ento poderemos decidir o que 
fazer.
    Esperou uma discusso, at mesmo um acesso de raiva estilo Ellie. Teria gostado que isso acontecesse. Era um dado conhecido, no um ingrediente misterioso como 
aquele olhar. Mas houve apenas um silncio inquietante, plido, que pareceu muito intenso. Podia ter perguntado alguma outra coisa, mas achou que no conseguiria, 
talvez a filha j tivesse dito mais do que ele queria ouvir.
    Pouco depois de voltar com a menina ao salo de embarque, houve a chamada para o vo. Com as fichas de embarque na mo, os quatro entraram na fila. Louis abraou 
a esposa e beijou-a com fora. Rachel se agarrou a ele por um instante, mas logo se afastou para que Louis pudesse pegar Ellie no colo e dar-lhe uma beijoca no rosto.
    Ellie fitou solenemente o pai com aquele olhar de esfinge.
    - No quero ir - ela repetiu, mas to baixo que, entre o murmrio e o arrastar de ps dos passageiros que iam embarcar, apenas Louis pde ouvir. - Tambm no 
quero que mame v.
    - No diga isso, Ellie. Voc vai gostar.
    - Eu vou gostar - Ellie respondeu -, mas voc, como  que fica? Como, papai?
    A fila comeou a se deslocar. As pessoas comearam a descer a rampa de embarque para o 727. Rachel puxou a mo de Ellie e, por um instante, ela resistiu, fazendo 
a fila parar, os olhos fixos no pai... Louis lembrou-se da impacincia da outra vez, os gritos de vamos, vamos, vamos!
    - V logo, Ellie. Por favor.
    Rachel olhou para a filha e viu pela primeira vez aquele olhar sombrio, vago.
    - Ellie? - ela exclamou nervosa e, na opinio de Louis, um tanto assustada. - Voc est prendendo a fila, meu bem.
    Os lbios de Ellie tremeram e ficaram brancos. E ento deixou a me pux-la para a rampa de embarque...
    Ainda voltou os olhos para o pai e Louis viu um verdadeiro terror em seu rosto. Ele levantou a mo dando adeus com uma falsa alegria.
    Ellie no respondeu ao aceno.

    Quando Louis deixou o terminal do aeroporto, sua mente foi envolvida por um manto frio. Ele tomou conscincia de que pretendia levar a coisa adiante. Sua mente, 
suficientemente lcida para faz-lo vencer a faculdade de medicina apoiado numa bolsa de estudos e no que a mulher conseguia ganhar trabalhando como balconista das 
cinco as onze da manh, seis dias por semana, tinha se deixado absorver pelo problema e dissecava-o em seus diversos componentes. Era como se fizesse uma prova na 
universidade, a maior prova que j enfrentara. E Louis tencionava passar de ano com dez com louvor.
    Seguiu para Brewer, a pequena cidade em frente a Bangor, do outro lado do Rio Penobscot. Encontrou uma vaga para estacionar defronte  Watson's Hardware, uma 
loja de ferragens.
    - Quer alguma coisa? - perguntou um vendedor.
    - Sim - disse Louis. - Queria uma lanterna grande, daquelas quadradas, e um suporte para cobri-la.
    O        balconista era um homenzinho magro, com a testa alta e olhos espertos. Deu um sorriso, mas o sorriso no foi particularmente agradvel.
    - Vai caar, meu amigo?
    - Como?
    - Vai pegar alguns alces hoje  noite?
    - No, no vou - disse Louis sem sorrir. - No tenho licena.
    O homenzinho piscou e acabou rindo.
    - Em outras palavras - disse ele -, no se meta onde no  chamado, hum? Bem, vejamos... No h nenhum suporte para cobrir essas lanternas grandes, mas voc 
pode levar um pedao de feltro, fazer um buraco no meio e ajustar no cabo da lanterna. Vai parecer que est com uma lanterninha de bolso.
    - Boa idia - disse Louis. - Vou levar.
- Tudo bem. Quer mais alguma coisa?
    - Quero - disse Lous. - Quero uma picareta, uma p e uma pazinha. Uma p de cabo curto e uma pazinha de cabo longo. Uma corda forte com dois metros e meio de 
comprimento. Um par de luvas de borracha. Um encerado com uns dois e meio por dois e meio.
    - Vai ter tudo isso - disse o vendedor.
    - Tenho de abrir uma fossa - disse Louis. - Parece que minha fossa est violando alguns regulamentos e tenho uns vizinhos muito barulhentos. Para no me aborrecer, 
o melhor  fazer o trabalho de noite. No sei se vai adiantar cobrir a lanterna, mas .pelo menos vou tentar. Espero que d certo.
    - Oh - exclamou o vendedor -,  melhor colocar um pregador de roupas no nariz quando comear o trabalho.
    Louis riu para no decepcion-lo. As compras chegaram a 58 dlares e 60 centavos. Pagou em dinheiro.
     medida que o preo da gasolina subia, passara a usar cada vez menos a grande camionete. Alm disso, j h algum tempo ela estava com um chime perigoso, mas 
Louis continuava adiando o conserto. Em parte porque no queria soltar os duzentos dlares que sem dvida a coisa ia lhe custar, mas principalmente porque era uma 
amolao. Agora, quando precisava realmente do velho dinossauro, no se arriscou a peg-lo.
    As compras no caberiam na mala do Civic e Louis estava com medo de voltar a Ludlow com a picareta, a p e a pazinha de cabo longo dentro do carro. Os olhos 
de Jud Crandall eram afiados e seus miolos estavam em perfeito estado. Descobriria logo para que serviria aquilo.
    Ento percebeu que no havia por que voltar a Ludlow. Tornou a atravessar a Ponte Chamberlain na direo de Bangor e pediu um quarto no Howard Johnson's Motor 
Lodge, um motel na Estrada Odlin - de novo perto do aeroporto, de novo perto do Cemitrio da Boa Vista, onde o filho estava enterrado. Registrou-se sob o nome Dee 
Dee Ramone e pagou adiantado a estada.
    Tentou cochilar, pensando que em pouco tempo tudo estaria resolvido. Mas naquela noite teria ainda, para falar como um romance vitoriano, trabalho frentico 
pela frente, suficientemente frentico para ser lembrado por toda a vida.
    Tentou cochilar, mas o crebro simplesmente no se calou.
    Ficou ali deitado, no anonimato da cama do motel, sob uma gravura indefinida de barcos pitorescos num pitoresco e velho cais de um porto pitoresco da Nova Inglaterra. 
Tinha se deitado vestido, as mos entrelaadas na nuca. S tirara os sapatos e pusera as chaves e a carteira com dinheiro na mesa-de-cabeceira. Aquela sensao de 
frio no se dissipava; sentia-se totalmente desarraigado de sua gente, dos lugares que lhe eram familiares, at mesmo do trabalho. Poderia estar em qualquer motel 
do mundo: em San Diego, Duluth, Bangcoc ou Charlotte Amalie. No estava em lugar algum e, de vez em quando, um pensamento de extrema estranheza o envolvia: antes 
de rever qualquer um daqueles lugares e rostos familiares, veria de novo seu filho.
    O        plano continuava se desenrolando em sua mente. Examinava-o de todos os ngulos, remexia nele, virava-o pelo avesso, procurava brechas, pontos fracos. 
Era como se caminhasse por uma ponte estreita sobre um abismo de insanidade. A loucura o cercava por todos os lados, ondulava sem alvoroo como as asas de uma coruja 
de grandes olhos dourados. Ia mergulhando na loucura.
    A voz de Tom Rush ecoou sonhadoramente em sua cabea: Oh, morte, suas mos so viscosas... Sinto-as em meus joelhos... Voc veio e levou minha me ... . No 
quer voltar atrs de mim?
    Loucura. Loucura em toda a volta, prxima, no seu encalo.
    Agarrou-se  ponte estreita da racionalidade; estudou o plano.
    Naquela noite, por volta das onze horas, escavaria o tmulo do filho, tiraria o corpo do caixo, embrulharia Gage num pedao de lona e o colocaria na mala da 
Civic. Depois, tornava a fechar o caixo e a encher o tmulo de terra. Voltava para Ludlow, tirava o corpo de Gage da mala... e dava um passeio com ele. Sim, ia 
dar um passeio.
    Se Gage voltasse, teria de se defrontar com duas possibilidades. Na primeira, via Gage retomando como Gage, talvez atordoado, de raciocnio lento ou mesmo retardado 
(s no mais profundo de sua mente esperava que Gage voltasse sem alterao, exatamente como fora - mas, sem dvida, mesmo isso era possvel, no era?), mas ainda 
seu filho, o filho de Rachel, o irmo de Ellie.
    Na segunda alternativa, via uma espcie de monstro emergindo dos bosques atrs da casa. Passara a aceitar tanta coisa que j no rejeitava a idia de monstros, 
ou mesmo demnios, seres perversos e incorpreos do alm, capazes de se apoderar de um corpo reanimado do qual a primitiva alma tivesse escapado.
    De um modo ou de outro, estaria sozinho com seu filho. E faria...
E vou fazer um diagnstico.
    Sim. Era isso o que ia fazer.
    Vou fazer um diagnstico, no apenas do seu corpo mas tambm do esprito. Vou dar um desconto pelo trauma do prprio acidente, que ele poder ou no lembrar. 
Tendo em vista o exemplo de Church, posso esperar retardamento, talvez suave, talvez profundo.  luz do que vir num perodo de vinte e quatro a setenta e duas horas, 
vou avaliar a possibilidade de reintegrar Gage  famlia. E se o dano for grande demais - se voltar, por exemplo, como Timmy Baterman deve ter voltado, uma espcie 
de demnio -, vou mat-lo.
    Como mdico, sentia que poderia matar Gage (se Gage fosse apenas um recipiente contendo a alma de algum outro ser) com bastante facilidade. No se deixaria levar 
por splicas ou artimanhas. Seria capaz de mat-lo como mataria um rato transmissor de peste bubnica. No precisava haver melodrama na coisa. Uma plula dissolvida, 
talvez duas ou trs. Se necessrio, uma injeo. Tinha morfina em sua maleta. Na noite seguinte, voltaria ao Boa Vista com o corpo sem vida e tomaria a enterr-lo, 
simplesmente confiando que sua boa sorte funcionaria uma segunda vez (voc nem sabe se ela vai funcionar da primeira, ele se alertou). J tinha pensado na alternativa 
mais fcil e segura do "simitrio" de bichos, mas no queria o filho l em cima. Por muitas razes. Uma criana enterrando seu cozinho cinco, dez ou vinte anos 
mais tarde podia deparar com os restos mortais de Gage - essa era uma das razes. Mas a razo mais forte era mais simples. Talvez o "simitrio" de bichos ficasse... 
perto demais.
    Depois de enterr-lo de novo, voava para Chicago e se unia  famlia. Ellie e Rachel nunca ficariam sabendo daquela experincia malograda.
    Mas voltou  primeira alternativa, a volta de Gage sem alteraes excessivas, uma alternativa a que talvez quisesse se agarrar a qualquer custo, movido por todo 
o amor que tinha pelo filho...
    Ele e Gage deixariam a casa quando o perodo de exame estivesse concludo; sairiam  noite. Levaria certos papis com ele, pois nunca mais queria voltar a Ludlow. 
Registrava-se num motel com Gage - talvez aquele mesmo onde estava.
    Na manh seguinte, encerrava todas as suas contas correntes e convertia tudo em cheques de viagem American Express (no v embora com o filho que acabou de ressuscitar 
sem o American Express). Ficaria apenas com alguns trocados no bolso.
    Voava com Gage para algum lugar, muito provavelmente a Flrida. De l ligava para Rachel, dizia onde estava, mandava que pegasse Ellie e tomasse o primeiro avio 
sem contar  me e ao pai para onde ia. Louis achava que era capaz de convenc-la a fazer isto. No faa perguntas, Rachel. Venha logo. Venha j. Neste minuto.
    Diria a Rachel onde estava hospedado (com Gage). Algum motel Rachel e Ellie chegariam de txi. Levaria Gage at a porta quando as duas tocassem a campanhia. 
Talvez Gage estivesse usando um calo de banho.
    E ento...
    Bem, no se atrevia a ir mais adiante. Voltava ao inicio do plano e comeava tudo de novo. Achava que se as coisas funcionassem bem teriam de comear vidas novas, 
inclusive com novas identidades para que Irwin Goldman no pudesse usar o superabundante talo de cheques para procur-los. Tais coisas podiam ser arranjadas.
    Lembrou-se vagamente do dia em que chegou com a famlia  casa de Ludlow. Estava tenso, cansado e bastante alarmado, cultivando fantasias de escapar para Orlando 
e se empregar como mdico na Disney World. Talvez, afinal, aquilo no fosse to absurdo.
    Viu-se vestido de branco, ressuscitando uma mulher grvida que se metera estupidamente na montanha russa e desmaiara. Afastem-se, me deixem passar, deixem-na 
respirar, ele se ouviu dizendo; e a mulher abriu os olhos, sorrindo agradecida.
    Quando aquela fantasia, no muito desagradvel, fugiu de sua mente, Louis adormeceu. Adormeceu quando Ellie acordou no avio, em algum lugar sobre as Quedas 
do Nigara, gritando por causa de um pesadelo, as mos muito apertadas, os olhos espantados e duros; dormia quando a aeromoa precipitou-se pelo corredor para ver 
o que havia; dormia quando Rachel, muito nervosa, tentou acalm-la; dormia enquanto Ellie continuava gritando sem parar:  Gage! Mame!  Gage!  Gage! Gage est 
vivo! Gage tirou a faca da maleta do papai! No deixe ele me pegar! No deixe ele me pegar, papai! -
    Dormia quando Ellie finalmente se aquietou e ficou encolhida, tremendo no colo da me, os olhos arregalados e sem lgrimas; dormia quando Dory Goldman pensou 
que coisa terrvel aquilo tudo fora para Elleen e como a neta lembrava Rachel depois da morte de Zelda.
    Louis dormiu e acordou s cinco e quinze, com a luz da tarde comeando a declinar, a mergulhar na noite prxima.
    Um trabalho frentico, ele pensou tolamente, levantando-se da cama.
    

    Quando o vo 419 da United Airlines pousou no Aeroporto de O'Hare, em Chicago, e descarregou seus passageiros s trs e dez, hora-padro local, Ellie Creed cara 
num estado de quase histeria e Rachel parecia muito assustada.
    Se algum encostasse sem querer no ombro de Ellie, a menina dava um salto e encarava a pessoa com olhos enormes, disformes; todo o corpinho tremeria sem parar, 
sem descanso. Era como se estivesse cheia de eletricidade. O pesadelo no avio j fora suficientemente terrvel, mas aquilo... Rachel simplesmente no sabia o que 
fazer.
    Caminhando para o terminal, Ellie deu um passo em falso e caiu. No se levantou; simplesmente ficou cada, no cho, as pessoas passando em volta dela (s vezes 
lhe atirando uma olhadela simptica, mas distrada, prpria de passageiros em trnsito que no tm tempo a perder). Rachel a suspendeu.
    - Ellie, o que est havendo com voc?
    Ellie no respondeu.
    Atravessaram o saguo para a esteira de bagagens e Rachel viu a me e o pai. Acenou para os dois e eles se aproximaram.
    - Mandaram que sassemos do porto de desembarque e esperssemos aqui - disse Dory. - Achamos... Rachei? Eileen est bem?
    - No muito bem.
    - Onde fica o banheiro, mame? Vou vomitar.
    - Oh, Deus - Rachel exclamou num tom de desespero e pegou a filha pela mo. O banheiro de senhoras ficava do outro lado do saguo; ela puxou rapidamente a menina.
    - Rachel, no quer que eu v? - Dory gritou.
    - No, pegue a bagagem; voc conhece as malas. Tudo bem conosco.
    Felizmente, o banheiro de senhoras estava deserto. Rachel levou a filha para um dos gabinetes, remexendo na bolsa em busca de uma moeda, mas logo percebeu - 
felizmente - que havia trs com as fechaduras quebradas. Sobre uma dessas fechaduras, algum escrevera com lpis de cera:
Sir John Crapper era um porco chauvinista!
    Rachel abriu a porta depressa; agora Ellie gemia e segurava o estmago. Duas vezes pareceu que ia vomitar, mas o vmito no veio; os arrancos eram arfadas secas 
de uma total exausto nervosa.
    Quando Ellie disse  me que se sentia um pouco melhor, Rachel levou-a para uma das pias e lavou-lhe o rosto. Ellie estava terrivelmente plida e tinha grandes 
olheiras.
    - Ellie, o que voc tem? No quer me dizer?
    - No sei o que eu tenho - disse ela. - Mas desde que o papai me falou da viagem sei que tem alguma coisa errada. Porque havia alguma coisa errada com ele.
    Louis, o que voc est escondendo? Estava escondendo alguma coisa. Eu notei; mesmo Ellie foi capaz de notar.
    Rachel percebeu que tambm passara todo o dia nervosa, como se estivesse esperando alguma coisa acontecer. Era como se sentia nos dois ou trs dias antes das 
regras, tensa e nervosa, pronta a rir, a chorar, a ter uma dor de cabea que latejaria como um apito de trem dentro dela e s ia passar trs horas depois.
    - O qu? - ela perguntou ao reflexo de Ellie no espelho. - Querida, o que poderia haver de errado com o papai?
    - Eu no sei - disse Ellie. - Foi o sonho. Alguma coisa sobre Gage. Ou talvez sobre o Church. Eu no lembro. No sei.
    - Ellie, que sonho foi esse?
    - Eu sonhei que estava no "simitrio" de bichos - disse Ellie. -Pascow me levou at o "simitrio" de bichos e disse que papai ia subir at l e ia acontecer 
uma coisa terrvel.
- Pascow?
    Um dardo de terror, afiado, mas ainda de forma vaga, atingiu Rachel. De quem era aquele nome; por que lhe parecia familiar? Achou que j tinha ouvido aquele 
nome (pelo menos um nome parecido), mas de modo algum conseguia se lembrar onde. 
    - Sonhou que algum chamado Pascow levou voc at o "smitrio" de bichos?
    - Sim, foi assim que ele disse que se chamava. E...
    Os olhos da menina se arregalaram de repente.
- Lembra de mais alguma coisa?
    - Ele disse que foi mandado para avisar, mas no podia interferir. Disse que... Eu no sei... Que estava perto do papai porque os dois estavam juntos quando 
a alma dele ....... Eu no consigo lembrar! - ela gemeu.
    - Querida, acho que voc sonhou com o "simitrio" de bichos porque ainda est pensando no Gage. Tenho certeza de que no h nenhum problema com o papai. Est 
se sentindo melhor?
    - No - Ellie murmurou. - Mame, estou com medo. Voc no est com medo?
    - Hum-hum - Rachel balanou negativamente a cabea, um movimento vivo. Depois sorriu.
    Mas estava, estava com medo; e aquele nome, Pascow, assombrava-a com sua familiaridade. Sentia que j o tinha ouvido, meses ou anos atrs, ligado a alguma situao 
terrvel. Esta sensao enervante no a abandonava.
    Pressentia alguma coisa - alguma coisa prenhe de significao, inchando, esperando a hora de explodir. Alguma coisa terrvel que precisava ser evitada. Mas o 
qu? O qu?
    - Tenho certeza de que est tudo bem - disse. - No quer voltar para junto do vov e da vov?
    - Acho que sim - Ellie respondeu apaticamente.
    Uma mulher porto-riquenha entrou com o filho pequeno no banheiro de senhoras, ralhando com ele. Havia uma grande mancha na frente das bermudas do menino e Rachel 
se lembrou de Gage com uma intensidade que a paralisou. A emoo foi como novocana, suavizando seu nervosismo.
    - Vamos. Podemos ligar para o papai da casa do vov.
    - Ele estava usando um calo - Ellie falou de repente, voltando-se para o menino.
    - Ele quem, meu bem?
    - Pascow. No meu sonho ele estava usando um calo vermelho.
    Aquilo voltou a deixar o nome momentaneamente em foco, e Rachel sentiu mais uma vez um medo de enfraquecer os joelhos... Depois o nome escapuliu.
    Havia muita gente diante da esteira de bagagem; Rachel s conseguiu ver a ponta do bon do pai, o nico bon que tinha um penacho. Dory Goldman guardava para 
elas duas cadeiras junto  parede e acenava. Rachel levou Ellie pela mo.
    - Agora est se sentindo melhor, querida? - Dory perguntou.
    - Um pouco melhor - disse Ellie. - Mame...
    A menina se virou para a me e cortou o que ia dizer. Rachel se empinara na cadeira com uma rigidez absoluta, a mo tapando a boca, o rosto plido. Tinha descoberto. 
Tinha descoberto de repente e levado um tremendo golpe. Sem dvida devia ter lembrado logo, mas na poca tentara varrer a coisa da mente. E claro!
- Mame?
    Rachel se virou devagar para a filha e Ellie pde ouvir os tendes de seu pescoo estalarem. Afastou a mo da boca.
    - O homem do seu sonho disse como era o primeiro nome dele, Eileen?
- Mame, voc est toda...
    O homem do seu sonho disse como era o primeiro nome dele, Eileen?
    Dory contemplava a filha e a neta como se ambas tivessem enlouquecido.
    - Disse, mas eu no consigo lembrar... Mame, voc est me machucaaando...
    Rachel baixou os olhos e viu que sua mo apertava o pulso da filha como uma algema.
    - Era Victor?
    Ellie respirou ruidosamente.
    - Era, Victor! Disse que se chamava Victor! Mame, voc tambm sonhou com ele?
    - No era Paxcow - disse Rachel. - Era Pascow.
    - Foi isso o que eu disse. Paxcow.
    - Rachel, o que h? - Dory perguntou. Segurou a mo de Rachel e estremeceu por senti-la to fria. - E o que est havendo com Eileen?
    - O problema no  com Eileen - disse Rachel. - Acho que  com Louis. Alguma coisa est acontecendo com Louis. Ou alguma coisa vai acontecer. Fique com Ellie, 
mame. Quero ligar para casa.
    Levantou-se e foi para os telefones pblicos, procurando na bolsa uma moeda de vinte e cinco centavos. Fez uma chamada a cobrar, mas no houve ningum do outro 
lado da linha para receber a ligao. O telefone simplesmente tocou.
    - No quer tentar mais tarde? - a telefonista perguntou.
    - Sim - Rachel respondeu e desligou:
    Ficou parada, olhando para o telefone.
    Ele disse que foi mandado para avisar, mas no podia interferir. Disse que.... que estava perto do papai porque os dois estavam juntos quando a alma dele de-de... 
Eu no consigo lembrar!
    - Desencarnou - Rachel murmurou. Os dedos se cravaram na fazenda da boba. - Oh, meu Deus, a palavra era essa?
    Tentou agarrar os pensamentos, coloc-los em ordem. Alguma coisa estava acontecendo, alguma coisa alm da perturbao natural pela morte de Gage. O que significava 
aquela estranha viagem atravs do pas, uma viagem que tanto se assemelhava a uma fuga? O que Ellie sabia do rapaz que morreu no primeiro dia de trabalho do pai?
    Nada, sua mente respondeu implacveL Voc no deixou que ela soubesse de nada, sempre tentando mant-la afastada de tudo que tivesse alguma relao com a morte; 
afastada at da possvel morte do gato - lembra-se da tola, estpida discusso que teve com Louis naquele dia na copa? Voc no deixou que ela soubesse de nada... 
Porque ficou assustada como est assustada agora. O nome dele era Pascow, Victor Pascow, e at que ponto a situao  sria, Rachel? At que ponto a situao  grave? 
O que, pelo amor de Deus, est acontecendo?
    As mos tremiam de tal forma que ela custou a colocar a moeda no aparelho. Desta vez ligou para a enfermaria da universidade e mandou chamar Charlton, que, um 
tanto confusa, aceitou a ligao. No, no tinha visto Louis e ficaria surpresa se ele tivesse ido trabalhar. Depois deu novamente os psames a Rachel. Rachel agradeceu 
e pediu que se o marido aparecesse na enfermaria, Charlton o mandasse ligar para ela na casa dos pais. Sim, Louis tinha o nmero, ela explicou, no querendo dizer 
 enfermeira (que alis, provavelmente j sabia; tinha a impresso de que Charlton no perdia muita coisa) que a casa dos pais ficava a meio continente de distncia.
    Desligou o telefone, sentindo-se trmula e um pouco febril.
    Ellie ouviu o nome de Pascow em algum lugar, foi s isso. Meu Deus, ningum cria uma criana numa redoma de vidro como... um hamster ou algo assim. Ellie ouviu 
a notcia no rdio. Ou algum menino lhe contou na escola e a coisa ficou gravada em sua mente. Mesmo aquela palavra que ela no conseguiu dizer - suponhamos que 
fosse uma palavra difcil, como "desencarnou ' ou "desmateralizou-se", e da? Isto no prova nada, exceto que o subconsciente  exatamente o pegajoso papel pega-moscas 
que o suplemento do jornal de domingo diz que .

    Lembrou-se de seu professor de psicologia. Ele assegurava que, em condies ideais, a memria conseguiria lembrar o nome de cada pessoa que conhecemos, cada 
refeio que comemos e como estava o tempo em cada dia de nossas vidas. Ilustrava essa tese incrvel dizendo que a mente humana era um computador com um nmero assombroso 
de chips dc memria - no 16 K, 32 K ou 64 K, mas talvez um bilho K: literalmente, mil milhes. E quanta coisa cada um desses chips orgnicos seria capaz de estocar? 
Ningum sabia. Mas havia tantos chips, dizia ele, que nenhum deles precisava apagar as informaes que armazenara para ser reutilizado. Na realidade, a mente consciente 
tinha de deixar alguns desses chips inativos como proteo contra um colapso informacional. "Talvez voc no conseguisse lembrar onde colocou as meias", dizia o 
professor, "se todos os verbetes da Encidopdia Britnica estivessem estocados nas duas ou trs clulas de memria adjacentes a que sabe das meias."
Aquilo produzira um riso respeitoso na turma.
    Mas no estou numa aula de psicologia sob boas lmpadas fluorescentes, com todo aquele jargo reconfortante escrito no quadro-negro e um elegante professor assistente 
embromando, da forma mais jovial possvel, os ltimos quinze minutos do seu horria. Existe algo de terrivelmente errado aqui e voc sabe disso.... Voc sente isso. 
No sei o que tem a ver com Pascow, Gage ou Church, mas tem alguma coisa a ver com Louis. O qu? Ser...
    Subtamente, foi atingida por um pensamento frio como um punhado de gelatina. Pegou de novo o telefone e tirou do escaninho a moeda que o aparelho devolvera. 
Ser que Louis estava com idias de suicdio? Era por isso que tinha se livrado delas, quase as empurrando para fora? Ser que de alguma forma Ellie tivera uma... 
uma... oh,  merda com a psicologia! Ser que tivera algum tipo de premonio?
    Desta vez pediu uma chamada a cobrar para Jud Crandall. O telefone tocou cinco vezes.., se.... sete. Estava prestes a desligar quando Jud atendeu, quase sem 
flego.
    - Al?
    - Jud! Jud, aqui ...
    - Espere um minuto, por favor - disse a telefonista. - Chamada a cobrar da Sra. Louis Creed. Posso completar a ligao?
- Eeeh - disse Jud.
    - Perdo, senhor posso completar ou no?
    - Acho que pode - disse Jud.
    Houve um momento de hesitao enquanto a telefonista traduzia a inflexo do norte para a lngua-padro.
    - Obrigada - ela disse por fim. - Pode falar, por favor.
- Jud, voc viu o Louis hoje?
    - Hoje? Acho que no, Rachel. De manh fui ao mercado em Brewer e passei a tarde no jardim atrs da casa. Por qu?
    - Oh, acho que no  nada, mas Ellie teve um pesadelo no avio e eu simplesmente gostaria de tranqiliz-la.
    - No avio?
    A voz de Jud pareceu se elevar um pouco.
    - Onde voc est, Rachel?
    - Em Chicago. Ellie e eu vamos passar umas semanas com meus pais.
    - Louis no foi com vocs?
    - Vem pra c no fim da semana.
    Agora Rachel j tinha dificuldade em manter a voz calma. Havia alguma coisa no tom de Jud de que ela no gostava.
    - Que idia foi essa de mandar vocs para a?
    - Bem... No sei... Jud, o que est havendo? Tem alguma coisa errada, no tem? E voc sabe mais ou menos o que ...
    - Por que no me conta qual foi o sonho de Ellie - disse Jud aps uma longa pausa. - Acho que devia contar.

    Quando acabou de falar com Rachel, Jud vestiu um casaco leve (o dia nublara, o vento tinha comeado a soprar) e, depois de parar no acostamento e se certificar 
de que no vinha nenhum caminho, atravessou a estrada para a casa de Louis. Os caminhes tinham sido a causa de tudo aquilo. Os malditos caminhes.
    O problema  que a culpa no era dos caminhes.
    Ele podia sentir o "simitrio" de bichos - e uma voz um pouco mais distante - chamando por ele. Uma voz que outrora lhe parecera atraente cano de ninar, a 
prpria voz do bem-estar ou de uma espcie fascinante de poder. Agora, porm, era mais rouca e mais do que agourenta: era ameaadora e lgubre. Fique fora disso, 
est ouvindo?
    Mas no podia tirar o corpo fora. Sua responsabilidade era muito grande.
    Viu que o Honda Civic de Louis no estava na garagem. Havia apenas a grande camionete Ford, empoeirada e pouco usada. Foi at a porta de trs da casa e encontrou-a 
aberta.
    - Louis? - chamou, sabendo que Louis no ia responder, mas precisando de alguma forma romper o silncio pesado que havia na casa. Oh, a velhice estava comeando 
a se tornar um inferno; as pernas pareciam entorpecidas e emperradas a maior parte do tempo, a dor nas costas j o afligia depois de apenas duas horas no jardim, 
e era como se tivesse um parafuso enfiado no lado esquerdo dos quadris.
    Comeou a atravessar a casa vagarosamente, procurando algum indcio do que temia descobrir (pareo o mais velho assaltante do mundo, ele pensou sem muito humor 
e continuou procurando).
    Mas felizmente no encontrou nenhuma das coisas que poderiam deix-lo seriamente transtornado: caixas de brinquedos no enviadas ao Exrcito da Salvao, roupas 
para um menino pequeno guardadas atrs de alguma porta, no fundo de um armrio ou sob uma cama; talvez (pior de tudo) o bero cuidadosamente armado no quarto de 
Gage. No havia absolutamente qualquer indcio, mas a casa ainda conservava uma desagradvel sensao de vazio, como se estivesse esperando ser ocupada com... alguma 
coisa.
    Talvez eu devesse dar uma chegadinha ao Cemitrio da Boa Vista. Ver se est acontecendo alguma coisa por l. Quem sabe no encontro o Louis no caminho. Posso 
lhe pagar um jantar ou algo assim.
    Mas o perigo no estava no Cemitrio da Boa Vista em Bangor; o perigo estava ali, naquela casa... E atrs dela.
    Jud saiu e voltou a atravessar a estrada. Tirou da geladeira uma embalagem com seis latas de cerveja e levou-a para a sala. Sentou-se diante do parapeito da 
janela que dava para a casa dos Creed, abriu uma lata e acendeu um cigarro. A tarde declinava ao seu redor e, como acontecia com tanta freqncia naqueles ltimos 
anos, sua mente comeou a recuar no passado, num giro cada vez mais amplo. Se ele pudesse adivinhar os pensamentos de Rachel Creed teria lhe dito que talvez o professor 
de psicologia tivesse razo, mas quando se fica mais velho aquela obscura funo da memria vai se enfraquecendo pouco a pouco, assim como tudo que existe em nosso 
corpo. A pessoa, porm, consegue recordar lugares, rostos e acontecimentos antigos com extraordinria nitidez. Velhas memrias em spia tornam-se de novo brilhantes, 
as cores revivem, as vozes perdem aquele eco abafado pelo tempo e recuperam a ressonncia originaL E no se trata absolutamente de algum bloqueio para novas informaes, 
Jud poderia ter dito ao professor. O nome daquilo era senilidade.
    Em sua mente, via outra vez o touro Hanratty de Lester Morgan, os olhos muito vermelhos, atacando tudo que surgia  sua frente, tudo que se movesse. Chegava 
a dar chifradas nas rvores quando o vento agitava as folhas. Antes de Lester dar o brao a torcer e abater o animal, todas as rvores no pasto cercado de Hanratty 
ficaram marcadas por aquela fria irracional. Os chifres do animal j estavam lascados e a cabea sangrava. Na poca em que resolveu dar um fim no touro, Lester 
vivia cheio de medo - do mesmo modo como Jud estava se sentindo agora.
    Continuou a fumar e a beber a cerveja. O dia ia declinando. Ele no acendeu as luzes. Aos poucos, envolvida pela escurido, a brasa do cigarro foi se transformando 
num pequeno ponto vermelho.
    Jud permaneceu ali, tomando cerveja e vigiando a entrada da casa de Louis Creed. Quando Lous chegasse, vindo de onde quer que tenha ido, ia atravessar a estrada 
para ter uma conversinha com ele. Queria ter certeza que Louis no estava planejando fazer qualquer coisa de que pudesse se arrepender mais tarde.
    Ele ainda sentia o suave puxo da coisa, do mrbido poder que habitava aquele lugar do diabo, sentia-o esticando-se para fora do penhasco de rocha apodrecida 
onde todos aqueles monumentos tinham sido construdos.
    Fique fora disso, est ouvindo? Fique fora disso ou vai ter muito, muito do que se arrepender.
    Ignorando o mais que podia aquela voz, Jud continuou ali sentado, fumando, tomando cerveja. E esperando.


    Enquanto Jud Crandall estava sentado na cadeira de balano com encosto de vime,  espera junto do peitoril da janela, Louis fazia uma grande mas insossa refeio 
na sala de jantar do Howard Johnson's.
    Realmente a comida era abundante e sem gosto - exatamente o que seu corpo parecia precisar. L fora, a noite cara. Os faris dos carros passando avanavam como 
dedos na escurido.
    Comia em grandes garfadas. Um bife. Batatas coradas. Uma guarnio de feijes com um brilho esverdeado que seria impossvel encontrar na natureza. Uma fatia 
de torta de ma com uma concha de sorvete em cima, derretendo-se numa pequena poa. Comia numa mesa do canto da sala, vendo gente entrar e sair, achando que poderia 
encontrar algum conhecido. De forma vaga, chegava a querer que isso acontecesse. Teria de responder a perguntas: Onde est Rachel, o que est fazendo aqui, como 
vo as coisas?... Talvez as perguntas trouxessem complicaes, e quem sabe no estaria realmente ansiando por essas complicaes... Uma sada.
    Na realidade, um casal que ele conhecia entrou quando estava terminando a torta de ma e uma segunda xcara de caf: Rob Grinnell, um mdico de Bangor, e sua 
bonita esposa Barbara. Achou que seria visto por eles, sentado naquela pequena mesa do canto, mas a garonete levou-os para os compartimentos do outro lado da sala, 
e Louis perdeu-os inteiramente de vista, excluindo algum relance ocasional do prematuro cabelo grisalho de Grinnell.
    A garonete trouxe a Conta e Louis assinou-a, acrescentando o mero do quarto sob a assinatura. Depois saiu pela porta lateral.
    L fora, o vento se transformara quase num vendaval. Era uma presena consistente, que sacudia os fios eltricos com um zumbido estranho. No via nenhuma estrela, 
mas teve a sensao de nuvens correndo em grande velocidade acima dele. Parou um momento na calada, mos nos bolsos, rosto voltado para o vento. Depois deu meia-volta, 
subiu para o quarto e ligou a tev. Era cedo demais para fazer qualquer coisa mais sria e aquele vento noturno trazia um excesso de sugestes. Deixava-o nervoso.
    Assistiu a quatro horas de televiso, oito meias horas de programas humorsticos em canais diferentes. H muito no via tanta tev num fluxo contnuo e ininterrupto. 
Achou que todas as mulheres que figuram nos quadros de humor eram o que ele e seus colegas de colgio chamavam de "pistoleiras".
Em Chicago, Dory Goldman estava gemendo:
    - Voltar? Querida, por que voc quer voltar? Voc acabou de chegar!
    Em Ludlow, Jud Crandall continuava sentado ao lado da janela, fumando e tomando cerveja, imvel examinando o lbum mental de seu prprio passado e esperando 
Louis chegar. Mais cedo ou mais tarde, Louis voltaria para casa, como Lassie naqueles velhos filmes. Havia outros caminhos para o 'simitrio" de bichos e o lugar 
que havia alm dele, mas Louis no os conhecia. Se pretendesse subir at l, partiria do prprio terreno.
    Inconsciente desses outros acontecimentos que, como lentos projteis, se voltavam no para onde ele estava, mas, na melhor tradio balistica, para onde estaria 
mais tarde, Louis continuava diante do televisor a cores do motel. Nunca vira nenhum daqueles programas antes, mas j ouvira rumores sobre eles: uma famlia negra, 
uma famlia branca, um garotinho mais esperto do que os adultos ricos com quem vivia, uma mulher solteira, uma mulher casada, uma mulher divorciada. Viu todos eles, 
sentado numa poltrona do Howard Johnson's Motor Lodge, de vez em quando olhando a noite cheia de vento l fora.
    Quando comeou o noticirio das onze, desligou a televiso e saiu para fazer o que estava decidido a fazer talvez desde o momento em que viu o bon de beisebol 
de Gage no meio da estrada, cheio de sangue. A sensao de frio envolveu-o de novo, mais forte que nunca, mas havia alguma coisa sob ela - uma brasa de impacincia, 
paixo ou mesmo nsia. No importa. Isso o faria suportar o frio e no o deixaria esmorecer sob o vento.
    Ao ligar o motor da Civic, pensou que talvez Jud tivesse razo sobre o crescente poder daquele lugar, pois sem dvida ele o sentia agora  sua volta, levando-o 
(ou empurrando-o)  frente.
    Eu poderia parar? Eu poderia parar mesmo se quisesse?


    - Por que voc quer voltar? - Dory perguntou outra vez. - Rachel....... Voc est transtornada... Uma boa noite de sono...
    Rachel s balanava a cabea. No podia explicar  me por que tinha de voltar. A sensao se agigantara dentro dela do modo como cresce um vento: primeiro um 
leve agitar da relva, que mal se nota; o ar comea a se mover com mais fora, mais rapidez e toda a calma se dissipa; ento as rajadas se tornam fortes o bastante 
para fazer rudos sinistros de uivo em torno dos beirais dos telhados; depois o vento faz a casa estremecer e a pessoa percebe a ameaa do furaco, sente que se 
o vento continuar aumentando as coisas comearo a desmoronar.
    Eram seis horas em Chicago. Em Bangor, Louis estava apenas se sentando na mesa do canto para aquela refeio farta e sem gosto. Rachel e Ellie mal chegaram a 
tocar no jantar. Rachel continuava erguendo os olhos do prato e se defrontando com o olhar sombrio da filha, perguntando o que ela ia fazer sobre o problema que 
devia haver com o pai, perguntando o que ela ia fazer.
    Ela esperava que o telefone tocasse, que Jud ligasse para dizer que Louis tinha chegado. O telefone tocou uma vez (ela pulou da cadeira e Ellie quase entornou 
o copo de leite), mas era apenas uma senhora do clube de bridge, querendo saber se Dory chegara bem.
    Estavam tomando caf quando, de repente, Rachel jogou o guardanapo sobre a mesa e disse:
    - Papai... Mame... Sinto muito, mas tenho de ir pra casa. Se conseguir um avio, vou ainda esta noite.
    A me e o pai ficaram boquiabertos, mas Ellie fechou os olhos numa expresso adulta de alvio - teria sido at engraada no fosse a tenso do seu rosto, a palidez 
de cera na pele.
    Os dois no compreenderam e Rachel no podia explicar o que estava sentindo, como no poderia explicar de que forma as pequenas brisas, to dbeis que mal conseguem 
agitar as pontas da relva baixa, vo aos poucos ganhando fora at se tornarem capazes de danificar uma construo de cimento armado. No acreditava que Ellie tivesse 
ouvido alguma notcia sobre a morte de Victor Pascow e a arquivado no subconsciente.
-        Rachel, querida...
    O        pai falou devagar, gentil, como se deve falar a algum que caiu nas malhas de uma transitria, mas perigosa histeria.
    - Isto  apenas uma reao  morte de seu filho. Voc e Ellie esto reagindo fortemente, e quem iria censur-las? Mas voc pode ter um colapso nervoso se no 
tentar...
    Rachel no respondeu. Foi para o telefone no corredor, procurou Companhias de Aviao nas Pginas Amarelas e discou o nmero da Delta. Dory se aproximou, perguntando 
se ela no achava melhor pensar um pouco mais, se no seria bom discutirem um pouco o assunto, talvez fazer uma lista de pontos a considerar... Ellie postou-se atrs 
da av, o rosto ainda sombrio, mas agora iluminado por uma doce esperana suficientemente ntida para dar a Rachel alguma coragem.
          -        Deita Airlines - respondeu vivamente a voz do outro lado. - Meu nome  Kim, posso ajud-la em alguma coisa?
          - Espero que sim - disse Rachel. -  extremamente importante que eu viaje de Chicago a Bangor ainda esta noite. ...  uma espcie de emergncia, eu acho. 
Pode verificar como esto as conexes?
          - Pois no - a voz concordou num tom de dvida -, mas est muito em cima da hora.
          - Bem, mas por favor verifique - disse Rachel, a voz com um certo timbre de estridncia. - Pode haver algum lugar reservado para a empresa, qualquer coisa.
- Est bem, senhora. Por favor, espere um pouco.
         A linha ficou suavemente silenciosa. Rachel fechou os olhos e, pouco depois, sentiu uma mo fria no brao. Abriu os olhos e viu que Ellie tinha chegado 
mais para perto dela. Dory e Irwin estavam lado a lado, falando baixo e olhando as duas. Do modo como olhariam para lunticos, Rachel pensou vagamente e conseguiu 
mostrar um sorriso  filha.
           - No deixe que ningum a detenha, mame - disse Ellie em voz baixa. - Por favor.
           - No vou deixar, irmzinha.
           Rachel estremeceu. Era assim que s vezes chamavam Ellie desde o nascimento de Gage. Mas agora ela no era mais a "irmzinha de Gage", certo?
            - Obrigada - disse Ellie.
            -  mesmo muito importante, no ?
            Ellie concordou com a cabea.
            - Querida, eu acredito que seja. Mas voc me ajudaria muito se pudesse me dizer mais alguma coisa.  s o sonho?
            - No. E...  tudo agora. Agora est correndo por dentro de mim, da cabea aos ps. Voc no pode sentir, mame?  alguma coisa como...
            - Alguma coisa como um vento.
            Ellie suspirou um tanto trmula.
            - Mas voc no sabe o que ? - a me perguntou. - No se lembra de mais nada do sonho?
            Ellie pensou bastante e balanou a cabea com ar de dvida.
      Papai. Church. E Gage.  tudo que eu lembro. Mas no sei como as coisas se juntaram, mame!
    Rachel abraou-a com fora.
    - Tudo vai ficar bem - disse ela, mas o peso em seu corao no diminuiu.
- Al, senhora - voltou a funcionria das reservas.
    - Sim?
Rachel apertou com mais fora o telefone e a filha.
    - Acho que posso faz-la chegar a Bangor... Mas vai chegar muito tarde.
- No faz mal.
    - Tem uma caneta? E complicado.
    - Sim, j peguei - disse Rachel, tirando um toco de lpis da gaveta. Achou tambm o verso de um envelope para escrever.
    Rachel ouviu com ateno, anotando tudo. Quando a moa da Delta terminou, ela sorriu e fez um sinal positivo com o polegar para mostrar a Ellie que iam conseguir. 
Provavelmente iam conseguir, pensou. Algumas conexes pareciam muito, muito difceis... Principalmente em Boston.
    - Por favor, reserve lugares em todos os vos - disse Rachel. -E obrigada.
    Kim anotou o nome de Rachel e o nmero do carto de crdito. Por fim ela desligou o telefone, trmula, mas aliviada. Olhou para o pai.
    - Papai, o senhor vai me levar at o aeroporto?
    - Acho que eu devia dizer que no. Talvez a ajudasse a pr um ponto final nessa loucura.
    - No se atreva! - Ellie gritou com voz estridente. - Isto no  uma loucura! No !
    Goldman piscou e deu um passo atrs ante a pequena, mas feroz exploso da neta.
    - Leve as duas, Irwin - Dory falou em voz baixa no silncio que se seguiu. - Eu tambm estou comeando a ficar nervosa. Vou me sentir melhor se souber que Louis 
est bem.
    Goldman encarou a esposa e depois se virou para Rachel.
    - Vou lev-la, se  isso que voc quer - disse. - Eu... Escute, Rachel, posso ir tambm, se voc quiser.
    Rachel balanou a cabea.
    - Obrigada, papai, mas peguei todos os ltimos lugares dos vos.  como se Deus os tivesse reservado para mim.
    Irwin Goldman suspirou. Naquele instante, pareceu muito velho e, subitamente, ocorreu a Rachel que o pai era um tanto parecido com Jud Crandall.
    - Se quiser, ainda tem tempo de arrumar alguma coisa - disse ele.
       -        Podemos chegar ao aeroporto em quarenta minutos, se eu dirigir como fazia quando me casei com sua me. Por que no lhe empresta a bolsa de viagem, 
Dory?
    - Mame - disse Ellie.
    Rachel se virou. O rosto de Ellie estava agora reluzente com um leve suor.
    - O que ,meu bem?
    - Tenha cuidado, mame.

    As rvores eram apenas formas que se moviam contra um cu nevoento, iluminado pelo claro do aeroporto no muito distante. Louis estacionou a Civic na Rua Mason. 
A rua circundava o Boa Vista pelo lado sul, e l o vento quase o impedia de fechar a porta do carro. Teve de empurr-la com fora. O vento lhe encrespava a jaqueta 
quando abriu o bagageiro e tirou as ferramentas embrulhadas no pedao de lona.
    Estava num trecho de escurido entre dois lampies, de p no meio-fio com a trouxa de lona nos braos. Observou cuidadosamente se no vinha nenhum carro antes 
de atravessar para a cerca com grades de ferro que marcava os limites do cemitrio. No queria que ningum o visse, nem mesmo algum passante distrado que mal reparasse 
nele. A seu lado, os galhos de um velho olmo vergavam sem descanso, fazendo Louis pensar em pontas de gravata num cabide. Deus, estava to assustado. Aquilo no 
era trabalho frentico, era trabalho insano.
    Nenhum movimento. Na Rua Mason, os postes distanciavam-se num perfeito contorno branco, atirando fachos de luz numa calada onde, durante o dia, depois de terminadas 
as aulas na Fairmount Grammar School, os meninos andavam de bicicleta, as meninas pulavam corda e brincavam de roda, jamais reparando no cemitrio, exceto talvez 
no Dia das Bruxas, quando ele adquiriu um certo charme fantasmagrico. Talvez ento se atrevessem a cruzar a rua suburbana e pendurar um esqueleto de papel nas altas 
grades de ferro, rindo com as velhas piadas:  o lugar mais popular da cidade; as pessoas morrem para vir aqui. Por que no se deve rir dentro do cemitrio? Porque 
nem todos que moram a tm esprito esportivo.
    - Gage - ele murmurou. Gage estava l, atrs daquelas grades, injustamente aprisionado sob uma camada de terra escura. E aquilo no tinha graa nenhuma. Vou 
tirar voc da Gage, ele pensou. Vou tirar voc da meu garoto, ou morrer tentando.
    Louis atravessou a rua com a pesada trouxa nos braos, subiu na outra calada, olhou de novo ao redor e atirou o embrulho do outro lado das grades. As ferramentas 
tilintaram baixo quando bateram no cho. Sacudindo a poeira das mos, Louis recomeou a andar. Marcara o lugar. Mesmo se esquecesse, s precisava seguir a cerca 
pelo lado de dentro at ficar defronte  Civic, e l estaria o embrulho.
    Mas ser que quela hora o porto ainda estava aberto?
    Desceu a Rua Mason at a faixa Pare no asfalto, acossado, perseguido pelo vento. Sombras danavam e se misturavam no cho.
    Virou a esquina para a Rua Pleasant, sempre seguindo o muro. Os faris de um carro penetraram na rua e Louis se escondeu atrs de um olmo. No era uma viatura 
policial, apenas um furgo seguindo para a Rua Hammond e, talvez, para a estrada. Depois que passou, Louis voltou a caminhar.
    Sem dvida vai estar aberto. Tem de estar.
    Atingiu o porto, que formava uma catedral em ferro batido, leve e graciosa entre as sombras atiradas pelos lampies e agitadas pelo vento. Esticou a mo e empurrou.
    Trancado.
    Seu estpido,  claro que est trancado! Voc achava mesmo que algum ia deixar um cemitrio nos limites da cidade aberto depois das onze horas? Ningum  assim 
to descuidado, rapaz, ningum! E agora o que vai fazer?
    Agora teria de escalar o muro e rezar para que nenhum espectador tirasse os olhos do Carson Show a tempo de v-lo subindo como macaco nas grades, o mais velho 
e menos gil garoto do mundo.
     da polcia? Acabo de ver um garoto velho demais pulando o muro do Cemitrio da Boa Vista. , morrendo de vontade de entrar. Parece que est picaretando alguma 
coisa por l... Brincadeira? No, no, eu estou morto de sono para brincar. Mas se quiser ponho uma p de cal no assunto e tudo bem.
    Louis continuou seguindo a Rua Pleasant e virou  direita no cruzamento seguinte. As grades de ferro marchavam sem cessar ao lado dele. O vento refrescava e 
evaporava as gotas de suor na testa e nas cavidades das tmporas. Sua sombra aumentava e diminua sob a luz dos lampies. De
vez em quando dava uma olhada no muro, mas de repente parou e se obrigou a realmente encarar a coisa.
    Vai mesmo tentar pular essas grades, rapaz? No me faa rir.
    Louis Creed era um homem razoavelmente alto, bem mais de um e setenta, mas o muro devia chegar a quase trs metros. E cada grade de ferro acabava numa decorativa 
ponta em forma de seta. Sem dvida interessante, at que o sujeito escorregasse e casse com a virilha sobre aquelas flechas, uma fora equivalente a cem quilos 
esmagando os testculos. E ento Louis ficaria ali, torto como um porco no espeto, gritando at que algum chamasse a polcia e a polcia o levasse para o hospital.
    O        suor continuava a escorrer, deixando a camisa grudada nas costas. Tudo era silncio, exceto o dbil rumor do ltimo trfego da noite na Rua Hammond.
    Tinha de haver um meio de entrar.
    Tinha de haver.
    Vamos l, rapaz, encare os fatos. Voc pode estar louco, mas no to louco assim. Talvez consiga se equilibrar em cima das grades, mas s um atleta treinado 
saberia pular para o outro lado sem se espetar. E mesmo admitindo que voc conseguisse, como ia sair com o corpo de Gage?
    Continuou andando, vagamente consciente de que estava circundando o cemitrio sem fazer qualquer coisa construtiva.
    Tudo bem, a est a resposta. Vou para casa esta noite e volto amanh  tarde. Entro por volta das quatro horas e procuro um lugar para me esconder at que seja 
meia-noite ou um pouco mais. Em outras palavras, adio para amanh o que eu devia ter sido esperto o bastante para j ter pensado ontem.
    Boa idia, Oh, Grande Mestre Louis Creed... E, nesse meio tempo, o que vai fazer com aquela grande trouxa que atirou do outro lado do muro? P, picareta, lanterna... 
Dava no mesmo se tivesse colocado uma etiqueta em cada ferramenta: EQUIPAMENTO PARA VIOLAO DE TMULOS.
    Se bem que o embrulho cara no meio de arbustos. Ser que algum ia achar?
    Em certa medida, fazia sentido supor que ningum o encontrasse. Mas era insensato confiar na sorte. Seu corao lhe dizia, num tom sereno mas decidido, que no 
podia voltar amanh. Se no fizesse a coisa naquela noite, nunca mais faria. Nunca mais conseguiria arrastar-se de novo quela loucura. O momento era aquele, era 
agora ou nunca.
    Ali havia poucas casas; poucos quadrados de luz amarela brilhavam do outro lado da rua (divisou num deles a cintilao cinza e azulada de uma tev em preto e 
branco). Olhando atravs das grades, Louis percebeu que as lpides eram mais velhas naquele ponto, mais arredondadas, s vezes inclinadas para a frente ou para trs 
nelas nevadas e degelos de muitas estaes. Mais adiante, havia outro aviso de Pare no asfalto; uma nova curva  direita ia lev-lo a uma rua paralela  Rua Mason, 
onde ele havia comeado. Quando voltasse ao ponto de partida, o que ia fazer? Comprar mais uma ficha e dar a volta outra vez? Admitir o fracasso?
    Os faris de um automvel dobraram na rua. Louis se escondeu atrs de outra rvore e esperou o carro passar. O carro seguia muito devagar e, pouco depois, a 
luz branca de uma lanterna foi apontada do assento da frente e correu trmula pela grade. Sentiu um doloroso aperto no corao. Era uma viatura policial inspecionando 
o cemitrio.
    Comprimiu o corpo contra a rvore, a aspereza da casca no rosto, esperando desesperadamente que a rvore fosse grande o bastante para ocult-lo. O facho da lanterna 
virou-se em sua direo. Louis abaixou a cabea, tentando esconder o reflexo esbranquiado do rosto. A lanterna atingiu a rvore, desapareceu por um instante, depois 
voltou pela direita. Deslizou um pouco pela rvore. Ele viu de relance a sirene apagada na capota do carro. Esperou que as lanternas traseiras ficassem mais vermelhas, 
o carro parasse de todo, as portas se abrissem e a lanterna do policial lhe batesse de frente no rosto, apontando-o com um grande dedo branco.
    Ei, voc! Voc a atrs da rvore! Saia com as mos na cabea, queremos ver quem ! Saia AGORA!
    Mas o carro de polcia continuou avanando. Atingiu a esquina acendeu devidamente a seta e virou  esquerda. Louis se apoiou de costas na rvore, respirando 
depressa, uma secura, um gosto azedo na boca. Achava que iam passar pela Cvic, mas isso no fazia mal. Era permitido estacionar na Rua Mason das seis da tarde s 
sete da manh. Havia muitos outros carros ali. Provavelmente os donos moravam nos prdios do outro lado da rua.
    Lous se voltou para a rvore atrs da qual se escondera.
    Bem acima de sua cabea, a rvore se abria em galhos. Talvez pudesse...
    Sem pensar uma segunda vez, segurou num dos galhos e ergueu o corpo usando os tnis como alavanca, jogando na calada algumas lascas da casca. Levantou o joelho 
e, pouco depois, tinha um dos ps solidamente plantado no meio da forquilha. Se por acaso o carro de policia voltasse, seus faris encontrariam um pssaro extremamente 
curioso naquela rvore. Tinha de ser rpido.
    Passou a um galho mais alto, que se erguia acima das grades. Sentiu-se como o garoto de doze anos que fora outrora.
    A rvore no estava imvel, balanava sem parar ao vento, um balano quase agradveL As folhas murmuravam, roavam umas nas outras. Louis avaliou a situao 
e, antes que alguma dvida o fizesse recuar, pendurou-se na direo do muro, segurando no galho com as mos entrelaadas. O galho era talvez um pouco mais grosso 
que o antebrao de um homem forte.
    Com os tnis oscilando uns dois metros e meio acima da calada, procurou avanar para as grades. Primeiro uma, depois outra mo. O galho se curvou, mas no parecia 
que ia quebrar. Louis estava debilmente consciente de sua sombra, estendendo-se pelo cimento da calada, uma forma negra de macaco, um contorno amorfo. O vento lhe 
tirava o calor das axilas e ele comeou a tremer, apesar da quentura que lhe envolvia o rosto e o pescoo. O galho vergava e balanava com seus movimentos. Quanto 
mais avanava, mais pronunciada se tornava a curva. Agora as mos e os pulsos estavam ficando cansados e ele teve medo de que as palmas das mos, engorduradas de 
suor, escorregassem.
    Atingiu as grades. Os tnis pendiam uns trinta centmetros acima das pontas de flecha. E daquele ngulo, as flechas no pareciam nada rombudas. Eram de fato 
muito afiadas.
    Afiadas ou no, percebeu que no apenas suas bolas ficariam em perigo. Se casse sobre uma daquelas pontas mortais, teria peso suficiente para enterrar-se at 
os pulmes. Ao voltar, os policiais encontrariam nas grades do Boa Vista uma decorao prematura e bem apavorante do Dia das Bruxas.
    Respirando depressa, quase ofegante, precisando de um momento de descanso, tentou alcanar a cerca com os ps. Por um instante, continuou ali pendurado, os ps 
se movendo numa dana area, tateando mas no achando.
    Um facho de luz atingiu-o e foi se aproximando.
    Oh, Deus,  um carro,  um carro vindo...
    Tentou mover as mos mais depressa, mas as palmas escorregavam. E os dedos comearam a fraquejar.
    Sempre procurando apoio, virou a cabea para a esquerda, olhando sob a fora que fazia seu brao. Era um carro, mas passou em disparada pelo cruzamento e continuou 
subindo a rua sem diminuir a velocidade. Sorte. Se tivesse...
    As mos escorregaram de novo. Sentiu uma chuva de lascas no cabelo.
    Um dos ps encontrou apoio, mas a outra perna da cala prendeu numa das pontas de flecha. Cristo, ele no ia conseguir se segurar muito tempo. Desesperado, sacudiu 
a perna. O galho mergulhou. Suas mos tornaram a escorregar. Houve um rudo de roupa rasgando e, de repente, ele estava de p sobre duas das pontas. Elas se cravaram 
nas solas dos tnis e a presso logo se tornou dolorosa, mas mesmo assim Louis continuou ali. O alvio nas mos e nos braos era maior que a dor na sola dos ps.
    Que figura eu devo estar parecendo!, pensou com um nimo sombrio e lgubre. Segurando o galho com a mo esquerda, enxugou na jaqueta o suor da direita. Depois 
trocou de mo e enxugou a esquerda.
    Ficou mais um instante sobre as pontas das grades, mas logo fez as mos escorregarem pelo galho. Agora o galho era fino o bastante para no lhe permitir entrelaar 
os dedos com segurana. Balanou o corpo para a frente como Tarz e os ps abandonaram as grades afiadas. O galho vergou de modo alarmante e ele ouviu um estalo 
de arrepiar. Deixou-se levar, caindo de qualquer jeito.
    E caiu mal. Bateu numa lpide com um dos joelhos e um jato de dor subiu-lhe pela coxa. Rolou pela grama, segurando o joelho, lbios contorcidos numa espcie 
de sorriso, rezando para no ter quebrado a rtula. Por fim, a dor comeou a diminuir um pouco e Louis sentiu que podia flexionar a junta. Estaria tudo bem se continuasse 
se mexendo e no deixasse a pancada enrijecer a articulao. Talvez.
    Ficou de p e comeou a andar ao longo da cerca na direo da Rua Mason e do ponto onde jogara o equipamento. De incio o joelho pareceu muito mal, ele coxeava 
muito, mas a dor foi suavizando  medida que avanava. Havia aspirinas no estojo de primeiros-socorros da Civic. Devia ter-se lembrado de traz-las. Mas era tarde 
demais. Continuou atento ao movimento l de fora e se abaixou quando um carro passou.
    Do lado da Rua Mason, que talvez fosse a mais movimentada, ele se manteve sempre bem longe da grade, at se ver defronte  Civic. Estava prestes a alcanar os 
arbustos onde as ferramentas tinham cado quando ouviu passos na calada e um riso baixo de mulher. Sentou-se atrs de uma grande lpide (machucara.demais o joelho 
para conseguir se agachar) e contemplou um casal subindo a rua. Andavam abraados pela cintura e alguma coisa na maneira deles se deslocarem de uma poa branca de 
luz para a seguinte fez Louis se lembrar de um velho programa de tev. Num instante, o nome lhe ocorreu: The Jimmy Durante Hour. O que aqueles dois fariam se ele 
se levantasse de repente, sombra oscilante naquele silencioso campo da morte, e gritasse num tom cavernoso: "Estamos iniciando a transmisso costa a costa. .
    O casal parou numa poa de luz um pouco depois da Civic e se abraou. Observando-os, Louis sentiu uma espcie de mrbida fascinao e dio de si prprio. L 
estava ele, personagem fantstico de um livreto barato de histrias em quadrinhos, espiando casais de namorados de trs de um tmulo.
    Ser ento que a linha divisria  assim to fina?, ele se perguntou, e o pensamento j lhe era um tanto familiar. To fina que voc pode transpla com o mnimo 
de alvoroo, baguna e perturbao? Escalar uma rvore, deslizar por um galho, cair dentro de um cemitrio, espiar casais de namorados... e cavar buracos. Ser assim 
to simples? Ser isto que chamam loucura? Levei oito anos para me tornar doutor, mas numa passada virei violador de sepulturas. Acho que  isso o que as pessoas 
chamam vampiro.
    Apertou a boca com os punhos para impedir que algum som escapasse e meditou sobre o frio interior que sentia e sobre aquela sensao de incoerncia. Lous viu, 
diante dos olhos, que havia alguma coisa acontecendo com ele.
    Finalmente o casal voltou a caminhar e Louis acompanhou-o com impacincia. Subiram as escadas de um dos prdios de apartamentos. O homem procurou uma chave no 
bolso; pouco depois, entraram. A rua ficou de novo silenciosa, exceto pelo vento constante, sussurando entre as rvores e fazendo o cabelo suado de Louis cair sobre 
a testa.
    Ele correu, ajoelhou e procurou entre os arbustos a trouxa de lona. L estava ela, spera ao toque de seus dedos. Suspendeu-a, ouvindo as ferramentas tilintarem. 
Levou-a para o amplo caminho entre os tmulos que conduzia ao porto e parou para se orientar. Seguir em frente, depois virar  esquerda na encruzilhada. Sem problemas.
    Avanou pela beira do caminho, pronto a se esconder na sombra dos olmos se fosse descoberto por algum eventual zelador noturno.
    Na encruzilhada, virou  esquerda, tomando a direo do tmulo de Gage. E de sbito percebeu apavorado que no conseguia mais se lembrar da aparncia do filho. 
Parou, contemplando os tmulos enfileirados e a sombria arquitetura dos mausolus, tentando recuperar a face de Gage. Aos poucos, traos diversos lhe vieram  memria: 
o cabelo louro, fino e leve, os olhos oblquos, os dentes pequenos, brancos, a pequena marca no queixo de quando ele cara da escada da cozinha na casa de Chicago. 
Era capaz de ver esses detalhes, mas no conseguia integr-los num todo coerente. Via Gage correndo para a estrada, correndo para seu encontro com o caminho da 
Orinco, mas o rosto estava virado.
    Tentou se recordar de Gage no bero, no dia em que soltaram a pipa-abutre, mas o olho de sua mente s se defrontou com escurido.
    Gage, onde est voc?
    Voc j pensou, Louis, que pode no estar prestando qualquer servio a seu filho? Talvez ele se sinta feliz onde est agora... talvez nem tudo seja a besteira 
que voc sempre pensou que fosse. Talvez esteja com os anjos, ou apenas dormindo. E se estiver dormindo, voc sabe o que pode significar acord-lo?
    Oh, Gage, onde voc est? Quero voc em casa conosco.
    Mas ser que era realmente senhor de suas aes? Por que no conseguia se lembrar da fisionomia de Gage e por que estava indo contra todas as advertncias - 
os conselhos de Jud, o sonho com Pascow, o tremor que sentia no fundo do peito...
    Pensou nos marcadores de tmulos do "simitrio" de bichos, naqueles crculos rudes, se espiralando para o Mistrio... E a sensao de frio atingiu-o de novo.
    Mas por que, afinal, estava ali parado, querendo se lembrar do rosto de Gage?
    Expunha-se  toa.

    Pouco depois, encontrou a lpide da sepultura; dizia simplesmente GACE WILLIAM CREED, seguido por duas datas. Algum fizera uma visita ao tmulo naquela tarde, 
havia flores recentes. Quem? A Srta. Dandridge?
    Seu corao batia com fora, mas devagar. Ali estava; se ia mesmo fazer a coisa, era melhor comear logo. S tinha pela frente as horas da madrugada; depois 
o dia nasceria de novo.
    Louis consultou pela ltima vez o corao e viu que sim, estava disposto a ir em frente. Balanou a cabea quase imperceptivelmente e tirou um canivete do bolso. 
Cortou a fita gomada com que amarrara a trouxa das ferramentas. Desenrolou a lona como um tapete junto ao tmulo de Gage e arrumou as ferramentas sobre ela; era 
como se arrumasse os instrumentos para suturar uma ferida ou fazer uma pequena operao na enfermaria.
    Ali estava a lanterna com o feltro, como o homem da loja tinha sugerido. Colocara uma moeda em cima do feltro e cortara em volta com o canivete, fazendo um pequeno 
circulo. Depois, tambm com fita gomada, prendera o feltro na lanterna. Ali estava a picareta de cabo curto que provavelmente no teria de usar; s a trouxera por 
medida de precauo. No ia lidar com um tmulo lacrado e no ia encontrar pedregulhos na cova recentemente enchida. Ali estava a p, a paznha, o pedao de corda, 
as luvas. Ps as luvas, pegou a pazinha e comeou.
    O solo era macio; era fcil cavar. O contorno da sepultura estava bem definido, a terra que cavava era mais macia que a terra nas beiradas. Sua mente fez uma 
espcie de comparao automtica entre a facilidade daquela escavao e o solo rochoso, implacvel, do lugar onde, se tudo corresse bem, tornaria a enterrar o filho. 
L em cima ia precisar da picareta.
    Tentou parar de pensar e se aplicar ao trabalho. la jogando a terra  esquerda do tmulo, trabalhando num ritmo contnuo, mas que se tornava mais difcil manter 
 medida que o buraco ficava mais fundo. Entrou na sepultura, sentindo o cheiro mido e desagradvel da terra revolvida, um cheiro que lembrava os veres em que 
estagiou com o tio Carl.
    Cavador, ele pensou, parando para tirar o suor da testa. Tio Carl dissera que aquele era o apelido de todos os coveiros da Amrica. Os amigos chamavam-nos "cavadores".
    Continuou a cavar.
    S parou mais uma vez, e foi para consultar o relgio. Era meia-noite e vinte. Sentiu o tempo deslizar pelo punho como uma substncia gordurosa.
    Quarenta minutos depois, a pazinha raspou em alguma coisa e os dentes de Louis apertaram o lbio superior com fora suficiente para faz-lo sangrar. Apanhou 
a lanterna e iluminou l embaixo. Ainda havia muita terra mas, numa brecha diagonal, despontava uma superfcie cinzenta e prateada. Era a tampa da sepultura. Louis 
tirou quase toda a terra, com medo de estar fazendo muito barulho, pois nada era mais barulhento do que uma p raspando concreto no meio da noite.
    Saiu do tmulo e pegou a corda. Passou-a pelos anis de ferro de um dos segmentos da tampa. Saiu de novo do tmulo, apoiou-se ao lado da lona e segurou as pontas 
da corda.
    Louis, acho que esta  ... . sua ltima chance.
    Tem razo.  minha ltima chance e estou disposto a aproveit-la.
    Enrolou as pontas da corda nas mos e puxou. O quadrado de concreto se abriu facilmente, rangendo. Parou na vertical sobre um quadrado de escurido, parecendo 
antes uma lpide que a tampa de um tmulo horizontal.
    Louis puxou a corda dos anis e atirou-a para o lado. No precisaria us-la para remover a outra parte da tampa; podia ergu-la apoiando-se na beira do tmulo.
    Entrou de novo no buraco, movendo-se com cuidado, no querendo derrubar a laje de cimento que j levantara, ver os dedos do p esmagados ou v-la quebrada (era 
bem fina). Pedras chocalharam para dentro do buraco e algumas delas caram sobre o caixo de Gage, um som oco.
    Louis se curvou, segurou a outra metade da tampa e suspendeu. Sentiu os dedos esborracharem alguma coisa fria.
    Quando acabou de colocar aquela parte da tampa na vertical sobre a extremidade da cova, baixou os olhos para a mo e viu parte do corpo de uma gorda minhoca 
se contorcendo. Com um grito abafado de repugnnda, sacudiu-a na terra ao lado do tmulo.
    Ento dirigiu para baixo o facho da lanterna.
    L estava o caixo que, durante o funeral, vira descansar sobre corrimes cromados ao lado da sepultura, ento cercado por aquela horrvel grama artificial. 
L estava a caixa-forte onde devia depositar todas as esperanas que acalentara para o filho.
    Uma fria, um calor abrasador cresceram dentro dele, a prpria antitese da anterior sensao de frio. Idiotice! A resposta  no!
    Louis procurou a pazinha. Levantou-a at a altura dos ombros e golpeou a fechadura da urna - uma, duas, trs, quatro vezes. Seus lbios estavam repuxados num 
esgar de raiva.
    Vou tir-lo da, Gage, pode apostar!
    O        trinco havia soltado desde a primeira pancada, mas Louis continuava batendo, como se no quisesse apenas abrir o caixo, mas arrebent-lo. Finalmente 
recuperou uma certa sensatez e parou, a pazinha no ar, pronta para um novo golpe.
    A ferramenta estava empenada e cheia de riscos. Atirou-a de lado e cambaleou para fora da cova com pernas fracas e entorpecidas. Sentia um embrulho no estmago 
e a ira tinha se dissipado to depressa quanto chegou. Uma torrente de frio comeava a substitui-la e nunca sua mente se sentira to s e confusa; era como um astronauta 
flutuando para longe da nave durante uma manobra, sentindo apenas impulsos de derivao no meio do cu escuro, respirando forte. Ser que Bill Baterman tambm se 
sentiu desse jeito?, ele se perguntou.
    Estendeu-se de costas no cho, querendo ver se tinha as emoes sob controle, se estava pronto para continuar. Quando a sensao de entorpecimento abandonou-lhe 
as pernas, sentou-se e deslizou para a cova. Ps o facho da lanterna no trinco e percebeu que no estava apenas quebrado, mas destrudo. Sem dvida, brandira a pazinha 
com fria cega, mas cada golpe atingira o ponto certo, o centro do alvo, como se algum o guiasse. A madeira em volta lascara.
    Louis apoiou a lanterna embaixo do brao. Agachou-se ligeiramente. Suas mos se abriram e fecharam, como as mos de um gladiador esperando a hora de participar 
do combate mortal. As mos apalparam.
    Encontrou o encaixe na tampa e empurrou os dedos para dentro dele. Parou um instante (no era bem uma hesitao) e abriu o caixo.


    RacheI Creed quase pegou o vo de Boston a Portland. Quase. O que a trouxe de Chicago saiu na hora (j um milagre), aterrissou na hora em La Guardia (outro) 
e deixou Nova Iorque s cinco minutos depois do horrio. Chegou a Boston quinze minutos mais tarde. s vinte e trs e doze, o que ainda lhe dava treze minutos.
    Podia muito bem pegar seu vo de conexo, mas o nibus que circunda os terminais areos de Logan estava atrasado. Rachel esperou, numa espcie de incessante, 
mas contido pnico, andando de um lado para o outro como se precisasse ir ao banheiro, passando de um ombro para o outro a bolsa de viagem que a me emprestara.
    Quando s vinte e trs e vinte e cinco viu que o nibus no chegava, comeou a correr. Os saltos eram pequenos, mas mesmo assim suficientemente altos para causar 
problemas. Um dos tornozelos vergou dolorosamente, mas ela s parou o tempo suficiente para tirar os sapatos. Correu de meias, passou pelos terminais de Allegheny 
e da Eastern Airlines, respirando forte, sentindo o incio de pontadas na cintura.
    O ar lhe queimava a garganta, as pontadas se tornavam mais prolongadas e dolorosas. Agora j atravessava o terminal internacional e ali, bem ali, estava a placa 
triangular da Delta. Entrou em disparada e quase deixo um dos sapatos cair, mas conseguiu peg-lo no ar. Eram vinte e trs e trinta e sete.
    Um dos funcionrios do balco viu-a se aproximar.
- Vo 104 - ela ofegou. - O vo de Portland. J saiu?
    O funcionrio deu uma olhada no monitor.
    - Ainda est no embarque,  o que diz aqui, mas a chamada final foi h cinco minutos. Vou ligar para o controle. Tem bagagem?
    - No - Rachel arfou, tirando de cima dos olhos o cabelo suado. O corao galopava em seu peito.
    - Ento no espere que eu ligue. Vou tentar... Mas  melhor correr!
    Rachel no correu muito depressa - no conseguiria. Mas fez o melhor que pde. A escada rolante estava parada e ela se lanou pelos degraus de cimento, um gosto 
seco na boca. Atingiu o balco da revista e quase atirou a bolsa para a sobressaltada policial feminina. Esperou que a bolsa lhe fosse devolvida pela esteira, as 
mos se abrindo e fechando. A bolsa mal havia sado da cabine de raios X quando ela a arrebatou pela correia e disparou de novo. A bolsa voou atrs dela, batendo 
em seus quadris.
    Olhou para um dos monitores enquanto corria.
    Vo 104 Portland Hora 23:25 Porto 31 Em embarque
    O porto 31 ficava na extremidade do saguo - e no exato momento em que pde dar uma olhada no monitor, as letras firmes indicando Em embarque se transformaram 
em Partida, piscando rapidamente.
    Um grito de frustrao veio de seu peito. Entrou na rea de embarque a tempo de ver o funcionrio removendo a seta com a indicao: Vo 104, Boston-Portland, 
23:25.
    - Foi embora? - ela exclamou incrdula. - Foi mesmo embora?
    O funcionrio olhou-a com simpatia.
    - Comeou a taxiar s vinte e trs e quarenta. Sinto muito, madame. De qualquer modo, se isto  um consolo, pode acreditar que quase conseguiu.
    Ele apontou para as amplas janelas de vidro. Rachel viu um grande 727 com o logotipo da Delta, as luzes de rvore de Natal comeando a corrida de decolagem.
    - Meu Deus, ser que ningum avisou que eu estava chegando? -Rachel gritou.
    - Quando chamaram l de baixo, o 104 j tinha comeado a taxiar. Se eu o chamasse de volta, ele ficaria preso na fila saindo da pista 30 e o piloto ia pedir 
minha cabea num prato. Isto para no mencionar os cem passageiros a bordo. Sinto muito. Se chegasse ao menos quatro minutos antes...
    Ela se afastou, no querendo ouvir mais nada. Estava na metade do caminho para o balco de revista quando foi atingida por ondas de fraqueza. Tropeou para outra 
rea de embarque e sentou-se at se sentir melhor. Depois tomou a calar os sapatos, no sem antes tirar uma ponta amassada de cigarro de uma das meias em farrapos.
    Meus ps esto imundos e no consegui merda nenhuma, pensou desconsolada.
    Levantou-se e voltou para o terminal.
    A policial da segurana olhou-a com ar simptico.
    - Perdeu?
    - Ora se perdi...
    - Para onde ia?
    - Portland. Depois Bangor.
    - Bem, por que no aluga um carro? Se realmente precisa chegar logo a Bangor, acho que vale a pena. Em outras circunstncias, aconselharia um hotel perto do 
aeroporto, mas nunca vi uma pessoa que parecesse ter tanta necessidade de chegar a um lugar como a senhora.
    - Preciso mesmo, tem razo - disse Rachel. Ela pensou um pouco. -        Sim, acho que eu podia fazer isso, no ? Se houver algum carro disponvel nas agncias 
do aeroporto...
    A guarda de segurana riu.
    - Oh, elas sempre tm carros. S quando Logan fecha por causa do tempo  que os carros acabam. O que, alis, no devia acontecer.
    Rachel mal acabou de ouvi-la. Em sua mente, j estava tentando calcular a coisa.
    No ia conseguia chegar a Portland a tempo de pegar o vo para Bangor, mesmo que se atirasse na estrada a uma velocidade suicida. Teria, ento, de dirigir todo 
o caminho at Bangor... Quanto tempo levaria? Quantos quilmetros havia at sua casa? Quatrocentos? Foi a estimativa que lhe ocorreu. Alguma coisa que Jud tinha 
dito.
    No conseguiria partir antes da meia-noite e quinze, provavelmente s  meia-noite e meia... A estrada era toda de mo nica. Achou que tinha chances razoveis 
de cobrir a distncia a cem, cento e dez, sem ser detida por excesso de velocidade. Fez rapidamente os clculos, dividindo quatrocentos por cento e dez. Nem chegava 
a quatro horas. Bem... arredondemos para quatro. Afinal, tinha de parar uma vez e ir ao banheiro. E embora dormir lhe parecesse agora uma idia absolutamente remota, 
conhecia bastante bem suas limitaes para saber que tambm teria de parar para beber uma boa xcara de caf. Mesmo assim, podia chegar a Ludlow antes do amanhecer.
    Repassando mentalmente a idia, dirigiu-se para a escada - as agncias de aluguel de automveis ficavam um andar abaixo dos sales de embarque.
    - Boa sorte, querida - gritou atrs dela a policial de segurana. - Dirija com cuidado.
- Obrigada - disse Rachel
    Sentia que realmente fizera juz aos votos de boa sorte.


    O        cheiro atingiu-o primeiro e Louis recuou, nauseado. Apoiou-se na beira do tmulo, respirando forte, e quando achou que o enjo estava sob controle, 
todo o seu jantar, farto e sem sabor, subiu-lhe num jorro pela garganta. Vomitou na extremidade da sepultura e ficou algum tempo de cabea baixa, a cabea arquejando. 
Por fim a nusea passou. Cerrando os dentes, tirou a lanterna da axila e iluminou o caixo aberto.
    Um horror profundo, que muito se aproximou do choque paralisante, caiu sobre ele. Era o tipo de sensao geralmente reservada para os piores pesadelos, aqueles 
de que uma pessoa no gosta de lembrar.
    Gage estava sem cabea.
    Louis tremia tanto que teve de segurar a lanterna com ambas as mos, apertando-a como um policial aprende a apertar o revlver na rea de tiro. O facho, porm, 
pulava de um lado para o outro e ele demorou um pouco at conseguir apontar de novo o feixe mortio de luz para dentro d caixo.
     impossvel, disse a si mesmo. Entenda que o que voc pensou ter visto  impossveL
    Deslocou devagar o raio estreito de luz pelo corpo de Gage, menos de um metro de extenso. Dos sapatos novos as calas, ao pequeno palet (ah, Cristo, um menino 
de dois anos nunca devia usar um palet),  gola aberta, ...
    Sua respirao adquiriu um tom spero, demasiado forte para ser uma arfada, e toda a sua fria pela morte de Gage transformou-se num medo intenso e sufocante 
do sobrenatural, do paranormal. Estava cada vez mais certo que cruzara a fronteira para o terreno da loucura.
    Remexeu no bolso de trs em busca do leno. Segurando a lanterna com uma das mos, inclinou-se de novo para o tmulo, quase ultrapassando o ponto de equilbrio. 
Se uma das partes da tampa casse agora, sem dvida ia lhe quebrar o pescoo. Usou delicadamente o leno para limpar o musgo viscoso que estava crescendo na pele 
de Gage - um musgo to escuro que. momentaneamente, chegara a pensar que toda a cabea de Gage tinha desaparecido.
    O musgo estava mido, mas era apenas uma camada superficial. Devia ter esperado por isso; tinha chovido e uma sepultura comum no   prova d'gua. Deslocando 
o facho da lanterna para ambos os lados, viu que havia uma poa de lama embaixo do caixo.
    L estava o filho, sob uma fina camada de limo. Apesar de saber que a urna no seria aberta aps um acidente to terrvel, o agente funerrio fez o melhor que 
pde (era assim que costumavam agir). Olhar para o filho era como olhar para um boneco malfeito. A cabea se projetava em estranhas direes. Os olhos estavam profundamente 
afundados atrs de plpebras fechadas. Uma coisa branca lhe saa da boca, como uma lngua de albino, e Louis achou que talvez tivessem usado um excesso de fluido 
de embalsamamento. De qualquer modo era difcil calcular, e com uma criana devia ser quase impossvel saber qual era a quantidade suficiente.
    Ento percebeu que se tratava apenas de algodo. Estendeu a mo e arrancou-o da boca do menino. Os lbios de Gage, estranhamente moles e parecendo um tanto escuros 
e inchados demais, fecharam-se com um dbil, mas audvel plap! Atirou o algodo no fundo do tmulo, onde ele flutuou na poa de lama e reluziu com uma abominvel 
brancura. Uma das faces de Gage j tinha a aparncia encovada de um rosto de velho.
    - Gage - sussurrou. - Agora vou tirar voc da, est bem?
    Pediu a Deus que ningum o descobrisse, um vigia fazendo sua ronda da meia-noite e meia pelo cemitrio, alguma coisa desse tipo. Mas sabia como agir no caso 
de um imprevisto; se o facho de alguma lanterna casse sobre ele, se algum o surpreendesse ali, empenhado naquele trabalho sinistro, pegaria a pazinha curva e arranhada 
para martelar com ela o crnio do intruso.
    Ps os braos sob o corpo de Gage. O corpo balanou frouxamente de um lado para o outro, e uma repentina, terrvel certeza assaltou a mente de Louis: quando 
levantasse Gage, o corpo ia se decompor, ia se reduzir a pedaos. Ele ficaria ali, os ps apoiados na beira do tmulo, gritando com os pedaos nas mos. E era assim 
que iam encontr-lo.
    V em frente, seu covarde. V em frente e termine o trabalho!
    Pegou Gage, consciente da umidade ftida, e levantou-o. Era como costumava tir-lo da banheira, quando nele dava banho antes de dormir. A cabea do menino pendeu 
para o meio das costas. Louis viu o pescoo arreganhado, a nitidez do contorno que prendia a cabea de Gage nos ombros.
    Ofegando, o estmago em convulses pelo cheiro, pela frouxido do corpo miseravelmente golpeado, Louis conseguiu tirar o filho do caixo. Por fim, sentou-se 
na beira do tmulo com o corpo no colo, os ps pendurados no buraco, uma terrvel lividez no rosto, os olhos transformados em buracos negros, a boca repuxada num 
trmulo esgar de horror, pena e angstia.
    - Gage - disse ele, comeando a balanar o menino. O cabelo de Gage lhe cara no pulso, to sem vida quanto arame. - Gage, tudo vai ficar bem, eu juro, Gage, 
tudo vai ficar bem, isto vai terminar,  s mais esta noite, prometo Gage, eu amo voc, papai o adora.
    Louis balanava o filho no colo.


    Por volta das quinze para as duas, Louis estava pronto para deixar o cemitrio. Sem dvida o pior de tudo fora pegar o corpo. Foi nesse ponto que aquele astronauta 
interior, sua mente, pareceu flutuar mais para longe da nave, em direo ao vcuo. Ali sentado, uma dor latejante nas costas, msculos exaustos saltando, crispando-se, 
Louis achou que j estava pronto para continuar seu trabalho. Lev-lo at o fim.
    Embrulhou o corpo de Gage na lona e amarrou-o com longas tiras de fita gomada. Depois passou ainda a corda em volta. Poderiam suspeitar no mximo de um tapete 
enrolado. Fechou o caixo, pensou um instante e tornou a abri-lo para deixar dentro dele a pazinha empenada. Que o Boa Vista ficasse com aquela relquia; seu filho 
 que ele no teria. Tornou a fechar o caixo e abaixou metade da tampa de cimento. Achou que poderia simplesmente deixar a outra metade cair, mas teve medo de que 
ela se quebrasse. Pensou um pouco, passou o cinto pelo anel de ferro e amou suavemente o quadrado de cimento. Em seguida usou a p para tapar o buraco. Como sempre, 
no houve terra suficiente para voltar a encher a cova. Algum podia reparar na depresso. Ou talvez no. Talvez reparasse e no desse importncia. Louis no estava 
mais disposto a se preocupar com isso. Ainda tinha muito trabalho pela frente. Trabalho frentico. E j estava muito cansado.
Ei, i, vamos l!
    - Sem dvida - Louis murmurou.
    O vento aumentou, gemendo entre as rvores e fazendo-o lanar um olhar inquieto ao redor. Colocou a p, a picareta que ainda teria de usar, as luvas e a lanterna 
ao lado da trouxa. Usar a lanterna era uma tentao, mas ele resistiu. Deixando ali o corpo e as ferramentas, tomou o caminho por onde viera e, cinco minutos depois, 
chegou  cerca alta de ferro. L estava a Civic do outro lado da rua, estacionada junto ao meio-fio. To perto e, no entanto, to distante.
    Louis contemplou-o por um momento e depois se afastou numa direo diferente.
    Desta vez se distanciou do porto, caminhando ao longo da grade at deixar a Rua Mason depois de uma volta em ngulo reto. Encontrou uma vala de drenagem e estremeceu 
com o que viu. Dentro da vala havia montes de flores apodrecidas, camadas e mais camadas, lavadas pela chuva e pela neve.
Cristo.
    No, no Cristo. Aqueles restos estavam depositados para aplacar um Deus muito mais antigo que o dos cristos. As pessoas o chamaram de diferentes nomes em pocas 
diferentes, mas a irm de Rachel dera-lhe um nome perfeitamente adequado: Oz, o Gande e Tevel, Deus das coisas mortas no cho, Deus das flores podres em valas de 
esgoto, Deus do Mistrio.
    Louis ficou olhando para a vala como hipnotizado. Por fim, desviou o olhar com um pequeno suspiro - o suspiro de algum que foi despertado de um transe hipntico 
pelo final da contagem de dez a um.
    Continuou. No precisou andar muito mais para encontrar o que estava procurando, e suspeitou que sua mente estocara cuidadosamente a informao no dia do enterro 
de Gage.
    Assomando na escurido batida pelo vento, ali estava a cripta do cemitrio.
    No inverno, quando o frio era muito grande e os coveiros no podiam cavar a terra congelada, os caixes ficavam guardados ali. A cripta era tambm usada quando 
havia um nmero excessivo de funerais.
    Louis sabia que de vez em quando ocorriam aquelas vagas de "desagradvel freqncia"; em toda comunidade havia certas pocas em que, por motivos que ningum 
podia compreender, morria muita gente.
    - Isso equilibra os negcios - dizia tio Carl. - Se tenho no inicio do ano um perodo de duas semanas em que no morre ningum, Lou, posso contar que, mais dia 
menos dia, terei outro perodo de duas semanas com dez funerais. Raramente o surto ocorre em novembro e nunca perto do Natal, embora as pessoas achem que morre muita 
gente no fim do ano. Essas idias sobre mortes no Natal so pura tolice. Pergunte a qualquer agente funerrio. Em geral as pessoas esto realmente felizes na poca 
do Natal e querem viver. Por isso vivem. Em fevereiro  que temos um grande acrscimo de negcios. A gripe espanhola pega os velhos e,  claro, vira pneumonia... 
Mas no  s isso. H pessoas que conseguem combater o cncer como bastardos durante um ano, dezesseis meses. Ento chega o velho e cruel fevereiro e  como se elas 
se cansassem da luta. O cncer simplesmente as embrulha como um tapete. Em 31 de janeiro, esto a pleno vapor, atingem o mximo da vontade de viver. A 24 de fevereiro 
j esto enterradas. As pessoas tm ataques do corao em fevereiro, derrames em fevereiro, colapso renal cm fevereiro.  um ms bem ruim. As pessoas esto exaustas 
em fevereiro. Em nosso negcio, estamos acostumados a isso... E em junho ou outubro, sem qualquer razo aparente, acontece a mesma coisa. Jamais em agosto. Os negcios 
em agosto andam bem devagar. A no ser que haja uma exploso de gasmetro ou um nibus urbano caia de uma ponte, nunca se chega a preencher uma cripta. de cemitrio 
em agosto. Mas j tivemos fevereiros em que os caixes se empilhavam em trs camadas na cripta. Ficvamos loucos  espera de um degelo para que pudssemos enterrar 
alguns antes de ser preciso alugar uma merda de um anexo qualquer.
    Tio Carl rira. E Louis, vendo que compartilhava de segredos que nem mesmo seus professores na faculdade de medicina sabiam, tambm tinha rido.
    As portas duplas da cripta estavam encaixadas numa elevao cheia de relva, uma forma to natural e atraente quanto um contorno de seio de mulher. O topo da 
elevao (que Louis suspeitava fosse escavada, no natural) ficava apenas cerca de meio metro abaixo das decorativas pontas em forma de flecha das grades de ferro 
(as grades permaneciam na mesma altura; no acompanhavam a elevao que abrigava a cripta).
    Olhou em volta e escalou a encosta. Do outro lado havia um trecho vazio de terreno, talvez uns dois acres de rea. No... no de todo vazio. Havia uma construo 
isolada, uma espcie de galpo. Evidentemente pertence ao cemitrio, pensou. Devia ser ali que guardavam o equipamento.
    Os lampies brilhavam atravs das folhas agitadas de um cinturo de rvores (olmos e bordos antigos). As rvores escondiam a rea da Rua Mason. Louis no viu 
outros movimentos a no ser os do vento.
    Sentou no cho e desceu a colina escorregando, com medo de cair e machucar ainda mais o joelho. Voltou para o tmulo do filho.
    Quase tropeou na trouxa de lona. Percebeu que teria de fazer duas viagens, uma com o corpo e outra com as ferramentas. Curvou-se, fazendo uma careta ante o 
protesto das costas, e segurou nos braos o rgido embrulho de Gage. Pde sentir o corpo de Gage escorregar um pouco l dentro e ignorou absolutamente aquela parte 
de sua mente murmurando sem parar que ele havia enlouquecido.
    Carregou o corpo at a base da elevao que alojava a cripta do Boa Vista (as duas portas de correr, de ao, davam  cripta um aspecto bizarro de garagem para 
dois automveis). Percebeu que no seria nada fcil transportar aquele embrulho de vinte quilos pela encosta ngreme, mas preparou-se para executar a faanha. Tomou 
distncia, ps a trouxa no ombro e correu em direo  encosta, o corpo inclinado para a frente. Esperava que o impulso o levasse o mais longe possvel.
    Tinha chegado quase ao topo quando o p deslizou na relva baixa, escorregadia. Ao cair, porm, tentou atirar o embrulho de Gage o mais alto possveL O embrulho 
atingiu quase a crista da elevao. Louis acabou de subir rastejando, olhou de novo ao redor, no viu ningum e colocou a trouxa de lona ao lado da cerca. Depois 
voltou para pegar o resto das coisas.
    Conseguiu chegar de novo ao topo do monte, desta vez com as ferramentas. Calou as luvas e empilhou junto da trouxa de lona a lanterna, a picareta e a p. Ento 
descansou um pouco, encostado nas grades, as mos segurando os joelhos. O novo relgio digital que Rachel lhe dera no Natal informava que eram duas horas e um minuto.
    Concedeu a si mesmo cinco minutos para recuperar o flego. Depois se levantou e atirou a p pela cerca. Ouviu o baque na relva. Tentou enfiar a lanterna num 
dos bolsos da cala, mas ela no cabia. Fez ento a lanterna deslizar entre duas das grades de ferro e ouviu-a rolar, esperando que no batesse numa pedra e quebrasse. 
Lamentou no ter trazido uma mochila.
    Tirou o rolo de fita gomada do bolso da jaqueta e amarrou o cabo da picareta na trouxa de lona, dando voltas e voltas para que ficasse bem justo. Continuou dando 
voltas at a fita acabar; depois tornou a enfiar o rolo vazio no bolso. Ergueu o embrulho, colocou-o do outro lado da cerca (suas costas protestaram estalando; desconfiou 
que teria de pagar por toda a semana seguinte os exerccios daquela noite).Estremeceu ao escutar o baque surdo.
    Finalmente passou uma das pernas pela cerca, segurou-se em duas das decorativas pontas de flecha e passou a outra perna. Derrapou um pouco, deixando as pontas 
dos sapatos marcadas na terra.
    Do outro lado das grades, escorregou pela elevao e caiu na relva. Encontrou de imediato a p - sob o claro dos lampies atravs das rvores, havia um dbil 
reflexo em sua lmina. Passou por maus momentos ao no conseguir achar a lanterna (at onde ela podia ter rolado?). Ficou de quatro e procurou no meio do mato, a 
respirao e as batidas do corao estourando nos ouvidos.
    Finalmente a encontrou, uma pequena sombra negra, cerca de um metro e meio alm do ponto em que pensou que estivesse - assim como a elevao camuflando a cripta 
do cemitrio, a regularidade daquela forma era notvel. Apanhou-a, fechou a mo sobre o feltro que amortecia sua luz e empurrou a pequena obertura de borracha que 
escondia o comutador. A luz se acendeu brevemente na palma da mo. A lanterna estava em ordem.
    Usou o canivete para soltar a picareta da trouxa de lona e levou as ferramentas para junto das rvores. Parou atrs da rvore maior, olhando para os dois lados 
da Rua Mason. Agora parecia extremamente deserta. Viu apenas uma janela iluminada em toda a rua, um quadrado de luz amarela num sobrado. Talvez algum sofrendo de 
insnia, ou um invlido.
    Andando depressa, mas sem correr, passou  calada. Depois da obscuridade do cemitrio, sentiu-se terrivelmente exposto sob a luz dos lampies; afinal, estava 
ao lado do segundo maior cemitrio de Bangor, segurando uma picareta, uma p e uma lanterna. Se algum o visse, a sugesto seria demasiado bvia para passar em branco.
    Comeou a cruzar rapidamente a rua, os passos ecoando. L estava a Civic, s cinqenta metros mais abaixo. Parecia, no entanto, estar a mais de cinco quilmetros. 
Continuou andando, o suor escorrendo, atento ao som de algum automvel, ao barulho spero de alguma janela se abrindo, a passos diferentes dos seus.
    Quando chegou ao carro, apoiou a p e a picareta no pra-lama e remexeu os bolsos em busca das chaves. No estavam l, em nenhum dos bolsos. Novas ondas de suor 
irromperam em seu rosto. O corao voltou a disparar, os dentes cerrados tentaram afastar o pnico que ameaava saltar sobre ele.
    Tinha perdido as chaves, muito provavelmente quando caiu do galho da rvore, bateu com o joelho na lpide e rolou pelo cho. As chaves estariam no meio da relva; 
mas se tivera dfficuldades em achar a lanterna, como ia conseguir recuperar as chaves? Estava acabado. Um momento de azar e tudo estava acabado.
    Mas espere, espere s um maldito minuto. Veja outra vez se no esto em algum bolso. As moedas no caram... E se as moedas no caram, as chaves tambm no.
    Desta vez remexeu os bolsos mais devagar, tirando primeiro as moedas, chegando a vir-los pelo avesso.
    Nada de chaves.
    Apoiou-se no carro, sem saber o que fazer. Sem dvida teria de escalar de novo a cerca do cemitrio, deixar o filho ali, pegar a lanterna, subir de novo na rvore 
e passar o resto da noite numa busca insana das...
    Subitamente uma luz entrou em sua mente cansada. Abaixou-se e olhou dentro da Civic. L estavam as chaves penduradas na ignio.
    Deixou escapar um grunhido abafado, correu para o lado do volante, abriu a porta e tirou as chaves. Subitamente ouviu em sua mente a voz autoritria de Karl 
Malden, aquela sombria figura paterna com nariz de batata e um antiquado chapu de aba cada: Tranque o carro. Leve as chaves. No ajude a tentar o ladro.
    Fez a volta pela traseira da Civic e abriu o bagageiro. Ps l dentro a picareta, a p, a lanterna e fechou. J tinha se afastado uns dez metros do carro quando 
se lembrou das chaves. Desta vez as esquecera penduradas na fechadura do bagageiro.
    Estpido, repreendeu a si mesmo. Se vai continuar agindo de uma forma to estpida,  melhor no fazer mais nada!
    Voltou e apanhou as chaves.

    Tinha pegado Gage nos braos e andado mais da metade do caminho de volta  Civic quando um cachorro comeou a latir. ..... . Na realidade, no comeou a latir. 
Comeou a uivar, um spero gemido enchendo a Rua Mason. Au-aa-UUUUU! Au-aa-UUUUUUU!
    Escondeu-se atrs de uma rvore, se perguntando o que ia acontecer, se perguntando o que fazer. Esperou que comeassem a acender as luzes de cima a baixo na 
rua.
    Na realidade, s uma luz se acendeu, numa casa bem em frente s sombras onde estava escondido. Pouco depois, uma voz rouca gritou:
- Cala a boca,Fred!
- Au-aa-UUUUUU! - Fred respondeu.
    - Faa-o calar, Scanlon, ou vou chamar a polcia! - algum gritou do lado onde Louis estava, fazendo-o pular, fazendo-o perceber como era falsa a iluso de vazio 
e desolao. Havia gente por toda a volta, centenas de olhos, e aquele cachorro estava tirando-lhes o sono, seu nico cmplice. Maldito seja voc, Fred, ele pensou. 
Oh, maldito seja!
    Fred comeou outro coro. Entrou primorosamente pelo Au-aa, mas antes que pudesse emendar num bom e slido UUUUUU houve um som forte e vigoroso seguido por uma 
srie de lamrias e ganidos baixos.
    O silencio foi seguido pelo dbil bater de uma porta. A luz lateral na casa do dono de Fred continuou acesa por um instante, depois foi apagada.
    Lous se sentiu fortemente inclinado a permanecer na sombra, esperando; sem dvida seria melhor esperar que o tumulto cessasse por completo. Mas o tempo passava 
depressa.
    Atravessou a rua com a trouxa e aproximou-se da Civic, no vendo absolutamente ningum. Fred continuou calado. Segurou a trouxa numa das mos, pegou as chave, 
abriu o bagageiro.
    Gage no cabia.
    Tentou colocar a trouxa verticalmente, depois na horizontal, depois na diagonal. O bagageiro da Civic era pequeno demais. Podia ter dobrado e imprensado a trouxa 
(Gage no ia se importar), mas simplesmente no conseguiria fazer isso.
Vamos, vamos, vamos, saia logo daqui, no perca mais tempo.
    Mas ficou parado, perplexo, nenhuma idia na cabea, a trouxa com o cadver do filho nos braos. Ento ouviu o motor de um carro se aproximando e, sem pensar 
duas vezes, levou a trouxa para o banco ao lado do motorista e acomodou-a no assento.
    Fechou a porta, fez a volta pela traseira da Civic, bateu a tampa do bagageiro. O carro passou correndo na esquina e Louis ouviu a balbrdia de vozes embriagadas.
    Instalou-se atrs do volante, deu partida no motor, e estava estendendo a mo para acender os faris quando foi atingido por um pensamento terrvel. E se Gage 
estivesse ao contrrio, sentado ali com os joelhos e os quadris do lado errado, os olhos encovados fitando a janela de trs em vez do pra-brisas?
    No importa, sua mente respondeu com uma fria estridente nascida da exausto. Ainda vai querer se preocupar com isso? Simplesmente no importa!
    Mas importa. Realmente importa.  Gage quem est a. Isso no  uma trouxa de toalhas!
    Estendeu a mo e comeou a pass-la delicadamente pela superfcie da lona, procurando sentir os contornos que havia embaixo. Era como um cego tentando determinar 
a forma de um objeto. Por fim atingiu uma salincia que s poderia ser o nariz de Gage. Estava voltado na direo correta.
    S ento conseguiu pr a Civic em movimento e dar incio aos vinte e cinco minutos da viagem de volta a Ludlow.


    A uma hora daquela madrugada, o telefone de Jud Crandall tocou, ecoando na casa vazia, deixando-o bem desperto. Sonhara em seu cochilo, e no sonho era de novo 
um rapaz de vinte e trs anos, sentado no banco de uma plataforma da estrada de ferro com George Chapin e Ren Michaud. Os trs passavam entre si uma garrafa de 
usque Georgia Charger (destilado clandestinamente, mas com um selo fiscal estampado no rtulo), enquanto l fora um vento nordeste enchia o mundo com seu gemido 
indecente, silenciando tudo que se movia, inclusive os trens da estrada de ferro B&A.
    Continuaram ali sentados, bebendo ao lado da barriguda locomotiva D.flant, vendo o claro vermelho dos carves prolongar-se e ondular na atmosfera, as chamas 
que lembravam diamantes lanando sombras na plataforma. Contavam as anedotas que os homens guardam anos, como aqueles tesouros de trastes de quintal que os garotos 
conservam debaixo das camas; anedotas reservadas para noites como aquela. Como o daro da Deflant, eram histrias sem muitos detalhes, com um daro avermelhado no 
centro de cada uma delas e o vento a envolv-las. Tinha vinte e trs anos e Norma estava muitssimo viva (embora sem dvida j estivesse na cama, no esperaria por 
ele numa noite selvagem dessas); Ren Michaud estava contando o que houve com um camel judeu em Bucksport que...
    Foi quando o telefone comeou a tocar e ele pulou na cadeira, assustado com a rigidez do pescoo, sentindo uma amarga sensao de peso cair dentro dele como 
uma pedra - eram, pensou, todos aqueles anos entre os vinte e trs e os oitenta e trs, todos aqueles sessenta anos, pesando ao mesmo tempo. E no rastro daquele 
pensamento: Voc se deixou dormir, rapaz. Isso no  maneira de vigiar esta estrada... No hoje.
    Levantou-se, lutando contra a rigidez que tambm se instalara em suas costas, e foi at o telefone.
    Era Raquel.
- Jud? Ele j veio, pra casa?
    - No - disse Jud. - Onde voc est? Sua voz parece mais perto.
    - Estou mais perto.
    Embora a voz realmente parecesse mais perto, havia um rumor distante no fio. Era o barulho do vento, em algum lugar entre a casa de Jud e onde quer que Rachel 
estivesse. O vento estava barulhento naquela noite. Um som que sempre fazia Jud pensar em vozes de mortos, suspirando em coro, talvez cantando alguma coisa distante 
demais para ser compreendida.
    - Estou perto de um posto de pedgio em Biddeford, na auto-estrada do Maine.
    - Biddeford!
    - No pude ficar em Chicago. A coisa tambm estava me atingindo.., O que quer que tenha atingido Ellie, tambm me atingiu. E voc tambm Jud. Voc tambm sente. 
Est em sua voz.
    - Pois .
    Ele tirou um Chesterfield do mao e colocou-o no canto da boca. Acendeu com um piparote o fsforo e viu-o bruxulear enquanto as mos tremiam. Suas mos no costumavam 
tremer - pelo menos no antes daquele pesadelo ter comeado. Ouvia as sombrias rajadas de vento do lado de fora. O vento pegava a casa em suas garras e a sacudia.
    A fora est aumentando. Posso sentir isso.
    Vago terror em seus velhos ossos. Um terror como cristal, fino e fraco.
    - Jud, por favor, diga o que est acontecendo!
    Achava que Rachel tinha o direito de saber... necessidade de saber. E achava que ia lhe contar. Finalmente ia lhe contar toda a histria. Mostraria a Rachel 
aquela cadeia que fora se forjando elo por elo. O ataque do corao de Norma, a morte do gato, a pergunta de Louis (algum j enterrou uma pessoa l em cima?), a 
morte de Gage.... E s Deus sabia que novo elo Louis podia estar forjando naquele momento. Finalmente ia lhe contar. Mas no pelo telefone.
    - Rachel, como voc acabou numa estrada em vez de vir de avio?
    Ela explicou como perdera a conexo em Boston.
    - Aluguei um carro da Avis, mas estou demorando mais do que pensei. Perdi muito tempo para ir do aeroporto  entrada da rodovia. S agora atravessei a fronteira 
do Maine. Acho que no vou conseguir chegar antes do amanhecer. Mas Jud... por favor. Por favor me diga o que est havendo. Estou to assustada e nem ao menos sei 
por qu.
    - Rachel, preste ateno - disse Jud -, v at Portiand e passe a noite l, est me ouvindo? Encontre um hotel e procure...
    - Jud, eu no posso fazer is...
    - ... e procure dormir algumas horas. No fique aflita, Rachel. Pode ser que alguma coisa esteja acontecendo hoje  noite, mas tambm pode ser que no. Se algo 
estiver acontecendo (se  o que eu penso), sem dvida voc no ia querer estar aqui. Acho que posso cuidar do assunto. E  minha obrigao, porque o que est acontecendo 
 culpa minha. E talvez nem haja nada. Chegue aqui amanha  tarde e tudo estar bem. Acho que Louis vai ficar muito contente em se encontrar com voc.
    - No vou conseguir dormir, Jud.
    - Vai - disse ele, ponderando que todos achavam que no iam dormir; foi o caso dele e provavelmente tambm o de Pedro, na noite em que Jesus foi preso. Dormir 
num posto de sentinela! - Vai conseguir, Rachel. Se cochilar no volante desse maldito carro alugado, se sair da estrada e se matar, o que vai ser de Louis? E de 
Ellie?
    - Diga o que est acontecendo! Se me disser, Jud, talvez siga seu conselho. Mas tenho de saber!
      Quando chegar a Ludlow, quero que venha direto pra c - disse Jud. - No para sua casa. Venha aqui primeiro. Vou lhe contar tudo que sei, Rachel. No se preocupe, 
eu estou  espera de Louis.
    - Conte - disse ela.
    - No senhora. No ao telefone. No vou contar, Rachel No posso. V agora. V para Portland e passe a noite num hotel.
    Houve uma pausa longa, meditativa.
    - Tudo bem - ela disse por fim. - Talvez voc tenha razo. Mas pelo menos me diga uma coisa, Jud.  muito grave?
    - Posso cuidar do assunto - Jud respondeu num tom calmo. - As coisas no sero piores do que tm de ser.
    Os faris de um carro surgiram l fora, movendo-se devagar. Jud comeou a se levantar, deu uma espiada, mas tornou a sentar quando o veculo ultrapassou a casa 
dos Creed e sumiu ao longe.
    - Tudo bem - disse Rachel. - Eu acho. Desde o incio da viagem estou me sentindo como se tivesse uma pedra na cabea.
    - Deixe a pedra rolar, querida - disse Jud. - Por favor. Poupe-se para amanh. As coisas aqui vo ficar bem.
    - Promete que vai contar toda a histria?
    - Prometo. Tomamos uma cerveja e vou lhe contar a coisa toda.
    - Ento at logo - disse Rachel. - Mas amanh...
    - Amanh - Jud concordou. - Amanha conversamos, Rachel.
    Antes que ela tivesse tempo de dizer mais alguma coisa, Jud desligou.

    Achou que havia comprimidos de cafena no armrio do banheiro, mas no conseguiu encontr-los. Ps o resto da cerveja na geladeira (no sem lamentar) e preparou 
uma xcara de caf. Levou-a para o parapeito da janela e sentou-se de novo, sorvendo o caf e vigiando a estrada.
    O caf e a conversa com Rachel mantiveram-no desperto e alerta por trs quartos de hora, mas de repente sua cabea comeou a cair de novo.
    Nada de dormir no posto de sentinela, meu velho. Deixou a coisa tomar conta de voc; procurou encrencas e agora tem de pagar por elas. Ento, nada de dormir 
no cumprimento do dever.
    Acendeu um novo cigarro, tragou profundamente e puxou uma tosse spera de velho. Ps o cigarro na beira do cinzeiro e esfregou os olhos com ambas as mos. Um 
caminho de dez rodas passou ruidosamente, luzes correndo pela estrada, avanando atravs da noite incmoda, cortada de ventanias.
    Apanhou-se cochilando de novo, pulou na cadeira e esbofeteou o prprio rosto com as palmas e as costas das mos, fazendo os ouvidos vibrarem. Agora o terror 
lhe apertava o corao, visitante furtivo que se introduzira no fundo de seu peito.
    Alguma coisa est querendo me fazer dormir... me hipnotizando... No quer que eu fique acordado. Porque ele logo estar de volta. Sim, eu sinto isso. E alguma 
coisa quer me deixar fora do caminho.
    - No - falou num tom severo. - De modo algum. Est me ouvindo? Vou pr um paradeiro nisto. Isto j foi longe demais.
    O vento gemia em volta dos beirais do telhado e as rvores do outro lado da estrada agitavam as folhas em padres hipnticos. Sua mente voltou para aquela noite 
junto da chamin da Defiant na plataforma da estrada de ferro (ficava no lugar onde  agora o Emprio de Mveis Evarts em Brewer). Tinham conversado a noite inteira, 
ele, George e Ren Michaud. Era o nico que tinha sobrado... Ren foi esmagado entre dois vages de carga, numa noite de tempestade em maro de 1939; George Chapin 
morreu de um ataque cardaco no ano passado. Entre tanta gente, ele foi o nico que sobrou, e os velhos ficam estpidos. As vezes a estupidez se mascara como benevolncia, 
s vezes como orgulho - uma necessidade de contar antigos segredos, de passar as coisas adiante, co-las do velho pote para um novo recipiente...
    Ento o camel judeu entrou e disse: "Tenho uma mercadoria que vocs nunca viram. Esses postais aqui, vejam, parecem mulheres na praia, com roupa de banho, at 
que a gente esfrega com um pano mido e...

    A cabea de Jud caiu. O queixo se acomodou devagar, suavemente, no peito.
    ..... elas aparecem nuas como no dia em que vieram ao mundo! Mas quando as roupas secarem, voltaro a aparecer vestidas! E isso ainda no  tudo! Tenho..."
    Ren contando esta histria na plataforma da estrada de ferro, o corpo inclinado para a frente, sorrindo, e Jud segurando a garrafa. Ele sentia a garrafa e suas 
mos se fecharem no ar em torno do gargalo.
    No cinzeiro, a brasa na ponta do cigarro ficava cada vez maior. Por fim, caiu e apagou, sua forma se acrescentando ao caprichado monte de cinzas como um signo 
mgico.
    Jud dormia.
    E quarenta minutos mais tarde, quando as luzes traseiras da Civic piscaram l fora e Louis dobrou  direita entrando com o carro na garagem, Jud no ouviu nada, 
no se mexeu nem acordou, assim como Pedro no acordou quando os soldados romanos vieram prender um vagabundo chamado Jesus.


    Louis encontrou um novo rolo de fita gomada numa das gavetas da cozinha. Havia tambm um rolo de corda no canto da garagem, perto dos pneus que tirara da Civic 
no ltimo inverno. Usou a fita para amarrar a picareta com a p, formando uma trouxa. Usou a corda para fazer uma espcie de linga.
    Ferramentas na linga. Gage nos braos.
    Prendeu a linga nas costas, depois abriu a porta da Civic, puxando o fardo de Gage. O menino pesava muito mais que Church. Talvez chegasse rastejando ao cemitrio 
micmac e ainda teria de cavar o tmulo, lutando para abrir o buraco no solo pedregoso, implacvel.
    Bem, ia conseguir. De algum modo ia conseguir.
    Louis Creed saiu da garagem, parando para desligar a luz com o cotovelo, parando outra vez no ponto onde o asfalto se transformava em grama.  sua frente, podia 
ver o caminho que conduzia ao "simitrio" de bichos. Estava bem ntido apesar da escurido. Forrado de relva rasteira, o caminho brilhava com uma espcie de fosforescncia.
    O        vento enfiava os dedos entre seus cabelos, embaraando..os. Por um instante, o velho medo infantil do escuro correu-lhe pelo corpo, fazendo-o se sentir 
fraco, pequeno, aterrorizado. Ia realmente entrar nos bosques com aquele cadver nos braos, caminhar sob as rvores batidas pelo vento, passar de sombra a sombra? 
E desta vez sozinho?
    No pense mais nisso. Apenas faa.
    Louis comeou a andar.

    Vinte minutos depois, quando chegou ao "simitrio" de bichos, seus braos e pernas tremiam de cansao. Ele se deixou cair numa pedra com a trouxa de lona nos 
joelhos, ofegando. Descansou ali por mais vinte minutos, quase cochilando, no sentindo mais medo (a exausto parecia ter afugentado o medo).
    Por fim ps-se outra vez de p, no acreditando muito que conseguisse escalar os troncos cados, mas percebendo de modo um tanto vago que precisava tentar. A 
trouxa parecia estar pesando cem quilos em vez de vinte.
    Mas o que aconteceu da primeira vez aconteceu de novo; foi como recordar vividamente um sonho. No, no recordar, reviver. Quando ps o p no primeiro tronco 
de rvore cado, aquela estranha sensao invadiu-o de novo, uma sensao de quase jbilo. A fraqueza no o abandonou, mas tornou-se suportvel - na realidade, sem 
importncia.
    Venha atrs de mim. Venha atrs de mim e no olhe pra baixo, Louis. No hesite e no olhe pra baixo. Conheo o caminho, mas temos de atravess-lo com passo firme, 
e depressa.
    Sim, depressa e com firmeza, o modo como Jud tirara o ferro da abelha.
    Conheo o caminho.
    Mas havia apenas um modo de seguir aquele caminho. Louis pensou. Ou ele se deixa atravessar ou no. Certa vez tentara escalar sozinho os troncos cados e no 
conseguira. Agora, porm, subiu com rapidez e segurana, como tinha feito na noite em que Jud o levara at l.
    Sempre subindo, no olhando para baixo, o corpo do filho em seu sudrio de lona estendido nos braos. Subindo at o vento descobrir passagens e cmaras secretas 
em seu cabelo, fazendo-o espigar, repartindo-o em direes diferentes.
    Ficou l no alto por um instante e logo comeou a descer, o passo rpido, como se descesse um lance de degraus. A picareta e a p tilintavam e chocalhavam em 
suas costas. Em no mais de um minuto chegava de novo ao solo fofo e coberto de gravetos da trilha, o monte de troncos por trs das costas, mais alto que a cerca 
do cemitrio.
    Avanou com o filho nos braos, ouvindo o gemido do vento entre as rvores. Agora aquele som no lhe trazia terror. O trabalho da noite estava quase concludo.


    Rachel Creed ultrapassou a placa dizendo Sada 8 Mantenha a Direita para Portland Westbrook, ligou a seta e guiou o Chevette da Avis para a pista de desvio. 
Podia ver com nitidez o luminoso verde contra o cu noturno: Holiday Inn. Uma cama, dormir. Um fim para aquela tenso continua, torturante. Um fim (ao menos por 
algum tempo) para a saudade mortificante do filho que no estava mais a seu lado. Aquela dor, ela descobrira, era semelhante a das grandes extraes dentrias. De 
incio havia um entorpecimento, mas atravs dele se podia sentir a dor emboscada, a dor esperando sua vez como um gato com a cauda no ar. E quando passava o efeito 
da novocaina, oh, sem dvida a pessoa no ficava desapontada.
    Disse que foi mandado para ....... mas no podia interferir. Disse que estava perto do pai porque os dois estavam juntos quando a alma dele desencarnou.
    Jud sabe, mas no quer dizer. Alguma coisa est acontecendo. Alguma coisa.O qu?
    Suicdio? Ser suicdio? No Louis; no posso acreditar.., mas ele estava mentindo. A mentira estava estampada nos olhos ..... . Oh, merda, cobria todo o seu 
rosto, como se ele quisesse que eu descobrisse.., que eu descobrisse e desse um fim  brincadeira... Porque uma parte dele estava com medo... com muito medo.
    Com medo? Louis nunca tem medo!
    Subitamente deu uma guinada para a esquerda com o volante do Chevette. O carro teve aquela resposta abrupta, comum aos carros pequensos, pneus guinchando no 
asfalto. Por um instante, pareceu que ia capotar. Mas no chegou a tanto. E ela seguiu de novo para o norte, a sada 8, com o confortvel Holiday Inn sumindo no 
retrovisor.
    Viu uma nova placa, um brilho estranho de tinta fosforescente.
    PRXIMA SADA RODOVIA 12 CUMBERLAND CENTRO DE CUMBERLAND REA DE JERUSALM FALMOUTH NORTE DE FALMOUTH.
    rea de Jerusalm, ela pensou distrada, que nome estranho. Por alguma razo no  um nome agradveL.. Venha dormir em Jerusalm...
    Mas no dormira naquela noite! Apesar do conselho de Jud, estava agora disposta a dirigir at chegar em casa. Jud sabia o que havia de errado e prometera por 
um ponto final na. coisa, mas o homem tinha oitenta e poucos anos e perdera a esposa h apenas trs meses. No depositava grandes esperanas em Jud. Jamais devia 
ter permitido que Louis a empurrasse para fora de casa, mas ficara muito abatida com a morte de Gage. E Ellie.... Ellie com o retrato do irmo no tren, o rosto 
desfigurado, era a imagem de uma criana que tivesse sobrevivido a um tornado ou s bombas de caas de mergulho caindo do azul do cu. Em certos momentos, na sombria 
viglia da noite, quase chegou a odiar Louis pela dor que ele estava provocando, por no lhe ter proporcionado o consolo de que ela precisava (nem ter permitido 
que ela o consolasse), mas no pde. Ainda o amava muito e o rosto dele parecera to plido.., to temeroso...
    O ponteiro do velocmetro estabilizou-se um pouco  direita dos cem por hora. Mais de um quilmetro e meio por minuto. Talvez duas horas e quinze minutos at 
Ludlow. Talvez ainda conseguisse chegar antes do nascer do sol.
    Tateou pelos botes do rdio, encontrou uma estao de Portland transmitindo rock. Aumentou o volume e cantou junto, procurando se manter acordada. Uma hora 
depois, a estao comeou a fugir e ela passou para uma emissora de Augusta. Baixou a janela e deixou o vento forte do ar noturno bater em seu rosto.
    Teve vontade de saber se aquela noite ia mesmo terminar.
    
    
    Louis redescobrira seu sonho e estava em suas malhas; a cada momento olhava para baixo, certificando-se de que carregava o corpo num pedao de lona, no num 
saco verde do inferno. Lembrou-se que ao despertar na manh seguinte  jornada que fizera com Church at l em cima, mal conseguiu recordar o que tinha feito... 
Agora, porm, lembrava muito bem como as sensaes tinham sido ntidas, com que intensidade foram experimentadas pelos seus sentidos, como pareceu vivenciar o bosque 
como se o bosque fosse uma coisa viva, numa espcie de contato teleptico com ele.
    Seguia o caminho, subindo e descendo, redescobrindo os pontos onde parecia to largo quanto a Rodovia 15, onde se estreitava at obrig-lo a andar de lado para 
manter a trouxa livre dos arbutos, onde serpenteava atravs de grandes e altas catedrais de rvores. Podia sentir o aroma forte da resina de pinho e ouvir o estranho 
amassar dos gravetos na sola dos ps - uma sensao bem mais concreta do que um mero som.
    Por fim, a trilha comeou a se inclinar para baixo de forma mais Ingreme e constante. Pouco depois um dos ps chapinhou em gua empoada, quase atolando no solo 
coberto de lodo.., areia movedia, se a informao de Jud fosse digna de crdito. Louis olhou para baixo e viu a gua estagnada entre punhados de juncos e arbustos 
rasteiros, feios, com folhas to grandes que pareciam tropicais. Lembrou que tambm naquela outra noite a luz parecera mais brilhante. Mais carregada de eletricidade.
    Este trecho  como a passagem dos troncos. Voc precisa andar com passo firme e sem se afobar. Venha atrs de mim e no olhe pra baixo.
    Sim, est bem... E alis alguma vez viu plantas como essas no Maine? No Maine ou em qualquer outra parte? O que pelo amor de Deus so essas plantas?
    No importa, Louis. Simplesmente... continue.
    Comeou de novo a andar, olhando para o solo mido, pantanoso, at ver a primeira moita. Depois passou a olhar s para a frente, os ps se movendo de um monte 
de relva a outro. F  aceitar a gravidade como um postulado, ele pensou. No aprendera aquilo num curso universitrio de teologia ou filosofia, era uma frase que 
um dia seu professor de fsica do colgio lanara no fim da aula.., algo que Louis nunca esqueceu.
    Aceitava a capacidade que tinha o cemitrio micmac de ressuscitar os mortos e avanava pelo Pequeno Pntano de Deus com o filho nos braos, sem olhar para baixo 
ou para trs. Aqueles trechos pantanosos estavam mais barulhentos do que no final do outono. Pererecas faziam rudo entre os juncos, um coro estridente que Louis 
achou estranho e nada agradvel. Vez por outra, uma r tangia uma corda grave no fundo da garganta. No havia avanado mais que uns vinte passos no Pequeno Pntano 
de Deus quando alguma coisa comeou a esvoaar com extrema velocidade em torno dele... Talvez um morcego.
    A nvoa rasteira tambm comeou a rodopiar a seu redor, primeiro cobrindo-lhe os sapatos, depois as pernas, encerrando-o por fim numa luminosa cpsula branca. 
A nvoa parecia ainda mais brilhante que da outra vez, um fulgor que pulsava como a batida de estranho corao. Jamais sentira to intensamente a presena da natureza, 
uma espcie de fora aglutinante, um ser real... possivelmente consciente. O pntano estava vivo, mas no num sentido abstrato. Se lhe pedissem para definir a qualidade 
ou natureza daquela vitalidade, no seria capaz. Sabia apenas que era cheia de potencialidades e estava impregnada de energia. No meio dela, Louis se sentia muito 
pequeno e muito mortal.
    E de repente ali estava aquele som. Tambm j o ouvira da primeira vez: um riso alto, gorgolejante, que ia se transformando num soluo. Houve silncio. Depois 
o riso voltou, agora na forma de um guincho enlouquecido, que fez o sangue de Louis se congelar nas veias. A nvoa deslizava como num sonho ao seu redor. O riso 
se extinguiu, deixando apenas o roncar do vento, ouvido, mas j no sentido. Era claro que aquele terreno tinha de ser uma espcie de redoma geolgica sobre a Terra. 
Se o vento pudesse penetrar ali, teria esfarrapado a nvoa. (E Louis no estava muito convencido de que gostaria de ver o que havia atrs dela.)
    Voc tambm pode ouvir sons parecidos com vozes, mas so apenas as gralhas do Sul, l para os lados de Prospect. O som chega at aqui.  engraado.
    - Gralhas - disse Louis e mal reconheceu o som estranho, um tanto fantasmagrico, da prpria voz. Mas sentia-se bem. Deus o estava ajudando, ele realmente se 
sentia bem.
    Hesitou um pouco e depois continuou. Como se para puni-lo daquela breve pausa, o p escorregou numa moita e ele quase ficou sem sapato. A custo tirou o p do 
limo viscoso da poa d'gua.
    O riso (se  que era um riso) voltou de novo, desta vez pela esquerda. Momentos depois veio por trs dele.., diretamente por trs dele. Talvez Louis pudesse 
se virar e ver, a menos de trinta centmetros de suas costas, uma coisa horripilante, de dentes arreganhados e olhos brilhantes... Mas desta vez nem diminuiu o passo. 
Continuou avanando, olhando sempre  frente.
    Subitamente, a nvoa perdeu a luminosidade e Louis percebeu que havia um rosto no ar, olhando com malcia, fazendo sons esquisitos com a boca. Os olhos, puxados 
para cima como numa pintura clssica chinesa, eram uma coisa cinzenta e amarelada, funda, brilhante. A boca estava contorcida num ricto, o lbio inferior parecia 
virado pelo avesso, revelando dentes com manchas escuras ou corrodos at as razes. Mas o que mais o impressionou foram as orelhas, que no eram absolutamente orelhas, 
mas chifres curvados... No eram como chifres do diabo, eram como chifres de carneiro.
    Aquela cabea medonha, flutuante, parecia estar.., falando, ou melhor, rindo. A boca se movia, embora o lbio virado ao contrrio nunca voltasse  sua forma 
e lugar naturais. Veias palpitavam. As narinas pareciam chamejantes, cheias de vida e respirao, exalando uma fumaa branca.
    Quando Louis chegou mais perto, a lngua pendeu pela boca. Era muito comprida e pontuda, de uma colorao amarelo-escura. Estava coberta com escamas de pele 
e uma delas saltou como a tampa de um poo, liberando um verme branco. A ponta da lngua deslizou preguiosamente no ar, ultrapassando o ponto onde a cabea poderia 
ter seu pomo-de-ado... A cabea ria.
    Segurou Gage com mais fora, apertou-o de encontro ao peito, como se quisesse proteg-lo. Seus ps tropearam e comearam a deslizar na superfcie escorregadia 
da moita, onde dificilmente encontrariam um ponto de apoio.
    Voc pode ver o fogo-de-santelmo... Aquilo que os marinheiros chamam de fogo-ftuo. Tem formas engraadas, mas no  nada. Se vir alguinas dessas formas e elas 
o incomodarem,  s virar o rosto para, o outro lado...
    A voz de Jud deu-lhe um novo nimo. Voltou a lanar-se decididamente  frente, cambaleando a princpio, depois recuperando o equilbrio. No olhou para o lado, 
mas reparou que o rosto (se fosse realmente um rosto e no apenas uma forma gerada pela nvoa e por sua prpria mente) parecia sempre se manter na mesma distncia. 
Segundos ou minutos mais tarde, simplesmente se dissolveu na nvoa que ondulava ao redor.
    No era o fogo-de-santelmo.
    No,  claro que no. Aquele lugar estava cheio de espritos, tenebrosamente repleto. O sujeito podia olhar em volta e ver uma coisa capaz de enlouquec-lo. 
Mas Louis no queria pensar mais nisso. No era preciso pensar nisso. No era preciso...
    Alguma coisa estava se aproximando.
    Louis parou completamente, atento ao rudo... ao inevitvel ruido de aproximao. Sua boca se abriu, cada tendo que lhe sustentava o queixo simplesmente cedeu.
    Era um som completamente diferente de tudo que j ouvira - um som com vida prpria e um som enorme. De algum lugar nas vizinhanas, e cada vez mais perto dele, 
os arbustos vinham se rompendo. Ouvia o estalar da vegetao sob a presso de ps inconcebivelmente grandes. O solo de gelia comeou a estremecer numa forte vibrao. 
Tomou conscincia de que estava gemendo...
    (ah, meu Deus oh, meu bom Deus o que  isso que est se aproximando atravs da nvoa?)
      e mais uma vez apertou Gage de encontro ao peito; percebeu que as pererecas e as rs tinham silenciado, percebeu que o ar 4mido, nevoento, adquirira um cheiro 
estranho e nauseante, como carne de porco estragada.
    No importa o que fosse, era imenso.
    O rosto espantado e apavorado de Louis esticou-se cada vez mais, como se seguisse a trajetria de um foguete recm-disparado. A coisa avanava compactamente 
em sua direo e ele ouviu o majestoso som de uma rvore - no um galho, mas uma rvore inteira - caindo perto.
    Viu alguma coisa.
    A nvoa desenhou momentaneamente um contorno cinza-azulado, mas aquela forma difusa, mal definida, tinha quase vinte metros de altura. No era uma sombra, no 
parecia um fantasma sem substncia, podia sentir o deslocamento do ar  sua passagem, podia ouvir o baque gigantesco de seus ps, a suco do lodo  medida que eles 
avanavam.
    Por um instante, acreditou ter visto duas centelhas amarelo-alaranjadas no alto. Centelhas como olhos.
    Ento o som comeou a se extinguir. E enquanto sumia, uma perereca gritou hesitante - uma. Mas foi respondida por outra. Uma terceira juntou-se  conversa, uma 
quarta transformou-a numa animada discusso, uma quinta e uma sexta numa conveno de pererecas. Os sons do avano da coisa (lento, mas no casual; talvez aquilo 
fosse o pior de tudo, aquela sensao de caminhada consciente) iam se distanciando para o norte. Pouco a pouco... cada vez mais baixos ..... . desapareceram.
    Por fim, Louis voltou a caminhar. Seus ombros e costas estavam enrijecidos por uma dor torturante. Uma camada de suor cobria-o do pescoo aos ps. Os primeiros 
mosquitos da estao, recm-sados do ovo e famintos, viram nele boa oportunidade para uma refeio tardia.
    O vendigo, meu Deus, aquilo era o vendigo - a criatura que se move atravs do norte do pas, a criatura que pode nos tocar e nos transformar em canibais. Era 
isso. O vendigo passando a uns sessenta metros de mim.
    Disse a si mesmo para no ser ridculo, para ser como Jud e afastar as especulaes sobre o que pudesse ver ou ouvir alm do "simitrio" de bichos: eram gralhas, 
era o fogo-de-santelmo, eram os gritos de uma torcida de time de futebol. Que fossem qualquer coisa, mas no criaturas que cambaleiam, rastejam, deslizam como cobra, 
tropeam pelo mundo. Que pensasse em Deus, na missa dos domingos, nos ministros episcopais com vestes brancas e brilhantes.., mas que no pensasse em horrores sombrios, 
arrastando-se na face escura do universo.
    Avanou carregando o filho e o solo voltou a se firmar sob seus ps. Pouco depois chegou a uma rvore cada. Na nvoa que se fragmentara, a copa verde-escura 
lembrava um espanador que a empregada de um gigante tivesse deixado cair.
    A rvore estava partida (despedaada). As lascas eram to recentes que a polpa branca e amarela ainda drenava seiva. Louis tocou na seiva ao transpor a rvore. 
Era quente. Do outro lado havia uma monstruosa depresso no terreno, que ele atravessou com dificuldade, agarrando-se com mos e ps. Embora houvesse junperos e 
ps de louro esmagados na terra, recusou-se a acreditar que aquilo fosse uma pegada. Podia ter virado para trs e ver se era realmente o que parecia, mas no o fez. 
Simplesmente continuou a andar, a pele fria, a boca quente e seca, o corao disparando.
    Seus ps pararam de chapinhar no lodo. Por algum tempo, houve apenas o rudo seco dos gravetos de pinho. Depois caminhou sobre pedras. Estava chegando.
    O solo comeou a se elevar mais depressa. Louis bateu dolorosamente com a canela numa salincia. E no era apenas um pedao de rocha. Ele esticou um dos braos 
(o tendo do cotovelo, que ficara entorpecido, rangeu um pouco) e tocou-a.
    H degraus aqui. Talhados na rocha. Venha sempre atrs de mim. Agora s precisamos chegar ao topo.
    Ento comeou a subir e a sensao de alegria voltou, de novo superando a exausto (pelo menos at certo ponto). No sentia medo enquanto galgava os degraus 
sob o incessante rio de vento. Agora o vento estava mais forte, encrespando-lhe as roupas, fazendo as pontas do pedao de lona que envolvia Gage baterem como tiros 
de revlver, sacudirem como o alto da vela de um barco.
    Inclinou a cabea para trs e viu o fantstico esparramar de estrelas. Mas no reconheceu nenhuma das constelaes e, perturbado, desviou o olhar. A seu lado 
havia uma parede de rocha, no suave mas escarpada, cheia de fendas e salincias, assumindo aqui a forma de um barco, ali de um co, acol de um rosto de homem com 
olhos fundos, severos. Mas os degraus que tinham sido talhados na rocha eram suaves.
    Louis chegou ao topo e parou, a cabea baixa, o corpo oscilando, o ar circulando com fora pelos pulmes (que ardiam como bexigas cruelmente golpeadas). As costas 
pareciam perfuradas por um grande caco de vidro.
    O vento corria por seu cabelo como um danarino, rugia em seus ouvidos como um drago.
    Parecia haver mais claridade. Ser que da primeira vez o cu estava nublado ou ele simplesmente no se preocupara com isso? No importa. Agora podia ver melhor 
o plat, e isso foi suficiente para fazer um calafrio lhe rastejar pela espinha.
    Era idntico ao "simitrio" de bichos.
    Evidentemente voc j sabia disso, sua mente suspirou enquanto ele observava as pilhas de pedras que outrora tinham servido como monumento fnebre. Voc sabia 
disso, pelo menos suspeitava - no crculos concntricos, mas uma espiral..
    Sim. Ali no topo daquela mesa rochosa, voltada para a fria luz do luar e as distncias escuras entre as estrelas, ali estava uma espiral gigantesca, feita pelo 
que os antigos chamariam "mos versteis". Mas no havia mais monumentos fnebres; todos tinham sido desfeitos quando as coisas enterradas l embaixo voltaram  
vida.., e cavaram para sair. Contudo, as pedras tinham cado de maneira tal que a forma da espiral continuava ntida.
    Ser que algum j viu isto aqui do ar?, Louis se perguntou ao acaso, pensando naqueles desenhos que uma tribo de ndios ou algum outro grupo fizeram num deserto 
da Amrica do Sul. Ser que algum j viu isto aqui do ar, e se viu, o que ter pensado? Eu gostaria muito de saber.
    Ajoelhou-se e, com um gemido de alvio, pousou o corpo de Gage no cho.
    Por fim, o senso de responsabilidade comeou a voltar. Usou o canivete para cortar a fita gomada que amarrava a picareta e a p penduradas em suas costas. Elas 
cafram no cho com um rudo metlico. Louis tambm se jogou no cho e esticou-se por um instante, braos e pernas abertos, olhando atnito para as estrelas.
    O que era aquela coisa nos bosques? Louis, Louis, voc acha mesmo que pode haver algo de bom no clmax de uma pea que tem entre seus personagens uma coisa daquelas?
    Mas era tarde demais para voltar atrs e ele sabia disso.
    E sem dvida, argumentou consigo mesmo, tudo ainda pode correr muito bem. No h ganho sem risco, e talvez no haja risco sem amor. Ainda tenho minha maleta, 
tudo o que est no andar de baixo mas a da prateleira- de cima do banheiro, aquela que mandei Jud buscar na noite em que Norma teve o ataque do corao. H seringas 
ali e se alguma coisa acontecer... alguma coisa de ruim... ningum precisa saber a no ser eu.
    Seus pensamentos se dissolveram num montono e inarticulado murmrio de prece. As mos procuraram a picareta e, ainda de joelhos, Louis comeou a cavar. A cada 
golpe da picareta, caa sem foras sobre o cabo, como um velho romano caindo sobre a espada. Mas pouco a pouco o buraco tomou forma e se aprofundou. Tirava as pedras 
e empurrava distrado a maioria delas para o monte crescente de terra. Mas separava algumas.
    Para o monumento.


    Rachel deu tapas no rosto at ele comear a ficar vermelho. Mesmo assim, continuou sonolenta. Certa vez, quando a cabea comeou a cair e ela estremeceu tentando 
se manter acordada (agora passava por Pittsfield e a estrada estava vazia), julgou, por uma frao de segundo, que dezenas de olhos a observavam, olhos prateados 
e duros, piscando como chamas frias, vidas.
    Ento eles se dissolveram nos pequenos espelhos das cercas do acostamento. O Chevette tinha sado da estrada.
    Deu uma guinada para a esquerda e os pneus guincharam. Acreditou ter ouvido um leve baque. Talvez o pra-choque dianteiro tivesse batido de lado numa daquelas 
aparas. O corao lhe saltou no peito, comeou a bater com tanta fora entre as costelas que ela viu pequenas manchas diante dos olhos, aumentando e diminuindo no 
ritmo dos batimentos. E pouco depois, apesar de ter escapado por um triz, apesar do susto e de Robert Gordon gritando Red Hot no rdio, estava cochilando outra vez.
    Foi atingida por pensamentos loucos, paranicos. "Parania, tudo bem", ela murmurou sob o rock and roil. E procurou rir, mas no pde. No de fato. Porque os 
pensamentos continuaram e, no fundo da noite, adquiriram uma espcie de fantstica credibilidade. Comeara a se sentir como um personagem de desenho animado que 
corre para dentro do elstico de gigantesca atiradeira.  cada vez mais difcil esticar o elstico, at que, por fim, a energia potencial da borracha fica igual 
 energia real do avano.., a inrcia se transforma... em qu?... fsica elementar... em alguma coisa tentando atir-la para trs.., fique fora disso, est me ouvindo... 
e um corpo em repouso tende a permanecer em repouso... o corpo de Gage, por exemplo.., mas uma vez posto em movimento...
    Desta vez o guincho dos pneus foi mais alto, o risco maior; por um instante, houve apenas o som torturante, rspido do Chevette roando em cabos de ao, raspando 
a tinta, cobrindo-se de arranhes metlicos. Por um instante, o volante no respondeu e Rachel se deu conta apertando o pedal do freio, soluando. Desta vez tinha 
realmente adormecido, no apenas cochilado, mas dormido e sonhado a cem quilmetros por hora. Se no houvesse proteo no acostamento, se estivesse atravessando 
uma pequena ponte sem gradil...
    Entrou no acostamento, encostou o carro e chorou com as mos no rosto, atordoada, assustada.
    Alguma coisa est querendo me manter longe de Louis.
    Quando achou que tinha recuperado o controle, comeou de novo a dirigir. A coluna de direo no parecia ter sofrido, mas com certeza teria srios problemas 
quando fosse devolver o carro na agncia da Avis do aeroporto de Bangor.
    No importa. Uma coisa de cada vez. Agora tenho de tomar um caf - essa  a primeira providncia.
    Quando chegou  estrada de Pittsfield, virou  direita. Andou mais um quilmetro e meio e entrou num posto de gasolina, entre luzes brilhantes de mercrio e 
o ronco abafado dos motores diesel dos caminhes. Mandou encher o tanque ("Algum deu uma unhada feia do lado do seu carro", disse o rapaz do posto com um ar de 
admirao). Depois foi para o restaurante que cheirava a banha, ovo mal cozido e... graas a Deus, caf bem forte.
    Bebeu trs xcaras, uma atrs da outra, como se tomasse um remdio (um caf forte, com muito acar). No balco e nas mesas, havia alguns motoristas de caminho 
brincando com as garonetes. Sob aquelas luzes fluorescentes consumindo no fim da madrugada, todas as garonetes conseguiam ficar parecidas com enfermeiras cansadas 
e cheias de trabalho.
    Rachel pagou e voltou para onde estacionara o Chevette. Ele no queria pegar. Quando a chave virava, o solenide dava um estalo seco e nada mais.
    Rachel comeou a bater lentamente com os punhos no volante. Algo estava querendo det-la. No havia razo para o carro, novo em folha e com menos de oito mil 
quilmetros rodados, enguiar. Mas era isso que estava acontecendo. Por incrvel que parea, era isso. E l estava ela, retida em Pttsfield, quase a oitenta quilmetros 
de casa.
    Prestou ateno ao ronco incessante dos grandes caminhes e teve uma repentina, absurda certeza de que o caminho que matara Gage se achava entre eles... No 
roncando, mas rindo.
    Abaixou a cabea e comeou a chorar.


    Louis tropeou em alguma coisa e se estatelou no cho. Por um inst.ante, achou que no seria capaz de se levantar (a possibilidade de levantar pareceu de fato 
muito remota). Ficou ali deitado, ouvindo o coro das pererecas e rs do Pequeno Pntano de Deus e sentindo o coro de dor e dormncia dentro do prprio corpo. Ficaria 
deitado at dormir. Ou morrer. Provavelmente morrer.
    Podia lembrar-se de ter feito a trouxa de lona deslizar para o buraco que tinha cavado (e depois tornar a encher o buraco de terra, usando apenas as mos). Talvez 
se lembrasse ainda de ter empilhado pedras sobre a sepultura, de uma base ampla a um ponto, como uma pirmide.
        Dai em diante lembrava-se de muito pouco. Obviamente tinha descios degraus, ou no estaria ali... Mas onde estava? Olhando em volta, julgou reconhecer um 
dos trechos de velhos e grandes pinheiros no muito longe das rvores cadas. Teria atravessado todo o Pequeno Pntano de Deus sem ter percebido? Seria possvel? 
Sem dvida.
    J chega. Vou dormir aqui mesmo.
    Mas foi esse pensamento, aparentemente to confortador, que o fez levantar e seguir caminho. Pois se ficasse ali, aquela coisa poderia encontr-lo... Talvez, 
naquele momento mesmo, estivesse nos bosques  sua espreita.
    Esfregou a palma da mo no rosto e ficou absolutamente perplexo ao ver sangue nela. Ser que batera com o nariz em algum lugar?
    - Mas o que interessa essa porra? - murmurou com voz spera e cambaleou estupidamente ao redor at encontrar a p e a picareta.
    Dez minutos depois, os troncos cados surgiram  sua frente. Louis escalou-os, tropeando vrias vezes, mas de alguma forma conseguindo sempre se equilibrar. 
No entanto, quando j estava quase do outro lado, olhou para os ps e, de imediato, ouviu um galho estalar (no olhe pra baixo, jud dissera). Outro galho rolou, 
fazendo seu p deslizar, e ele caiu de lado com um forte baque, o vento a golpe-lo furiosamente.
    Que o diabo me leve se este no  o segundo cemitrio em que caio esta noite... Que o diabo me leve se ainda no estiver satisfeito.
    Comeou de novo a tatear em busca da picareta e da p. Conseguiu peg-las. Por um instante, examinou o cenrio que o cercava, visvel  luz das estrelas.
    Bem perto dele estava o tmulo de SMUCKY, ELE ERA OBEDIENTE. E de TRIXIE, ATROPELADA NA ESTRADA. O vento ainda soprava forte e ele ouviu o fraco tlitn-tlim-tlim 
de um pedao de metal - talvez uma antiga lata da Dei Monte, trabalhosamente cortada com o alicate do pai pelo triste dono de algum cozinho, depois achatada com 
um martelo e presa numa estaca... A idia fez o medo assalt-lo de novo. Mas estava excessivamente cansado para sentir o medo como algo mais que uma palpitao um 
tanto nauseante. Fizera a coisa. Aquele contnuo tlim-tlimtlim, brotando da escurido, convenceu-o de vez que sua misso estava encerrada.
    Atravessou o 'simitrio" de bichos, ultrapassou o tmulo de MARTA, NOSSA COELHA DE ESTIMAO, "falecida" em primeiro de maro de 1965, aproximou-se da tumba 
do GEN. PATTON e do enferrujado pedao de lata que indicava o lugar de descanso final de POLINESIA. O barulho do metal estava agora mais forte e ele parou, baixando 
os olhos. Viu uma pea ligeiramente curva enterrada no cho. Era um retngulo de folha de flandres e,  luz das estrelas, Louis pde ler: RINGO, NOSSO HAMSTER, 1964-1965. 
Aquele era o pedao de metal que batia sem cessar contra as estacas do arco de entrada do 'simitrio" de bichos. Louis estendeu a mo para dobrar a ponta da lata 
e... e ento congelou, um arrepio percorrendo a espinha.
    Alguma coisa estava se movendo l atrs. Alguma coisa estava se movendo do outro lado das rvores cadas.
    O que estava ouvindo era uma espcie furtiva de som - o estalar de gravetos de pinheiro, o estouro seco de um galho, o farfalhar de arbustos. Os sons quase se 
perdiam sob o sopro do vento entre os pinheiros.
    - .Gage? - Louis chamou com voz rouca.
    A prpria compreenso do que estava fazendo - de p ali no escuro, chamando o nome do filho morto - fez sua nuca formigar e arrepiou-lhe as pontas do cabelo. 
Comeou a tremer sem parar, o corpo inteiro, como se tivesse adoecido de uma febre fatal.
    -  Gage?
    Os sons tinham cessado.
    Ainda no;  cedo demais. No me pergunte como eu sei, mas eu sei. No  Gage quem est l embaixo. E... alguma outra coisa.
    Lmbrou-se subitamente das palavras de Ellie:
    Ele disse "Lzaro, vem para fora! ..... O professor explicou que se ele s tivesse dito "Vem para fora! -  todo mundo que estava enterrado no cemitrio teria 
se levantado.
    Do outro lado dos troncos cados, os sons tinham comeado de novo. Do outro lado da barreira. Quase - mas no de todo - abafados pelo vento. Como se alguma coisa 
tivesse vindo no seu encalo obedecendo a velhos instintos. Seu crebro, terrivelmente estimulado, conjurou imagens horrveis e repugnantes: uma toupeira gigante, 
um grande morcego que em vez de voar se arrastasse pelos arbustos.
    Louis comeou a recuar para o arco de entrada do "simitrio", no querendo ficar de costas para os troncos cados - aquela mancha fantasmagrica, plida cicatriz 
na escurido -, at ver-se bem longe. Ento comeou a correr, e talvez a quatrocentos metros do ponto onde a trilha deixava os bosques e chegava ao terreno atrs 
de sua casa, ainda conseguiu reunir energia suficiente para correr.

    Louis jogou a picareta e a p dentro da garagem e parou um instante ao alto da entrada da casa. Contemplou primeiro o caminho por onde viera, depois, o cu. 
Eram quatro e quinze da manh e ele achou que a alvorada no devia estar muito distante. A luz j teria cumprido trs quartos de seu caminho atravs do Atlntico, 
mas por enquanto, ali em Ludlow, a noite ainda era bastante escura. O vento no parava de soprar.
    Entrou em casa, caminhando pelo lado da garagem e abrindo a porta de trs. Cruzou a cozinha sem acender a luz e entrou no pequeno banheiro entre a cozinha e 
a sala de estar. Ali acendeu a luz e a primeira coisa que viu foi Church, enroscado na tampa do vaso sanitrio, fitando-o com aqueles olhos turvos, verde-amarelados.
    - Church - disse ele. - Achei que algum o tinha colocado na rua.
    Church limitou-se a fit-lo de cima do vaso. Sim, algum pusera Church na rua; ele mesmo se encarregara disso. Lembrava-se muito claramente. Assim como lembrava 
de ter substitudo a vidraa quebrada no poro e ter dito a si mesmo que o problema estava resolvido. Mas, afinal, a quem quisera enganar? A verdade  que quando 
queria entrar, Church entrava. Pois Church era diferente agora.
    Pouco importava. No cansao, no entorpecimento daquele fim de madrugada, nada parecia importar. Sentia-se como alguma coisa menos que humana, um dos estpidos 
e cambaleantes zumbis dos filmes de George Romero ou algum que tivesse escapado de um poema de T. S. Eliot sobre os homens sem valor. Devo ter parecido um rato, 
disparando pelo Pequeno Pntano de Deus e subindo ao cemitrio micmac, ele pensou, dando um riso tolo.
    - Um espantalho cheio de palha, Church - disse ele num tom de desnimo, agora desabotoando a camisa. - Eis o que eu sou. Pode crer.
    Havia um belo ferimento do lado esquerdo, no meio das costelas, e quando tirou as calas viu que o joelho que havia batido na lpide estava inchado como um balo. 
J adquirira uma desagradvel colorao arroxeada. Assim que parasse de flexion-lo, a junta ia enrijecer, ia ficar dolorosamente emperrada (como se tivesse sido 
mergulhada em cimento). Parecia um daqueles machucados que podem querer, pelo resto da vida, conviver com a pessoa nos dias chuvosos.
    Precisando de algum tipo de conforto, estendeu a mo para tocar em Church, mas o gato pulou da tampa do vaso cambaleando daquela maneira estranha e nada felina. 
Ao se afastar, dispensou a Louis um olhar estpido, amarelo.
    Havia mercurocromo no armrio do banheiro. Louis sentou na tampa do vaso e passou um pouco no joelho inchado. Depois passou tambm na parte de baixo das costas 
- uma difcil operao.
    Saiu do banheiro e foi para a sala. Acendeu a luz e ficou um instante parado ao p dos degraus, olhando estupidamente ao redor. Como aquilo tudo parecia estranho! 
Foi ali que na vspera do Natal deu a safira a Rachel. A safira que escondera no bolso. Ali estava sua poltrona, onde se esforara para explicar a Ellie os fatos 
da morte aps o ataque cardaco que matara Norma Crandall (fatos que, ultimamente, julgava inaceitveis). A rvore de Natal ficara naquele canto, o peru de cartolina 
de Ellie (que lembrava uma espcie de corvo futurista) estivera preso com fita adesiva na janela e, meses antes, a nica coisa que havia na sala eram as caixas da 
companhia de mudanas, cheias dos objetos da famlia, transportadas por metade do pas desde o Meio-Oeste. Lembrou-se de ter achado que dentro daquelas caixas as 
coisas pareciam insignificantes - uma frgil barricada ante o frio do mundo l fora, onde os nomes e costumes da famlia no eram conhecidos.
    Como tudo parecia estranho... e como gostaria de jamais ter ouvido falar da Universidade do Maine, de Ludlow, de Jud e Norma Crandall, de nada daquilo!
    Subiu as escadas desanimado e entrou no banheiro do fim do corredor. Pegou um banco, subiu nele e tirou a pequena maleta preta de uma prateleira em cima do armrio. 
Levou-a para o quarto, sentou-se na cama e comeou a remexer. Sim, l estavam as seringas para o caso de precisar, e entre os rolos de gaze, tesouras e instrumentos 
cirrgicos cuidadosamente arrumadas, havia ampolas de uma droga fatal.
    Se fosse preciso.
    Fechou a maleta e colocou-a perto da cama. Apagou a luz e se deitou, as mos na nuca. Parecia timo ficar ali deitado de costas. Seus pensamentos voltaram de 
novo para Disney World. Viu-se num caprichado uniforme branco, guiando um furgo branco com um logotipo de orelhas de camundongo - nada que pudesse identificar o 
veculo como ambulncia,  claro, nada que pudesse assustar o pblico pagante.
    Gage estava sentado a seu lado, a pele muito bronzeada, a parte branca dos olhos s indicando sade. Bem  esquerda do carro via o Pateta, apertando as mos 
de um garotinho; o garoto parecia atnito de admirao. L estava Minie, posando com duas sorridentes avs de calas compridas para a fotografia que uma terceira 
av sorridente tentava tirar. L estava uma menina com seu melhor vestido gritando: "Eu gosto de voc, Donald! Eu gosto de voc, Donald!"
    Ele e o filho estavam de planto. Eram os sentinelas daquela terra mgica e sem parar circulavam no furgo branco, a luz vermelha da sirene habilmente disfarada. 
Esperavam que nada acontecesse, mas se houvesse algum contratempo estavam prontos para interferir. Mesmo ali, num local dedicado a diverses inocentes, era inegvel 
que havia riscos  espreita; algum homem comprando cartes-postais na Main Street podia pr a mo no peito, num sbito ataque cardaco; uma mulher grvida podia 
sentir as dores de parto ao descer da Carruagem Celeste; uma adolescente, bela como manequim de capa de revista, podia cair de repente, contorcendo-se num acesso 
epilptico, batendo com a cabea no cho de cimento quando o ritmo do crebro comeasse a falhar. Ataques de insolao, ataques do corao, ataques do crebro. Talvez, 
no fim de uma noite abafada do vero de Orlando, houvesse at um ataque provocado pela luz do luar. Oz, o Gande e Tevel, tambm estava por ali; podia ser visto 
no ponto onde o monotrem entra no Reino Mgico, podia estar espreitando de dentro de um Super-Pateta voador, o olhar turvo, estpido. Louis e Gage passariam a v-lo 
como qualquer outro divertido personagem do parque, tipo Minie, Mickey, Tio Patinhas ou o estimado Pato Donald. Com ele, porm, ningum gostaria de tirar retrato; 
a ele, ningum ia querer apresentar o filho ou a filha. Louis e Gage o conheciam tinham se encontrado com ele, tinham lutado contra ele h algum tempo, na Nova Inglaterra. 
Oz estava sempre  espreita para nos engasgar com uma bola de gude, para nos sufocar com um saco de lixo, para nos assar num golpe rpido e letal de eletricidade 
(disponvel na caixa de fusveis mais prxima,  espera no primeiro bocal de iluminao). A morte podia estar num saquinho de amendoins, no pedao de carne que mal 
mordemos, no mao de cigarros seguinte. Oz estava sempre por perto, supervisionando as passagens da regio mortal para a regio eterna. Farpas enferrujadas, insetos 
venenosos, fios desencapados no cho, fogo nos bosques. Patins rodopiantes que atiram crianas distradas em cruzamentos perigosos. E quando se entra numa banheira, 
Oz tambm nos acompanha - banho com um amigo. E quando se entra num avio, Oz pega nossa ficha de embarque. Esconde-se na gua que bebemos, na comida. Quem est 
a?, voc grita no escuro quando est com medo e sozinho;  a resposta dele que ouve: no tenha medo, sou eu. Ei, o que voc acha? Voc pega cncer no intestino, 
que maada, como uma coisa dessas vai acontecer! Septicemia! Leucemia! Arteriosclerose! Trombose das coronrias! Encefalite! Osteomielite! Ei, i, vamos l! Tem 
algum drogado com uma faca na soleira da porta. O telefone toca no meio da noite. Sob os destroos de um carro amassado, em algum desvio da Carolina do Norte, o 
sangue se mistura  ferrugem da bateria. Grandes quantidades de plulas,  s masc-las. Aquele curioso azulado das unhas depois da asfixia - no final de sua desesperada 
batalha para sobreviver, o crebro aproveita todo o oxignio que ainda sobra, mesmo o que existe nas clulas sob as unhas. Ei, pessoal, meu nome  Oz, o Gande e 
Tevel, mas se quiserem podem me chamar apenas de Oz; diabo, a estas horas j somos velhos amigos. Quando passar de novo por aqui, chamo voc para um pequeno colapso 
cardaco congestivo, um cogulo craniano, alguma coisa no gnero; agora no posso ficar, tenho de ir ao encontro de uma mulher que vai ter um mau trabalho de parto, 
depois tenho um trabalhinho de inalao de fumaa em Omaha.
    E aquela vozinha fina continua gritando: "Eu gosto de voc, Donald! Eu gosto de voc! Eu acredito em voc, Donald! Sempre vou am-lo e acreditar em voc e vou 
continuar jovem; o nico Oz a viver no meu corao ser aquele bondoso mgico de Nebraska! Eu gosto de voc..."
    Ficamos circulando por a... meu filho e eu... porque a essncia das coisas ro  a guerra ou o sexo, mas s esta nauseante, nobre, desesperada batalha contra 
Oz, o Gande e Tevel. Eu e Gage, no furgo branco, continuamos circulando sob o brilhante cu da Florida. E a luz vermelha da sirene est escondida, mas vamos us-la 
se houver necessidade... e ningum precisa saber disso, porque o solo do corao de um homem  mais empedernido, porque um homem planta o que pode... e cuida do 
que plantou.
    Com esses confusos pensamentos de sonho, Louis Creed foi escorregando, desligando um a um seus fios com o mundo que conhecia quando estava acordado. Por fim, 
todos os pensamentos cessaram. A exausto arrastou-o para uma negra inconscincia sem sonhos.

    Pouco antes dos primeiros sinais do amanhecer tocarem o cu no leste, houve passos nos degraus. Eram lentos, arrastados, mas sabiam para onde iam. Uma sombra 
se moveu entre as sombras do corredor. E trouxe um cheiro com ela, um mau cheiro. Mesmo sob sono profundo, Louis resmungou e desviou o nariz daquele mau odor. Em 
seu rosto havia o contnuo movimento do ar entrando e saindo dos, pulmes.
    Por um pequeno lapso de tempo a sombra parou diante da porta. Ficou imveL Depois entrou. Louis estava enterrado no travesseiro.
       Mos brancas avanaram e houve um estalo, quando a maleta preta perto da cama foi aberta.            Houve um retinir, um deslocamento abafado, quando as 
coisas l dentro foram remexidas. As mos exploravam pondo de lado as drogas, ampolas e seringas  que no interessavam. De repente, alguma coisa foi encontrada, 
alguma coisa que foi tirada de l. Na primeira e opaca luz da manh, houve um brilho prateado. A coisa que era uma sombra saiu do quarto
       


    .
                                                                                                                         PARTE TRS
  
                                        Z, O
                           "GANDE E TEVEL"



   Jesus, porm, comovendo-se e cheio de aflio, aproximou-se do sepulcro. Era uma gruta, com uma pedra tapando a entrada.
   -        Retirai a pedra! - disse ele.
   -        Senhor, j deve ter comeado a apodrecer. Est morto h quatro dias... - disse Marta.
   Jesus fez uma pequena orao, levantou a voz e gritou:
   -        Lzaro, vem para fora!
   E o morto saiu, os ps e as mos enfaixados, o rosto coberto por um sudrio.
   Jesus disse a eles:
   -    Desatai-o e deixai que ele saia.

O EVANGELHO SEGUNDO SAO JOO (parfrase)


   -        S agora me lembrei - ela disse histericamente, - por que no pensei nisso antes? Por que voc no pensou nisso antes?
   -        Pensei em qu? - ele perguntou.
   -        Nos outros dois desejos - ela respondeu rpido. - S realizamos um.
   -        E esse no foi suficiente? - ele replicou num tom feroz.
   -        No - ela gritou triunfante. - Temos mais um. V l embaixo, pegue-a depressa e deseje que nosso filho viva outra vez.

W.W. JACOBS, A Mo do Macaco



    Jud Crandall acordou com um estremecimento, quase caindo da cadeira. No tinha idia do tempo que dormira - podia ter sido quinze minutos ou trs horas. Consultou 
o relgio e viu que eram cinco e cinco. Teve a sensao de que tudo na sala fora sutilmente mudado de lugar e, por ter dormido sentado, tinha uma carreira de dores 
nas costas.
    Oh, seu velho estpido, veja o que voc fez, veja o que voc fez!
    Mas ele sabia muito bem; no fundo, sabia muito bem. No fora s ele. No adormecera no posto de sentinela, no era to simples assim, fora induzido a dormir.
    A idia o assustou, mas uma coisa assustou-o ainda mais: o que o acordara? Tinha impresso de ter ouvido um barulho, um...
    Prendeu a respirao, atento a qualquer outro som alm do roar de papel do prprio corao.
    Havia um rudo - no o mesmo que o despertara, mas outro. O dbil ranger de dobradias.
    Jud conhecia cada rudo da casa, que tbuas estalavam no assoalho, em que degraus a escada guinchava, em que calhas do telhado o vento podia uivar e gemer quando 
soprava a todo vapor, como na noite passada. Tambm lhe foi fcil reconhecer aquele som. A pesada porta da frente, que ligava a varanda com o vestbulo, estava escancarada. 
E com auxilio desta informao sua mente foi capaz de recordar o som que a despertara. Fora o lento estender da mola da porta de vaivm da varanda para o passeio 
do jardim.
    - Louis - ele chamou, mas sem grande esperana. No era Louis que estava l. Quem estava l fora enviado para punir um velho por seu orgulho e vaidade.
    Os passos deslocaram-se devagar pelo corredor, sempre na direo da sala.
    - Louis? - ele tentou de novo, mas sua voz foi um fraco grasnido, porque agora podia sentir o cheiro da coisa que entrara em sua casa no fim da noite. Era um 
cheiro torpe, repugnante - o cheiro de gua estagnada num pntano.
    Na escurido, Jud podia perceber formas de grande volume - o armrio de Norma, a cmoda gaulesa, o console -, mas no via detalhes. Tentou se levantar, apesar 
das pernas parecerem ter se desmanchado. Sua mente clamava que ele precisava de ajuda, que estava velho demais para enfrentar aquilo sozinho; Timmy Baterman j fora 
suficientemente terrvel e naquele tempo Jud era jovem.
    A porta interna de vaivm se abriu e despejou sombras na sala. Uma das sombras era mais substancial que as outras.
    Meu Deus, aquele fedor.
    Passos se arrastando, no escuro.
    - Gage? - Jud perguntou, conseguindo finalmente ficar em p.
    Pelo canto do olho, viu o contorno da cinza do cigarro no cinzeiro com o anncio de Jim Beam.
    - Gage,  voc que...
    Houve um som hediondo, com alguma coisa de miado, e por um instante todos os ossos de Jud se congelaram. No era o filho de Louis voltando do tmulo, mas algum 
monstro odioso.
    No. No era nada disso.
    Era Church, agachado diante da porta. Era dele aquele som que parecia um miado. Os olhos do animal chamejavam como lmpadas sinistras.
    Ento os olhos de Jud moveram-se em outra direo e fixaram-se na coisa que entrara com o gato.
    Jud comeou a recuar, tentando agarrar seus pensamentos, tentando conservar a lucidez diante daquele cheiro. Oh, aquele frio.., a coisa trouxera o frio com ela.
    Jud procurou se equilibrar em p. Era o gato roando por suas pernas, fazendo seu corpo oscilar. O som agora parecia um ronrom. Jud afugentou-o com um chute. 
O animal arreganhou os dentes e bufou.
    Pense! Oh, pense, seu velho estpido, talvez no seja tarde demais, mesmo agora talvez ainda no seja tarde demais... Voltou, mas pode ser morto de novo... Se 
ao menos voc conseguisse.. . se ao menos voc conseguisse pensar...
    Foi recuando para a cozinha e se lembrou da gaveta de utenslios ao lado da pia. Havia um faco de carne naquela gaveta.
    Seus ps fracos bateram na porta que levava  cozinha. Ele a empurrou. A coisa que entrara na casa ainda era indistinta, mas Jud podia ouvi-la respirar. Podia 
perceber tambm uma mo esbranquiada, oscilando para frente e para trs. Havia alguma coisa naquela mo, mas no conseguia ver o que era. A porta de vaivm se fechou 
quando Jud penetrou na cozinha. S ento ele se virou e correu para a gaveta. Abriu-a de um golpe e encontrou o velho cabo de madeira do faco. Pegou-o e virou-se 
de novo para a porta; chegou a dar um ou dois passos. Um pouco de sua coragem tinha voltado.
    Lembre-se, isso no  um menino. Pode gritar quando vir o que voc est disposto a fazer, pode chorar. Mas no seja tolo. J foi tolo demais, meu velho. Esta 
 sua ltima chance.
    A porta de vaivm se abriu de novo, mas a princpio s o gato passou por ela. Os olhos de Jud seguiram-no por um instante, mas depois se concentraram de novo 
 frente.
    A cozinha dava para o leste e as primeiras luzes do amanhecer entravam pela janela, um brilho esbranquiado, fraco e leitoso. No era muita luz, mas era suficiente. 
Mais que suficiente.
    Gage Creed entrou, vestindo o terninho com que o enterraram. O musgo crescia nos ombros e lapelas. O musgo sujava a camisa branca. O fino cabelo louro era uma 
pasta de terra. Um dos olhos se defrontava com a parede, fitando o espao com terrvel concentrao. O outro fixara-se em Jud.
    Gage estava sorrindo.
    - Al, Jud - Gage piou numa voz de beb, mas perfeitamente compreensvel. - Vim para mandar sua alma podre e fedorenta direta para o inferno. Queria me foder, 
no ? No sabia que mais cedo ou mais tarde eu ia voltar e foder voc?
    Jud ergueu o faco.
    - Venha ento e mostre se tem coragem. Vamos ver quem vai foder a quem.
    - Norma morreu e no vai haver ningum para chorar por voc -disse Gage. - Que rameira ela era, hein? Fodeu com todos os teus amigos, Jud. Dava o cu pra eles. 
Era o que ela gostava mais... agora est queimando no inferno, com artrite e tudo. Eu vi a Norma l, rapaz. Eu vi Norma.
    Gage cambaleou dois passos na direo dele, os sapatos deixando marcas de lama no sinteco gasto do cho. Uma das mos se estendia na. frente do corpo como se 
quisesse pegar Jud pelo colarinho, a outra estava escondida atrs das costas.
    - Escute, Jud - a coisa sussurrou. Ento a boca se abriu, revelando pequenos dentes de leite, e embora os lbios no se movessem, a voz de Norma brotou com nitidez.
    - Eu ria de voc! Todo ns ramos de voc! Como a gente riiiiiaaaaa... -
    - Pare com isso!
    O faco se agitou na mo de Jud.
    - Trepamos em nossa cama, Herk e eu, depois foi com George, foi com todos eles. Eu sabia de suas putas, voc  que nunca desconfiou que tinha casado com uma. 
. . Ah, como a gente ria, Jud! A gente se abraava e riiiiiiiaaa...
    - PARE COM ISSO! - Jud gritou.
    Avanou contra a pequena e oscilante figura no sinistro terninho fnebre. Foi a que o gato disparou da escurido sob o toro de. cortar carne. Vinha bufando, 
orelhas inclinadas para trs acompanhando a curva do crnio. Saltou sobre Jud com grande agilidade.
    A mo deixou cair o faco, que deslizou pelo sinteco gasto e arranhado, a lmina trocando de lugar com o cabo enquanto a arma rodopiava. Bateu no rodap com 
um abafado clangor metlico e foi para baixo da geladeira.
    Jud percebeu que fora feito mais uma vez de bobo e sua nica consolao foi saber que era a ltima vez. O gato roava-lhe as pernas, boca aberta, olhos chamejantes, 
bufando como chaleira fervente. E ento Gage se aproximou, os dentes se abrindo num mrbido sorriso de contentamento, os olhos redondos e muito vermelhos, a mo 
saindo de trs das costas. Jud viu o que estava escondendo desde que entrou. Era um bisturi da maleta preta de Louis.
    - Oh, meu bom Jesus - Jud exclamou erguendo a mo direita para proteger o rosto.
    E ento houve uma iluso de tica; certamente seu crebro devia ter sido atingido porque viu o bisturi de ambos os lados da palma da mo ao mesmo tempo... mas 
alguma coisa morna comeou a pingar de seu rosto e ele compreendeu.
    - Sou eu quem est te fodendo, meu velho! - a coisa que era Gage gritou, rindo de contentamento, soprando um hlito ftido no rosto de Jud. - Sou eu quem est 
te fodendo! Vou foder com todos vocs...  isso que eu... quero!
    Jud deu golpes no ar e conseguiu pegar o pulso de Gage. A pele se desfez como pergaminho.
Gage arrancou-lhe o bisturi da mo, deixando um buraco vertical.
- Todos vocs...  isso que eu... QUERO!
O bisturi investiu outra vez.
Outra vez.
Outra vez.



    - Tente agora, madame - disse o motorista do caminho, observando o motor do carro que Rachel alugara.
    Ela girou a chave. O motor do Chevette voltou a funcionar. O motorista fechou o cap e se aproximou da janela, esfregando as mos num leno grande e azul. Tinha 
o rosto corado, a fisionomia agradveL O bon da Dysart's Truck-Stop estava inclinado para trs em sua cabea.
    - Fico muito agradecida - disse Rachel,  beira das lgrimas. - Eu simplesmente no sabia o que ia fazer.
    - Ora, qualquer um podia ter feito isso - disse o homem. - Mas  engraado, nunca vi um problema desses num carro assim to novo.
    - E afinal o que era?
    - Um dos cabos da bateria soltou. Ningum mexeu no motor, no
        - Ningum - disse Rachel, pensando de novo na sensao que tivera, a sensao de correr para dentro do elstico da maior atiradeira do mundo.
    - Ento devem ter sado do lugar durante a viagem. Mas pode ter certeza que esses cabos no vo dar mais problema. Apertei-os muito bem.
    - Posso lhe dar algum dinheiro? - Rachel perguntou timidamente.
    O motorista deu uma gargalhada.
    - Nada disso, madame. O carreteiro  o anjo da guarda da estrada, no sabia?
Ela sorriu.
    - Bem... obrigada, ento.
    - Quando precisar, estou s ordens.
    O homem abriu um sorriso franco, insolitamente cheio de brilho quela hora da manh.
    Rachel devolveu o sorriso e manobrou cuidadosamente pelo ptio. Olhou para ambos os lados na sada do posto e cinco minutos depois j estava outra vez na estrada 
principal, correndo para o norte. O caf ajudou mais do que esperava. Agora se sentia totalmente desperta, sem qualquer vestgio de sono, os olhos grandes como maanetas. 
Mas a sensao de mal-estar envolveu-a de novo, aquela absurda impresso de estar sendo manipulada. O cabo da bateria saindo do lugar daquele jeito.
    Para det-la pelo tempo suficiente...
    Deu um riso nervoso. Suficiente para qu?
    Para acontecer algo de irremedivel.
    Era uma idia estpida. Ridcula. Mesmo assim, Rachel comeou a acelerar um pouco mais o pequeno Chevette.
    s cinco horas, enquanto Jud tentava lutar contra um bisturi roubado da maleta preta de seu bom amigo Dr. Louis Creed, e quando Ellie estava acordando e se espreguiando 
na cama, gritando por causa de um pesadelo que, felizmente, no conseguia lembrar. Rachel saiu da auto-estrada, cortou pela Rua Hammond (passando junto do cemitrio 
onde uma p era agora a nica coisa sepultada no caixo do filho) e cruzou a Ponte BangorBrewer. Por volta das cinco e quinze, j estava na Rodovia 15, a caminho 
de Ludlow.
    
    Resolveu ir diretamente para a casa de Jud, pelo menos cumpriria essa parte da promessa. No viu a Civic. Embora achasse que o carro podia estar na garagem, 
a casa tinha um aspecto adormecido, um ar de casa vazia. Nenhuma intuio lhe sugeria que Louis estivesse l dentro.
    Rachel estacionou atrs da pickup de Jud e, olhando, em volta, saltou do Chevette. A grama estava coberta de orvalho, brilhando na clara luz da manh. Em algum 
lugar um pssaro cantou, mas logo ficou em silncio. Desde seus anos de menina-moa, nas poucas vezes em que se via acordada e sozinha no amanhecer, sem nenhuma 
razo para levantar to cedo, tinha uma sensao de solido, mas de certa forma se sentia estimulada - um sentimento paradoxal de renovao e continuidade. Naquela 
manh, porm, no experimentou nada to bom e encorajador. Havia apenas um persistente mal-estar, que no podia atribuir inteiramente s terrveis vinte e quatro 
horas que acabara de passar e  recente morte do filho.
    Subiu os degraus da varanda e abriu a porta de vaivm, pronta a usar a antiga campainha do vestbulo. Ficou fascinada com aquela campainha na primeira vez que 
foi l com Louis: gira-se um disco no sentido dos ponteiros do relgio e ouve-se um som alto, mas musical, que apesar de anacrnico era delicioso.
    Ia toc-la quando deu uma olhada no cho da varanda e franziu a testa. Havia marcas de lama no tapete. Olhando  sua volta, percebeu que vinham da porta do jardim. 
Eram pegadas muito pequenas; pareciam passos de criana. Interessante  que dirigira a noite inteira e sabia que no tinha chovido. Havia vento, mas no chuva.
    Contemplou as pegadas por um bom tempo (de fato, longo demais) e percebeu que teve de obrigar sua mo a se aproximar da campainha. Encostou nela e... e ento 
deixou a mo cair.
    Estou antecipando,  s isso. Antecipando o som da campainha neste silncio. Provavelmente ele foi dormir h pouco tempo e vou assust-lo...
    Mas no era isso que Rachel temia. Desde que comeara a ter problemas em se manter acordada no meio da estrada, ficara nervosa, tomada por uma apreenso difusa, 
estranha. Mas aquele medo agudo era uma coisa nova, diretamente relacionada com aquelas pequenas pegadas. Pegadas que eram do tamanho...
    Sua mente tentou bloquear o pensamento, mas estava muito cansada, sem reflexos.
    ... dos ps de Gage.
    Oh, pare com isso, por que no pra com isso?
Estendeu a mo e tocou a campainha.
    O som foi ainda mais alto do que esperava, mas no to musical. Pareceu mais um guincho spero, engasgado no silncio. Rachel recuou num salto, emitindo um risinho 
nervoso que no continha absolutamente qualquer bom humor. Esperou pelos passos de Jud, mas eles no vieram. Houve apenas silncio e mais silncio, e ela estava 
comeando a duvidar se devia ou no obrigar-se a tocar de novo aquele disco de ferro em forma de borboleta, quando veio um som do interior da casa, um som com que 
no teria sonhado mesmo nas mais selvagens fantasias.
    - ... Ouh!. .. Ouh!
    - Church? - ela perguntou, sobressaltada e confusa. Esticou a cabea, mas evidentemente era impossvel ver l dentro, a vidraa da porta fora coberta com uma 
bonita cortina branca. Trabalho de Norma. -Church,  voc?
    - Ouh!
    Rachel ps as mos na maaneta. A porta se abriu. Church estava l, sentado no vestbulo com a cauda enrolada em volta das patas. O pelo parecia manchado de 
alguma coisa escura. Lama, Rachel pensou, e ento viu que havia gotas no bigode do animal, gotas de um lquido vermelho.
    Church levantou uma pata e comeou a lamb-la, os olhos fixos em Rachel.
    - Jud? - ela chamou, agora realmente alarmada. Deu um passo no vestbulo.
    A casa no deu resposta; s havia silncio.
    Rachel procurou raciocinar, mas logo comearam a deslizar em sua mente imagens da irm Zelda, e isso lhe embotou o pensamento. Como suas mos tinham ficado deformadas. 
Como s vezes, quando estava zangada, costumava bater com a cabea na parede, ali o papel de parede ficara todo rasgado, mesmo o reboco fora atingido. Mas no era 
hora de pensar em Zelda, no naquele momento, quando Jud podia estar machucado. E se tivesse cado? Estava bem velho.
    Pense no presente, no nos sonhos de menina, sonhos de abrir o armrio e ver Zelda saltar sobre voc com aquele rosto sorridente e roxo, sonhos de estar na banheira 
e ver os olhos de Zelda espreitando pelo ralo, sonhos de Zelda emboscada no ponto atrs da caldeira, sonhos...
    Church abriu a boca, revelando os dentes agudos, e gritou mais uma vez:
    - Ouh!
    Louis tinha razo, nunca o devamos ter castrado, ele ficou muito esquisito. Mas Louis achava que a castrao ia eliminar os instintos agressivos. Sem dvida, 
estava errrado; Church ainda caa. Ele...
    - Ouh! - Church gritou de novo, depois se virou e subiu as escadas correndo.
    - Jud? - ela chamou de novo. - Est a em cima?
    - Ouh! - Church gritou do alto dos degraus, como a responder que sim. Depois desapareceu no corredor.
    Como ele entrou? Jud o deixou entrar? Mas por qu?
    Rachel deu um passo para cada lado, sem saber o que fazer. O pior era que tudo aquilo parecia... parecia ter sido arranjado, como se alguma coisa quisesse que 
ela estivesse ali, e...
         E ento veio um gemido do andar de cima, um gemido baixo e cheio de dor... A voz de Jud, sem dvida a voz de Jud. Caiu no banheiro, pode ter escorregado, 
quebrado uma perna ou mesmo a bacia, os ossos das pessoas velhas so frgeis, e o que, em nome de Deus, est fazendo a parada, sacudindo-se como se estivesse apertada 
para ir ao banheiro? Church estava com sangue nos bigodes, sangue! Jud est ferido e voc a parada! O que est acontecendo com voc?
    - Jud?
    O gemido veio outra vez. E Rachel subiu as escadas correndo.
    Nunca estivera no andar de cima. Como a nica janela do corredor dava para o oeste, para o rio, ainda estava muito escuro. O corredor era largo e se estendia 
em linha reta do poo da escada aos fundos da casa. Um corrimo de cerejeira brilhava com sbria elegncia. Na parede do fundo, havia uma gravura da Acrpole de 
Atenas e...
    ( Zelda que esteve atrs de voc todos esses anos e agora  o momento dela abrir a porta certa e aparecer na sua frente com as costas corcundas e retorcidas 
cheirando a medo e morte  Zelda  a vez dela enfim ela vai peg-la)
    o gemido veio de novo, baixo, de trs da segunda porta  direita.

    Rachel comeou a caminhar para aquela porta, os saltos estalando no assoalho. Era como se estivesse atravessando uma espcie de tnel, no o tnel do tempo ou 
um tnel do espao, mas o tnel da verdade. Sentia-se cada vez menor. A gravura da Acrpole flutuava, ia ficando cada vez mais alta, e a maaneta de vidro logo estaria 
ao nvel dos seus olhos. Estendeu
a mo para gir-la... mas antes que pudesse toc-la, a porta escancarou. Zelda estava l.
    Curvada, retorcida, o corpo to cruelmente deformado que a transformara numa verdadeira an, com pouco mais de meio metro de altura. Por alguma razo, estava 
usando o palet com que Gage fora enterrado. Mas tudo bem, era Zelda, os olhos iluminados de uma alegria insana, o rosto tingido de prpura; era Zelda gritando:
    - Finalmente eu voltei pra buscar voc, Rachel. Vou torcer suas costas como esto as minhas e nunca mais voc vai sair da cama, nunca mais voc vai sair da cama 
NUNCA MAIS VOC VAI SAIR DA CAMA.

    Church se empoleirara num de seus ombros e o rosto de Zelda comeou a rodopiar, a se transformar, e entre a mrbida espiral de horror Rachel viu que no era 
absolutamente Zelda - como podia ter cometido um erro to grosseiro? Era Gage. Seu rosto no estava sujo, mas nojento,
salpicado de sangue. E parecia inchado, como se depois de sofrer ferimentos terrveis tivesse sido colado por mos rudes, relaxadas.
    Gritou o nome do filho e estendeu os braos. Gage correu e ps-se entre eles - mas continuava com uma das mos atrs das costas, como se escondesse um buqu 
de flores colhido em algum fundo de quintaL
    - Trouxe uma coisa pra voc, mame! - ele gritou. - Trouxe uma coisa pra voc, mame! Trouxe uma coisa, trouxe uma coisa!


    Louis Creed acordou com o sol lhe caindo em cheio nos olhos. Tentou se levantar e fez uma careta com a pontada de dor nas costas. Foi muito forte. Caiu de novo 
sobre o travesseiro e deu uma olhada em si mesmo. Ainda vestido dos ps  cabea. Cristo!
    Continuou deitado por mais alguns instantes, revestindo-se de coragem para enfrentar a rigidez que tomara conta de cada msculo. Por fim ergueu o corpo.
    - Oh, merda - resmungou. Por alguns segundos o quarto oscilou ligeiramente, mas de forma perceptveL Suas costas latejavam como um dente estragado; quando mexeu 
a cabea, foi como se os tendes do pescoo tivessem sido substitudos por lminas enferrujadas de serrote. O pior, no entanto, era mesmo o joelho. O mercurocromo 
no dera nenhum resultado. Devia ter aplicado a porra de uma injeo de cortisona. No lugar do joelho, a perna da cala estava apertada contra o inchao. Era como 
se houvesse um balo de gs ali embaixo.
    - Mas fiz a coisa - murmurou. - Rapaz, oh, rapaz, no sei como consegui!
    Curvou muito lentamente o corpo para sentar na beira da cama, apertando os lbios com tanta fora que eles ficaram brancos. Depois comeou a flexionar um pouco 
os membros, atento ao protesto da dor, tentando avaliar at que ponto a contuso era grave, se podia gerar...
    Gage! Ser que Gage j voltou?
    Isto fez com que ficasse de p apesar da dor. CambaLeou pelo quarto como o velho Chester, companheiro de Matt Dillon. Atravessou a porta, o corredor e entrou 
no quarto de Gage. Olhou avidamente ao redor, o nome do filho tremendo nos lbios. Mas o quarto estava vazio. Coxeou para o quarto de Ellie, que tambm estava vazio, 
e depois para o quarto de hspedes. Este quarto, que dava para a estrada, tambm estava vazio. Mas...
    Havia um carro desconhecido do outro lado da pista. Estacionado atrs da pickup de Jud.
    E qual era o mal?
    Aquele carro estranho estacionado ali podia trazer problemas, esse era o maL
    Louis puxou a cortina e examinou mais detalhadamente o veculo. Era um pequeno carro azul, um Chevette. E enroscado em cima dele, aparentemente dormindo, estava 
Church.
    Observou um longo tempo antes de soltar a cortina. Jud tinha visitas, era s isso... O que importava? E talvez ainda fosse cedo demais para se preocupar com 
o que ia ou no acontecer a Gage; eram apenas nove horas. Nove horas de uma bela manh de maio. Ia descer, fazer um pouco de caf, pegar a almofada eltrica, coloc-la 
no joelho e...
    E o que Church est fazendo no teto daquele carro?
    - Ora, no esquente a cabea - ele disse em voz alta e comeou a mancar para a escada. Gatos dormiam em todo e qualquer lugar, era a natureza do animal.
    Exceto que Church no atravessa mais a estrada, est lembrado?
    - Esquea - ele murmurou e parou no meio da escada (que estava tentando descer quase de lado). C pra ns, aquilo era estranho. Era...
    O que era aquela coisa nos bosques ontem  noite?
    O pensamento penetrou espontaneamente em sua cabea, fazendo-o apertar os lbios do modo como os apertara ao se levantar da cama, s que daquela vez movido pela 
dor no joelho.  noite, sonhara com aquela coisa nos bosques. Seus sonhos com a Disney World fundiram-se facilmente, com sinistra naturalidade, aos sonhos com aquela 
coisa. Sonhou que ela o tocara, sepultando para sempre todos os bons sonhos, abatendo todas as boas intenes. Era o vendigo, e o convertera no apenas num canibal, 
mas no mestre dos canibais. No sonho estivera outra vez no 'simitrio" de bichos, mas no sozinho. Bill e Timmy Baterman estavam l. Jud tambem. Parecia um fantasma, 
puxando seu cozinho Spot por uma corda de varal. Lester Morgan apareceu com Hanratty, o touro, amarrado numa corrente de rebocar automveis. Hanratty estava deitado 
de lado, dopado, e mesmo assim olhava ao redor com uma fria cega.
    Por alguma razo, Rachel tambm estava l e tivera algum acidente na cozinha (derramara um vidro de extrato de tomate ou um pires de gelia de morango, pois 
o vestido estava salpicado de manchas vermelhas).
    E ento, erguendo-se de trs das rvores a uma altura titnica, a pele rachada num amarelo de rptil, os olhos como grandes faris de neblina e no lugar das 
orelhas. compactos chifres curvados, l estava o vendigo, monstro que parecia um lagarto nascido de mulher. Apontou um dedo curvo, afiado como garra, na direo 
deles, e todos esticaram o pescoo, atentos...
    - Chega - Louis murmurou e estremeceu ao som da prpria voz.
    Resolveu ir at a cozinha e preparar um desjejum como se fosse um dia normal. Um desjejum de homem solteiro, cheio de estimulantes do colesteroL Dois sanduches 
de ovos estrelados com maionese e um pedao de cebola em cada um. Estava cheirando mal, suado e sujo, mas deixaria o banho para mais tarde; por ora, no se sentia 
com foras para tirar a roupa. Talvez tivesse de apanhar o bisturi na maleta e cortar a pena da cala para deixar o joelho inchado respirar. Sem dvida, no era 
tarefa para um bom instrumento cirrgico, mas nenhuma das facas que havia na casa cortariam o pano do jeans; as tesouras de costura de Rachel tambm seriam inteis.
Mas primeiro o caf.
    Estava atravessando a sala quando decidiu ir at a janela da frente e dar uma espiada no pequeno carro azul diante da casa de Jud. L estava ele, coberto de 
orvalho, o que significava que j devia ter chegado h algum tempo. Church ainda estava no teto, mas no dormia. Parecia estar olhando diretamente em sua direo, 
um feio olhar verde-amarelado.
    Louis recuou depressa, como se algum o tivesse surpreendido espreitando.
    Foi at a cozinha, pegou a frigideira, acendeu o fogo e tirou dois ovos da geladeira. A cozinha estava iluminada, clara, alegre. Tentou assobiar (um assobio 
daria um tom adequado aquela manh), mas no pde. As coisas pareciam bem, mas no estavam bem. A casa parecia terrivelmente vazia e o trabalho da vspera pesava 
em seu corpo. Havia alguma coisa errada, torta; sentiu uma sombra pairando no ar e teve medo.
    Mancou at o banheiro e tomou duas aspirinas com um copo de suco de laranja. E estava voltando para junto do fogo quando o telefone tocou.
    No atendeu logo; ficou parado, olhando para o aparelho. Sentia-se atordoado, sem reflexos, participante de um jogo cujas regras lhe eram absolutamente desconhecidas. 
-
    No atenda, voc no quer atender porque sabe que so ms notcias, sabe que a trilha mergulha na escurido depois da primeira esquina. Acho que no vai querer 
ver o que h no fim dessa trilha, Louis, acho mesmo que no vai querer. Portanto no atenda a esse telefone, corra, corra agora, o carro est na garagem, pegue-o 
e saia daqui, mas no atenda o telefone...
    Atravessou a sala e tirou o fone do gancho, apoiando a mo no quadro de avisos como costumava fazer. Era Irwin Goldman; e assim que Irwin disse al, Louis viu 
as pegadas atravessando a cozinha - pegadas pequenas, marcas de lama. O corao pareceu congelar em seu peito e pde sentir os olhos se avolumando nas rbitas, saltando 
do rosto; achou que se tivesse um espelho na frente veria um personagem de uma pintura do sculo XVI retratando um asilo de loucos. Eram pegadas de Gage, Gage tinha 
estado l, tinha estado l enquanto ainda era noite, e, portanto, onde estava agora?
    -  Irwin, Louis... Louis? Voc est a? Al?
    - Al, Irwin - disse ele, j sabendo o que Irwin ia dizer. Compreendia quem viera no carro azul Compreendia tudo. A trilha.., a trilha que ia dar na escurido... 
Agora estava seguindo depressa, escorregando por ela. Ah, se pudesse abandon-la antes de ver o que havia no fim! Mas era a sua trilha. A trilha que escolhera.
    - Por um instante achei que a linha tinha cado - Goldman estava dizendo.
    - No, o telefone escorregou da minha mo - disse Louis. Sua voz era calma.
    - Rachel chegou ontem  noite?
    - Oh, sim - disse Louis, pensando no carro azul, em Church empoleirado no teto, o carro azul to tranqilo l fora. Seu olho seguia as pegadas de lama no cho.
    - Queria falar com ela - disse Goldman. -  urgente.  sobre Eileeen.
    - Ellie? O que h com Ellie?
    - Realmente acho que Rachel..
    - Rachel no est aqui agora - Louis falou num tom spero. - Foi  padaria comprar po e leite. O que h com Ellie? Vamos l, Irwin!
    - Tivemos de lev-la para o hospital - Goldman respondeu com relutncia. - Teve um pesadelo, ou talvez vrios pesadelos a seguir. Ficou histrica e no conseguimos 
acalm-la. Ela...
    - E no hospital?
    - O qu?
    - E no hospital - Louis repetiu impaciente -, deram-lhe algum sedativo?
    - Sim, oh, sim. Deram-lhe um comprimido e ela voltou a dormir.
    - Disse alguma coisa? O que a deixou to assustada?
    Agora Louis agarrava o telefone com tanta fora que chegava a repuxar as juntas dos dedos.
    Do outro lado houve silncio, um longo silncio. Louis no desligou o telefone, por mais que tivesse vontade de faz-lo.
    - Foi o que deixou tambm Dory assustada - disse Irwin por fim.
- Ellie balbuciou muita coisa antes de ficar..... antes de comear a chorar sem parar. Dory tambm ficou ..... . voc sabe.
- O que ela disse?
    - Disse que Oz o Grande e Terrvel, tinha matado sua me. S que no falou assim. Ela disse: "Oz o Gande e Tevel", que era como nossa outra filha costumava 
falar. Nossa filha Zelda. Louis, eu preferia fazer esta pergunta a Rachel, mas o que vocs contaram a Eileen sobre Zelda e o modo como ela morreu?
    Louis fechara os olhos; o mundo parecia oscilar suavemente sob seus ps, a voz de Goldman soava de modo estranho, como se ecoasse atravs de densas nvoas.
    Voc tambm pode ouvir sons parecidos com vozes, mas so apenas as gralhas ao Sul, l para os lados de Prospect. O som chega at aqui.
    - Louis, voc est ouvindo?
    - Ela vai ficar boa? - Louis perguntou, sentindo a prpria voz distante. - Ellie vai ficar boa? Fizeram um diagnstico?
    - Choque retardado por causa da morte do irmo - disse Goldman.- Meu prprio mdico a examinou. Lathrop. Um bom sujeito. Disse que ela estava com um grau de 
febre e que quando acordasse esta tarde talvez j no lembrasse mais do sonho. Mas acho que Rachel devia voltar. Estou um pouco assustado, Louis. Acho que voc tambm 
devia vir.
    Louis no respondeu. O olho de Deus estava em tudo, como dizia o bom Rei Jarfies. Louis, porm, era um ser inferior e seu olho estava apenas naquelas marcas 
de lama.
    - Louis, Gage morreu - Goldman estava dizendo. - Sei que deve ser difcil de aceitar, tanto para voc quanto para Rachel, mas sua filha est viva e precisa de 
voc.
    Sim, j aceitei. Voc pode ser estpido como um peido, Irwin, mas talvez o pesadelo que houve entre suas duas filhas naquele abril de 65 tenha lhe ensinado alguma 
coisa em termos de sensibilidade. Ellie precisa de mim, mas eu no posso ir, porque estou com medo - com um medo terrvel - de que minhas mos estejam manchadas 
com o sangue da me dela.
    Louis contemplou as mos. Contemplou a sujeira sob as unhas, to semelhante ~ sujeira que estampava aquelas pegadas no cho da cozinha.
    - Tudo bem - disse ele -, eu entendo. Estaremos a o mais depressa possvel, Irwin. Talvez ainda esta noite. Obrigado.
    - Fizemos tudo que estava ao nosso alcance - disse Goldman. -Mas acho que j somos muito velhos. Acho, Louis, acho que sempre fomos muito velhos.
    - Ela disse mais alguma coisa? - Louis perguntou.
    A resposta de Goldman foi como um dobre de finados em seu corao.
    - Falou bastante, mas s pude compreender mais uma coisa:
"Pascow est dizendo que  tarde demais".
    Ele desligou o telefone e voltou como um sonmbulo para junto do fogo, sem saber se continuava com o desjejum ou jogava tudo no lixo. A meio caminho da cozinha, 
porm, uma onda de fraqueza o envolveu. Sua vista foi dominada por uma atmosfera cinzenta e ele ruiu no cho -"ruiu"  a palavra certa, pois foi como se afundasse 
para sempre. Foi caindo e caindo atravs de profundezas nevoentas, rodopiando sem parar, dando voltas e voltas, desenhando espirais e loops, sem nenhum controle 
do mergulho. Ento sentiu a pancada no joelho inchado. E o inesperado raio de dor que lhe atravessou a cabea trouxe-o de volta com um grito de agonia. Por um instante, 
ficou ali encolhido, as lgrimas brotando nos olhos.
    Por fim, voltou a se levantar e ficou imvel, oscilando. Mas sua mente estava clara de novo. J era alguma coisa, no era?
    O mpeto de fugir assaltou-o mais uma vez mais forte que nunca. Chegou a tocar o reconfortante monte de chaves no bolso. Ia entrar na Civic e partir para Chicago. 
De l iria com Ellie para algum lugar.  claro que quando chegasse, Goldman j saberia que havia alguma coisa errada, que alguma coisa estava funcionando mal. De 
qualquer jeito, pegada .... . Nem que tivesse de rapt-la.
    Ento a mo se afastou do monte de chaves no bolso. O que eliminou o mpeto no foi a profunda fraqueza dentro dele, nem um sentimento de inutilidade, culpa 
ou desespero. Foi a viso daquelas marcas de barro no cho da cozinha. Sua mente podia v-las deixando uma trilha pelo pas inteiro, voltando-se primeiro para Illinois, 
depois para a Flrida, perambulando pelo mundo, mas sempre procura dele. Voc arranjou a coisa, ela  sua, e o que  seu acaba sempre voltando as suas mo..
    Mais dia menos dia abriria uma porta e l estaria Gage, uma pardia demente do antigo eu, sorrindo um riso encovado, o azul-claro dos olhos transformado num 
amarelo de dolorosa estupidez. Ou Elle abriria a porta do banheiro para o banho matinal e l estaria Gage dentro da banheira, o corpo salpicado das cicatrizes e 
calombos de seu acidente fatal, lavado, mas com o fedor do tmulo.
    Oh, sim, aquele dia viria, no tinha a menor dvida.
    - Como pude ser to imbecil? - gritou para a casa vazia, no se importando de estar outra vez falando sozinho. - Como?
    Foi um problema de dor, no de imbecilidade, Louis. H uma diferena.. . pequena, mas fundamental. A bateria daquele cemitrio est em bom estado. Com um poder 
cada vez maior, disse Jud, e naturalmente ele tinha razo. Agora voc representa uma parte desse poder. Ele se alimentou na sua dor, voc o fortaleceu... no, melhor 
ainda, voc o elevou ao quadrado, ao cubo,  ensima potncia. E no foi apenas do seu luto que ele se fartou. Foi tambm da sua sanidade. Ele devorou sua sanidade. 
Sua falha foi apenas a incapacidade de aceitar os fatos, coisa muito comum. Mas isto lhe custou a vida de Rachel, e  quase certo que tenha custado tambm a vida 
de seu melhor amigo. Alm,  claro, da vida de Gage.  isso ai. O que acontece quando demoramos muito a mandar embora a coisa que bate em nossa porta no meio da 
noite  simplesmente isso: desgraa completa.
    Agora eu podia me matar, ele pensou, isso de certa forma figura no programa, no ? Tenho o equipamento na maleta. Foi tudo arranjado, tudo arranjado desde o 
comeo. Tudo manejado por aquele lugar, pelo vendgo, sei l por quem mais. A coisa fez com que Church morresse na estrada, e talvez tambm seja responsvel pela 
morte de Gage. A coisa trouxe Rachel para casa, mas s para se divertir. E certamente me escalou para fazer aquilo... E eu quis fazer.
    Mas tenho de dar um jeito nisso, no ?
    Sim. Claro que sim.
    Tinha de pensar em Gage. Gage ainda estava l fora. Em algum lugar l fora.
    Seguiu as pegadas atravs da sala de jantar, da sala de estar e pelas escadas. Estavam borradas porque tinha pisado nelas. Levavam ao quarto. Tinha estado ali, 
Louis pensou maravilhado, tinha estado bem ali. Ento, viu que a maleta mdica fora aberta.
    Os apetrechos, sempre arrumados com muito cuidado, estavam agora em absoluta desordem. Mas Louis no demorou muito para perceber que o bisturi sumira. Cobriu 
o rosto com as mos e sentou-se por algum tempo, um dbil som de desespero lhe saindo pela garganta.
    Por fim, abriu de novo a maleta e comeou a procurar alguma coisa.

    Voltou de novo ao andar de baixo.
    O som da porta da copa sendo aberta. O som do armrio da cozinha sendo aberto, depois fechado com fora. O guincho spero do abridor de latas. Depois o som da 
porta da garagem abrindo e fechando. E ento, a casa ficou vazia sob o sol de maio, assim como estivera vazia naquele dia de agosto do ano anterior, esperando a 
chegada dos novos moradores... como esperada a chegada de outras pessoas em alguma data futura. Talvez um jovem casal sem filhos (mas com esperanas e planos). Jovens 
e alegres recm-chegados com um gosto por vinho Mondavi e cerveja Lwenbfu; ele encarregado do departamento de crdito do Northeast Bank, ela com um diploma de 
odontologia ou trs anos de experincia como assistente de oculista. Ele ia rachar uma boa pilha de lenha para a lareira, ela ia usar calas de veludo ctel, de 
cintura alta, e passear no terreno da Sra. Vinton colhendo folhagens de outono para um arranjo de mesa, o cabelo num rabo-de-cavalo, o rosto a coisa mais brilhante 
sob o cu cinzento. No faria idia de que um abutre invisvel pairava nas correntes de ar. Os dois se felicitariam por no serem supersticiosos, pela obstinao 
em comprar a casa, apesar das histrias que havia sobre ela. E contariam aos amigos que o preo fora uma galinha-morta, fazendo piadas sobre o fantasma do sto. 
Beberiam outro Lwenbfu ou mais um copo de Mondavi, depois jogariam gamo ou monoplio.
    E talvez tivessem um cachorro.
    Louis parou no acostamento para deixar um caminho da Orinco, carregado de fertilizantes qumicos, passar com estrondo. Ento atravessou a estrada para a casa 
de Jud, seguindo atrs de sua sombra para o poente. Numa das mos, levava uma lata aberta de rao de gato.
    Church viu-o se aproximar e aprumou o corpo, os olhos atentos.
    - Ei, Church - disse Louis, examinando a casa silenciosa. - No quer a bia?
    Ps a lata de rao sobre a mala do Chevette e viu Church pular furtivamente do teto e comear a comer. Ps a mo no bolso do casaco. Church se virou para ele, 
tenso, como se quisesse ler seus pensamentos. Louis sorriu e se afastou um pouco do carro. Church recomeou a comer e Louis tirou uma seringa do bobo. Rasgou o papel 
da embalagem e encheu-a com 75 miligramas de morfina. Guardou o frasco e caminhou na direo de Church, que olhou de novo com ar desconfiado. Lous deu um sorriso.
    - Vamos, coma tudo, Church. Ei, i, vamos l, est bem?
    Acariciou o gato, sentiu suas costas fazendo um arco, e quando o animal voltou a comer, Louis pegou-o pelo cangote fedorento e mergulhou fundo a agulha no lombo.
    Church teve um espasmo de dor e reagiu com violncia, bufando e arranhando, mas Louis apertou a seringa at o fim. S ento o largou. O gato pulou do Chevette, 
assobiando como uma panela de presso, um olhar verde-amarelado, selvagem e mau. A agulha e a seringa pendiam de seu lombo quando ele saltou, depois caram no cho 
e quebraram. Louis ficou indiferente. Tinha outras.
    O gato comeou a caminhar para a estrada, depois deu meia-volta para a casa de Jud, como se tivesse lembrado de alguma coisa. Quando se aproximava da escada 
da varanda, comeou a oscilar como um bbado. Chegou ao primeiro degrau, saltou sobre ele, e ento caiu. Caiu de lado no passeio do jardim, a respirao muito fraca.
    Louis olhou dentro do Chevette. Se o frio que lhe envolvia o corao ainda no fosse suficiente para confirmar suas suspeitas, ali estava a prova: a bolsa de 
Rachel no banco da frente, o cachecol, um punhado de passagens areas transbordando de um envelope da Delta.
    Quando se virou, o movimento rpido, trmulo, na coxa de Church tinha cessado. Church estava morto. De novo.
    Louis avanou em direo  varanda e subiu a escada.

    Gage?
    Estava frio no vestbulo. Frio e escuro. Sua voz caiu no silncio como uma pedra num poo profundo. Louis atirou outra pedra.
- Gage?
    Nada. Mesmo o tique-taque do relgio da sala cessara. Naquela rnanh, no houve ningum para lhe dar corda.
    Mas havia pegadas no assoalho.
    Louis passou  sala. Havia cheiro de cigarros h muito queimados. Viu a cadeira de Jud perto da janela. Estava torta, como se ele tivesse se levantado de repente. 
Havia um cinzeiro no parapeito e um ntido rolo de cinza dentro dele.
    Jud ficou sentado a, esperando. Esperando o qu? Esperando por mim,  claro, esperando eu voltar para casa. S que no viu quando eu cheguei. Seja l como for, 
no viu.
    Louis observou as quatro latas de cerveja numa fileira. No era o bastante para faz-lo dormir, mas talvez tenha se levantado para ir ao banheiro. O que quer 
que tenha acontecido, foi sem dvida um tanto conveniente demais para ter sido completamente casual, no ?
    As marcas de lama aproximavam-se da cadeira. E entre as pegadas humanas, havia algumas leves e sinistras pisadas de gato. Como se Church tivesse chapinhado na 
sujeira do tmulo deixada pelos pequenos sapatos de Gage. Dali as pegadas se desviavam para a porta de vaivm que levava  cozinha.
    Com o corao batendo forte, Louis seguiu as marcas.
    Empurrou a porta e viu os ps de Jud abertos no cho, as calas verdes velhas que usava em casa, a camisa xadrez de flanela. Estava esparramado no meio de uma 
grande poa de sangue j quase coagulado.
    As mos de Louis bateram com fora nos olhos, como se quisessem tirar-lhe de vez a viso. Mas era impossvel no ver. E ele viu os olhos, os olhos abertos de 
Jud, acusando-o, talvez acusando tambm a si prprio por ter iniciado aquilo.
    Mas ser que foi ele que comeou?, Louis se perguntou. Foi mesmo ele?
    Jud soubera da coisa por Stanny B., e Stanny B. soubera pelo pai, e o pai de Stanny B. soubera pelo pai dele, o ltimo branco a negociar peles com os ndios, 
um franco-canadense do tempo em que Franklin Pierce era presidente dos Estados Unidos.
    - Oh, Jud, sinto muito - ele sussurrou.
    Os olhos brancos de Jud o fitavam.
    - Sinto muito - Louis repetiu.
    Seus ps pareceram caminhar sozinhos e de repente sua mente estava de volta ao Dia de Ao de Graas, no  noite em que ele e Jud tinham levado o gato at o 
"simtrio" de bichos e at o cemitrio micmac, mas ao peru que Norma pusera na mesa do jantar, os trs rindo e conversando, ele e Jud tomando cerveja e Norma um 
copo de vinho branco; ele tirara da gaveta de baixo a toalha de mesa de linho branco, exatamente como fazia agora, mas Norma a estendera na mesa, segurando-a com 
bonitos e pesados castiais de estanho, enquanto ele...
    Louis viu a toalha cair como um pra-quedas sobre o corpo de Jud, cobrindo-lhe piedosamente o rosto. Quase de imediato, pequenas ptalas do mais profundo e mais 
escuro escarlate comearam a manhar o linho.
    - Sinto muito - ele disse pela terceira vez. - Sinto tanto...
    Ento alguma coisa se mexeu no andar de cima, alguma coisa fez um rudo de roar e a slaba ficou entalada em seus lbios. Fora um movimento suave, um movimento 
furtivo, mas fora proposital. Oh, sim, estava convencido disso. Um som que algum pretendia que ouvisse.
    As mos quiseram tremer, mas ele no deixou. Aproximou-se do oleado xadrez da mesa da cozinha e ps a mo no bolso. Tirou de l mais trs seringas, livrou-as 
do invlucro de papel e colocou-as em fila sobre a mesa. Tirou mais trs frascos e encheu cada uma das seringas com morfina suficiente para matar um cavalo - ou 
Hanratty, o touro, se ele estivesse por ali. Depois tornou a coloc-las no bolso.
    Saiu da cozinha, atravessou a sala e parou embaixo da escada.
    - Gage?
    De algum lugar nas sombras l em cima veio uma risada - um frio e mrbido riso que fez a pele formigar em suas costas.
    Ele comeou a subir.
    Foi uma longa caminhada at o alto daqueles degraus. Pde muito bem imaginar a emoo de um condenado subindo a escada (mesmo que terrivelmente curta) da plataforma 
do cadafalso, as mos amarradas nas costas, a conscincia de que mijara nas calas quando no pudesse mais assobiar.
    Por fim chegou ao patamar, uma das mos no bolso, os olhos fixos na parede. Quanto tempo ficou ali parado? No seria capaz de dizer. Podia sentir sua lucidez 
comeando a escapar. Era uma sensao muito concreta, uma coisa palpveL Era interessante. Achava que, pouco antes de cair, uma rvore sobrecarregada de gelo no 
meio de uma tempestade devia se sentir exatamente assim (se rvores fossem capazes de sentir qualquer coisa,  claro). Era interessante... e no deixava de ser divertido.
- Gage, quer ir para a Flrida comigo?
Aquele riso de novo.
    Louis se virou e foi contemplado pela viso da mulher de quem uma vez se aproximara com uma flor nos dentes. Estava estendida no corredor, morta, as pernas esparramadas 
como as de Jud, as costas e a cabea esticadas obliquamente contra a parede. Parecia algum que tivesse dormido enquanto lia na cama.
    Ele se abaixou.
Oh, meu bem, voc veio.
    O sangue se espalhava no papel de parede em formas absurdas. Fora atacada uma dzia de vezes, vinte vezes, quem podia saber? O bisturi cumprira sua misso.
    E subitamente ele tomou conscincia do que estava vendo, conseguiu realmente enxergar o que tinha diante dos olhos... e comeou a gritar.
    Os gritos ecoaram, vibraram com estridncia por uma casa onde, agora, s a morte vivia e caminhava. Olhos esbugalhados, face lvida, cabelo arrepiado nas pontas 
- gritava; o som brotava na garganta dilatada como sinos do inferno, guinchos terrveis que assinalavam no o fim do amor, mas da lucidez. Em sua mente, todas as 
imagens hediondas soltaram-se ao mesmo tempo. Victor Pascow morrendo no tapete da enfermaria, Church voltando com pedaos de plstico verde nos bigodes, o bon de 
beisebol de Gage no meio da estrada, cheio de sangue, e principalmente a coisa que vira perto do Pequeno Pntano de Deus, a coisa que derrubara a rvore, a coisa 
que tinha olhos amarelos, o vendigo, criatura do norte do pas, a coisa morta cujo toque desperta os mais horrveis apetites.

    Rachel no fora apenas morta.
    Tinham feito mais alguma coisa... tinham feito mais alguma coisa com ela.
    (CLIQUE!)
Houve um estalo dentro de sua cabea. O som de algum rel entrando em curto e queimando para sempre, o som de relmpago riscando o cu, o som de uma porta abrindo.
    Ergueu os olhos entorpecido, o grito ainda tremendo na garganta e, enfim, l estava Gage, a boca manchada de sangue, o queixo pingando, os lbios repuxados num 
sorriso infernal. Trazia o bisturi numa das mos.
    Mas quando quis dar o primeiro golpe, Louis o empurrou num reflexo instintivo. A lmina passou rente a seu rosto, mas Gage cambaleou. Desajeitado como Church, 
Louis percebeu. Num movimento rpido, deu-lhe um chute no p, ele caiu pesadamente e, antes que conseguisse se levantar, Louis estava a cavalo sobre ele, um joelho 
imobilizando a mo que segurava a lmina.
    - No - a coisa arquejou. O rosto se torcia, se contorcia. Os olhos eram de inseto, um olhar maligno cheio de uma raiva estpida. -Louis agarrou com fora uma 
das seringas e tirou-a do bolso. Teria de ser rpido. A coisa sob ele era como um peixe ensebado, e por mais que lhe dobrasse o pulso, no largaria o bisturi.
    Aqueie rosto parecia ondular e se alterar. Ora a face de Jud, morto de olhos abertos; ora o rosto esmagado, podre, de Victor Pascow, os olhos rolando estupidamente 
dentro das rbitas; ora, como se estivesse diante de um espelho, era seu prprio rosto o que via, um rosto horrivelmente plido, enlouquecido. Ento aquilo se alterava 
de novo, se transformava na face da criatura nos bosques - testa curvada, olhos imveis e amarelos, lngua comprida, bifurcada em pontas, sorrindo e sibilando.
-        No, no, no-no-no...
    A coisa deu um ranco sob ele. A seringa caiu-lhe das mos e rolou pelo cho do corredor. Ele pegou outra e enfiou-a com deciso no fundo das costas de Gage.
    Gage berrava, o corpo retesado, escorregando, quase escapando. Com um estranho grunhido, Louis pegou a terceira seringa e aplicou-a no brao de Gage, calcando 
o mbolo at o fim. Saiu ento de cima dele e comeou a recuar lentamente pelo corredor. Gage se levantou devagar e comeou a cambalear em sua direo. Cinco passos, 
e o bisturi lhe caiu da mo. Atingiu o cho com a lmina e ficou cravado na madeira, vibrando. Dez passos, e aquela estranha luz amarela em seus olhos comeou a 
apagar. Uma dzia, e ele caiu de joelhos.
    Ento Gage ergueu os olhos e, por um instante, Louis viu seu filho, seu filho real, o rosto amargurado e cheio de dor.
    - Papai! - Gage gritou e depois caiu de frente, batendo com o rosto no cho.
    Louis ficou um instante imvel, depois se aproximou, cauteloso, esperando algum truque. Mas no houve truque, nenhum salto repentino com as mos arreganhadas 
como garras. Enfiou os dedos com percia pela garganta de Gage, encontrou o pulso e deteve-se nele. Foi mdico pela ltima vez na vida, sentindo o pulso, sentindo 
at no haver mais nada, nada por dentro de Gage, nada por fora.
    Quando por fim estava tudo acabado, Louis ficou de p e se afastou pelo corredor at um canto afastado. Agachou-se l, encolhendo-se como uma bola, apertando-se 
muito, muito, contra a parede. Achou que se humilhana mais se pusesse o polegar na boca e foi isso que fez.

    Ficou assim por mais de duas horas... E ento, pouco a pouco, uma idia sombria, mas sem dvida plausvel, apoderou-se dele. Tirou o polegar da boca. O polegar 
deu um pequeno estalido. Louis se ps de novo
    (ei, i, vamos l)
    em movimento.

    No quarto onde Gage se escondera, tirou o lenol da cama e levou-o para o corredor. Embrulhou nele o corpo da esposa, com carinho, com amor. Estava cantarolando, 
mas no se deu conta disso.

    Encontrou gasolina na garagem de Jud. Dezoito litros de gasolina numa lata vermelha perto do cortador de grama. Mais do que suficiente. Comeou na cozinha onde 
Jud jazia sob a toalha de mesa usada no Dia de Ao de Graas. Derramou um pouco por l. Depois passou para a sala com a lata ainda inclinada, borrifando gasolina 
no tapete, no sof, no suporte de revistas, nas poltronas, e fez o mesmo no vestbulo e no quarto dos fundos. O cheiro era forte e penetrante.
    Os fsforos de Jud estavam ao lado da cadeira onde ele manteve sua infrutfera viglia, em cima do mao de cigarros. Louis pegou-os. Caminhou para a porta da 
frente, atirou um fsforo aceso pelo ombro e saiu. A rajada de calor foi imediata e muito intensa, fazendo a pele se contrair em seu pescoo. Bateu a porta e s 
se demorou um instante na varanda, vendo a cintilao alaranjada atrs das cortinas de Norma. Caminhou para a porta do jardim, parando mais um instante, recordando 
as cervejas que, muito tempo atrs, ele e Jud tinham tomado ali, ouvindo o ronco abafado, mas crescente, do fogo dentro da casa.
    Depois foi embora.


    Steve Masterton entrou na curva que ficava pouco antes da casa de Louis e viu imediatamente a fumaa - no vinha da casa de Louis, mas da casa do outro lado 
da estrada, onde morava o velho Jud.
    Fora at l porque ficara preocupado... profundamente preocupado. Charlton lhe falara do telefonema de Rachel na vspera e isso o deixou curioso para saber onde 
Louis estava... o que andava fazendo.
    Era uma preocupao vaga, mas lhe dava um certo comicho. S ficaria sossegado se fosse at l e visse com os prprios olhos se as coisas estavam bem... Ou to 
bem quanto pudessem estar naquelas circunstncias.
    O perodo da primavera esvaziara a enfermaria num passe de mgica e Surrendra tinha lhe dito que fosse em paz; podia se virar sozinho se alguma coisa acontecesse. 
Por isso Steve subira na Honda, que deixara toda a semana guardada na garagem, e foi para Ludlow. Talvez tenha acelerado um pouco mais que o necessrio, mas a preocupao 
crescera dentro dele, comeara a atorment-lo. E junto com ela, veio a idia absurda de que j era tarde demais. Absurda,  claro, mas no fundo do estmago tinha 
uma sensao semelhante  que experimentara no outono passado, quando surgiu aquele caso de Pascow - uma sensao de angustiante surpresa e ansiedade quase insuportvel. 
No era de modo algum um homem religioso (na universidade fora membro por dois semestres da Sociedade Atesta e s se desligara quando, em particular e muito confidencialmente, 
ouviu de um professor que o fato de pertencer ao grupo podia prejudicar suas chances de obter mais tarde uma bolsa de estudos), mas achava que, como qualquer outro 
ser humano, podia se deparar com aquelas condies biolgicas ou biorrtmicas que passam por premonio. De certa forma, a morte de Pascow pareceu da o tom inicial 
de todo o ano que se seguiria. Sem dvida, no fora um ano dos melhores. Dois parentes de Surrendra tinham sido presos ao voltar  ndia, algum problema poltico. 
Surrendra acreditava que um deles (um tio de quem gostava muito) podia j estar morto. Surrendra tinha chorado e as lgrimas daquele indiano geralmente bem-humorado 
o assustaram. A me de Charlton tivera de amputar completamente um dos seios. A enrgica enfermeira no alimentava grandes esperanas sobre as chances de ela se 
juntar ao grupo dos que sobreviviam cinco anos. O prprio Steve j fora a quatro enterros desde a morte de Victor Pascow: o da irm de sua mulher, morta num acidente 
de automveis, o de um primo, morto num estpido acidente resultante de uma aposta de bar (fora eletrocutado tentando provar que era capaz de subir at o alto de 
um poste de luz), o de um av, e,  claro, o do filho de Louis.
    Gostava imensamente de Louis e queria certificar-se de que estava bem. Ultimamente, Louis passara o diabo.
    Quando viu os rolos de fumaa, seu primeiro pensamento foi que aquilo era mais uma coisa a ser creditada a Victor Pascow, cuja morte parecia ter removido qualquer 
barreira protetora entre o pessoal da enfermaria e um extraordinrio surto de falta de sorte. Mas era uma idia absurda, e a casa de Louis foi a prova. L estava 
ela, calma e branca, um pedao da caprichada arquitetura da Nova Inglaterra no sol da manh.
    Havia gente correndo para a casa do velho e, quando Steve fez a curva para a entrada da garagem de Louis, viu um homem atirar-se para a varanda de Jud, parar 
junto da porta da frente e depois recua. Foi o melhor que ele fez; pouco depois a vidraa no centro da porta arrebentou e as chamas saltaram atravs da abertura. 
Se o maluco tivesse aberto a porta, o estouro do fogo ia cozinh-lo como uma lagosta.
    Steve saltou e puxou o suporte da Honda, momentaneamente esquecido de Louis. Sentia-se atrado pelo velho mistrio do fogo. Meia dzia de pessoas tinham se juntado 
ali; excluindo o pseudo-heri, que continuava parado no gramado dos Crandall, todas se mantinham a uma distncia considervel. Agora as janelas entre a varanda e 
a casa explodiram. Cacos de vidro danaram no ar. O pseudo-heri abaixou a cabea e correu. Chamas subiram como mos pela parede interna da varanda, estufando a 
pintura branca. Enquanto Steve continuava olhando, uma das cadeiras de palhinha foi tomada pelo fogo e estourou.
    Sobre os sons do incndio, ouviu o suposto heri gritar com uma estridncia absurda:
- No vai sobrar nada! Nada mesmo! Se Jud est L dentro, j virou um assado! Eu avisei a ele milhares de vezes sobre o querosene naquele barril!
        Steve abriu a boca para perguntar se tinham chamado os bombeiros  mas nesse momento ouviu um fraco lamento de sirenes se aproximando. Muitas sirenes. Os 
bombeiros tinham sido chamados, mas o pseudo-heri tinha razo: no ia sobrar nada. Agora as chamas subiam por meia dzia de janelas quebradas e as brilhantes telhas 
verdes da varanda se transformavam numa membrana quase transparente de fogo.
    Ento Steve se lembrou de Louis e deu meia-volta. Se Louis estava l, por que no se juntara aos vizinhos do outro lado da estrada?
    Steve captou alguma coisa, um vislumbre, com o canto do olho.
    Alm do caminho que levava  garagem, havia um terreno que se estendia pela encosta suave de uma enorme colina. O mato, embora ainda verde, j crescera bastante 
naquele maio, mas Steve podia ver uma trilha, quase to caprichosamente roada quanto a grama de um campo de golfe. Subia em meandros pela encosta, chegando at 
os bosques que, espessos e muito verdes, comeavam pouco abaixo do horizonte. Foi ali, onde o plido verde do mato encontrava o verde mais denso e forte dos bosques, 
que Steve tinha visto o movimento - um calo branco que parecia estar se movendo. Desapareceu assim que o olho o registrou, mas naquele breve instante lembrara 
um homem carregando um fardo branco.
    Era Louis, sua mente informou-o com sbita e irracional certeza. Era Louis, e  melhor alcan-lo rapidamente porque algo terrvel aconteceu e, muito breve, 
algo ainda mais terrvel vai acontecer se voc no o detiver.
    Ficou indeciso na entrada da garagem, andando de um lado para o outro, o peso do nervosismo tomando conta de seu corpo.
    Ei rapaz, agora voc j est mesmo assustado, no ?
    Sim. Estava. Estava realmente assustado e sem absolutamente qualquer motivo. Mas havia tambm uma certa... uma certa.
    (atrao)
    sim, uma certa atrao ali, alguma coisa em torno da trilha, aquela trilha subindo a colina e talvez continuando entre os bosques. Certamente, o caminho tinha 
de conduzir a algum lugar, no ?  claro. Todos os caminhos levam a algum lugar.
    Louis. No se esquea de Louis, seu estpido! Veio aqui para falar com Louis, est lembrado? No veio a Ludlow para explorar os malditos bosques.
    - O que encontrou a, Randy? - gritou o pseudo-heri. Sua voz, ainda estridente e um tanto animada, soou bem alta.
    A resposta de Randy foi quase; mas no de todo, abafada pelo crescente lamento das sirenes dos bombeiros.
    - Um gato morto.
    - Queimado?
    - No parece queimado - Randy replicou. - S parece morto.
    E a mente de Steve respondeu implacavelmente, como se o dilogo do outro lado da rua tivesse algo a ver com o que tinha visto, ou pensava ter visto: aquele vulto 
subindo a trilha era Louis.
    Ps-se ento a caminho, avanando pela trilha, deixando o fogo para trs. Estava bastante suado quando chegou  beira dos bosques e a sombra das rvores parecia 
fresca e agradveL Havia um suave aroma de pinho e abetos, casca e seiva.
    Assim que entrou na mata disparou numa corrida veloz, sem saber muito bem por que corria, sem saber muito bem por que o corao batia com tanta fora. A respirao 
se transformou num assobio ofegante.
    Foi capaz de manter aquela carreira at chegar ao fim de um declive - a trilha era admiravelmente ntida -, mas quando alcanou o arco que indicava a entrada 
do "simitrio" de bichos seu passo era pouco mais que o de uma caminhada rpida. Sentiu uma forte pontada no lado direito, logo abaixo da axila.
    Seus olhos mal puderam registrar os crculos de tmulos, os quadrados de lata batida, as tbuas e pedras servindo como lpides. O olhar fixou-se no espetculo 
bizarro do outro lado da clareira circular. Fixou-se em Louis que, num total desafio s leis da gravidade, escalava um monte de rvores cadas. Avanava pelos troncos 
como se subisse uma escada, os olhos bem  frente, como um homem que tivesse sido hipnotizado ou que caminhasse dormindo. Levava nos braos a coisa branca que Steve 
vira com o canto do olho. Daquela distncia, a forma era evidente: tratava-se de um corpo. Um p, envolvido num sapato preto com um pequeno salto, pendia de dentro 
do fardo. E Steve pressentiu, com sbita e nauseante certeza, que Louis estava carregando o corpo de Rachel.
    O cabelo de Louis tinha embranquecido.
    - Louis! - Steve gritou.
    Louis no hesitou, no parou. Atingiu o topo dos troncos e comeou a descer pelo outro lado.
    Ele vai cair, Steve pensou incoerentemente. At aqui teve muita sorte, teve uma sorte fantstica, mas logo vai cair e talvez no quebre s uma perna~.
    Mas no caiu. Atingiu o outro lado dos troncos, ficou temporariamente fora da viso de Steve e reapareceu avanando de novo para os bosques.
    - Louis! - Steve tornou a gritar.
    Desta vez ele parou e se virou para trs.
    Steve ficou atnito com o que viu. Alm do cabelo branco, Louis tinha o rosto de um homem velho, muito velho.
    A princpio, Louis no deu mostras de reconhec-lo. O reconhecimento foi clareando pouco a pouco, como se algum estivesse ligando um reostato em seu crebro. 
A boca se crispou. Da a um instante, Steve percebeu que ele estava tentando sorrir.
    - Steve - disse num tom rouco, hesitante. - Al, Steve. Vou enterr-la. Tenho de fazer isso sozinho, eu acho. Pode demora at o anoitecer. O solo l em cima 
 muito pedregoso. Sei que voc no vai querer me ajudar, no ?
    Steve abriu a boca, mas nenhuma palavra saiu. Apesar da surpresa, apesar do horror, queria ajudar Louis. De certa forma, enterrar algum l em cima nos bosques 
no parecia errado, parecia ...muito natural.
    - Louis - conseguiu falar num tom de grunhido -, o que aconteceu? Meu Deus, o que aconteceu? Ela estava.., no fogo?
    - Esperei muito tempo com Gage - disse Louis. - Alguma coisa tomou conta dele porque esperei demais. Mas vai ser diferente com Rachel, Steve. Sei que vai.
    Louis cambaleou um pouco e Steve percebeu que o amigo enlouquecera... com toda a clareza. Louis estava louco e profundamente exausto. E s o cansao lhe parecia 
pesar na mente desnorteada.
    - Posso precisar de alguma ajuda - disse Louis.
    - Louis, mesmo que eu quisesse ajuda-lo, no seria capaz de escalar essa pilha de troncos.
    - Oh, seria.  fcil. Caminhe normalmente e no olhe pra baixo. Esse  o segredo, Steve.
    Ento ele se virou e, embora Steve o chamasse, mergulhou nos bosques. Por alguns momentos, Steve ainda pde ver o branco do lenol cintilando por entre as rvores. 
Depois sumiu.
    Correu para as rvores cadas e, sem pensar, comeou a escal-las. A princpio tateou com as mos em busca de apoio, tentando rastejar pelos troncos, mas depois 
se aprumou. E ao faz-lo, uma doida e temerria alegria tomou conta dele - era como respirar oxignio puro. Acreditou que ia conseguir... E conseguiu. Movendo-se 
rapidamente e com segurana, chegou ao topo. Ficou ali por um instante, oscilando, observando Louis avanar pela trilha, a trilha que continuava do outro lado.
    Louis se virou e viu Steve. A esposa, enrolada num lenol ensangentado, estava em seus braos.
    - Voc pode ouvir sons - disse Louis. - Sons parecidos com vozes. Mas so apenas as gralhas ao Sul, l para os lados de Prospect. O som chega at aqui.  engraado.
- Louis...
Mas Louis j se virara.
    Por um instante, Steve quase foi atrs dele. Esteve muito, muito perto de fazer isso.
    Eu poderia ajud-lo, se  isso que ele quer... E eu tambm quero ajud-lo, no h dvida. A verdade  essa, pois h mais alguma coisa aqui do que parece  primeira 
vista e quero saber o que . Parece muito... bem... muito importante. Parece um segredo. Um mistrio.
    Ento, um galho estalou sob um de seus ps inclinados. Produziu um rudo seco, enrgico, como o estalar da trave de um revlver. E o barulho deu-lhe conscincia 
exata de onde estava e do que estava fazendo. O terror saltou sobre ele e ele girou num crculo precrio, braos abertos para manter o equilbrio, a lngua e a garganta 
tomadas pelo medo. O rosto estampou o esgar sombrio de um sonmbulo que, ao acordar, descobre que estava caminhando sobre o parapeito de um arranha-cu.
    Ela est morta e acho que talvez Louis a tenha assassinado. Louis ficou louco, completamente louco, ....
    Mas ali havia alguma coisa pior que a loucura.., algo muito, muito pior. Era como se existisse um m naqueles bosques. Ele o sentia agindo sobre uma parte de 
seu crebro, atraindo-o para onde Louis estava levando Rachel.
    Vamos l, siga a ....... Siga a trilha e veja onde ela vai dar. Temos novidades para mostrar a voc l em cima, Steve, coisas que nunca lhe contaram na Sociedade 
Atesta em Lake Forest.
    E ento, talvez porque aquilo j fora suficiente para encher o dia e perdeu interesse aos olhos de sua mente, a chamada do lugar simplesmente cessou. Steve deu 
dois passos fundos, bbados, pelo lado das rvores cadas. Novos galhos deslizaram com uma algazarra rangente e o pe esquerdo mergulhou num emaranhado de galhos 
secos; lascas speras, afiadas, descalaram-lhe o tnis e lhe rasgaram a carne quando ele puxou a perna. Caiu de frente no 'simitrio" de bichos, escapando por pouco 
de um pedao de lata de suco de laranja, que facilmente podia ter perfurado seu estmago.
    Levantou-se, olhou em volta, atordoado, se perguntando o que havia acontecido.., ou se realmente acontecera alguma coisa. Tudo j comeava a parecer um sonho.
    Ento, do fundo dos bosques atrs das rvores cadas, bosques to espessos que a luz parecia esverdeada e mortia, mesmo nos dias mais claros, brotou um riso 
baixo, cacarejante. O som era tremendo. Steve no pde sequer imaginar que espcie de criatura podia ter feito aquele som.
    Correu, um dos ps descalos, querendo gritar mas no conseguindo. Ainda corria quando chegou  casa de Louis; ainda queda gritar quando finalmente deu partida 
na moto e guinou na Rodovia 15. Por pouco no bateu de lado num carro de bombeiros que vinha de Brewer. Dentro do capacete, o cabelo arrepiara.
    Quando voltou a seu apartamento em Orono, j no conseguia lembrar com preciso se fora ou no a Ludlow. Ligou para a enfermaria dizendo que estava doente, tomou 
um comprimido e foi deitar.
    Steve Masterton nunca mais se lembrou daquele dia... exceto nos sonhos mais profundos, naqueles que surgem nas ltimas horas antes do amanhecer. E nesses sonhos, 
sentia sempre que algo enorme cambaleava perto dele, algo que esticava a mo para toc-lo. Mas, no ltimo segundo, ele repelia aquela mo inumana.
    Algo com grandes olhos amarelos que brilhavam como faris de neblina.
    As vezes Steve acordava gritando, os olhos arregalados, saltando pelas rbtas. Pensava ento: voc acha que est gritando, mas  apenas o barulho das gralhas, 
l para o Sul, em Prospect. O som chega at aqui.  engraado.
    No sabia, no conseguia lembrar, o que aquele pensamento significava. No ano seguinte, pegou um trabalho no centro do pais, em St. Louis.
    No tempo que transcorreu entre sua ltima viso de Louis Creed e a partida para o Meio-Oeste, nunca mais voltou  cidade de Ludlow.

EPILOGO
    A polcia veio no fim da tarde. Fizeram perguntas, mas no levantaram suspeitas. As cinzas ainda estavam quentes e ainda no tinham sido revolvidas. Louis respondeu 
s perguntas. Eles pareceram ficar satisfeitos. Conversaram do lado de fora e ele usava um chapu. Isso era bom. Se tivessem visto seu cabelo branco, poderiam ter 
feito mais perguntas. O que seria mal. Ele usava luvas de jardinagem, o que tambm era bom. As mos estavam ensangentadas e muito machucadas.
    Jogou cartas sozinho at bem depois da mea-noite.
    Estava comeando uma nova rodada quando ouviu a porta de trs se abrir.
    Voc arranjou a coisa, ela  sua, e mais cedo ou mais tarde acaba voltando s suas mos, Louis Creed pensou.
    No se virou, continuou olhando as cartas, enquanto os passos lentos, rangentes se aproximaram. Viu a rainha de espadas. Ps a mo em cima dela.
    Os passos cessaram bem nas suas costas.
    Silncio.
    A mo fria caiu no ombro de Louis. A voz de Rachel era um chiado que parecia cheio de terra.
    - Querido - disse a coisa.
